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domingo, fevereiro 23, 2014

Água de fevereiro, enche o celeiro

 Doisneau

"Vale mais no rebanho ter um lobo, que mês de fevereiro formoso".

São curiosos, os ditados populares. Criados num tempo de grande dependência dos homens em relação às atividades do setor primário, registavam observações de muitos anos sobre as consequências dos ditames de uma natureza de que dependiam em absoluto, transmitindo esse conhecimento e alertando para a diferença entre o parecer e o ser. Hoje, perdeu-se muito desta memória e da natureza quase só nos lembramos quando nos entra pela casa dentro em avalanches de imagens aterradoras, normalmente pondo a nu a ignorância dos homens.

Mas, apetece-nos recorrer aos ditados populares para algo mais do que prever como irá ser o ano agrícola. É que, bem sabemos não necessitarmos de chuvas e ventos fortes para sentirmos que o temporal desaba sobre nós. E Fevereiro aí esteve, feio como os trovões, a inundar-nos de água e más notícias. Desta vez foi a confirmação do encerramento do tribunal, transformado numa coisa que não se sabe muito bem o que seja. Nada de totalmente inesperado, mas uma machadada mais na nossa já debilitada autoestima.

Tal como todo o interior, Vouzela está a ser vítima duma estratégia nacional de concentração de serviços que não tem a mínima preocupação com o equilíbrio do território, nem com a qualidade de vida das pessoas. O objetivo é uma redução de custos imediata em recursos humanos e materiais,  que nos vai custar bem caro a médio prazo, tal o despovoamento que provoca em vastas zonas do país, inevitavelmente condenadas ao desaproveitamento. Mas, é o que temos. No entanto, também nos parece ser tempo de perceber que nada ganhamos com a atitude defensiva a que nos temos remetido, mortos de medo pelo passo seguinte que antecipamos, a que respondemos com indignação e lamentos impotentes. Atacam-nos porque somos fracos, porque temos pouco peso eleitoral, porque somos insignificantes na coleta de impostos- sim, o lobo está dentro do rebanho, fevereiro está a ser horrível mas o importante é que daqui saiam boas "colheitas" futuras.

Em primeiro lugar, é preciso avaliar a verdadeira dimensão do problema e, mais uma vez, as lições do passado dão uma ajuda. Em 1927, Vouzela perdeu a sua comarca. A medida foi sentida como uma humilhação, provocou tomadas de posição firmes, mas também marcou o ponto de partida para um dos mais dinâmicos períodos da história local do século passado: iniciou-se o processo de eletrificação da vila, pediu-se a classificação como "estância de turismo" e organizou-se a famosa Comissão de Iniciativa. Para tudo isto houve uma união de vontades e forças, colocando lado a lado gente de orientações políticas muito diferentes (as polémicas da I República estavam, ainda, muito presentes), mas que percebeu que a causa local era transversal a todas elas.

Em 1973 viveu-se a parte final desta história: Vouzela recuperou a comarca. Motivo de grande contentamento e orgulho... não impediu o agravamento de uma crise que, embora com intervalos de esperança, continuou até aos dias de hoje.

Entendamo-nos: não queremos desvalorizar a importância dos ataques que nos estão a fazer. Queremos, isso sim, saber o que estamos dispostos a fazer para deixarmos de andar a reboque das situações e conquistarmos a liderança das reformas locais. Dito por outras palavras, Vouzela  precisa saber qual a margem de autonomia que lhe resta. Que medidas pode tomar para conter o despovoamento, para reabilitar setores de atividade, para potenciar os seus pontos fortes e, desse modo, conseguir algum resguardo para a avalanche de más notícias da atual estratégia nacional. Limitar a emigração pressupõe a criação de empregos e estes exigem uma definição clara das atividades que se querem desenvolver. Isto, porque não podemos ter "sol na eira e chuva no nabal". Não faz sentido lamentarmo-nos da pouca divulgação do que de melhor temos e não sermos, nós próprios, os primeiros divulgadores em todas as nossas atividades. Não podemos dar rédea solta a construções que descaracterizem os espaços e, ao mesmo tempo, querer manter a tal harmonia entre património natural e edificado que todos elogiam. Não podemos assistir, indiferentes, ao abandono do cultivo da vinha e querer manter a "acentuada beleza policromática" de que falava Amorim Girão. Não podemos encolher os ombros perante o excessivo abandono da agricultura (de todo o setor primário!) e continuar com as características rurais que desenharam a tal paisagem que os estudos apontam como o nosso grande trunfo.  Se Vouzela permanece, hoje, como a mais harmoniosa das três sedes de concelho, isso apenas se deve ao facto de não ter entrado no desvario da construção e não porque haja uma qualquer "lei divina" que nos garanta a beleza eterna. Manter essas características e conciliá-las com o desejado desenvolvimento, parece-nos ser, pois, o desafio que temos que vencer, porque uma coisa não é possível sem a outra.

Também diz o povo que "água em fevereiro, enche o celeiro". Ora, água não tem faltado, tal como más notícias. Dar-lhes algum sentido, transformá-las em algo de produtivo só depende de todos nós. Se assim for, é certo e sabido que "em fevereiro chuva, em agosto uva".

segunda-feira, agosto 26, 2013

Demolir, porquê?

Pedimos a foto emprestada ao Ivo Madeira

Lemos no "Notícias de Vouzela" que a Câmara Municipal notificou os proprietários da casa que se mostra na imagem para intervirem, tendo em conta os sinais de degradação que se têm acentuado. Tudo normal, não tivesse sido apresentada como alternativa... a demolição. Demolição, porquê?

Este edifício integra um conjunto ainda com alguma harmonia, fronteira com  zonas da vila onde, desde há muito, o disparate é rei. Ele próprio integra alguns elementos característicos de um certo tipo das nossas construções em pedra. Ora, o mais elementar bom senso aconselharia a que os serviços técnicos duma terra que diz ter pretensões turísticas, não só tudo fizessem para o preservar, como informassem os seus proprietários sobre o modo de o adaptar às exigências atuais. Pelo contrário, pelo que lemos no "Notícias de Vouzela", parecem antes disponíveis para alargar o espaço da asneira.

Já há muito que alertamos para a importância de se protegerem marcas da nossa identidade, sobretudo quando se sabe que o maior trunfo de toda a região é a paisagem e o maior trunfo de Vouzela é o equilíbrio que ainda mantém entre o património natural e o edificado. Qualquer projeto turístico só terá viabilidade se assentar nesses pilares e tiver consciência de que ninguém nos procura para estar fechado entre quatro paredes, por melhor que seja a animação- disso, há melhor bem mais perto dos grandes centros. Por isso mesmo, é da máxima importância tudo o que possamos fazer para preservar os nossos aspetos mais característicos e não os limitar a essas espécies de disneylândias do antigo que dão pelo nome de "centros históricos".

Os serviços técnicos duma Câmara Municipal, naturalmente dependentes das orientações da sua direção política, têm que ser o melhor centro de recursos que alerta, aconselha, encontra soluções ao serviço do interesse coletivo. Não precisamos de recuar muitos anos, para recordarmos situações em que, em Vouzela, alguns projetos "popularuchos", do agrado das estratégias políticas do momento, foram travados por quem, na altura, soube usar os seus conhecimentos. Na situação atual, pelo contrário: ou os serviços técnicos têm informações (que desconhecemos) que possam justificar a demolição do edifício, garantindo a defesa e o melhoramento do conjunto lá existente, ou arriscam-se a serem, eles próprios, encarados como um dos (muitos) problemas que Vouzela tem que resolver.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Quarta feira de cinzas

Imagem dos anos 50- a partir daqui

Não nos comovem as desculpas. Sabemos que os tempos são outros, mas nada justifica que não se protejam as marcas da nossa identidade e que delas não façamos as coordenadas do nosso (desejado) desenvolvimento. Património cultural é precisamente isso: tudo o que reflete aquilo que fomos e nos explica muito do que somos. Mas esse talvez seja o motivo que justifica tanta indiferença. Talvez haja quem acredite que, apagando o passado, consegue "limpar" as asneiras do presente.

Foi recordando o passado que o presidente da assembleia- geral da Sociedade Musical Vouzelense apelou à unidade e iniciativa dos vouzelenses para ultrapassar os obstáculos do presente. Sabe do que fala. Há cerca de seis décadas que acompanha as coletividades locais que só graças ao engenho e à solidariedade dos seus dinamizadores se mantiveram à tona da água. Já por aqui recordamos o espírito que animou os pioneiros da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", com objetivos que iam muito para além das quatro linhas. Idêntico exemplo encontramos em todas as outras: poucas ou nenhumas ajudas oficiais, muita vontade coletiva.

Talvez valha a pena recordar um pouco da história do Monte Castelo. Até 1908, não passava de um cabeço despido de vegetação, bem registado em muitas imagens já aqui publicadas. Depois, um grupo de homens decidiu lançar mãos ao sonho e começar a "desenhar" o que hoje lá se encontra. Há registos de trabalhos individuais de construção de miradouros, limpeza de espaços, plantação de árvores. É verdade que a Comissão de Iniciativa, criada em finais da década de vinte, deu um importante impulso à obra, mas o fundamental continou a dever-se à vontade coletiva. Procurem-se os arquivos do "Correio de Vouzela" (antecessor do atual periódico local) e lá encontram o registo de vouzelenses que, na altura, estavam a criar, nos seus quintais, as árvores que constituiram o início da mata. O sentimento de pertença por parte da população era tal que, na década de 50, quando se decidiu transferir a gestão do Castelo para os (então) poderosos Serviços Florestais, ninguém conseguiu calar a revolta, traduzida numa violentíssima polémica que, apesar dos tempos que se viviam, encheu, durante anos, páginas e páginas do "Notícias de Vouzela".

Numa época de imediatismos e de pouca reflexão, talvez valha a pena olhar um pouco para o passado e, com a sua ajuda, encontrar as coordenadas, tentar perceber como outras crises foram enfrentadas através da vontade coletiva que se impôs por entre a selva de interesses das diretivas "oficiais". Porque, tal como hoje, a resolução dos problemas não foi conseguida por um qualquer governo, mas antes... apesar dele.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Os números do nosso turismo ou a canjinha feita com a galinha dos ovos de ouro


A Câmara Municipal de Vouzela divulgou alguns números da actividade turística do concelho em 2010. Na sua página online pode ler-se que se registaram 10700 entradas no Parque de Campismo, 3500 participantes nos percursos pedestres, 3800 solicitações feitas no Posto de Turismo, 11500 visitantes no Museu Municipal, para além de todos os que participaram noutras iniciativas como a Doce Vouzela, Festas do Castelo, Alameda com vida, etc.. Bonitos números, sim senhor. Mas, salvo melhor opinião, a permitirem conclusões um pouco diferentes das tiradas pela senhora vereadora Eugénia Liz.

De facto, se reconhecemos as potencialidades do nosso património natural e edificado (o que, aliás, só confirma as conclusões de estudos encomendados pela autarquia local), como compreender que esses não sejam os principais elementos estruturantes de toda a intervenção no território? Como compreender que não se protejam marcas da nossa identidade, como as construções em pedra? Como entender a dificuldade em lançar uma campanha de recuperação de edifícios degradados? Que dizer da apatia perante o abandono de actividades que muito contribuiram para a organização da nossa paisagem, como todas as que dizem respeito à agricultura e à pastorícia?

Sim, é verdade que promoveram os percursos pedestres, organizaram iniciativas como a "Doce Vouzela", mantiveram os níveis de qualidade do Parque de Campismo. Mas, o poder de atracção de tudo isso, está na beleza do que existe, da envolvente que se vai deixando ao deus dará, assim como alguém que mata a galinha dos ovos de ouro para se deliciar com uma modesta canjinha. Será que é por não custarem um cêntimo que as iniciativas de preservação são ignoradas pelos nossos "responsáveis"?

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Ter ideias não custa um cêntimo

"(...) custa ouvir o silêncio sobre a recuperação do nosso Vouga"

Através da candidatura da Câmara Municipal de Vouzela à medida "Valorização Ambiental dos Espaços Ambientais" (Programa de Desenvolvimento Rural- PRODER), vão ser investidos cerca de 78 mil euros na requalificação dos rios e ribeiras do concelho. Boas notícias, mas... pede-se mais.

Um concelho que tem como principal trunfo o património natural e edificado, deve entender a sua preservação com uma prioridade. É ele que nos diferencia e permite ganhar vantagem no que à oferta de bens e serviços de qualidade diz respeito. Não são necessárias grandes "obras", entendidas como arranjos e construções demasiadas vezes de gosto duvidoso. Apenas é necessário permitir, a quem nos procura, o uso pleno dos nossos espaços.

A iniciativa da Câmara vai nesse sentido e, por isso, a elogiamos. Mas podia ser mais arrojada, acrescentando iniciativas que estimulassem a recuperação do património edificado que está nas mãos de particulares, como já por diversas vezes aqui propusemos. Para além disso, importa organizar as diversas iniciativas do concelho, de modo a preencher o calendário e a criar "pacotes" de oferta articulados entre si (a este respeito, vale a pena pensar na ideia do deputado municipal Fausto Carvalho, no sentido de afastar a iniciativa Doce Vouzela das Festas do Castelo, organizando-a numa estação mais propícia ao consumo de calorias; vale também a pena estar atento ao projecto Viajando por Besanas). Por último, e apesar de sabermos que é responsabilidade de outros, custa ouvir o silêncio sobre a recuperação do (também) nosso Vouga. A este respeito, os nossos responsáveis autárquicos bem podiam falar um pouco mais alto...

Vivemos tempos difíceis em que vai faltar o dinheiro outrora esbanjado. Numa região com graves carências estruturais e pouca oferta de emprego, é absolutamente necessário que surjam iniciativas que permitam respirar, que dinamizem e organizem as actividades económicas, que mobilizem. Ter ideias não custa um cêntimo. Se todos nos sentirmos com direito a dá-las, não hão de faltar.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Casa das Ameias: finalmente!

"A Câmara de Vouzela prevê que, este inverno, estejam concluídas as obras de consolidação da Casa das Ameias, na Rua Teles Loureiro.
O projecto está já a ser elaborado e, apesar do risco de ruína não ser iminente, se continuarem a existir invernos rigorosos, o edifício poderá cair"- Notícias de Vouzela.

quarta-feira, maio 19, 2010

Anatomia de um "crime"






Para ampliar as imagens, basta "clicar". Para alterar o estado das coisas... talvez gritar.
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Outros textos sobre este tema aqui, aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, maio 12, 2010

Tendências do mercado

(Clique nas imagens para ampliar)

"Esta é uma viagem para se fazer sem pressas. Porque as paisagens das Beiras, ora naturais, ora criadas pelo Homem, exigem tempo para a sua perfeita contemplação"- As cidades e as serras, Rotas & Destinos, Maio 2010.

Pois é! Nem parques de merendas, nem animações com programa e horário, muito menos casinhas modernaças. O que tem mesmo procura é o que a "Mãe Natureza" por aí distribuiu em abundância, confiante (coitada...) de que o engenho do Homem conseguiria valorizar.

Isto mesmo se conclui da reportagem sobre a nossa região, publicada na revista "Rotas & Destinos" deste mês. Vale a pena ler e aprender. Claro que só não sabe quem não quer, claro que todos os estudos feitos chegam a essa conclusão, mas há sempre quem esteja distraído.

A viagem proposta começa na Costa Nova e termina em Viseu. Nesta região, entra por Oliveira de Frades (Mosteiro de São Cristóvão de Lafões), passa a Vouzela (o património histórico e, claro, os pasteis) e avança para São Pedro do Sul (serra da Arada, Covas do Monte, Covas do Rio, Aldeia da Pena, as Termas). "É todo um mundo que se abate sobre nós em silêncio. Sentimo-nos os únicos- e privilegiados- habitantes do planeta (...)". Pois é. O "som do silêncio", a Natureza pura e dura, as marcas de uma ruralidade perdida, ou apenas suspensa, à espera de tempos de maior engenho. Recursos que valem ouro!

quarta-feira, abril 14, 2010

Duas boas notícias e um regresso indesejado

. A Associação Empresarial de Lafões retirou o letreiro luminoso da fachada do edifício do Mercado. Ainda bem. O traço de Raul Lino merece ser apreciado sem "corantes".

. A Junta de Freguesia de Vouzela, lançou o concurso das "Janelas floridas". A iniciativa não é inédita e sabemos que levanta reservas aos "puristas" dos "centros históricos". Pela nossa parte, defendemo-la. Tudo o que promova o asseio e contribua para que se ganhe consciência da importância da imagem de Vouzela, tem o nosso apoio.

. Já que falamos de imagem... o contentor do lixo voltou à Praça da República. Agora já não é o eco-ponto, mas sim o velho e bruto contentor verde. Em plena ditadura do automóvel, claro que só podia ser colocado na única zona que deles está livre: junto ao pelourinho. Compreende-se a necessidade de servir a população que ali reside- não se compreende a falta de imaginação. Atrás, a velha casa das ameias que mais do que janelas floridas, bem gostaríamos de ver coberta de flores, nem que mais não fosse para disfarçar o desleixo a que tem estado sujeita. Um conjunto que é uma imagem marcante da vila, surge-nos como exemplo do muito que falta para que se ganhe consciência sobre a importância destes pormenores. Mesmo ao mais "alto nível". Já farta!

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Reabilitar é preciso

Há edifícios que marcam épocas da História das localidades; edifícios que são marcas das vontades de movimentos significativos que fizeram história. Não precisam ser obras de arte de reconhecido valor mundial- precisam, apenas, de explicar o que somos e contribuir para o equilíbrio paisagístico que (ainda) temos. É a isso que se chama património edificado e há localidades que têm a sorte de o possuírem em número significativo. É o nosso caso. No entanto, se tem havido algum cuidado com os monumentos nacionais (nalguns casos bem discutível, como sucedeu com o restauro da Igreja Matriz) e os imóveis classificados como de interesse público (Pelourinho e torre de Vilharigues, por exemplo), já o mesmo não se pode dizer de outros edifícios, maioritariamente privados, que, apesar da sua simplicidade (ou por causa dela), são pilares fundamentais da imagem que temos.

Vouzela necessita, urgentemente, de obras de reabilitação e restauro. Não se trata de um gasto, mas sim de um investimento, se entendermos que a harmonia entre o natural e o edificado, é um dos seus principais recursos. Mais ainda, se percebermos que é uma forma de criar emprego e de aumentar o nível de exigência na oferta da construção civil, para que basta encontrar os estímulos adequados.

Serração

Antes e... o que resta

A serração era das mais antigas unidades industriais do concelho, localizada mesmo em frente da estação dos caminhos de ferro, numa altura em que isso marcava o fim da vila para o lado nascente. Mais tarde, o crescimento da malha urbana envolveu-a, valorizando os seus terrenos e tornando-os num negócio mais apetecível do que a continuação da actividade (que já tinha parado há algum tempo). Uma equipa camarária anterior, permitiu a urbanização do espaço-criou-se um problema. Falou-se da vontade de uma grande superfície ali se instalar, falou-se da
construção de um prédio de não sei quantos andares que a Câmara não autorizou- fez bem. Mal esteve (e está) quem demoliu a fachada, quem o permitiu e permite que se mantenha no estado que se vê. Salvo melhor opinião, qualquer projecto devia incluir os elementos mais característicos da unidade industrial que lá existiu. Assim como tudo isso devia estar devidamente classificado. Devia...

Mesmo ao lado da Câmara


Cá está um exemplo do que dissemos na introdução a este tema: este edifício, (composto por duas moradias geminadas) localizado na Rua Sidónio Pais, apesar de não ser um significativo exemplar de uma qualquer corrente arquitectónica, reflecte uma forma de habitar típica das primeiras décadas do século passado, em que a moradia "burguesa" era ladeada por um quintal que convidava à organização de uma pequena horta para consumo doméstico e, na cave, ainda tinha a tradicional "loja". A primeira das duas habitações está desocupada há muito e os sinais de degradação são evidentes. Desconhecemos as causas, mas, apesar de estar mesmo ao lado da Câmara Municipal, parece que ainda ninguém reparou...

Casa das Ameias... sempre


Sobre esta, quase tudo está dito. Há quem afirme que o edifício original remonta ao século XV e, de acordo com os estudos feitos por Lopes da Costa, aqui ficava a rainha D. Amélia durante os períodos de férias em que se deslocava às Termas. Marca, desde há muito, a imagem de uma das zonas mais frequentadas da vila. Para o bem e para o mal. E mal continua, depois de uma avaliação técnica ter concluído ser necessária uma intervenção urgente e de, recentemente, o actual usufrutuário ter destruído as ilusões da Câmara sobre a possibilidade de ser ele a avançar com uma solução para o problema. Pela nossa parte, até fizemos uma sondagem sobre a sua utilização, depois de um leitor ter dado a entender que ninguém sabia o que fazer com o edifício, caso a autarquia local dele tomasse posse. Concluiu-se que ideias não faltam-o que falta é vontade para acabar com desculpas e, de uma vez por todas, resolver o problema.

Os exemplos aqui referidos não são únicos. Infelizmente. Por um qualquer motivo que desconhecemos, tem havido uma falta de preocupação com a sede do concelho, que permitiu que se chegasse ao estado actual. Nalguns casos, acreditamos que os proprietários necessitem de ajuda para recuperar os seus edifícios. Noutros, não. A verdade é que nada se fez em relação a qualquer deles. É pena, porque urge recuperar a imagem da vila. Reabilitar é preciso.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Completamente de borla

Rua de São Frei Gil

Pronto! Temos governo novo, nova equipa camarária, os vencedores lançaram os foguetes da praxe, os vencidos deram as justificações de ocasião. Feitos os habituais balanços, uma conclusão é inevitável: estamos na mesma! Do estado geral da Nação, outros se irão ocupar com maior competência. Ficamo-nos por um olhar por estas margens de um Vouga com água a menos e dúvidas a mais.

No seu discurso de vitória, o Dr. Telmo Antunes realçou mais uma maioria absoluta alcançada pelo seu partido. Convém que tenha consciência de que esse mesmo (legítimo) motivo de orgulho é, também, o que não lhe dá qualquer margem para falhar. O mandato que agora se inicia, vai usufruir de um empréstimo polémico, apresentado como solução para a calamitosa situação financeira da Câmara. Ninguém perdoará que um simples cêntimo seja gasto, sem uma criteriosa definição de prioridades.

Em bom rigor, muito do que Vouzela necessita, tem mais que ver com ideias do que com dinheiro. Trata-se, sobretudo, de manter a casa arrumada, proteger o que a "Mãe Natureza" nos deu... completamente de borla. Às vezes fazemos lembrar uma riquíssima casa senhorial, cheia de tradição e valiosíssimo mobiliário que o desleixo vai abandonando ao caruncho e o mau gosto leva a substituir por cangalhada em contraplacado...

Estimular a recuperação do património edificado, em grande parte nas mãos de privados, pode ser feito através de facilidades fiscais e de licenciamento, melhorando a imagem da região e criando emprego. É verdade que se perdeu uma oportunidade aquando da elaboração do Regulamento de Edificações Urbanas, de modo a criar condições para a preservação de marcas importantes da nossa identidade e, até, para obrigar a construção a preparar-se para os desafios inevitáveis com as alterações climáticas. Mas, são precisamente esses descuidos que dificilmente se podem voltar a admitir a quem tem todas as condições para trilhar um caminho que ele prórpio abriu.

O mesmo se pode dizer da resolução, de uma vez por todas, do tratamento de águas residuais, acabando com a anedótica situação de uma ETAR curta para as necessidades e de que a recuperação das águas do Vouga bem necessita. O final desta história vai exigir muito dinheiro. Só que, até lá chegarmos, apenas necessitamos de habilidade, de capacidade de persuasão, para levar as autoridades de São Pedro do Sul a assumirem as suas responsabilidades.

Por último, ainda no domínio do que não custa um cêntimo, convém não desperdiçar recursos. A Reserva Botânica de Cambarinho tem oito meses para ver definida a sua situação legal; a divulgação da imagem do concelho, tem tudo por fazer. Lemos, há dias, que alguns jornalistas tentaram contactar os responsáveis pela produção tradicional dos nossos pasteis e não conseguiram. Desconhecemos os motivos do fracasso, mas a verdade é que não conseguimos compreender que a história do mais famoso produto regional, não seja "cantada" a cada esquina, que é como quem diz, devidamente publicitada. Sem entrar na divulgação do que apenas deve ser do domínio dos eleitos, quer o Turismo, quer o Museu municipal, podiam organizar uma pequena exposição permanente, ilustrando os diversos passos da produção da iguaria e realçando as suas especificidades- barato e eficaz.

Claro que muito falta fazer e muito dinheiro será necessário- aí, o importante é sentirmos serem justificados os impostos que pagamos. Mas é tempo de assumirmos que a preservação é mais barata do que a construção e que a "Mãe Natureza" é, por si só, o melhor dos executivos camarários. Completamente de borla.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Já são os dedos que estão à venda

São conhecidas as histórias de pessoas apanhadas na conversa de burlões que as levavam a acreditar ser possível comprar o Mosteiro dos Jerónimos, ou a Torre de Belém. Eram casos de polícia. Dentro de algum tempo, se for aprovada a proposta de lei do Governo sobre o “regime geral dos bens do domínio público”, pode ser um caso... muito sério.

De acordo com o Público, a proposta de lei considera como sendo do domínio público, “os bens culturais imóveis que sejam simultaneamente monumentos nacionais e propriedade do Estado” e não só prevê a sua venda, como permite a realização de “obras de alteração irreversíveis”. Como se ainda não bastasse, vai mais longe e regulamenta um tal “dever de desafectação” para se aplicar sempre que o monumento “deixe de desempenhar a função de utilidade pública que justificou a sua inclusão no domínio público”.

Já estamos a ver o filme e nem é necessária grande imaginação. Qualquer autarca a precisar de receitas e com um castelo, um convento, ou qualquer outro “monte de pedras” a ocupar-lhe espaço e a entrar-lhe no orçamento, só tem que o deixar entregue ao abandono e arranjar quem se disponha a pagar o “justo preço”. Depois, ideias não hão-de faltar, com o "fino recorte" a que já nos habituámos e se já está previsto um “hotel de charme” para o Mosteiro de Alcobaça, talvez pensar num condomínio fechado para o Castelo de Leiria, ou uma discoteca... para a nossa Matriz.

Simples “actos de gestão” de acordo com os princípios de quem nos tem regido. Para o cidadão comum, mais inclinado a chamar “os bois pelos nomes”, é a certeza de que os anéis já se foram e agora são mesmo os dedos que estão à venda.