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quinta-feira, setembro 25, 2008

Iniciativas


Cerca de setenta anos separam estas duas publicações. A primeira, elaborada pela Comissão de Iniciativa que, por volta dos anos 30, tentou sacudir o marasmo e dar um pontapé na sorte ou, melhor dizendo, na falta dela. Como já aqui escrevemos, vivia-se então a crise provocada pela encerramento da Comarca. Das fraquezas surgiram forças que arrancaram com uma série de melhoramentos e com um trabalho de divulgação das belezas de Vouzela. Essa publicação, elaborada de modo a abarcar não só as questões geográficas e históricas, mas também os diversos serviços então disponíveis, foi ponto importante nessa estratégia.

Hoje, setenta anos depois, surge nova publicação, promovida pela Câmara Municipal e pela AGU- Agência de Desenvolvimento- mais uma vez, num contexto problemático para a região e para o País. Pensada para servir de guia a quem nos visita, fornece um conjunto de informações sobre parte significativa do património edificado da vila, num interessante percurso... com História.

Divulgar o património cultural é, sem dúvida, condição importante para o preservar. Haja quem saiba aproveitar o trabalho, de modo a que não se limite às prateleiras de uma qualquer estante.

Memória vivida

Têm sido apontadas algumas imprecisões aos textos que compõem estes "Circuitos com História". Existem, de facto, embora pouco significativas para o público a que se dirige. No entanto, esta atenção prestada por muitos vouzelenses a tudo o que fale da nossa História, leva-nos a alertar os responsáveis pela cultura (vereação, direcção do Museu, escolas etc.), para a importância de se registar o conhecimento vivido e aprendido de muita gente interessada, com documentação importante na sua posse e muita pesquisa feita. Nalguns casos, estamos a falar de gente que já ultrapassou as oito décadas de vida o que, por si só, faz dela "documentos" vivos. Quem conhece os objectivos iniciais da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", bem expressos nos seus primeiros estatutos? Quem está apto a interpretar muita da toponímia do concelho, ou a fazer propostas significativas nessa área? Quem ainda tem a memória das coisas, por tê-las vivido, conseguindo interpretações mais rigorosas do que as aparências forjadas pelo tempo? Essas mulheres e esses homens são, também, elementos importantes do nosso património colectivo. Preservar a sua memória é, pois, uma prioridade.

sexta-feira, março 02, 2007

A propósito do projecto de restauro da Torre Medieval de Vilharigues

Justifica-se uma chamada de atenção para o projecto de restauro da Torre Medieval de Vilharigues. Da responsabilidade do Arquitecto Renato Rebelo, prevê intervenções na ruína da Torre, nos espaços envolventes e na Capela de Santo Amaro. O aspecto mais interessante, está na opção pelo critério da reversibilidade, limitando-se à consolidação das paredes existentes e na colocação de um volume no seu interior dividido em três pisos, unidos por uma escada. Deste modo, permite-se que, em qualquer momento, a nova construção possa ser retirada, mas cria-se uma estrutura que possibilite a “reinterpretação dos espaços e percursos para que os visitantes pos­sam perceber como era utilizada aquela torre e qual o seu papel”. Quanto a materiais, serão utilizados o ferro, a madeira e o vidro.

A metodologia de intervenção no património edificado é normalmente polémica, quer pela abordagem que faz aos monumentos, quer pelas possibilidades de utilização que permite. São muitos os casos em que a intervenção adulterou o significado do edifício e, pura e simplesmente, ignorou a sua relação com o meio envolvente. De facto, desde 1976 que a UNESCO, na chamada “Recomendação de Nairobi”, põe o acento tónico na importância de se respeitar o princípio do “conjunto histórico”, entendido como o “agrupamento de construções e de espaços ao qual se reconheça valor arquitectónico, estético, histórico ou sócio-cultural” (1). Deste modo, procurou-se combater a tendência para se encarar o monumento como peça isolada e descontextualizada. Aliás, a mesma Recomendação definia o conceito de “envolvência” do conjunto histórico, alertando para a relação com o quadro natural e/ou edificado, “cuja percepção afecta a do próprio conjunto histórico” (2).
Outro problema que nem sempre foi evitado, resultou da transformação do conjunto/monumento intervencionado num “elefante branco”, com custos de manutenção elevados e ousados projectos de dinamização, dificilmente suportáveis por muito tempo. No caso concreto da Torre de Vilharigues, para além do aspecto positivo já realçado, há dúvidas que convém esclarecer. De facto, não sabemos o que está previsto na relação do monumento com a localidade, nem o modo como se pensa enquadrar e dinamizar toda a obra prevista para o espaço exterior (palco, “zona de lazer e merendas”, arrumos, churrasqueira, cozinha, etc.). Também seria interessante saber de que modo se pensa usar o piso de entrada, já que parece ser o único acessível a visitantes com limitações motoras, apesar da bem intencionada rampa que se vai acrescentar ao monumento. Por último, se os números publicados no Boletim Municipal estão certos, prevê-se gastar 170 mil euros com as obras na Torre e 180 mil no espaço exterior e construções de apoio. Podemos estar errados, mas parece-nos haver aqui qualquer coisa que não soa bem...
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(1)- Introdução ao estudo da História e Património locais, Jorge Alarcão, Coimbra, Cadernos de Arqueologia e Arte- 2, 1982.
(2)- idem
Imagens retiradas do Boletim Municipal da Câmara Municipal de Vouzela e de folheto da Região de Turismo Dão Lafões.