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quinta-feira, julho 19, 2007

Edital

Publicado pelo "Notícias de Vouzela", em 1 de Janeiro de 1957- "clique" na imagem para ampliar.

Aproximava-se 1958 e a campanha eleitoral que fez tremer Salazar. Os jornais de todo o país publicavam editais divulgando as normas para o recenseamento eleitoral- isso mesmo fez o “Notícias de Vouzela”, logo no primeiro dia de Janeiro de 1957. Privilegiavam-se os “chefes de família”, “cabeças de casal” do sexo masculino que soubessem ler e escrever ou, não sabendo, pagassem ao Estado, “contribuição predial, contribuição industrial, imposto profissional e imposto sobre aplicação de capitais” em valor não inferior a 100$00. Seguia-se à letra o ditado “enquanto há calças não se confessam saias”, assumindo que essa coisa de meter o bedelho nos destinos da Nação, dependia, sobretudo, do tamanho da bolsa de cada um.

No entanto, quando se tratava de dar voz à vontade feminina, a malha apertava-se. Subiam as exigências de habilitações literárias, muito longe da condição masculina de saber rascunhar o nome. Senhora que quisesse depositar o seu voto na urna, tinha que provar possuir, pelo menos, “curso geral dos liceus”, “curso do magistério primário”, “curso das Escolas de Belas Artes”, “curso do Conservatório Nacional ou Conservatório de Música do Porto”, “cursos dos institutos industriais e comerciais”. Mas, se porventura quisesse fazer valer o seu capital, o valor mínimo do imposto subia para 200$00 e, ao contrário do senhor seu marido, não era dispensada de apresentar prova quanto às competências básicas do ler e do escrever.

Igualmente significativo quanto aos conceito de sociedade e de cidadania então dominantes, é o modo como se definiam as proibições de participação no acto eleitoral. Para além dos que tivessem “ideias contrárias à existência de Portugal como Estado independente e à disciplina social”, ficavam de fora “os falidos ou insolventes enquanto não forem reabilitados”, os “indigentes e especialmente, os que estejam internados em asilos de beneficência”, os “notòriamente reconhecidos como dementes” e os também “notòriamente” carecidos de “idoneidade moral”. Terríveis estes “notoriamente” que, pela subjectividade dos conceitos em análise e pela dispensa (no caso da demência) de avaliador habilitado, atirava para um qualquer cacique local o poder da rotulagem.

Quanto ao resto, a História regista o evoluir dos acontecimentos. Em 1958, Salazar, suspeitando que Craveiro Lopes pensava substitui-lo, manobrou de modo a impedir a sua recandidatura, tendo escolhido Américo Tomás para candidato do regime. A oposição, pela primeira vez unida, apoiou Humberto Delgado. As eleições decorreram em clima de grande intimidação, não tendo sido permitido qualquer controlo do escrutínio por parte das forças contrárias à ditadura. Os resultados oficiais, deram a vitória a Américo Tomás por 75%, contra 25%. O Povo nunca acreditou. E Salazar, pelos vistos, também não, já que foram as últimas eleições presidenciais do Estado Novo por sufrágio directo (a partir dali, o Presidente passou a ser escolhido por um Colégio Eleitoral, composto por homens de confiança do regime).

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sinais

Conhecemos os sinais: deixa-se de investir, permite-se a degradação e depois acaba-se com o serviço, argumentando com a falta de comodidade que se provocou e a falta de segurança que não se evitou. Aconteceu com a antiga Linha do Vale do Vouga e tudo indica que se repete a estratégia na Linha do Tua. Pelos vistos, desde 2001 que o acidente estava anunciado e não faltavam medidas que, se aplicadas, podiam ter evitado o desastre. Ninguém ligou. Os cerca de 42 mil passageiros transportados anualmente, não devem ser suficientes para justificar o investimento. E, no entanto, não é difícil prever que, com o agravamento das medidas impostas para combater as alterações climáticas, ainda vamos assistir a muito “ministro” a recordar a falta que faz um qualquer comboio que não rime com TGV. Mas, para já, é certo e sabido que nós, os que pensamos ser para estas coisas que se pagam impostos, somos uns demagogos. Tudo bem. Só gostava que o anunciado “Cartão do Cidadão”, registasse o valor que os “contabilistas do Estado”, atribuem a cada um de nós...

No referendo do passado dia 11, o Concelho de Vouzela manteve-se fiel à abstenção e ao “Não”. Aliás, pode dizer-se que quanto mais vincada foi a opção pelo “Não”, maior foi a tendência para ficar em casa, talvez revelando que há verdades que não passam pelos confessionários... No entanto, é de registar o aumento de votantes comparativamente com 1998. Desta vez, manifestaram posição, através do voto, 4026 cidadãos (38.29%), enquanto no referendo anterior não se tinha ultrapassado os 3262 (31.08%). Este aumento de votantes, teve o seu ponto alto na freguesia de Vouzela, com uma participação de 51,10%. Aí, venceu o “SIM”. Recordando o padre Malagrida (autor do Juizo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de Novembro de 1755) e na linha de certas peripécias da campanha, não resisto à inofensiva provocação: a terra tremeu no dia seguinte...

PS: O “velho António”, lá foi eleito como o principal responsável pelo estado a que isto chegou. À mesma hora, Jaime Nogueira Pinto esforçava-se, na RTP, por levá-lo à categoria de "melhor". Respeita-se quem tem convicções e dá a cara por elas, mas o contexto internacional com que tentou justificar a acção do ditador, dificilmente explica a promoção do analfabetismo, o isolamento cultural, o Portugal subserviente, tudo aquilo que ainda hoje limita a cidadania ao sarcasmo e ao encolher de ombros. A História não se apaga e Salazar continua entre nós. Pelos piores motivos.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O PIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE

Cruz de Guerra, João Abel Manta, in Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar

Entrou já na ponta final o maior exercício de cidadania dos últimos tempos. A 13 de Fevereiro, com os primeiros ritmos de samba a afinarem para os cortejos do nosso típico Carnaval e as fogosas “baianas” a enfrentarem, de umbigo ao léu, o frio próprio da época, será desvendado o grande mistério: quem foi o pior Português de todos os tempos? Não perca a oportunidade, até porque dizem que faz bem ao fígado. Avance por aqui. Simultaneamente, andam por aí uns rapazes a admirar, embevecidos, os albuns de família e ésse-éme-éssam à doida no velho “Botas”, o tal António do país “pobrete e nada alegrete” (nas palavras de O’Neill), para o maior de todos os tempos. Pois que leve o melhor e o pior- longe de mim querer influenciar. Mas que se roa todo lá na campa, pelo contributo que está a dar a este inovador acto de democracia. Ah! E não se esqueçam dos autarcas, esses que é suposto serem os maiores filhos da dita. Toca a votar. Sim?