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quinta-feira, março 14, 2013

Sobre a região de Lafões ou um modesto contributo para avivar a memória


 O Dr. Fernando Ruas, presidente da Câmara  de Viseu e da Associação Nacional de Municípios, decidiu propor a mudança do nome da Comunidade Intermunicipal Dão-Lafões, para Comunidade Intermunicipal da Região de Viseu. Enfim. Já há muito nos habituamos a ouvir do Dr. Ruas, declarações ditadas por necessidades de conjuntura ou, até, sem qualquer sentido, pelo que não estranhamos. No entanto, numa das últimas emissões do programa "Trilogia das Ideias" (4 de Março) da VFM, os intervenientes pronunciaram-se contra o modo como a proposta foi feita (sem consulta aos diversos municípios), mas desvalorizaram a perda de Lafões como identidade que, segundo disseram, quase se limita à vitela e ao vinho. Isso sim, merece reflexão.

Não nos cansamos de citar Amorim Girão (1) quando definiu Lafões como "um todo homogéneo e correspondendo (...) a uma verdadeira região natural". Já nessa altura se insurgia, o Professor, contra uma divisão administrativa "apostada em retalhar e descaracterizar o que de mais profundamente nacional existe no nosso país", contribuindo para o esquecimento de "antigas designações regionais, correspondentes a outros tantos organismos bem individualizados, cujos aspectos dominantes assumem (...) um cunho próprio, que por vezes se revela tanto na constituição geológica dos terrenos e nas formas do relêvo e do clima, como nas diversas manifestações da actividade humana e da vida económica". Hoje, retirem-lhe a especificidade das "diversas manifestações da actividade humana e da vida económica" e o resto está lá todo. Até a necessidade de lutar contra o esvaziamento da memória.

Lafões tem características geográficas bem definidas e uma história razoavelmente conhecida. Quem procura saber algo a respeito de vinho para além da quantidade que lhe enche o copo, sabe não ser por acaso que, num espaço relativamente pequeno, existem qualidades tão diferentes como o Dão e o Lafões. São os ditames da "Mãe Natureza" que criaram condições próprias de solo e clima, orientadoras da vida dos homens ao longo dos séculos e ainda hoje presentes nos aspetos mais pitorescos da paisagem e... na "febre" dos mirtilos.

Só que, há muito que o poder local (com as exceções do costume, claro) deixou de entender o território como um conjunto complementar de recursos que, como tal, deve ser protegido e gerido. O território passou a ser encarado como um meio de dinamizar negócios mais ou menos claros (ou escuros) e um pretexto para justificar a captação de fundos. Tudo foi subordinado a esses objetivos. Ignoraram-se características dos solos e de clima, qualidade das águas, produtos, a possível reconversão de atividades, em favor de parques industriais sem indústrias, urbanizações intensas sem população, produções financiadas para não serem colhidas. Nada se restaura e tudo se constroi, porque é para isso que há "linhas de financiamento". De acordo com esta maneira de pensar, pouco importa a identidade das regiões, porque elas devem sossobrar à impiedosa uniformização. É este o princípio em que se baseia a proposta do Dr. Ruas, mas é, também, tudo o que devemos recusar.

Claro que nos podem dizer que a designação "Lafões" de pouco serviu, até agora. As direções camarárias pouco ou nada dialogam (apesar de serem do mesmo partido), o património comum é ignorado, o território é entendido como área fechada em fronteiras rígidas, em vez de recurso partilhado. Perderam-se produtos característicos, desapareceram atividades, descaracterizaram-se muitos espaços e, por tudo isto, perdeu-se gente. Mas as especificidades naturais lá se mantêm, como um diamante em bruto à espera de quem o saiba trabalhar.

Aqueles que olham para a região limitados ao que há em vez do que queremos que haja e menospresam a sua afirmação,  devem ser coerentes e alargar os horizontes de análise ao todo nacional. Também ele pouco produz, perde serviços e mostra-se incapaz de manter a sua juventude mais qualificada. Apliquem-lhe, então, os mesmos critérios que levam a desvalorizar Lafões e tentem responder: que sentido faz?
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(1)- Antiguidades Pré- Históricas de Lafões, in Memórias e Notícias, Coimbra, Publicações do Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra, 1921 (respeita-se a ortografia original).

sexta-feira, agosto 07, 2009

Onde está o Wally?

Imagem tirada do Viseu, Senhora da Beira

Neste caso é mais "onde está Vouzela", na página promocional da Região de Turismo Dão- Lafões... Para além dos percursos pedestres, apenas temos direito a uma vaga referência na secção "sabores" (os pasteis de Vouzela, claro) e a uma única sugestão de alojamento. Alguém se esqueceu de pagar a conta ou a dimensão certa das políticas locais de desenvolvimento turístico? Talvez possamos acrescentar que é um bom exemplo de como se tem desperdiçado dinheiro em promoção mal feita. Na verdade não é só Vouzela que está mal representada- é toda a região, se a entendermos no conjunto (e na diversidade) da sua riqueza cultural. Lamentável.


Já agora, é de elementar justiça elogiar a jovem equipa que idealizou a "Doce Vouzela", mostra de doçaria local promovida pela Câmara. Uma ideia com imensas potencialidades que merece lugar cativo no nosso calendário. Será desta que se avança para o levantamento da doçaria regional que está por fazer?

segunda-feira, agosto 06, 2007

Os números não enganam...

Já houve um responsável destes sítios que afirmou ter números que provavam estar a haver um crescimento da população. A ideia do senhor, era justificar a justeza da política do betão, fazendo uma relação directa entre tijolo posto e habitante entrado. Pois os números, os genuínos, aí estão. São do Instituto Nacional de Estatística e actualizam os do último censos (2001). Nem crescimento, nem sequer manutenção: embora com diferenças, a região continua a perder gente. No que diz respeito a Vouzela, é o concelho com menor número de habitantes entre os 0 e os 14 anos e aquele que apresenta valores mais altos nos índices de envelhecimento. Por isso, continuem a meter-lhe cimento em cima porque, está visto, esse é o caminho. Já agora, desenhem-lhe (no cimento) uma cruz e afixem-lhe uma lápide: “Aqui jaz uma terra que tinha tudo para dar certo, mas não houve engenho para tocar tão fino instrumento”. O Pastel de Vouzela disponibiliza, aqui, um resumo para reflectir.