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quinta-feira, agosto 02, 2007

Construção a preços controlados: quem se vai "picar"?

(Alfinete, Regina Silveira)

No acordo entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda para a Câmara de Lisboa, consta a promessa de revisão do PDM, de modo a garantir uma percentagem de construção a preços controlados. De um modo geral, os comentadores não sabem o que dizer sobre a medida, oscilando entre a desvalorização e a denúncia de radicalismo. Só a AECOPS (Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas) parece ter compreendido que o céu lhes pode cair em cima.

Naquela linha “generalista” dos nossos políticos, que tanto dá para concorrerem a uma câmara municipal, como à chefia do Ministério da Educação, o candidato do PSD, Fernando Negrão, logo agitou o papão da “extrema-esquerda” que, segundo ele, passaria a dominar a autarquia da Capital. Carmona Rodrigues, como de costume, não sabia o que dizer. Mas, a AECOPS, primeiro pela boca do seu presidente, depois, em comunicado da própria Associação, gritou contra o que considerou ser uma “ilegalidade” (irónico, vindo de quem vem...) e ameaçou com os tribunais. Agora, depois de terem dormido sobre o assunto, os arautos da infalibilidade do “livre mercado” ensaiam opiniões mais estruturadas, confundindo a medida proposta pelo PS-BE com a “Lei das Rendas” e culminando com o “argumento de ouro” desta corrente (veja-se o artigo de Helena Matos no “Público” de 2 de Agosto): “quanto vai custar o controlo proposto?” É bom que se lancem às contas porque, até agora, nunca conseguiram adiantar os valores do “descontrolo” que nos tem lixado o território e a paciência.

Se a medida for mesmo concretizada (e nestas coisas, a experiência mostra que o “se” faz todo o sentido), é a primeira vez que se admite uma intervenção disciplinadora num mercado que nunca funcionou, que fabricou as fortunas mais fáceis e suspeitas dos últimos anos e que mais contribuiu para o desordenamento do nosso território. Como já foi reconhecido pelo próprio Sá Fernandes, não se trata de uma “revolução” na gestão autárquica, mas tão somente de aplicar normas que existem em grande parte das cidades do mundo, de modo a evitar perversões como as que temos vivido, em que o excesso de oferta (calcula-se em cerca de meio milhão o número de fogos excedentários) não se traduz num abaixamento dos preços. Como é que isso pode ser feito? As possibilidades são várias, baseadas na criação de áreas em que, por exemplo, se controla a aplicação de margens de lucro, se condicionam valores ao rendimento do cliente, etc. Longe de serem novos bairros sociais, é precisamente o contrário desse princípio. Com inevitáveis impactos no mercado...

Não sabemos de que modo vai ser aplicada a medida e não temos ilusões quanto à necessidade de se fazer mais, nomeadamente alterando a “Lei dos Solos”. Mas, se for bem pensada, pode ter consequências importantes no combate à especulação imobiliária. Sobretudo se fizer “escola”. Resta saber se António Costa não vai encontrar resistências da parte de quem menos espera, nomeadamente do governo a que, até há pouco pertenceu, “espetando-se” nalgum PIN (Projectos de Interesse Nacional) que lhe acabe, também, com “corredores verdes” e frentes ribeirinhas. Gentinha de alfinete em punho, é coisa que não falta.

segunda-feira, julho 16, 2007

Abstenções

(Foto: Alfredo Cunha)
Imaginar o que pode vir a ser a nossa relação com o espaço em que vivemos, caso vinguem as actuais teorias sobre aumento da mobilidade laboral, é assustador. Perspectivando uma situação em que alguém, ao longo da sua vida activa, pode ter que mudar várias vezes de local de trabalho e de residência, suportando horários de trabalho cada vez mais flexíveis, facilmente concluímos que a relação/ identificação com o espaço onde se vive diminui, assim como diminui a disponibilidade e o interesse para nele reflectir e intervir. Se admitirmos que esta mobilidade tenderá a ser maior nos estratos sociais “médios” e “médios-baixos”, podemos prever um desenho urbano ainda mais estratificado, com o eventual regresso dos bairros de empresa, para ocupações de curta/ média duração- a massiva privatização do território, permite-o. A confirmar-se o cenário, seria o assumir da gestão do espaço pelo poder económico, sem necessidade de fingir. Seria também, o “paraíso na terra” para políticos profissionais, libertados do fardo da opinião pública e da gestão de interesses- na verdade, eles desejam a nossa indiferença e gostam da abstenção...

E ela aí está...

(Foto: Orlando Baptista)

Os resultados da eleição para a Câmara Municipal de Lisboa, registaram uma abstenção de mais de 60% e esse foi o dado mais importante. As explicações possíveis são várias e nem todas necessariamente más. No entanto, regista-se a indiferença pelo facto, quer da parte da maioria dos candidatos, quer dos comentadores, ao ponto de António Costa a ter ignorado no discurso de vitória. A verdade é que o actual presidente da autarquia apenas conseguiu cinquenta e tal mil votos, qualquer coisa como 9% da totalidade dos cidadãos eleitores da Capital. Pouco lhe importa: cumpriu-se a democracia, ou seja, a possibilidade de impor estilo e vontade aos restantes 91%, para não falar nos cerca de dois milhões que por lá circulam diariamente. Eles gostam da abstenção.

Não toquem na bola-de-berlim!

Já houve quem dissesse que os burocratas da União Europeia são pessoas com falta de ideias e excesso de tempo. Mas, muito pior, são os adeptos do mito do “bom aluno”, uma espécie de putos “graxistas” a exibirem-se para o “professor”, aceitando acriticamente todas as suas orientações, por mais patéticas que sejam. A tendência actual, é complicar as coisas simples, em prol de um mundo supostamente higiénico e puro. Não é que as nossas maleitas lhes tirem o sono, mas parece que um cidadão saudável sai mais barato. Depois de nos lixarem os “jaquinzinhos” em nome de uma preservação da espécie de que não conseguem convencer os arrastões espanhóis, preparam-se para marrar com a venda ambulante de bolas-de-berlim na praia. Aí, parou e não se admite abstenção! Em nome dos valores do colesterol, são os nossos (valores) que estão em causa. Não tarda, retomam o “manual” da “Santa Inquisição” com as normas de boas práticas de cama. Ou impõem a versão "light" do Pastel de Vouzela... Afnal de contas, tanta treta com o “Let’s Come Together”, quando não passam de uma cambada de “empatas”.