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domingo, julho 22, 2007

A invasão dos urbanóides- 1

René Magritte, Golconde, 1953

Cresceram no tédio do final do Estado Novo, ou nos primeiros anos do pós-PREC, quando as orientações do FMI eram a coisa mais parecida com um sistema de valores alternativo à “desordem da escumalha”. Conheceram a “província”, na companhia forçada de familiares nas deslocações de férias, sentindo-se perdidos perante a imensidão do espaço e do tempo e ameaçados pela constante solicitação do meio: a irregularidade do solo, o andar a pé, a poeira dos caminhos, o calor tórrido ou o frio, nada para comprar- uma maçada. Sonharam com a agitação de Paris ou de Londres, onde era suposto, a cada minuto, uma novidade se lhes vir sentar à mesa, numa efervescência semelhante ao do gás das garrafas de Coca-Cola. Chamavam-lhe “estímulo intelectual”. Nos cafés das “Avenidas Novas”, formularam hipóteses, arriscaram teorias e cimentaram o princípio de que a afirmação suprema do indivíduo está no seu catálogo de compras. Filiaram-se em partidos, muitos foram ministros, concretizaram ideias... não gostaram dos resultados. Entretêm-se a engendrar desculpas, a justificar a asneira para não terem que assumir a derrota. Continuam a fazer opinião e escrevem coisas como estas: “(...)quem vive no horror do Grande Porto ou da Lisboa não vive, pelo menos, no horror de uma aldeia isolada e morta”- Vasco Pulido Valente, Público, 22/07/2007