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quarta-feira, setembro 12, 2012

Torre de Vilharigues: que tal testarem, já, a "reversibilidade" da coisa?

Onde se via isto...

... agora, vê-se isto!

Quando, em 2007, tomamos conhecimento do projeto de restauro da Torre de Vilharigues, elogiamos a opção pela "reversibilidade" da intervenção, mas manifestamos várias dúvidas, nomeadamente sobre o que se previa para o espaço envolvente pelo excesso de artificialidade que introduzia e pelo "corte" que provocava com o meio rural em que está integrada.

Imagem que acompanhava a divulgação do projeto

Interessa saber que estas construções, quer sob a forma de habitação, quer sob a forma de atalaia, tinham uma total relação com o meio onde se inseriam, fosse para marcar e controlar a propriedade sobre um território, fosse por motivos militares. Ora, é precisamente isto que se desvaloriza na intervenção em curso, encarando o monumento como entidade isolada. Claro que na segunda foto que apresentamos, devemos eliminar todos os vestígios de obra. O que não podemos eliminar (e temos pena) é aquele inútil acrescento na base que, longe de representar qualquer diálogo entre "o antigo e o moderno", como tem sido pomposamente anunciado (1), limita-se a ser um empecilho à apreciação e à compreensão da torre. A menos que se comece, desde já, a testar a tal "reversibilidade" anunciada.
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(1)- A este propósito seria importante que houvesse algum cuidado no uso dos conceitos, porque, quando falamos de arquitetura, a designação de "moderno" pode ser aplicada a vários movimentos, mas significa muito mais do que a mera utilização de vidro e ferro.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Luxos ao alcance de todas as bolsas...

Foto de Guilherme Figueiredo

Hoje, apetecia-me falar do aumento das importações do sector alimentar, quando vemos desaproveitadas as nossas terras. Apetecia-me denunciar o abandono a que se votam os criadores de gado, quando importamos 60 por cento da carne que consumimos. Apetecia-me verberar todos aqueles que desvalorizaram as actividades rurais, que ignoraram a sua função social e ambiental, quando se multiplicam exemplos bem sucedidos de explorações dirigidas por cidadãos de outros países e sobem os preços no mercado mundial. Hoje apetecia-me tudo isso, mas apenas me saem gritos panfletários de pouco conteúdo. Não serve. É nestas alturas que deito as pernas ao caminho e respiro fundo perante a imponência dos horizontes (neste caso, a partir da Torre de Vilharigues, quase a entrar em obras de restauro que se espera tenham em conta a sua relação com o meio envolvente). Luxos ao alcance de todas as bolsas que não pagam impostos e, até agora, resistiram aos humores dos "mercados".

segunda-feira, junho 09, 2008

Torre de Vilharigues


A Torre de Vilharigues vista de longe no início dos anos 20 do século XX

Edição de Dias & Irmão


A Torre de Vilharigues em Junho de 2008

Fotos: Carlos Pereira


Há um século atrás...

Edição da Comissão de Iniciativa das Termas de S. Pedro do Sul


"Desta torre muito se tem escrito, sobretudo por nela, lendariamente, ter acabado os seus dias D. Duarte de Almeida, o Decepado da Batalha de Toro. Durante a noite, dizem os mais antigos, ouvem-se ainda os seus gritos atormentados pelo desespero da falta dos seus membros."

in Vouzela - A Terra, os Homens e a Alma

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A participação de Cambra no concurso da "aldeia mais portuguesa de Portugal"

Torre de Cambra

Corria o ano de 1938. O Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) organizava o concurso que havia de ficar conhecido por “Aldeia mais portuguesa de Portugal”. Percorrendo o país em busca de candidatos, os responsáveis pela selecção foram parar a Cambra:
“Por uma estrada cheia de sombra e beleza, em frente dum vale encantador de bucolismo e côr, um automóvel deslisa suavemente transportando três passageiros embevecidos e encantados com o que os seus olhos gulosos saboreavam. Uma curva mais apertada, um estremeção mais violento, uma paragem brusca: estava-se no coração da Frèguesia de Cambra(...)”(1)

Procurando quem os informasse sobre a localidade, perguntaram a uma mulher, capucha vestida, longos anos já vividos, que se disponibilizou a levá-los a quem sabia- “gente abastada e sabedora, que mora mais adiante”(2). Eles que a seguissem. Espantaram-se os citadinos, pois havia que percorrer cerca de dois quilómetros e eles tinham um carro. Ela que entrasse e indicasse o caminho, isso sim fazia sentido. Não fez. A mulher recusou-se a entrar no automóvel e cada um foi pelos seus próprios meios. Eles de carro, ela a pé.

"Capucha"- Boletim da Comissão de Iniciativa

O SPN, dirigido por António Ferro, foi o responsável pela a imagem do país que Salazar quis fazer passar nos anos que antecederam a segunda guerra mundial. Um país organizado, limpo, orgulhoso das suas tradições, ordeiro. Só a última correspondia à realidade mas, como o próprio Salazar tinha afirmado na tomada de posse de António Ferro, “em política o que parece, é”. E foi. De Norte a Sul multiplicaram-se os ranchos folclóricos, “decorou-se” o património(3), alindaram-se os lugares. Muito do imaginário ainda hoje dominante sobre o meio rural, teve aqui a sua origem. O concurso da “Aldeia mais portuguesa de Portugal”, fazia parte dessa estratégia.

A avaliar pelo que é relatado no “Notícias de Vouzela” da época, foi muito o que, em Cambra, interessou aos organizadores. Os cantares, o artesanato de lã e de linho, o viver:
“A casa rústica, sem rebôco ou caiação exterior, de grossas paredes ‘patinadas’ pela chuva e pelo sol de muitos anos, com seu algerós de pedra; os extensos parreirais enchendo de sombra e de frescura as tortuosas ruas, o carro rústico, com seu anteparo de verga, (...) puxado por mansas vacas de grandes olhos meigos e resignados; o vasto e semi-circular páteo ou quinteiro, rodeado das várias dependências da casa do lavrador, pejado de mato, de ancinhos, de enxadas, de carros, de alfaias domésticas (...); o extenso eirado onde moçoilas desempenadas, alegres e gentis, de ancinho em punho, enfeixavam feno ou remexiam a semente de erva estendida ao sol; os grupos gárrulos de segadores e segadoras curvados sôbre os campos cobertos de erva já madura foram espectáculos e aspectos que se fixaram indelèvelmente na memória dos que os viram.
(...)
A coroar o espectáculo magnífico, a ‘Cova do Lobishomem’ e o panorama soberbo dos pendores do Caramulo dominados pelas meio derruídas paredes do velho castelo”(4).

A restante fase de selecção foi acompanhada ao pormenor. Na sua edição de 15 de Junho de 1938, na rubrica “Notas &”, lia-se na primeira página do “Notícias de Vouzela”:
“Consta-nos que a frèguesia de Cambra, do nosso concêlho, continúa a ser a terra, entre as já visitadas para tal fim, que reune mais probabilidades de representação para a classificação da ‘aldeia mais portuguesa de Portugal’, muito concorrendo para isso as suas canções regionais”.

A 15 de Setembro era noticiada a constituição do júri, cuja visita à localidade era descrita na edição de 1 de Outubro. O final desta história é conhecido: venceu Monsanto, do concelho de Idanha-a-Nova, que ficou com o “galo de prata” que, durante meses, muitos sonharam ver nos píncaros de uma das torres da igreja de Cambra.
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(1)- Uma Frèguesia tìpicamente portuguesa, Santos Pereira, Notícias de Vouzela de 1 de Junho de 1938.
(2)- Idem.
(3)- Grande parte das intervenções então feitas nos monumentos nacionais, obedeceram a critérios que não os do rigor histórico.
(4)- in, Notícias de Vouzela, 1 de Junho de 1938.