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quarta-feira, junho 02, 2010

Nos 75 anos do Notícias de Vouzela: o primeiro aniversário


Chovia a cântaros quando saiu para as bancas a edição de 1 de Janeiro de 1936, comemorativa do primeiro aniversário do "Notícias de Vouzela". Numa primeira página a três colunas, dominada por um artigo sobre o Natal assinado por Viriato, o director da altura, Horácio Simões da Silva, ocupava toda a coluna do lado esquerdo para referir os obstáculos que o então quinzenário teve que ultrapassar. "Reconhecemos durante a nossa primeira etapa quanto é difícil satisfazer a todos os paladares, sem ferir susceptibilidades quer políticas, quer religiosas, quer mesmo pessoais". Era o início da caminhada do periódico que sucedeu ao anterior "Correio de Vouzela" e que acabou por se tornar no principal guardião da memória do que por aqui houve nos últimos 75 anos.

Nesse Janeiro de 1936, Horácio Simões da Silva reflectia as pressões sentidas, vindas das mais diversas sensibilidades que os quase dez anos de ditadura não calaram, num mundo que se preparava para mostrar, mais uma vez, a ferro e fogo, a falsidade das verdades únicas.

Isso mesmo era previsto na rubrica "Rabiscos", onde se reclamava por "armas, metralhadoras, tanks, aviões, muitos aviões, que são as armas dos países pobres". Mas para que a estratégia ficasse completa, apelando ao "antigo valor dos lusitanos" e com as lições de Aljubarrota, continuava: "E depois das armas precisamos que a educação nas escolas seja orientada no sentido de cada vez mais os rapazes amarem a nossa Pátria e defende-la, apesar de tudo, não recuando nunca na frente da superioridade numérica do inimigo".

Menos belicista, mas reflectindo preocupações semelhantes, o correspondente de Vasconha falava da festa em honra do padroeiro da freguesia (São Silvestre) e fazia votos para que "ele conseguisse agora a paz para o mundo revolto, e puzesse termo à guerra italo-etíope e outras".

Na segunda página, o Dr. Gil Ribeiro Cabral, "Administrador do Concelho" desenvolvia a sua opinião sobre a rede de estradas do concelho e, por entre uma série de notícias mais pequenas sobre nascimentos, baptizados, aniversários, partidas e chegadas, informava-se que Fataunços e Mossamedes estavam prestes a ver a luz (eléctrica), que a Câmara tinha aberto concurso para o lugar de aferidor "com o vencimento anual de 600$00" (3 euros) e que se tinha descoberto o autor de um roubo na capela da Nossa Senhora do Castelo que contou com a conivência do sacristão.

O "Notícias de Vouzela" tinha, então, quatro páginas, dedicando a última a anúncios. Para além do director, apenas eram feitas referências ao editor (José L. Soares de Morais Carvalho) e à tipografia- "Visiense". Como não podia deixar de ser, era "visado pela Comissão de Censura". Escrevia Vitorino Campos: "Só quem tenha permanecido fora do torrão onde nasceu ou foi criado e não possua alma expurgada de sentimentos espirituais e bairristas, poderá avaliar o que representa para os seus conterrâneos auzentes, a visita quinzenal de um jornal da sua terra, por mais modesto que êle seja".

quinta-feira, novembro 15, 2007

Hoje vamos à bola

A vida não está fácil para os “Vouzelenses”. Para todos, mas agora é mesmo de futebol que estamos a falar. Tendo iniciado a época com uma crise directiva, esteve quase para abandonar a competição na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Viseu. Tal como o país, os nossos “Vouzelenses” têm uma longa experiência de crises. Veja-se, por exemplo, o que era publicado no “Comércio do Porto” de 15 de Outubro de 1949:

“Completa 20 anos de vida no próximo mês de Novembro, a Associação ‘Os Vouzelenses’.
Fundada em maré de entusiasmo, pela gente moça daquele tempo, tendo como finalidade principal o desporto, a educação cívica e o auxílio mútuo, nem sempre logrou viver em mar de rosas e, assim, ao atingir o seu vigésimo aniversário é verdadeiramente precária a sua acção. Apesar de tudo não a quizemos dispensar destas notas, talvez as únicas com que o seu aniversário será recordado!
Foram, se não estamos em erro, Joaquim Souto e Melo, Vitorino Figueiredo de Almeida Campos, António Francisco de Paiva, João Ferraz, Celso Giestas e Guilherme Cosme, os fundadores da colectividade.(...)
Não vingou, como era de desejar, o ideal da primeira hora. A Associação ‘Os Vouzelenses’, ora em franco progresso, ora em maré de abandono, tem vivido aos ‘arrancos’ fazendo dispersar rios de dinheiro. Mas se não foi feliz à nascença, nem por isso deixa de ter a sua história- história que é no final um pouco da própria vida da nossa terra!
E vem a propósito recordar: a primeira e última conferência levada a efeito na sua sede pelo distinto caramulano- o professor José Manuel da Silva; a escola nocturna de onde dois ou três adultos conseguiram sair soletrando; o teatro de amadores em que António Joaquim de Almeida Campos pôs, mais uma vez, à prova, a sua perseverante actividade; a época da ‘promoção’ com o esforçado dr. Eurico Gomes de Almeida; o ano áureo da sua existência com Armando Ribeiro de Almeida na presidência; e tanta e tanta coisa mais (...)”

O texto é longo, pelo que só transcrevemos uma pequena parte. Respeitamos a grafia da época e sublinhamos as ideias principais: para além do desporto, “Os Vouzelenses” foram pensados com o objectivo de promover a “educação cívica” e o “auxílio mútuo”. Tinham “escola nocturna”, grupo de teatro e promoviam conferências. Tudo isto, numa época que começava a ser avessa a associativismos. Quanto a momentos de crise, pelos vistos, já eram familiares. Talvez a reflexão sobre a história da colectividade contribua para ultrapassar a actual. E um bom resultado no “derby” do próximo fim-de-semana, também ajudava.
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Nota: Por coincidência, no momento em que publicávamos este "post", eram detidos dois árbitros da Associação de Futebol de Viseu e dois dirigentes do Lamego, por suspeitas de corrupção. Ao que parece (ver aqui), um dos jogos em que se tentava obter favores, era o que se vai realizar nas Chãs dentro de uma semana. De facto, quando até nos escalões distritais se chega a este ponto, não há dúvida de que o associativismo tem hoje outro significado (16/11/2007).