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quarta-feira, setembro 12, 2012

Torre de Vilharigues: que tal testarem, já, a "reversibilidade" da coisa?

Onde se via isto...

... agora, vê-se isto!

Quando, em 2007, tomamos conhecimento do projeto de restauro da Torre de Vilharigues, elogiamos a opção pela "reversibilidade" da intervenção, mas manifestamos várias dúvidas, nomeadamente sobre o que se previa para o espaço envolvente pelo excesso de artificialidade que introduzia e pelo "corte" que provocava com o meio rural em que está integrada.

Imagem que acompanhava a divulgação do projeto

Interessa saber que estas construções, quer sob a forma de habitação, quer sob a forma de atalaia, tinham uma total relação com o meio onde se inseriam, fosse para marcar e controlar a propriedade sobre um território, fosse por motivos militares. Ora, é precisamente isto que se desvaloriza na intervenção em curso, encarando o monumento como entidade isolada. Claro que na segunda foto que apresentamos, devemos eliminar todos os vestígios de obra. O que não podemos eliminar (e temos pena) é aquele inútil acrescento na base que, longe de representar qualquer diálogo entre "o antigo e o moderno", como tem sido pomposamente anunciado (1), limita-se a ser um empecilho à apreciação e à compreensão da torre. A menos que se comece, desde já, a testar a tal "reversibilidade" anunciada.
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(1)- A este propósito seria importante que houvesse algum cuidado no uso dos conceitos, porque, quando falamos de arquitetura, a designação de "moderno" pode ser aplicada a vários movimentos, mas significa muito mais do que a mera utilização de vidro e ferro.

sexta-feira, março 02, 2007

A propósito do projecto de restauro da Torre Medieval de Vilharigues

Justifica-se uma chamada de atenção para o projecto de restauro da Torre Medieval de Vilharigues. Da responsabilidade do Arquitecto Renato Rebelo, prevê intervenções na ruína da Torre, nos espaços envolventes e na Capela de Santo Amaro. O aspecto mais interessante, está na opção pelo critério da reversibilidade, limitando-se à consolidação das paredes existentes e na colocação de um volume no seu interior dividido em três pisos, unidos por uma escada. Deste modo, permite-se que, em qualquer momento, a nova construção possa ser retirada, mas cria-se uma estrutura que possibilite a “reinterpretação dos espaços e percursos para que os visitantes pos­sam perceber como era utilizada aquela torre e qual o seu papel”. Quanto a materiais, serão utilizados o ferro, a madeira e o vidro.

A metodologia de intervenção no património edificado é normalmente polémica, quer pela abordagem que faz aos monumentos, quer pelas possibilidades de utilização que permite. São muitos os casos em que a intervenção adulterou o significado do edifício e, pura e simplesmente, ignorou a sua relação com o meio envolvente. De facto, desde 1976 que a UNESCO, na chamada “Recomendação de Nairobi”, põe o acento tónico na importância de se respeitar o princípio do “conjunto histórico”, entendido como o “agrupamento de construções e de espaços ao qual se reconheça valor arquitectónico, estético, histórico ou sócio-cultural” (1). Deste modo, procurou-se combater a tendência para se encarar o monumento como peça isolada e descontextualizada. Aliás, a mesma Recomendação definia o conceito de “envolvência” do conjunto histórico, alertando para a relação com o quadro natural e/ou edificado, “cuja percepção afecta a do próprio conjunto histórico” (2).
Outro problema que nem sempre foi evitado, resultou da transformação do conjunto/monumento intervencionado num “elefante branco”, com custos de manutenção elevados e ousados projectos de dinamização, dificilmente suportáveis por muito tempo. No caso concreto da Torre de Vilharigues, para além do aspecto positivo já realçado, há dúvidas que convém esclarecer. De facto, não sabemos o que está previsto na relação do monumento com a localidade, nem o modo como se pensa enquadrar e dinamizar toda a obra prevista para o espaço exterior (palco, “zona de lazer e merendas”, arrumos, churrasqueira, cozinha, etc.). Também seria interessante saber de que modo se pensa usar o piso de entrada, já que parece ser o único acessível a visitantes com limitações motoras, apesar da bem intencionada rampa que se vai acrescentar ao monumento. Por último, se os números publicados no Boletim Municipal estão certos, prevê-se gastar 170 mil euros com as obras na Torre e 180 mil no espaço exterior e construções de apoio. Podemos estar errados, mas parece-nos haver aqui qualquer coisa que não soa bem...
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(1)- Introdução ao estudo da História e Património locais, Jorge Alarcão, Coimbra, Cadernos de Arqueologia e Arte- 2, 1982.
(2)- idem
Imagens retiradas do Boletim Municipal da Câmara Municipal de Vouzela e de folheto da Região de Turismo Dão Lafões.