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terça-feira, novembro 05, 2013

Temos um comboio para apanhar

O dia da inauguração. Foto gentilmente cedida pelo Augusto Rodrigues

Novembro de 1913. À incerteza da obra tinha sucedido a esperança e o espanto. Centenas de operários e engenhos nunca antes vistos, ergueram um viaduto com os seus dezasseis arcos de pedra que muitos apostavam não conseguir resistir. Finalmente, o comboio ia chegar. Todos quantos alguma vez o viram, podem imaginá-lo a entrar na ponte, lançando aos ares o seu apito de aviso de aproximação, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio. Do outro lado, junto à estação, o povo apinhado, olhando, admirado e incrédulo, aquela massa de ferro preto que avançava com um som cadenciado por entre nuvens de fumo branco. Finalmente,  o comboio chegou.

Vouzela sempre foi local de "encontros e despedidas". Desde que os romanos lhe toparam a orografia e alargaram e empedraram estradas, a sua história ficou indissociavelmente ligada a vias de comunicação. Para o bem e para o mal. A linha do caminho de ferro do Vale do Vouga foi uma delas e a chegada do comboio naquele dia de 1913, marcou o início duma revolução nos afazeres e nos hábitos, imagem de marca  do último período de desenvolvimento que por estas terras houve. 

Hermínio Dias, no texto que redigiu para o cinquentenário da linha, descreveu os primeiros tempos com o poder de síntese do grande fotógrafo que era: "Festas, foguetes, contentamentos, encorajamentos para viagens a Espinho (...)". Encorajamento, sim, que isso de entregar a vida a um amontoado de parafusos a que não se podia puxar rédeas, nem obedecia a voz de comando, era aventura arriscada para quem, naqueles tempos, estava mais habituado a confiar nos músculos do que na técnica.

Mas da novidade passou-se à oportunidade e desta à rotina. Aos poucos, Vouzela foi-se familiarizando com uma nova categoria de gente composta por fatores, fogueiros, revisores, guarda freios, carregadores... e esse símbolo de autoridade, respeitado e invejado, o chefe da estação. Aos poucos, foi-se habituando à mistura com os operários da Serração- que, entretanto, tinha procurado a proximidade ao comboio- e das muitas partidas e chegadas, como a da comitiva de António Ferro que, em 1930, ainda antes de dirigir o Secretariado Nacional da Propaganda, usou o caminho de ferro para vir apresentar as entranhas do país aos jornalistas da capital e acabou no Castelo a admirar as vistas, extasiado, enquanto matava a sede com taças de Lafões fresquinho- parece que estava um calor dos diabos. Chegavam estudantes aos fins-de-semana, chegavam jornais ao fim da tarde, chegava gente diferente no verão que, mal descia o último degrau e punha os pés na terra, esticava as costas e enchia o peito de ar, o tal bem puro que por cá a trazia em estadias mais ou menos prolongadas numa das unidades hoteleiras da vila. O Mira Vouga era logo ali, depois da ponte, a caminho do São Sebastião. O comboio marcava o ritmo e os humores. Até os amores, porque o "vou ali ver chegar o comboio" era desculpa aceite e pretexto válido para passeios de namorados e os arcos da ponte sempre foram pilares seguros para as toneladas de ferro e de afetos.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Num tarda nada já eram mais as partidas do que as chegadas e os risos dos encontros não chegavam para fazer esquecer as lágrimas das despedidas. Brasil, África, mais tarde França e Alemanha "porque aqui não dá e é preciso fazer pela vida". Ou enganar a morte... E o soldado lá escolhia partir, bem cedo, sozinho, gola do capote levantada para que não se percebesse que, afinal, um homem também chora. Ao comboio descobria-se o desconforto dos bancos, a lentidão da marcha, o lado do negro do fumo. Provocava fogos, diziam- graças a Deus que de então para cá nunca mais tal coisa  vimos! O futuro estava nas quatro rodas, de preferência individuais e nessas mortalhas de alcatrão negro que nos levavam à porta e haviam de cobrir o país. Recusaram-se propostas de modernização e ignoraram-se sugestões de aproveitamento turístico. Em 27 de Dezembro de 1983, cobriram-no com coroas de flores e bandeiras e chamaram-lhe "Histórico", porque não se diz mal dum defunto. Pela última vez, o seu apito ecoou ao entrar na ponte, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio das gentes que lhe prestavam a última homenagem, suspeitando estarem a enterrar muito mais do que aquela massa de ferro que se despedia por entre nuvens de fumo branco.

Mas os senhores deste mundo, não conhecem a ironia corrosiva do beirão. Vamos ouvindo as notícias sobre a crise do petróleo e os insuportáveis custos da energia e, então, fecho os olhos e imagino-me na sala de jantar da saudosa Pensão Jardim, amplas janelas abertas para o vale e para a ponte. Recordo o som cadenciado da aproximação e aquele silvo agudo que desperta e grita: "acordem, vouzelenses! Temos um comboio para apanhar".
- Texto escrito para a exposição "100 anos da chegada do comboio a Vouzela".


Ao Carlos Pereira

A exposição que a Associação D. Duarte de Almeida inaugura, neste 5 de Novembro, no Museu Municipal de Vouzela, deve muito ao investimento e ao entusiasmo do nosso colaborador, Carlos Pereira. Contactamos com ele, pela primeira vez, em 2007, numa altura em que dinamizava um blogue irónica mas certeiramente chamado "Postal de Vouzela". Já então tinha publicadas dezenas de imagens da vila, revelando um amor pela terra onde, jovem, andou a estudar. Mais tarde, decidiu integrar o grupo de colaboradores do "Pastel de Vouzela" e o resultado final é conhecido: muitas das mais de duzentas imagens da região de Lafões que publicamos, vieram da sua coleção particular. Mas um outro interesse sempre o animou que, curiosamente, ligava bem com as iniciais, "CP", com que assinava e assina os seus textos: a história da linha do Vale do Vouga. Esta exposição é o resultado desse interesse, mas também uma simples homenagem a um homem que, embora afastado da região, a sente como poucos. Obrigado, Carlos Pereira.  Vouzela precisa de amigos como tu.


sexta-feira, novembro 01, 2013

Há 100 anos o comboio chegou

(Clique na imagem para ampliar)

É mais uma iniciativa da Associação D. Duarte de Almeida, com o apoio da Câmara Municipal. Começa já no próximo dia 5 (17.30 horas), no Museu,  com uma exposição alusiva à chegada do comboio a Vouzela. Segue-se, no dia 16, um percurso em biciclete e uma caminhada em dois troços da antiga linha do Vale do Vouga (Ribeiradio-Vouzela e Pinheiro de Lafões-Vouzela). Termina no dia 30 com o "almoço do Centenário" no restaurante "Meu Menino" em Vouzela (13 horas) e com uma tertúlia no café Serôdio de Figueiredo das Donas (20 horas). A não perder.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Horário / Linha Vale do Vouga

Ao invés do habitual, apresento esta semana um documento que é interessante, não por ter uma referência a Vouzela, mas precisamente por não a ter.
Trata-se de um horário de comboios que era publicado mensalmente. Esta é a página da Linha do Vale do Vouga referente ao mês de Novembro de 1913. Este horário estava em vigor desde 5 de Setembro de 1913.
Como se pode ver, a Linha do Vouga estava em funcionamento de Espinho a Ribeiradio e de Viseu a Bodiosa. A grande curiosidade está no facto de que foi precisamente no mês em que este horário foi publicado, que o comboio chegou a Vouzela, mais precisamente no dia 30 de Novembro.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Cinquentenário do Caminho de Ferro do Vale do Vouga

Faz hoje 103 anos que foi inaugurada a Linha do Vale do Vouga pelo Rei D. Manuel II. O comboio percorreu com pompa e circunstância o troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis.
Cinquenta anos depois, a Gazeta dos Caminhos de Ferro editou um número especial da revista, inteiramente dedicado ao cinquentenário.
Entre tantos artigos sobre cada um dos concelhos servidos pelo comboio, coube a Hermínio Augusto Dias, Presidente da Câmara de Vouzela nos anos 50, escrever sobre a nossa terra.
Hermínio Dias foi membro da Comissão Organizadora das comemoração dos 50 anos da Linha do Vale do Vouga, tendo inclusivamente feito parte da Comissão de Honra. Dada a importância que o comboio teve para a região, tal data não poderia passar despercebida.
Ficam aqui as reproduções com memórias de Vouzela no início do Século XX, inimagináveis e esquecidas nos tempos de hoje.


Como curiosidade, lembramos que há 103 anos atrás, o almoço comemorativo da inauguração da linha foi no edifício da assembleia de Espinho. Foi oferecido pela Compagnie Française pour la Construction et L'Exploitation de Chemins de Fer a L'Etranger e organizado pelo Visconde de Assentiz. A ementa desse almoço com a presença do Rei D. Manuel II e uma vasta comitiva de convidados foi a seguinte:


Menu:
  - Consomé a la Royale
  - Patés de foie-gras a la Périgord
  - Coeur de filet a la gastronome
  - Chaud-froid de perdreaux a la diplomate
  - Pintades rôties au cresson
  - Salade russe

Entremets:
  - Glace a la crême, aux noisetes pratinées

Dessert:
  - Gelée au marasquin
  - Charlotte russe au café
  - Fruits et bonbons divers
  - Patisserie

Vins:
  - Collares, Aguieira, Madère, Porto, Moêt et Chandon, Anadia Café

Cinquenta anos depois, o almoço comemorativo teve uma ementa bem mais "portuguesa" e regional:

Coleção particular de António Liz Dias



Se bem que a comemoração dos 100 anos da Linha do Vale do Vouga (em 2008) foi praticamente esquecida em Vouzela, talvez pelo facto de o comboio já cá não passar, para memória futura, teria todo o interesse não esquecermos que se aproxima a data dos 100 anos em que o comboio apitou pela primeira vez na estação. Já não temos comboio mas "quem não recorda o passado, está condenado a repeti-lo (Jorge Santayana)".
Sim. Eu sei. É só em Novembro de 2013. Mas todos sabemos como são estas coisas. Deixamos para a última e depois...

Que vai ser o almoço?

sexta-feira, junho 10, 2011

Ponte dos caminhos de ferro em construção

Coleção particular de Augusto Matos, Edição Foto Bela

Lá ao fundo, o espaço da Feira e a Igreja Matriz ainda antes do restauro (ver aqui e aqui). Em primeiro plano, o terreno onde hoje se encontra a Alameda D. Duarte de Almeida (Jardim). Avançavam as obras da ponte dos caminhos de ferro que iriam permitir a ligação da Linha do Vale do Vouga a Viseu (o que só foi conseguido em 1914). Para recordar e reflectir, numa época em que se ignora o comboio, quando dele mais nos devíamos lembrar.

quinta-feira, março 25, 2010

Documentos sobre a Linha do Vale do Vouga

É um daqueles assuntos que nos fazem largar tudo, quer para conhecer melhor o seu passado, quer para tentar "forçar" o futuro- o comboio. Desta vez, foi o nosso colaborador Manel Vaca que, nas suas deambulações em busca do que a história reza das nossas gentes, encontrou os documentos que apresentamos. Há mais na "Gazeta dos Caminhos de Ferro". Indispensável para estudiosos ou simples curiosos. Depois de apreciar a ilustração de Stuart de Carvalhais, é só clicar nas imagens para ampliar.


segunda-feira, setembro 28, 2009

Linha do Vouga: Papéis de Valor

Apresento esta semana Obrigações e Acções das empresas que construíram e exploraram a linha do Vale do Vouga antes da CP.

Resumidamente e tendo por base a Wikipédia aqui ficam as principais datas de interesse relativas a estas empresas:

A 29 de Janeiro de 1907 são publicados os estatutos da “Compagnie Française pour la Construction et L'Exploitation de Chemins de Fer à L’Etranger”. 
(empresa que construiu a linha)

Em 7 de Julho de 1923, em assembleia geral, fica decidida a nacionalização da companhia, sendo aprovados em 01 de Abril de 1924 os estatutos da nova empresa que passa a ser designada por “Companhia Portuguêsa para a Construção e Exploração de Caminhos de Ferro” . A Companhia tem como objectivo construir e explorar as Linhas do Vale do Vouga.

Em 30 de Dezembro de 1946 é assinada a escritura da transferência da concessão da Companhia do Vale do Vouga para a CP.

Compagnie Française pour la Construction et L'Exploitation de Chemins de Fer à L’Etranger


Obrigação Privilegiada ( Tipo I ) n.º 8076 - 01 de Junho de 1911



Obrigação Ordinária ( Tipo II ) n.º 15196 - 15 de Julho de 1911


Companhia Portuguêsa para a Construção e Exploração de Caminhos de Ferro


Acção n.º 90 - 1 de Dezembro de 1928

Como curiosidade apresento aqui uma raridade. O "Bilhete de Identidade n.º 469" da Companhia Portuguêsa para a Construção e Exploração de Caminhos de Ferro, válido para os anos de 1932-1933-1934. Este "bilhete" dava à família titular o direito a descontos nas várias Companhias de Caminhos de Ferros descritas no verso.


sexta-feira, maio 22, 2009

Os leitores lançam as mãos à massa-VI

Mais de vinte anos após a sua última passagem por estas terras, o comboio continua presente. São as obras de arte que se transformaram em marcos da nossa identidade, é a paisagem que o engenho dos homens adaptou à sua passagem. É, sobretudo, o enorme desejo de o ver regressar, certos que estamos de ser o meio de transporte que melhor se adapta aos tempos que correm. Tal como nós, assim pensam muitos leitores que não perdem oportunidade para nos chamar a atenção para uma imagem, uma opinião que reforce a ideia que há muito nos alimenta a revolta: foi um fantástico recurso que se desperdiçou. Foi o que fez o Augusto Rodrigues que nos enviou cópia de um apanhado das impressões publicadas por Brito Camacho (em Jornadas) , a propósito da Linha do Vale do Vouga. Publicado na página da CP

A Linha do Vouga vista por Brito Camacho



Por montes e vales

Nascido em Aljustrel, em 1862, e falecido em 1934, Brito Camacho foi figura importante do campo republicano. Médico, militar e alto-comissário em Moçambique (1921/23), publicou numerosos artigos e diversos livros, dos quais o relacionado com as viagens de comboio é «Jornadas». Aí se encontra um interessante retrato do Portugal nas primeiras décadas do séc. XX.

Painel de azulejo sobre a Ponte de Santiago (Sever do Vouga)- retirado daqui

O traçado da Linha do Vale do Vouga, embora sinuoso, tinha uma amplitude de vistas sem igual na rede ferroviária portuguesa. Um dos muitos que se encantaram com esta viagem entre Viseu e Sernada do Vouga foi Brito Camacho que, nas «Jornadas», deixou colorida e interessante descrição.

Tudo começa em Viseu, por volta do meio-dia. Logo à saída da cidade o escritor mal reconhece Abravezes, «na garridice dos seus prédios novos, com telha de Marselha, tão diferente do que era há vinte anos». É claro que naquele tempo, e a vapor, a viagem não era rápida. Nada que incomode pois, «assim pode ver-se tudo muito à vontade, à direita e à esquerda, o que fica longe e o que fica perto, com detalhes de observação que as grandes velocidades não permitem».

Como naquele tempo as carruagens tinham plataformas abertas nos dois topos, esse era o ponto de observação ideal: «a navette de janela para janela, além de ser muito incómoda, não deixa que a paisagem se fixe bem na retina». Será que tanta curva fazia enjoar? «Se disserem ao leitor que a paisagem incomoda, que nele se enjoa como a bordo de uma barcaça desmastreada, com que as ondas brincam, se lhe disserem isto, não acredite».

Em contrapartida, «o desnível, considerando os pontos términos da linha é de, proximadamente, seiscentos metros, e basta lançar os olhos para um mapa da região para se ver que o comboio não poderia ir de Viseu a Sarnadas, na margem do Vouga, sem dar muitas voltas e reviravoltas, aqui e além tão apertadas, que milagre parece vencê-las sem descarrilar a traquitana».

Por isso, «os que desejam fazer este passeio, devem preferir o comboio ao automóvel, porquanto a linha, ficando num plano muito superior à estrada deixa ver mais largos horizontes». Passam-se os panoramas grandiosos da serra da Gralheira, as águas de São Pedro do Sul, os encantos de Vouzela até que «por volta das quatro horas saímos da Sarnada para Espinho, de tal modo encantados com o Vale do Vouga, que muito solicitamente recomendamos ao leitor que faça o passeio como nós o fizemos...»

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Os leitores lançam as mãos à massa-V

Nos tempos que correm, encontrar alguém que possui uma relíquia e se dispõe a partilhá-la, não só é raro, como é motivo de orgulho para todos os que com ele privam. É isso mesmo que sentimos por termos leitores como o Augusto Rodrigues que, de Ovar, nos mandou a imagem que se segue. Para partilhar.

Inauguração da Estação de Vouzela


Amigos:
Junto foto da inauguração da estação de caminho de ferro em Vouzela, presumo ter sido em 17 de Março de 1914.
(...)
Grande abraço,
Augusto Rodrigues - Ovar

domingo, novembro 23, 2008

100 anos depois

Inauguração oficial da linha do Vale do Vouga (retirado daqui)

Em 23 de Novembro de 1908 foi inaugurado o primeiro troço da linha do Vale do Vouga (entre Espinho e Oliveira de Azeméis). Cem anos depois, limitados ao transporte rodoviário e condenados a assistir ao esgotamento do petróleo, importa reflectir no modo como se desperdiçou um recurso "por ignorância, por interesses, por falta de ideias": Para isso, recordamos um pouco do que já por aí escrevemos sobre o assunto. Aqui.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Ele aí vem!

(Actualizado)
O comboio pode regressar a Vouzela. De acordo com o presidente da Câmara de Aveiro, é intenção do governo “abrir concurso para o estudo-prévio e avaliação de impacto ambiental do troço Aveiro-Viseu ainda este ano” (Jornal de Notícias, a partir daqui)). Élio Maia respondia às críticas de um vereador do Partido Socialista que o tinha acusado de passividade na polémica sobre a localização da estação do TGV (que parece estar prevista para Albergaria-a-Velha). Na sequência disso, defendeu ser mais importante para Aveiro a ligação a Salamanca em comboio de alta velocidade, tendo então adiantado a informação sobre a ligação Aveiro-Viseu.

Se por "alta velocidade" entendermos o TGV, claro que não podemos esperar por uma paragem em Vouzela para comprar pastéis- por muito que o mereçam. Aliás, nem em Vouzela, nem em qualquer outro local, cuja distância seja incompatível com a velocidade desejável. Agora, o que nos parece é ser esta a grande oportunidade para reivindicar que a região volte a ser servida pela via férrea. Já que o "canal" vai ser aberto para velocidades altas, porque não conciliá-lo com opções de velocidade mais moderada?

Sempre defendemos que o regresso do comboio, mais tarde ou mais cedo, acabará por ser inevitável. Resta saber qual será a capacidade (e o interesse) dos responsáveis pelos três concelhos de Lafões para imporem a sua participação neste debate. Ou, se quiserem, qual será a nossa capacidade para os fazer entender que não nos basta ver passar... as bicicletas.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Mostrar Portugal aos portugueses”




"Clicar" nas imagens para ampliar. Estas e muitas mais, aqui

Estava-se em 1930. António Ferro dirigia a revista “Ilustração Portuguesa”, perseguindo o objectivo de “mostrar Portugal aos portugueses”(1). Ensaiava, então, a estratégia que, mais tarde, a partir de 1933, iria aplicar à frente do Secretariado de Propaganda Nacional e que ficaria ligada a iniciativas como a participação nas exposições internacionais de Paris (1937), Nova Iorque e São Francisco (1939), o concurso “A Aldeia mais Portuguesa de Portugal” (realizado em 1939 e onde o concelho de Vouzela marcou presença), a Exposição do Mundo Português (1940).

De acordo com a orientação nacionalista então dominante, procurava-se transmitir uma imagem idealizada de Portugal que sustentasse o pretendido “orgulho português” e adoçasse os olhos com que nos viam do estrangeiro- ao fim e ao cabo, três décadas de democracia não foram suficientes para alterar este fascínio pelo mito.

Foi precisamente António Ferro o autor da ideia. Uma mão- cheia de notáveis, homens da comunicação social, foram metidos num comboio e levados a conhecer o Portugal profundo. Curia, Luso, Bussaco, Aveiro, Vale do Vouga, São Pedro do Sul, Vouzela: “Três dias no Paraíso”. Da viagem, saíram reportagens no Diário de Notícias, Notícias Ilustrado, Eva e Ilustração. São desta última as imagens e as citações que se publicam.

Depois de percorrerem o Vale do Vouga- “três horas de encantamento”- dirigiram-se a São Pedro do Sul. Encontraram o balneário das Termas aberto, mas o hotel fechado. Parece que hoteleiro e câmara andavam de “candeias às avessas”. Manifestaram o seu desagrado, os excursionistas, porque se tratava de “um rincão magnífico do paraíso que o esquecimento turístico aniquilará”. A pressão parece ter resultado, tal como era prometido nos acalorados e obrigatórios discursos que remataram o almoço. E o jornalista adornava: “Em redor, a natureza impressionável e magnânima, desentranha-se em maravilhas alheia às maldades dos homens que a matam com o seu veneno”.

Ainda junto ao balneário, registaram o fascínio pelo Dr. Trinta, director das termas: “Um médico à antiga, bela figura de apóstolo, alegre, bem humorado, enamorado da sua terra e da sua obra. Trinta como este e estava São Pedro na primeira fila das termas peninsulares, que bem o merece!”

Já de regresso a Aveiro, uma paragem em Vouzela onde foram recebidos por uma comitiva dirigida por João António Gonçalves de Figueiredo que teve direito a caricatura. Dirigiram-se ao Castelo- “que não inveja o Bussaco”- e mais uma vez a paisagem a impor-se aos sentidos do articulista: “(...) o mais belo panorama que os meus olhos ainda viram, o rio Vouga no fundo da taça, preguiçoso, o marau, às voltas de capricho. Serrazes a um lado, São Pedro a outro, a cadeia de montanhas, em toda a volta, a recortar o céu magnífico”.

Na despedida, umas taças de Lafões, “vinho fresco, alado, surpreendente (...), um vinho que deve ser, se a minha guela ressequida me não engana, o melhor de Portugal todo (...)”. Parece que estavam trinta e muitos à sombra.

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(1)- in, Dicionário de História do Estado Novo, direcção de Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, vol. I, 1996, pág. 356

quarta-feira, outubro 03, 2007

O passado e o presente da linha do Vale do Vouga

(Foto de Pastel de Vouzela)

Para recordar um comboio que já houve e que não se soube aproveitar. Façam o favor do "clicar".

3- Comemoração do Centenário da chegada do comboio a Vouzela: "Temos um comboio para apanhar"- 05/11/2013
2- Linha do Vale do Vouga: uma viagem ao que resta (01/10/2007)
1- Era uma vez, o comboio... (30/01/2007)

segunda-feira, outubro 01, 2007

Linha do Vale do Vouga:uma viagem ao que resta

Aproximava-se o fim. A poucos metros do local de onde foi conseguida esta imagem, está hoje um prédio
(foto de Guilherme Figueiredo)

Não vale a pena perder muito tempo com o assunto: o encerramento da linha do Vale do Vouga foi, na hipótese mais suave, uma tremenda irresponsabilidade; na mais dura, uma vigarice, cuja história há-de ser contada sem poupar nos pormenores sórdidos. Ponto final. O que nos parece ser de realçar é o modo como muitos trabalham para manter a memória viva, publicando estudos, organizando arquivos de imagens e até divulgando petições pela sua reactivação. Todos, lá bem no íntimo, mantêm viva a esperança de que a asneira não seja irreversível. Ao fim e ao cabo, para além do recurso turístico que podia ter sido, o comboio é a melhor alternativa a uma circulação automóvel que o futuro, inevitavelmente, irá limitar.

A construção da linha do Vale do Vouga sucedeu ao projecto de tornar o rio navegável desde Aveiro até São Pedro do Sul. Não tivessem as tropas de Junot invadido o país e talvez a obra fosse concretizada (1).

A verdade é que, depois de muita polémica a propósito do melhor traçado, a data oficial de inauguração da via férrea que nos havia de ligar ao litoral fixou-se a 23 de Novembro de 1908 (troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis). Já depois da instauração da República, foi feita a ligação entre Aveiro e a Sernada (Setembro de 1911) e, finalmente, em 5 de Fevereiro de 1914, até Viseu.

A velha linha resistiu às dificuldades de duas guerras mundiais, mas não conseguiu enfrentar o “boom” do automóvel em Portugal (e das empresas de camionagem), nem as exigências de maior velocidade e comodidade. Na verdade, sendo uma linha de via estreita, nunca beneficiou de modernizações significativas e a tentativa de aumentar a velocidade de circulação através de automotoras, revelou-se pouco satisfatória.

Foi isso que deu força à ofensiva favorável ao encerramento, que teve o seu auge nos anos 70. Do mesmo lado da barricada, misturaram-se os argumentos dos que defendiam investimentos para a melhorar e dos que preferiam acabar com ela: que não justificava as despesas, que havia meios de transporte alternativos, que... causava fogos. Em 1972, o comboio era substituído por camionetas da CP, embora isso não fosse assumido como definitivo. A verdade é que, dois anos depois, a 10 de Janeiro de 1974, o Notícias de Vouzela publicava, na sua primeira página, o seguinte desabafo, ilustrado por uma fotografia da estação: “O que irá ser um dia, este terreno enorme, no centro da vila, que foi, durante sessenta anos, estação do caminho de ferro? Porque já não acreditamos que o comboio regresse (...)".

A população nunca se resignou. Logo após o 25 de Abril, há registo de diversas tomadas de posição que obrigaram os governantes a prometerem não só o regresso do comboio como, também, a melhoria das suas condições. Ele voltou, mas nunca melhorou. E íam começar os tempos dourados da construção civil.

A 27 de Dezembro de 1983, setenta e cinco anos, um mês e quatro dias depois da inauguração do primeiro troço da linha, o Vale do Vouga assistiu à última viagem do seu combóio. Na sua obra “Memórias do Vale do Vouga”, o médico Manuel Castro Pereira antecipou: “Novos e difíceis tempos virão, onde a ferrovia tem de desempenhar um papel decisivo de alternativa de transporte de pessoas e bens”. Esses tempos aí estão, apesar dos nossos governantes, nacionais e locais, assobiarem para o lado, na tentativa desesperada de que não nos lembremos de lhes pedir responsabilidades.

Depois de já termos divulgado páginas de fotografias recordando a linha no seu auge, propomos agora uma viagem pelo que existe. São imagens de abandono, de desleixo, da pressa com que alguns “urbanizaram” o espaço. Nós próprios, apesar de termos limitado o estrago, não evitámos construir lá um prédio (erro já assumido pela Câmara Municipal de Vouzela). Mas, numa altura em que alguns discutem o que fazer com as pontes que eram usadas pelo comboio, esta viagem que propomos à estupidez e ao desperdício, é o nosso contributo para que não se agrave a asneira. E para que ela não seja irreversível. Porque, mais cedo ou mais tarde, o comboio vai regressar.

Que a viagem comece (basta "clicar")
_______________

(1)- As referências históricas foram retiradas da obra Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001.