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quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Escriptura de sociedade que entre si fazem o Presidente, Directores para a organização de uma Philarmonica d'esta Villa

A Banda em 1908. Ver a legenda da foto  aqui.

O documento que citamos (1), datado de 7 de Abril de 1872, é a escritura de constituição da sociedade que criou a "Philarmonica Vouzellense" que antecedeu a atual Sociedade Musical Vouzelense. Trata-se de um interessante registo não só para a história deste tipo de coletividades concelhias, como também para ilustrar o tecido económico e social da época. Numa altura em que se comemoram os 141 anos da Banda, aqui fica para recordar:

Saibam quantos esta publica Escriptura de contracto de sociedade virem, que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus [2] Jesus Christo de mil oito centos setenta e dois, aos 7 de Abril n'esta Villa de Vouzella, e meu cartorio, foram presentes, de uma parte o Excellentissimo João Telles de Loureiro, solteiro, proprietario de Vilharigues, na qualidade de Presidente, João Antonio de Figueiredo, solteiro, Recebedor d'esta Comarca, e Manoel d'Almeida Casaes, casado, negociante, moradores n'este mesma Villa, estes como directores, e da outra parte os socios Augusto José de Figueiredo, casado, sapateiro, com seu fiador, José manuel Serafim, solteiro, carpinteiro, cunhado do dito socio; Francisco Ferreira Pessoa, solteiro, funileiro, com seu fiador, o Reverendo José de Moraes e Carvalho, José Marques, solteiro, carpinteiro de Sampaio, com seu fiador, seu cunhado Augusto José de Figueiredo, já referido; Manoel Rodrigues Ferreira, casado, alfaiate, com seu fiador Antonio Teixeira de Figueiredo, carcereiro da Cadeia d'esta Villa; Ricardo José da Maia, solteiro, caeador, com o fiador seu pae Antonio d'Almeida Paçarico, pedreiro; Bruno José d'Almeida, solteiro, espingardeiro, com o fiador seu pae José Bernardo d'Almeida, casado, official de diligencias; José Ferreira Sequeira, caeador, com seu fiador o predito socio Augusto José de Figueiredo; José Maria da Silva, solteiro, official de alfaiate, com seu fiador Joaquim d'Almeida, casado, sapateiro; Thomaz da Gama e Mello, solteiro, offucial de sapateiro, com seu fiador José Marques d'Almeida, casado, jornaleiro; e Domingos Simões Marques, solteiro, official de alfaiate com o fiador seu pae Marcellino Simões, casado, jornaleiro, estes dois socios menores de vinte e um annos, mas maiores de quatorse, todos os outros bem como os fiadores de maior edade, e Marcellino Corrêa, solteiro, lavrador, com seu fiador seu pae José Corrêa, casado, lavrador, ambos de maior edade, todos moradores n'esta Villa, meus conhecidos e das testemunhas ao diante nomiadas e assignadas, de que dou fé. Por todos os socios, directores e Presidente foi dito que tinham resolvido criar uma Philarmonica denominada =Philarmonica Vouzellense= não só para se recriarem, mas para tocarem aonde forem convidados, mediante qualquer ajuste: Que esta sociedade é feita pelo tempo de dez annos, podendo, depois d'este tempo, continuar a mesma sociedade com os socios que quizerem continuar, ou outros que de novo entrarem. Pelo Presidente foi dito que tomava sobre si a guarda do regulamento original, dando depois uma copia autentica [2 v.] para a direcção; e quando algum socio der cauza a que seja precizo por o regulamento em juizo serão todas as despesas feitas a custa daquelle que der cauza; que qualquer certidão que seja pedida a requerimento de parte, será paga por quem a pedir; os socios e seus fiadores ficam sugeitos a quaes quer despesas que os directores façam com os instrumentos e outros objectos necessarios. Pelos directores foi dito mais que se obrigavam a tomar sobre si a direcção da presente Philarmonica tomando cada um a seu cargo a direcção seis mezes cada anno, salvo para casos que sejam precisos ambos de dois; quando porvintura não possa cumprir aquelle a quem pertença officiará um ao outro para fazer as suas vezes, e no caso que nem um nem outro possam, de accordo com o Presidente nomiarão interinamente quem suas vezes faça. Que os socios muzicos, por si e na qualidade indicada, se obrigão mais a observar o regulamento que se acha asignado pelo Presidente o Excellentissimo João Telles do Loureiro Cardoso de Figueiredo e Almeida: E pelos directores João Antonio de Figueiredo e Manoel d'Almeida Costa Casaes, que é escripto em oitavo de quinze folhas contendo cincoenta e quatro artigos que n'este acto foram lidos perante todos [sic] e que tambem vão assignados por todos e que hade ser transcripto no traslado d'esta Escriptura, ficando d'elle fazendo parte, pois fica sendo sua lei e como tal o reconhecem para todos os effeitos legaes, independetementemente [sic] d'outra qualquer formalidade; e bem assim pelos ditos socios muzicos e seus fiadores, foi mais dito que não só se sugeitavam ás condições que ficam estipuladas e ao regulamento, mas a qual quer alteração que seja precisa fazer-se sendo approvada pela direcção e maioria dos socios. E pelos mencionados directores foi mais dito que se obrigavam a bonar [sic] toda e qual quer quantia necessaria para a mesma, mas sim qualquer socio que tenha meios terá de pagar o seu instrumento d'entro do pago alias do praso de meio anno, e aquelle que não tiver ser-lhe-ha descontado nas cotas que tiver havendo cofre. E n'este acto foi tambem presente Domingos Rodrigues de Sequeira, solteiro, maior, official, digo maior, Secretario da Administração d'este concelho, e morador n'esta Villa, [3] que disse aceitava de Secretario da presente sociedade, tomando a seu cargo as obrigações que lhe são impostas no regulamento já mencionado. E por todos o Excellentissimo Presidente, directores, socios e fiadores mencionados foi outro sim dito que acceitavam esta Escriptura na sua forma com todas as condições e obrigações n'ella impostas, sugeitando-se todos ao inteiro cumprimento d'ella sob a obrigação de sua pessoa e bens. Assim o disseram, acceitaram e outorgaram e eu acceitei a bem dos auzentes a quem tocar possa, sendo testemunhas presentes a este acto José Agostinho Ferreira, casado, proprietario, e José Augusto Ferreira, casado, alfaiate, ambos maiores e d'esta Villa, e a rogo dos que não sabem escrever assigna Alfredo Augusto Ferreira e Silva, solteiro, professor do insino [sic] primario em Rio Muinhos e actualmente residente n'esta mesma Villa, a quem rogaram para o fazer, que todos assignaram depois de lida por mim Manoel da Silva Tavares Junior, Tabellião publico de Notas, que Escrevi e assignei em publico e raso.
                                              
Em test.º MSTJ de verd.e
O T.am Manoel da Silva Tavares Junior

João Telles de Loureiro Cardozo de Figueiredo e Almeida
João Antonio de Figueiredo
Manoel d'Almd.ª Costa Casaes
Domingos  Rodrigues de Sequeira
Augusto Jose de Figd.º
Jose Marques
Francisco Ferreira Pessoa
Thomaz da Gama e Mello
Joze Marques de Almeida 
Domingos Simões Marques
Marsalino Simois
Ricardo Joze da Maia
João Ferreira Sequeira
Bruno Joze de Almeida
Jose Bd.º de Almd.ª
P. e  Jose de Moraes Carvalho
Jose Maria da Silva
Manoel Roiz Ferr.ª
Antonio Teixr.ª de Figd.º

A rogo,
Alfredo Augusto Ferreira da Silva
Jose Augusto Ferreira

J.e Agostinho Ferr.ª   
______________________________
(1)- Os nossos agradecimentos à Dra. Raquel Ferreira que nos cedeu o documento.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Quarta feira de cinzas

Imagem dos anos 50- a partir daqui

Não nos comovem as desculpas. Sabemos que os tempos são outros, mas nada justifica que não se protejam as marcas da nossa identidade e que delas não façamos as coordenadas do nosso (desejado) desenvolvimento. Património cultural é precisamente isso: tudo o que reflete aquilo que fomos e nos explica muito do que somos. Mas esse talvez seja o motivo que justifica tanta indiferença. Talvez haja quem acredite que, apagando o passado, consegue "limpar" as asneiras do presente.

Foi recordando o passado que o presidente da assembleia- geral da Sociedade Musical Vouzelense apelou à unidade e iniciativa dos vouzelenses para ultrapassar os obstáculos do presente. Sabe do que fala. Há cerca de seis décadas que acompanha as coletividades locais que só graças ao engenho e à solidariedade dos seus dinamizadores se mantiveram à tona da água. Já por aqui recordamos o espírito que animou os pioneiros da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", com objetivos que iam muito para além das quatro linhas. Idêntico exemplo encontramos em todas as outras: poucas ou nenhumas ajudas oficiais, muita vontade coletiva.

Talvez valha a pena recordar um pouco da história do Monte Castelo. Até 1908, não passava de um cabeço despido de vegetação, bem registado em muitas imagens já aqui publicadas. Depois, um grupo de homens decidiu lançar mãos ao sonho e começar a "desenhar" o que hoje lá se encontra. Há registos de trabalhos individuais de construção de miradouros, limpeza de espaços, plantação de árvores. É verdade que a Comissão de Iniciativa, criada em finais da década de vinte, deu um importante impulso à obra, mas o fundamental continou a dever-se à vontade coletiva. Procurem-se os arquivos do "Correio de Vouzela" (antecessor do atual periódico local) e lá encontram o registo de vouzelenses que, na altura, estavam a criar, nos seus quintais, as árvores que constituiram o início da mata. O sentimento de pertença por parte da população era tal que, na década de 50, quando se decidiu transferir a gestão do Castelo para os (então) poderosos Serviços Florestais, ninguém conseguiu calar a revolta, traduzida numa violentíssima polémica que, apesar dos tempos que se viviam, encheu, durante anos, páginas e páginas do "Notícias de Vouzela".

Numa época de imediatismos e de pouca reflexão, talvez valha a pena olhar um pouco para o passado e, com a sua ajuda, encontrar as coordenadas, tentar perceber como outras crises foram enfrentadas através da vontade coletiva que se impôs por entre a selva de interesses das diretivas "oficiais". Porque, tal como hoje, a resolução dos problemas não foi conseguida por um qualquer governo, mas antes... apesar dele.

quinta-feira, outubro 21, 2010

A propósito do novo edifício para a Banda de Vouzela


Longe de nós querer "meter a foice em ceara alheia" e pôr em causa a necessidade de novas instalações para a Sociedade Musical Vouzelense (SMV). Pela sua história e serviços prestados, merece tudo. Do que duvidamos, é da continuação desta "lógica" de optar, sempre, por construir novo, em vez de recuperar.

Quando, em finais dos anos 50, os irmãos Pimenta (conhecidos emigrantes vouzelenses no Brasil) fizeram uma importante doação para o "Prédio das Colectividades", a ideia era juntá-las (banda, bombeiros e "Vouzelenses") em instalações comuns. Quando a obra acabou, rapidamente se percebeu que o projecto inicial não era adaptável às necessidades de todas e, a pouco e pouco, acabou por ficar limitado a instalações dos bombeiros.

Mais tarde, foi a vez de "Os Vouzelenses" conseguirem a sua sede. Quem a conhece, sabe que é insuficiente e pouco funcional, não permitindo, sequer, que o arquivo do clube esteja devidamente protegido.

Em qualquer destes exemplos (há mais!) costuma falar-se em deficiente planeamento, mas, pela nossa parte, limitamo-nos a um argumento mais básico: falta de dinheiro. Ela condiciona qualquer projecto e, antes disso, qualquer projectista. Depois, acaba-se por fazer "qualquer coisinha", obra nova ocupando terrenos e capitais, inaugurada com pompa e circunstância mas que, pouco tempo depois, não chega para as necessidades. E a dúvida permanece: não teria sido possível adaptar um edifício já existente? Claro que, no final dos anos 50, isso não era possível. Mas já talvez o fosse quando "Os Vouzelenses" lançaram mãos à obra, apesar dos seus objectivos irem muito além da simples criação de uma sede. Passados todos estes anos, como é possível nada termos aprendido com as experiências anteriores?

Todos sabemos que este "vício" da obra nova foi regra em todo o território nacional. Pavilhões, centros de dia, edifícios escolares, habitações, foram ocupando os espaços, em "mancha de óleo", construindo muito, mas urbanizando pouco (no que este conceito representa de planeamento). Por isso mesmo, Portugal foi, durante muitos tempo, apontado como o país da União Europeia que mais construía e menos recuperava. O resultado está à vista. No território e nos nossos bolsos.

Uma das justificações avançada para este estado das coisas é a de que é mais barato construir do que recuperar. Ora, na nossa modesta opinião, é precisamente aqui que "a porca torce o rabo". A menos que todos os outros países sejam burros e a inteligência seja um exclusivo desta "ocidental praia lusitana", o argumento é falso. O que talvez aconteça é que a falta de formação de grande parte dos profissionais da nossa construção, torna mais raro (e caro) os que têm conhecimentos para fazer algo mais do que amontoar tijolos. O que talvez aconteça é que, mesmo entre profissionais altamente habilitados como engenheiros e arquitectos, acaba por ser mais fácil despachar a coisa com um qualquer paralelepípedo supostamente adaptável a todos os meios e circunstâncias, do que estar a fazer estudos de materiais e a coordenar trabalho com oficiais de artes diversas. Por último, mas não menos importante (antes pelo contrário), talvez as entidades financeiras tenham encarado tarde de mais, as potencialidades do mercado do restauro para a concessão de crédito. Talvez...

Lemos no "Notícias de Vouzela" que a Sociedade Musical Vouzelense pensa construir "um auditório (palco e plateia), bar de apoio, várias salas para formação, gabinetes e garagens". Na mesma notícia, o presidente da colectividade afirma que todos "vamos beneficiar: a SMV que fica com condições para os ensaios e para o funcionamento da Escola de Música; a comunidade que terá um espaço para espectáculos". Ora, "espaço para espectáculos", já tem. É o cine-teatro, pelos vistos mais uma obra mal pensada, caso contrário bem gostaria de ter as suas portas mais tempo abertas, quer para os ensaios, quer para os espectáculos da nossa Banda. Se assim tivesse sido, ficavam a faltar as salas para formação, os gabinetes, arrumações e, eventualmente, um bar de apoio. Têm mesmo a certeza de que não teria sido possível adaptar um edifício já existente?

sábado, fevereiro 20, 2010

Aniversários

Mestre: Paulo Figueiredo. 1º plano, da esquerda para a direita: Cosme José Joaquim, Manuel Maia, José Grosso, Emídio Tinoco e António Militar. 2º plano: Augusto Azilado, Manuel Pifre, Jacinto Moleiro, Paulo do Bernardo, Manuel Marceneiro e António do Paulo. 3º plano: Ernesto Cabaço, José do Paulo, António Carvalho, Paulo Masgalos, António Duque e Francisco Empreiteiro. Último plano: António Macaca, Manuel da Leopoldina, Manuel da Rosária e António de Passos. O Notícias de Vouzela referia, ainda, os nomes de António Dias e Abel Painço, que não estavam na imagem.

Este ano não param as festas de aniversário em Vouzela. Para além dos 80 anos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", comemoram-se os 130 anos da Banda de Vouzela (79 da Sociedade Musical Vouzelense) e os 75 do Notícias de Vouzela. Recorrendo a este último, fomos encontrar, na sua edição de 1 de Novembro de 1956, uma curiosa imagem da Banda, com a respectiva legenda. É de 1908, chamava-se Phylarmonica de Vouzela e tinha a sede no hospital velho (São Sebastião).