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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Quarta feira de cinzas

Imagem dos anos 50- a partir daqui

Não nos comovem as desculpas. Sabemos que os tempos são outros, mas nada justifica que não se protejam as marcas da nossa identidade e que delas não façamos as coordenadas do nosso (desejado) desenvolvimento. Património cultural é precisamente isso: tudo o que reflete aquilo que fomos e nos explica muito do que somos. Mas esse talvez seja o motivo que justifica tanta indiferença. Talvez haja quem acredite que, apagando o passado, consegue "limpar" as asneiras do presente.

Foi recordando o passado que o presidente da assembleia- geral da Sociedade Musical Vouzelense apelou à unidade e iniciativa dos vouzelenses para ultrapassar os obstáculos do presente. Sabe do que fala. Há cerca de seis décadas que acompanha as coletividades locais que só graças ao engenho e à solidariedade dos seus dinamizadores se mantiveram à tona da água. Já por aqui recordamos o espírito que animou os pioneiros da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", com objetivos que iam muito para além das quatro linhas. Idêntico exemplo encontramos em todas as outras: poucas ou nenhumas ajudas oficiais, muita vontade coletiva.

Talvez valha a pena recordar um pouco da história do Monte Castelo. Até 1908, não passava de um cabeço despido de vegetação, bem registado em muitas imagens já aqui publicadas. Depois, um grupo de homens decidiu lançar mãos ao sonho e começar a "desenhar" o que hoje lá se encontra. Há registos de trabalhos individuais de construção de miradouros, limpeza de espaços, plantação de árvores. É verdade que a Comissão de Iniciativa, criada em finais da década de vinte, deu um importante impulso à obra, mas o fundamental continou a dever-se à vontade coletiva. Procurem-se os arquivos do "Correio de Vouzela" (antecessor do atual periódico local) e lá encontram o registo de vouzelenses que, na altura, estavam a criar, nos seus quintais, as árvores que constituiram o início da mata. O sentimento de pertença por parte da população era tal que, na década de 50, quando se decidiu transferir a gestão do Castelo para os (então) poderosos Serviços Florestais, ninguém conseguiu calar a revolta, traduzida numa violentíssima polémica que, apesar dos tempos que se viviam, encheu, durante anos, páginas e páginas do "Notícias de Vouzela".

Numa época de imediatismos e de pouca reflexão, talvez valha a pena olhar um pouco para o passado e, com a sua ajuda, encontrar as coordenadas, tentar perceber como outras crises foram enfrentadas através da vontade coletiva que se impôs por entre a selva de interesses das diretivas "oficiais". Porque, tal como hoje, a resolução dos problemas não foi conseguida por um qualquer governo, mas antes... apesar dele.

domingo, agosto 07, 2011

Bem lembrado


Lembrou-se o nosso conterrâneo "Humano és". Foi há um ano, no domingo das Festas do Castelo, 80 anos depois da inauguração das Chãs. Histórias que convém não esquecer.

sexta-feira, março 18, 2011

Revisitar o passado

Os fundadores da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", retirado de "Os Vouzelenses" 80 anos- Imagens com histórias.

Quando, em 1929, uma outra crise avisou o mundo dos limites do sistema e por aqui ruiam as esperanças de se encontrar uma via democrática para a dignidade humana, um grupo de vouzelenses aproveitou a criação de um simples clube de futebol para ensaiar soluções solidárias, afastadas das esferas dos poderes e unicamente alicerçadas na vontade dos homens. Os estatutos iniciais da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", mais não eram do que o enunciar dos princípios mutualistas, tentando que a mobilização conseguida pelo espectáculo da bola conseguisse dar resposta às muitas carências então sentidas.

É curioso concluir que, hoje, mais de oitenta anos percorridos, encontramos idêntica tentação em figuras públicas, homens habituados às refregas políticas na esferea partidária. Nós próprios- reconhecêmo-lo- sentimo-nos, por vezes, a trilhar esse caminho, quando propomos mais cooperação entre as empresas do concelho e o assumir das "marcas" Vouzela e Lafões como desígnios comuns. Tal como há oito décadas atrás, está em causa a falta de confiança nos aparelhos dominantes e a esperança de que os cidadãos, através da sua iniciativa, consigam romper o círculo vicioso das falsas alternativas.

No dia 12 de Março, cerca de 200 mil pessoas desfilaram na Avenida da Liberdade e mais uns largos milhares manifestaram-se no resto do país contra a precariedade, a falta de perspectivas, em suma, o estado a que isto chegou. Foram protestos sem lideranças assumidas, de megafone aberto, onde quem queria dizia o que lhe apetecia, apenas com um elemento em comum: estarem fartos! A tudo isto, o governo respondeu com a indiferença. O mesmo já tinha acontecido após as jornadas de luta de 2008 e 2010. As forças políticas dominantes podem ter suspirado de alívio e concluído manterem o controlo das manobras de propaganda, mas, para o cidadão comum, isso não passou de mais uma prova de que existem dois mundos paralelos sem pontos de encontro (a não ser de quatro em quatro anos): o deles e o nosso. Este sentimento de já não haver conversa possível, ou é o ponto de partida para a afirmação de novas alternativas sutentadas numa maior participação popular, ou arrisca-se a ser o toque a finados da própria democracia.

PAGAR NACIONAL, SOFRER (E AGIR) LOCAL

Primeiro vieram os deputados do PS eleitos pelo distrito de Viseu. Seguiram-se, claro está, os do PSD. Naquela jeito de encarar o país como um conjunto de empreitadas, visitaram "obra". Naquele jeito de encarar a função parlamentar como um concurso de audiências, comprometeram-se a levar recados. Tenha-se em conta de que estamos a falar de pessoas que, pela sua função, têm acesso a informações privilegiadas, a estudos que muito úteis podiam ser a quem, desesperadamente, procura a saída do buraco. Gente que, num momento como o que vivemos, podia apontar alternativas, dar sugestões. Nada disso. São homens nados e criados nas incubadoras de ideias de como gastar fundos e outras ideias não têm. Para agravar a coisa, também já não têm fundos, gastos em obra que foi um fim em si mesma, em vez de princípios facilitadores para reorganizar actividades e reorientar investimentos. Obra, por incrível que pareça, insuficiente, como ficou claro na intervenção do presidente da Junta de Queirã que ainda reivindica... saneamento básico. Básico, sem dúvida.

Quando, em 1929, os fundadores da Associação de Futebol "Os Vouzelenses" tentaram criar condições para resolver localmente o que já não acreditavam que viesse a ser resolvido pelas cúpulas nacionais, podem ter sido ingénuos, ter arranjado uma carga de trabalhos (e alguns arranjaram...), mas reflectiam a desconfiança que então se sentia nas "lideranças" e manifestavam uma profunda confiança nos cidadãos. Oitenta anos passados, vale a pena revisitar esses exemplos a que hoje, se quiserem, até podem chamar "redes sociais", assim a modos que um "Facebook" ao vivo. Adiciono já como amigo.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Nas Chãs, com direito a camarote

Equipa da Sociedade Musical Vouzelense no campo das Chãs, com a bancada de madeira em fundo

Andava o mundo aos tiros lá pelos idos de 40, quando por estas terras se viveu um surto tal de enriquecimento que a muitos fez corar de vergonha. "O mal de uns é o bem de outros", seria a explicação do fenómeno que torto nasceu e nunca se endireitou: o volfrâmio. Mestre Aquilino comparou-o ao maná bíblico e são muitas as histórias de charutos acesos com notas, ou de reluzentes canetas de ouro a ornamentar o bolso de peito de analfabetos. A verdade é que já durante a 1ª Guerra Mundial a loucura foi tão grande, que o próprio Monte do Castelo foi esventrado e a estrada romana levantada na busca do metal e em plena década de 50, os poucos automóveis registados no concelho de Vouzela, ainda tinham significativa concentração nas freguesias da mineração. Adiante.

Numa antecipação do que se viria a registar cinquenta anos mais tarde, aquando da boom da "política de betão", o futebol beneficiou da abundância. Muito dinheiro foi investido na contratação de jogadores e o campos das Chãs foi melhorado. Um dos melhoramentos, foi a construção de uma vistosa bancada em madeira trabalhada, com geral e camarotes de onde se imagina sair o fumo dos charutos acesos- quem sabe?- com notas de conto.

É essa bancada que se mostra na imagem, durante a festa comemorativa do XII aniversário da Sociedade Musical Vouzelense, em 14 de Fevereiro de 1943. Em primeiro plano, a garbosa equipa de músicos que, pelo "porte atlético", imaginamos ser a dos "casados". Exibem o equipamento emprestado pela Associação de Futebol "Os Vouzelenses" e... a sombra do fotógrafo.


Esta e outras curiosidades podem ser encontradas na publicação com que "Os Vouzelenses" decidiram comemorar os seus 80 anos de vida: "Imagens com histórias". Vai ser lançado durante as Festas do Castelo, registando a inauguração das Chãs que, graças ao capital dos seus fundadores e ao trabalho voluntário de muitos populares, abriram pela primeira vez as "portas" no domingo das festas de há 80 anos. Lá estaremos, no "Jardim", local onde os registos dizem ter nascido o clube, numa altura em que era conhecido por Alameda da Corredoura e ornamentado por tílias. Com textos de Fausto Carvalho, Gil Campos, Girão de Almeida e João Abílio Martins, é um trabalho da Deriva Editores. Arranjos gráficos da "nossa" Filipa e tratamento de imagem da FotoBela. Dia 7 de Agosto, pelas 16 horas.

quinta-feira, abril 22, 2010

A Revolução... dos desejos

Em semana do 25 de Abril, justifica-se recordar o tempo em que a Associação de Futebol "Os Vouzelenses" tentou impulsionar uma renovação de valores no futebol local. Apontaram-se caminhos para uma revolução de práticas. Como em muitas outras áreas aconteceu, ficou-se pela revolução... dos desejos. É mais um episódio dos 80 anos que se comemoram.

Em Setembro de 1974 foi divulgada uma proposta, assinada por Bandeira Pinho, que cortava com princípios organizativos anteriores. Privilegiava a prática desportiva saudável que pretendia massificar, desvalorizava os resultados, substituía a figura do presidente por uma comissão directiva, transferia para os jogadores as decisões sobre equipas e tácticas, impunha a publicação trimestral de todas as receitas e despesas.

Pouco depois, houve eleições para os corpos directivos da Associação. A única lista candidata, de que faziam parte todos os jogadores seniores, adoptou o documento como programa- foi eleita por aclamação. Logo a seguir, enviaram a seguinte circular a todos os clubes do distrito de Viseu:

“(…)
A Direcção de ‘Os Vouzelenses’, composta por todos os jogadores e alguns dos muitos amigos do nosso clube (…) está decididamente disposta a colaborar na dignificação do desporto nacional.

A Direcção de ‘Os Vouzelenses’ quer afirmar a esse simpático clube que está disposta a lutar pela melhoria do comportamento em todos os campos de futebol.

‘Os Vouzelenses’ afirmam, desde já, que estão dispostos a ser dignos adversários.

‘Os Vouzelenses’ saberão lutar pela conquista da paz nos campos por onde passarem.

‘Os Vouzelenses’ estão dispostos a ajudar à instauração da disciplina, da amizade e camaradagem entre todos os clubes.

‘Os Vouzelenses’ dão as mãos ao vosso clube.

Juntos saberemos lutar por um desporto melhor.

(…)”

Se terminasse aqui, a história teria final feliz. Mas não terminou e a continuação não teve tão nobres princípios. Os novos dirigentes recusaram participar no que consideraram "uma manobra para manter no poder a direcção da Associação de Futebol de Viseu". Coincidência ou não, "Os Vouzelenses" foram alvo de uma chuva de castigos, viram as Chãs interditadas e a permanência na 1ª Divisão Distrital só foi garantida na última jornada. Pelo meio, houve invasões de campo e pancadaria de criar bicho. A "conquista da paz" ficou adiada...

Mas, o que interessa é a intenção e nem sempre a realidade acompanha o passo dos desejos. Além do mais, como por aí se ouve, o 25 de Abril ainda não chegou ao futebol.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

80 anos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses": apontamentos históricos-III



Nesta terceira e última parte, o Dr. Telmo refere o período mais recente da vida dos Vouzelenses. Numa gravação feita durante o jantar/ debate do passado dia 5 de Janeiro, pela Vouzela-FM.

80 anos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses": apontamentos históricos-II



Depois da caminhada percorrida desde a fundação até aos tempos áureos do volfrâmio, esta segunda parte aborda a indefinição que caracterizou os anos 50 e os apoios iniciais para a aquisição de uma sede.

80 anos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses": apontamentos históricos



Estão a decorrer as diversas actividades comemorativas do 80º aniversário dos "Vouzelenses". Depois de inaugurada uma exposição no Museu Municipal e homenageados os fundadores, realizou-se em 5 de Janeiro, um jantar/ debate comemorativo da aprovação dos Estatutos iniciais, e um segundo, no passado dia 23, altura em que, em 1930, o Governo Civil de Viseu reconheceu a existência da associação.

Um dos aspectos mais interessantes deste conjunto de iniciativas, é revelarem a consciência de que a preparação do futuro do clube, obriga a uma reflexão sobre a sua história, identificando o que esteve na origem dos seus melhores momentos e, também, dos seus fracassos. De facto, iniciada com a clara consciência de dever prestar um serviço público (como já aqui realçamos), a Associação de Futebol "Os Vouzelenses" nem sempre soube resistir aos "cantos de sereia" de um estrelato pouco sustentado, que inevitavelmente a lançou nas fases mais complicadas do seu percurso.

O documento áudio que publicamos (a partir de uma gravação da Vouzela-FM e dividido em três partes), regista um momento do debate do dia 5 de Janeiro, quando o Dr.Telmo Teixeira de Figueiredo- talvez o homem que mais vezes esteve ligado aos corpos dirigentes dos "Vouzelenses"- apresentou alguns apontamentos sobre a história da colectividade. Vale a pena ouvi-lo.

Já agora, também vale a pena ajudar o clube através da aquisição do "kit aniversário", que, para já, está disponível na sede, ali na Av. Comendador Correia de Oliveira. Depois, vale a pena acompanhar todas as iniciativas(1) que ainda vão ser organizadas e onde se pode revisitar um pouco da História de Vouzela- é que raras vezes se encontra uma identificação tão grande entre o percurso de uma colectividade e o da terra que a viu nascer.
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(1)- O programa dos 80 anos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", prevê, ainda, a inauguração do relvado sintético das Chãs e a publicação de um conjunto de documentos que ilustram momentos significativos da sua caminhada.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Quando as botas (dos adversários) eram "providas de brochas e pregos salientes"


A Associação de Futebol "Os Vouzelenses", iniciou o ciclo do seu 80º aniversário. Pensada em 10 de Novembro de 1929, viu os seus estatutos aprovados em 5 de Janeiro de 1930 e, em 10 de Agosto desse ano, durante as Festas do Castelo, inaugurou o campo das Chãs- por uma vez, uma obra foi rápida em Vouzela. Para comemorar a efeméride, o Pastel de Vouzela vai continuar a publicar alguns apontamentos sobre a colectividade, na linha do que já fizemos no passado dia 11 de Novembro com uma breve referência aos Estatutos iniciais.

Estava-se em 1938 e os Vouzelenses acabavam de atravessar um longo período de inactividade. No entanto, logo em Fevereiro era dada notícia de importante doação para reabilitar o campo e publicavam-se apelos inflamados ao reavivar do entusiasmo de "há 6 e 7 anos". Os jogos iam recomeçar.

Em 20 de Março de 1938, Vouzela mobilizou-se para receber a equipa do Escola Livre d'Azemeis, acompanhada de numerosa legião de adeptos. Recepção ao estilo do tempo, envolveu filarmónica e fogo de artifício, a que se seguiram discursos de forte pendor patriótico e um prolongado almoço no Monte Castelo que terminou por volta das quatro da tarde. O jogo veio depois.

Jogadores alinhados, directores em campo, troca de galhardetes (mais precisamente, uma jarra com o emblema da Escola de Oliveira de Azemeis e um ramo de flores) e escolha do árbitro. Dezassete minutos após o início, já se registava um empate a uma bola e alguma violência que, a acreditar na crónica de R.X.(1), se devia, apenas, às atitudes do adversário e à complacência do juiz da partida. Ainda a primeira parte não tinha acabado e já o guarda-redes vouzelense (Bernardino) era obrigado a abandonar por lesão, sendo substituído por um jogador de campo (Ângelo). Quando chegou o intervalo, o resultado equilibrado contribuiu para acalmar os ânimos: 3-3.

Oito minutos após o início do segundo tempo, os Vouzelenses adiantaram-se no marcador e estabeleceram o resultado final: 4-3. Em resposta, os visitantes reforçaram as atitudes violentas, havendo notícia de lances disputados à bofetada e de sangue a escorrer das pernas e do tronco de Ângelo que, apesar de tudo, se manteve em campo "defendendo de toda a forma que lhe é possível". Aumentava o nervosismo na assistência.

Decorria o 21º minuto da segunda-parte quando a situação se descontrolou de vez: "o público invadiu o terreno e assistimos então a uma sessão de box". Dezoito minutos de pancadaria de "criar bicho" que devem ter marcado a primeira invasão de campo registada nas Chãs. Apesar de tudo, conseguiram terminar o jogo.

No final da sua crónica, o repórter sublinhava: "Enquanto a maior parte dos jogadores vouzelenses iam à farmácia, tivemos ocasião de vêr, na séde da Associação, que as botas de futebol com que os escolares jogaram, eram providas de brochas e pregos salientes, sem respeito algum pelas regras futebolísticas!". Nada que impedisse a merenda que se seguiu...

Para a história, regista-se a constituição da equipa de Vouzela: Bernardino, Carvalho e Teles; Ângelo, Alexandre (cap.) e Vitória; Pepe, Frederico, Silvestre, Fernado e Pinto.
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(1)- Notícias de Vouzela, 1 de Abril de 1938. "R.X", talvez tenha sido uma adaptação local do famoso "Repórter X".

quarta-feira, novembro 11, 2009

Uma faceta menos conhecida da Associação de Futebol "Os Vouzelenses"

Primeira e última páginas dos estatutos que legalizaram a Associação de Futebol "Os Vouzelenses". São perceptíveis as assinaturas dos fundadores: Joaquim de Souto e Melo, Vitorino Figueiredo de Almeida Campos, António Francisco de Paiva, Celso Ilídio da Silva Giestas, Guilherme José Joaquim Cosme, Elmano dos Santos Ferreira Dória, Paulo de Figueiredo, Luís de Sousa, João Ferraz de Melo Cardoso, Afonso Augusto de Figueiredo, António Ribeiro Bordonhos, José Cardoso de Barros, Aurélio Henriques Almeida Oliveira, Francisco Pinto Gomes, Bernardo Caixa, António Henriques dos Santos, António Joaquim de Almeida Campos.

Esteve para se chamar "Clube de Futebol Os Vouzelenses", porque um dos sócios fundadores era do Belenenses (1). Devido ao sportinguismo de outro, teve as primeiras camisolas verdes e brancas. Mas outras influências acabaram por marcar os primeiros passos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", pensada há 80 anos (10 de Novembro) por um grupo de jovens sedentos de actividade, mas estruturada por outros, menos jovens, conscientes de que, na Vouzela de 1929, as poucas oportunidades tinham que ser aproveitadas e que nem só de bola vive o homem.

Década terrível a de 20, iniciada com memória bem viva de uma guerra há pouco terminada, agravada por uma pandemia, a "Pneumónica" (que obrigou a ampliar o cemitério de Vouzela) e concluída com o despoletar da "Grande Depressão". Pelo meio, Portugal viu instaurada a ditadura (1926) e Vouzela ficou sem a Comarca (1927). No entanto, talvez tenha sido a necessidade de contrariar todas estas adversidades que aguçou o engenho e a vontade, fazendo dessa mesma década um marco de realizações no Concelho.

Foi neste contexto que nasceram "Os Vouzelenses" e é ele que reflecte nas preocupações que lhe deram origem. De facto, da leitura dos seus primeiros estatutos (aprovados em 5 de Janeiro de 1930), fica-se com a ideia de que se procurou ir muito mais longe do que simplesmente criar um clube de futebol, que se aproveitou o pretexto para lançar aqueles jovens num trabalho solidário com uma população cheia de carências.

Logo no artigo 1º podia ler-se: "Sob a denominação 'Os Vouzelenses' é formada uma associação de desporto, instrução, educação cívica e auxílio mutuo(...)"(2). Mas no artigo 3º, ia-se mais longe: "Com o objectivo de instruir e educar, (desenvolverá) o maior esforço a fim de chamar à Associação o maior número possível de cidadãos, criando aula noturna, promovendo passeios, conferências (...)". No artigo seguinte, vinha a "jóia da coroa": "Prestará assistencia moral e material a todo o associado (...)", prevendo consultas médicas gratuitas, subsídios para medicamentos e auxílio "em qualquer conjuntura em que o associado peça a assistencia da Associação e esta reconheça em Assembleia Geral dever prestar-lha". Para tal, previa-se a acção solidária dos sócios que se disponibilizariam a pagar uma "quota suplementar".

Convém recordar que se estava no Portugal dos anos 20-30. A taxa de analfabetismo ultrapassava os 60% (bastante mais entre a população agrícola), a média de vida limitava-se aos 45 anos para os homens e 49 para as mulheres e a mortalidade infantil atingia valores de 144/1000(3). Vouzela era um concelho quase exclusivamente rural, com uma população a rondar os 15 mil habitantes, número excessivo para as características económicas dominantes e sem a possibilidade de recorrer à emigração (por causa da guerra, primeiro, e da crise económica, depois). A vila terminava na Escola Conde Ferreira, não havia passeios nas suas principais artérias e o chafariz, actualmente no Largo do Convento, estava localizado bem no centro da Praça da República por motivos que nada tinham que ver com a simples decoração...

Da actividade cultural então prevista conhecem-se algumas acções, tais como conferências, aulas nocturnas (ministradas graciosamente por um famoso professor daquele tempo, José Manuel da Silva) e algumas representações teatrais orientadas por António Joaquim de Almeida Campos (autor dos estatutos). Não sabemos se alguma vez foi posta em prática a vertente de solidariedade social, apesar de haver notícia de um forte esforço financeiro feito nos primeiros anos da Associação por alguns dos seus fundadores. No entanto, fica o exemplo daqueles que souberam interpretar o seu tempo e, com conhecimento e imaginação, usar os (poucos) recursos de que dispunham. Foi há oitenta anos (4).
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(1)- Quem quiser conhecer a história da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", tem que consultar duas fontes: o artigo que Afonso Campos escreveu na edição comemorativa publicada pelo "Notícias de Vouzela" em 1979 e o trabalho de Lopes da Costa, arquivado na Biblioteca Municipal. Este último, para além de ser um conhecido estudioso da história de Vouzela, viveu o clube nas diversas dimensões que lhe marcaram os primeiros tempos, tendo sido jogador e membro do seu grupo de teatro.

(2)- Respeitamos a grafia original.


(3)- História de Portugal, José Mattoso

(4)- Os nossos agradecimentos ao actual presidente da Associação, Engº. Aidos, por nos facultar cópia dos Estatutos de 1930.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Para além das “quatro linhas”

(Lápide comemorativa dos 50 anos do campo, que esperamos não se perca no meio do entulho das obras e encontre local condigno no novo espaço)

Chãs é o nome por que é conhecido o campo de futebol de Vouzela. Construído em 1930 com o objectivo de criar um espaço para a prática desportiva, está associado à criação da Associação de Futebol “Os Vouzelenses” que, na realidade, começou por ser muito mais do que um clube de futebol. Vai agora ser requalificado. Esperamos que a iniciativa vá muito para além das “quatro linhas”.

Ainda há não muitos anos, era uma zona predominantemente rural, no caminho que leva à foz do rio Zela. Depois, foi lá construída a Cooperativa Agrícola de Lafões e, mais recentemente, a Escola Profissional. Por um daqueles mistérios da nossa história recente, o local foi-se degradando, atingindo mesmo níveis inadmissíveis de desleixo. Quando se começou a falar na construção de novos equipamentos desportivos (piscina coberta, por exemplo), pensámos que se iria aproveitar para arrumar a casa, fazendo ali uma área de lazer, respeitando as características paisagísticas ainda dominantes. Assim não entenderam os responsáveis locais.

Hoje, no meio do verde e do que resta de algumas quintas, num percurso que devia ser uma das imagens de marca da vila, mas para onde se insiste em empurrar uma “expansão” pouco pensada, deparamo-nos com imagens como a que a fotografia ilustra.


Ficamos a torcer para que os 743 mil euros “sem IVA” que constituem o preço base do concurso público para a requalificação das Chãs, tenham a garantia de um projecto válido de arquitectura que respeite as características do meio e vá para além das “quatro linhas”.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Hoje vamos à bola

A vida não está fácil para os “Vouzelenses”. Para todos, mas agora é mesmo de futebol que estamos a falar. Tendo iniciado a época com uma crise directiva, esteve quase para abandonar a competição na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Viseu. Tal como o país, os nossos “Vouzelenses” têm uma longa experiência de crises. Veja-se, por exemplo, o que era publicado no “Comércio do Porto” de 15 de Outubro de 1949:

“Completa 20 anos de vida no próximo mês de Novembro, a Associação ‘Os Vouzelenses’.
Fundada em maré de entusiasmo, pela gente moça daquele tempo, tendo como finalidade principal o desporto, a educação cívica e o auxílio mútuo, nem sempre logrou viver em mar de rosas e, assim, ao atingir o seu vigésimo aniversário é verdadeiramente precária a sua acção. Apesar de tudo não a quizemos dispensar destas notas, talvez as únicas com que o seu aniversário será recordado!
Foram, se não estamos em erro, Joaquim Souto e Melo, Vitorino Figueiredo de Almeida Campos, António Francisco de Paiva, João Ferraz, Celso Giestas e Guilherme Cosme, os fundadores da colectividade.(...)
Não vingou, como era de desejar, o ideal da primeira hora. A Associação ‘Os Vouzelenses’, ora em franco progresso, ora em maré de abandono, tem vivido aos ‘arrancos’ fazendo dispersar rios de dinheiro. Mas se não foi feliz à nascença, nem por isso deixa de ter a sua história- história que é no final um pouco da própria vida da nossa terra!
E vem a propósito recordar: a primeira e última conferência levada a efeito na sua sede pelo distinto caramulano- o professor José Manuel da Silva; a escola nocturna de onde dois ou três adultos conseguiram sair soletrando; o teatro de amadores em que António Joaquim de Almeida Campos pôs, mais uma vez, à prova, a sua perseverante actividade; a época da ‘promoção’ com o esforçado dr. Eurico Gomes de Almeida; o ano áureo da sua existência com Armando Ribeiro de Almeida na presidência; e tanta e tanta coisa mais (...)”

O texto é longo, pelo que só transcrevemos uma pequena parte. Respeitamos a grafia da época e sublinhamos as ideias principais: para além do desporto, “Os Vouzelenses” foram pensados com o objectivo de promover a “educação cívica” e o “auxílio mútuo”. Tinham “escola nocturna”, grupo de teatro e promoviam conferências. Tudo isto, numa época que começava a ser avessa a associativismos. Quanto a momentos de crise, pelos vistos, já eram familiares. Talvez a reflexão sobre a história da colectividade contribua para ultrapassar a actual. E um bom resultado no “derby” do próximo fim-de-semana, também ajudava.
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Nota: Por coincidência, no momento em que publicávamos este "post", eram detidos dois árbitros da Associação de Futebol de Viseu e dois dirigentes do Lamego, por suspeitas de corrupção. Ao que parece (ver aqui), um dos jogos em que se tentava obter favores, era o que se vai realizar nas Chãs dentro de uma semana. De facto, quando até nos escalões distritais se chega a este ponto, não há dúvida de que o associativismo tem hoje outro significado (16/11/2007).