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quinta-feira, agosto 01, 2013

Vouzela na "Illustração Portugueza" com referências à "Monarquia do Norte"


Illustração Portugueza, II série, Nº 684, 31 de Março de 1919, pág. 256, (Hemeroteca Digital, p.p. 18 e 19) - clique nas imagens para ampliar

Através do Facebook, o Prof. Jean-Pierre Silva alertou-nos para esta publicação da Illustração Portugueza. Trata-se de um  trabalho de divulgação da terra, com as tradicionais referências aos aspetos mais pitorescos. Mas, o mais curioso é a alusão feita aos "últimos acontecimentos", nem mais nem menos que os que a História regista com a designação de Monarquia do Norte. Tratou-se de uma tentativa de restaurar a monarquia, na sequência da situação criada com o assassinato de Sidónio Pais e que teve largo apoio, sobretudo, no norte do país. Vouzela é, habitualmente, referenciada no grupo apoiante desse movimento. Ora, pelo que se lê no artigo da Illustração, as coisas não se passaram bem assim. Não só há referência a grupos de civis, "fieis às instituições republicanas", a guardarem a ponte do caminho de ferro, como se termina com um aberto elogio coletivo: "(...) foi esta vila uma d'aquelas que mais valiosos serviços prestou à causa republicana nos últimos acontecimentos". Aqui está um assunto a merecer maior atenção futura.

Destaque, também,  para as imagens que ilustram o artigo. Cinco delas (não sabemos quais), são anteriores à data da elaboração do texto, já que eram apresentadas como oferta de uma "senhora muito modesta, que deseja ocultar o seu nome". De qualquer modo, chamamos a atenção para a que mostra uma avenida João de Melo de menor densidade e uma alameda (atual jardim) que mais não era que um prolongamento do espaço onde se realizava a feira.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Mostrar Portugal aos portugueses”




"Clicar" nas imagens para ampliar. Estas e muitas mais, aqui

Estava-se em 1930. António Ferro dirigia a revista “Ilustração Portuguesa”, perseguindo o objectivo de “mostrar Portugal aos portugueses”(1). Ensaiava, então, a estratégia que, mais tarde, a partir de 1933, iria aplicar à frente do Secretariado de Propaganda Nacional e que ficaria ligada a iniciativas como a participação nas exposições internacionais de Paris (1937), Nova Iorque e São Francisco (1939), o concurso “A Aldeia mais Portuguesa de Portugal” (realizado em 1939 e onde o concelho de Vouzela marcou presença), a Exposição do Mundo Português (1940).

De acordo com a orientação nacionalista então dominante, procurava-se transmitir uma imagem idealizada de Portugal que sustentasse o pretendido “orgulho português” e adoçasse os olhos com que nos viam do estrangeiro- ao fim e ao cabo, três décadas de democracia não foram suficientes para alterar este fascínio pelo mito.

Foi precisamente António Ferro o autor da ideia. Uma mão- cheia de notáveis, homens da comunicação social, foram metidos num comboio e levados a conhecer o Portugal profundo. Curia, Luso, Bussaco, Aveiro, Vale do Vouga, São Pedro do Sul, Vouzela: “Três dias no Paraíso”. Da viagem, saíram reportagens no Diário de Notícias, Notícias Ilustrado, Eva e Ilustração. São desta última as imagens e as citações que se publicam.

Depois de percorrerem o Vale do Vouga- “três horas de encantamento”- dirigiram-se a São Pedro do Sul. Encontraram o balneário das Termas aberto, mas o hotel fechado. Parece que hoteleiro e câmara andavam de “candeias às avessas”. Manifestaram o seu desagrado, os excursionistas, porque se tratava de “um rincão magnífico do paraíso que o esquecimento turístico aniquilará”. A pressão parece ter resultado, tal como era prometido nos acalorados e obrigatórios discursos que remataram o almoço. E o jornalista adornava: “Em redor, a natureza impressionável e magnânima, desentranha-se em maravilhas alheia às maldades dos homens que a matam com o seu veneno”.

Ainda junto ao balneário, registaram o fascínio pelo Dr. Trinta, director das termas: “Um médico à antiga, bela figura de apóstolo, alegre, bem humorado, enamorado da sua terra e da sua obra. Trinta como este e estava São Pedro na primeira fila das termas peninsulares, que bem o merece!”

Já de regresso a Aveiro, uma paragem em Vouzela onde foram recebidos por uma comitiva dirigida por João António Gonçalves de Figueiredo que teve direito a caricatura. Dirigiram-se ao Castelo- “que não inveja o Bussaco”- e mais uma vez a paisagem a impor-se aos sentidos do articulista: “(...) o mais belo panorama que os meus olhos ainda viram, o rio Vouga no fundo da taça, preguiçoso, o marau, às voltas de capricho. Serrazes a um lado, São Pedro a outro, a cadeia de montanhas, em toda a volta, a recortar o céu magnífico”.

Na despedida, umas taças de Lafões, “vinho fresco, alado, surpreendente (...), um vinho que deve ser, se a minha guela ressequida me não engana, o melhor de Portugal todo (...)”. Parece que estavam trinta e muitos à sombra.

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(1)- in, Dicionário de História do Estado Novo, direcção de Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, vol. I, 1996, pág. 356