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quinta-feira, outubro 21, 2010

A propósito do novo edifício para a Banda de Vouzela


Longe de nós querer "meter a foice em ceara alheia" e pôr em causa a necessidade de novas instalações para a Sociedade Musical Vouzelense (SMV). Pela sua história e serviços prestados, merece tudo. Do que duvidamos, é da continuação desta "lógica" de optar, sempre, por construir novo, em vez de recuperar.

Quando, em finais dos anos 50, os irmãos Pimenta (conhecidos emigrantes vouzelenses no Brasil) fizeram uma importante doação para o "Prédio das Colectividades", a ideia era juntá-las (banda, bombeiros e "Vouzelenses") em instalações comuns. Quando a obra acabou, rapidamente se percebeu que o projecto inicial não era adaptável às necessidades de todas e, a pouco e pouco, acabou por ficar limitado a instalações dos bombeiros.

Mais tarde, foi a vez de "Os Vouzelenses" conseguirem a sua sede. Quem a conhece, sabe que é insuficiente e pouco funcional, não permitindo, sequer, que o arquivo do clube esteja devidamente protegido.

Em qualquer destes exemplos (há mais!) costuma falar-se em deficiente planeamento, mas, pela nossa parte, limitamo-nos a um argumento mais básico: falta de dinheiro. Ela condiciona qualquer projecto e, antes disso, qualquer projectista. Depois, acaba-se por fazer "qualquer coisinha", obra nova ocupando terrenos e capitais, inaugurada com pompa e circunstância mas que, pouco tempo depois, não chega para as necessidades. E a dúvida permanece: não teria sido possível adaptar um edifício já existente? Claro que, no final dos anos 50, isso não era possível. Mas já talvez o fosse quando "Os Vouzelenses" lançaram mãos à obra, apesar dos seus objectivos irem muito além da simples criação de uma sede. Passados todos estes anos, como é possível nada termos aprendido com as experiências anteriores?

Todos sabemos que este "vício" da obra nova foi regra em todo o território nacional. Pavilhões, centros de dia, edifícios escolares, habitações, foram ocupando os espaços, em "mancha de óleo", construindo muito, mas urbanizando pouco (no que este conceito representa de planeamento). Por isso mesmo, Portugal foi, durante muitos tempo, apontado como o país da União Europeia que mais construía e menos recuperava. O resultado está à vista. No território e nos nossos bolsos.

Uma das justificações avançada para este estado das coisas é a de que é mais barato construir do que recuperar. Ora, na nossa modesta opinião, é precisamente aqui que "a porca torce o rabo". A menos que todos os outros países sejam burros e a inteligência seja um exclusivo desta "ocidental praia lusitana", o argumento é falso. O que talvez aconteça é que a falta de formação de grande parte dos profissionais da nossa construção, torna mais raro (e caro) os que têm conhecimentos para fazer algo mais do que amontoar tijolos. O que talvez aconteça é que, mesmo entre profissionais altamente habilitados como engenheiros e arquitectos, acaba por ser mais fácil despachar a coisa com um qualquer paralelepípedo supostamente adaptável a todos os meios e circunstâncias, do que estar a fazer estudos de materiais e a coordenar trabalho com oficiais de artes diversas. Por último, mas não menos importante (antes pelo contrário), talvez as entidades financeiras tenham encarado tarde de mais, as potencialidades do mercado do restauro para a concessão de crédito. Talvez...

Lemos no "Notícias de Vouzela" que a Sociedade Musical Vouzelense pensa construir "um auditório (palco e plateia), bar de apoio, várias salas para formação, gabinetes e garagens". Na mesma notícia, o presidente da colectividade afirma que todos "vamos beneficiar: a SMV que fica com condições para os ensaios e para o funcionamento da Escola de Música; a comunidade que terá um espaço para espectáculos". Ora, "espaço para espectáculos", já tem. É o cine-teatro, pelos vistos mais uma obra mal pensada, caso contrário bem gostaria de ter as suas portas mais tempo abertas, quer para os ensaios, quer para os espectáculos da nossa Banda. Se assim tivesse sido, ficavam a faltar as salas para formação, os gabinetes, arrumações e, eventualmente, um bar de apoio. Têm mesmo a certeza de que não teria sido possível adaptar um edifício já existente?

sábado, julho 18, 2009

A bolha

"Contemplando a crise mundial, os governantes portugueses apressaram-se a dizer que se tratava de um problema 'exógeno', que Portugal 'não estava exposto às hipotecas subprime” americanas nem tinha sofrido de “especulação imobiliária'. A nossa crise, disseram, tinha causas distintas e só se agravou por força desta crise alheia.
Sucede que, na verdade, Portugal sofreu uma bolha imobiliária mais grave que os Estados Unidos: enquanto a americana começou a crescer em 2001, a portuguesa vinha inchando desde 1986. As diferenças quantitativas estão à vista: naquele país existem cerca de 60 casas vazias ou 'secundárias' por cada 1000 habitantes; no nosso, esse número ultrapassa as 140; a habitação média estado-unidense custa cerca de 2,5 orçamentos anuais brutos da família, ao passo que a sua equivalente portuguesa custa 9,5 vezes o respectivo orçamento. Acresce ainda o facto de a maioria das hipotecas contraídas em Portugal serem exemplos acabados de subprime: as suas prestações consomem mais de 40% do orçamento mensal da família, cobrem mais de 80% do valor do imóvel, são amortizadas a três ou mais décadas, e estão indexadas a taxas de juro variável. Por fim, o preço absoluto dos fogos residenciais portugueses raia o incongruente: em Lisboa ultrapassa os 2500 €/m2, quando em Berlim ronda os 1500 €/m2. A rematar o panorama imobiliário português encontram-se os assombrosos números de construções erguidas desde 1986: mais de 50% do parque residencial hoje existente tem menos de duas décadas, e presume-se que entre este se encontre mais de um milhão de fogos desabitados"- Pedro Bingre, ops!, via Pedra do homem
__________
A não perder: o conjunto de textos sobre urbanismo e corrupção do último número da ops!- ZB

sábado, abril 18, 2009

Fala quem sabe

Recomendações da Ordem dos Engenheiros para modernizar e tornar mais eficiente o sistema de licenciamento previsto no Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação e demais legislação:

(…)

4. A arbitrariedade e a discricionariedade têm permitido aplicar regras pouco claras, ou mesmo não publicitadas,que designamos por “ciências ocultas;

(…)

6. O actual modelo de licenciamento urbano não tem sido sinónimo, nem garantia, da qualidade do ordenamento do território, do urbanismo e das construções. Se tivesse cumprido a sua missão não teríamos certamente o desordenamento territorial, a falta de qualidade das construções, a ineficiência energética, as preocupações com os riscos e com a segurança e um sem números de actividades ilegais, mas em funcionamento;

7. Não existe rigor, nem harmonização, nas definições técnicas e na terminologia;

(…)

12. As dificuldades criadas pelo sistema potenciam vantagens competitivas para os técnicos da administração pública, das entidades concessionárias e das entidades fiscalizadoras, seja na elaboração de projectos ou na verificação das condições de conformidade sujeitas à emissão da licença de utilização;

A respeito do mesmo assunto, ler também isto.

quarta-feira, maio 16, 2007

Estes fogos que nos consomem

São dois textos publicados no início deste mês, dois textos que de algum modo nos mostram duas faces do mesmo problema. Ambos se referem ao desconforto que foi dominando as nossas cidades, à apropriação que se foi fazendo do espaço, sem rosto e sem alma, despromovendo o cidadão para a categoria de simples meio ao serviço de mesquinhos fins. Claro que temos que levar em linha de conta as particularidades que transformaram a especulação imobiliária na actividade económica de “excelência” do Portugal contemporâneo. Claro que temos de considerar as limitações existentes nas relações familiares, na educação... no que quiserem. Mas, se reconhecemos a importância do espaço em que vivemos na evolução do indivíduo, então as cidades, o “urbanismo” que temos, são o primeiro factor de perigo com que se confrontam as nossas crianças e jovens. Seguem-se os textos pela ordem da sua publicação (é só "clicar"):

- O J. foi baleado
- A paisagem global 1

De há uns anos a esta parte, quase adquiriu o estatuto de ritual. É daqueles acontecimentos com data certa, como o início da época balnear- é a “época dos fogos”. Repetem-se imagens e explicações. Denuncia-se o desleixo, reflecte-se sobre as particularidades do clima, lamenta-se o abandono dos campos. Uma vez por ano. Poucos se atrevem a reconhecer que uma floresta monocultural de resinosas e eucaliptos (perto de metade da floresta portuguesa), só serve para arder. Pela minha parte, todos os anos, por esta altura, penso no velho comboio do Vale do Vouga, durante muito tempo acusado de ser o incendiário da região. Foi-se o comboio, ficou o fogo e a estupidez dos homens. Mas também a lucidez de alguns que, como o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, deu à revista “Visão”, entrevista que se segue. Em 2003. Nada mais actual.

- Entrevista com Gonçalo Ribeiro Telles