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quinta-feira, dezembro 09, 2010

Vale a pena experimentar...


Sabemos que esta coisa da "democracia electrónica" tem tido "muita parra e pouca uva". Muitas das funcionalidades disponíveis nas páginas das câmaras municipais são, apenas, "para inglês ver" e das complicações do "Simplex" todos conhecemos histórias de sobra. No entanto, os meios de comunicação a distância podem ser (se para isso houver vontade) preciosos auxiliares no contacto entre o cidadão e as instituições, pelo que continuamos a tentar...

No "Portal do Cidadão" está disponível o projecto "A Minha Rua", que permite a qualquer pessoa denunciar situações que necessitem de reparação. Os responsáveis comprometem-se a entrar em contacto com a entidade competente (câmaras, juntas de freguesia...) e informar logo que o problema esteja resolvido. Enfim, vale a pena experimentar... Algumas autarquias locais da região, já aderiram.

Entretanto, vá acompanhando o debate público para a alteração da "Lei dos Solos" (aqui). Já estão disponíveis alguns documentos interessantes, nomeadamente um estudo sobre o que se está a passar em Espanha. Não só não é inevitável o que temos, como, pelo contrário, é altamente suspeito que tão pouco tenha mudado em tanto tempo.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Lei dos solos: fazemos figas para que seja desta.

Imagem retirada do livro "Rua da Estrada" de Álvaro Domingues

Foi o pilar de uma das maiores perversões da economia portuguesa e o enquadramento legal do brutal desordenamento do nosso território. Agora, o governo quer alterá-la até ao próximo Verão, promessa que também já fez em 2007 e 2008. Falamos da famosa "Lei dos Solos", tema que sempre teve lugar destacado no espaço do "Pastel de Vouzela".

Um dos aspectos mais polémicos em debate, tem que ver com a apropriação privada de mais-valias, conseguidas através de investimento público. É a tal história do terreno que integrava a Reserva Ecológica Nacional ou que tinha o estatuto de terreno agrícola e que, de repente, por necessidade ou conveniência, adquiriu o estatuto de urbano. Esta simples alteração, com a criação de infraestruturas que lhe está associada (normalmente a cargo das autarquias), provoca, por si só, uma valorização que reverte, maioritariamente, para o proprietário.

Daqui resultaram situações graves um pouco por todo o país, algumas das quais a levantar fortes suspeitas de ilegalidade, outras com ela bem confirmada. Como se isso não bastasse, várias vezes os cofres do Estado foram usados para resolver situações como as de construções em leito de cheia, ou em zonas costeiras que, por obra e graça sabe-se lá de quem, apareceram com o estatuto certo para levarem com cimento em cima (1).

Agora que o desvario da construção abrandou e a especulação imobiliária deixou de animar entidades financeiras e associados, há quem garanta que, finalmente, estão reunidas as condições para alterar o estado das coisas. Sinceramente, não encontramos motivos para tamanha confiança. Em primeiro lugar, porque o assunto mexe numa área onde, até agora, ninguém foi bem sucedido, desde a monarquia até à actualidade, passando pela República e pelo Estado Novo: o modo como se tem entendido a propriedade da terra. Em segundo lugar, porque as limitações estruturais da nossa economia, fazem da construção civil e da especulação imobiliária, os sectores mais fáceis para criação de emprego e os mais apetecíveis para investimento. Não é por acaso que o conceito de investimento público dos diversos governos tem sempre que ver com cimento e alcatrão. Não será por acaso que, até agora, não houve qualquer reorientação estratégica por parte dos grandes grupos económicos- apenas mudaram de "cenário geográfico", enquanto esperam pelo abrandamento da crise.

Enfim, façamos figas para que seja desta. Para já aguardam-se as conclusões de cinco estudos encomendados pelo governo e a abertura da discussão pública através de várias iniciativas, nomeadamente uma plataforma na Internet (ver aqui). A bem do que resta.
_________________________
(1)- Sem falar dos terrenos de elevado aptidão agrícola que se perderam, por neles ter sido autorizada construção. Esta talvez tenha sido das situações mais escandalosas que se viveram em Portugal, já que era fácil convencer agricultores desesperados, sem perspectivas, a venderem as terras que, depois de obterem o estatuto de "urbanizáveis", com a colaboração de muitas e muitas autarquias locais, viam o seu valor aumentar do dia para a noite.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Presos no cimento


José Sócrates afirmou a sua fé nas medidas do governo para combater o desemprego. A fé move montanhas, mas, por aqui, o Caramulo mantém-se quietinho. De qualquer modo, a intervenção do "Altíssimo" tem largo registo nas páginas das histórias da nossa História e quem resolveu Ourique, não deve, agora, hesitar perante uns míseros 10,2 por cento.

Só que, quando olhamos para as tais medidas, sentimos o chão a ceder e os pés a enterrarem-se- é cimento fresco! TGV, Plano Nacional de Barragens, novo aeroporto, mais auto-estradas... O peso da construção civil na ocupação da mão-de-obra dita as suas leis. Mas também reforça um dos mais graves problemas da nossa economia, dominada por sectores pouco ou nada produtivos, muito dependentes do mercado interno e que abusam do território limitando-o à condição de simples mercadoria- por algum motivo a prometida alteração da "Lei dos Solos" tem vindo a ser sucessivamente adiada (começou por ser anunciada em 2007, passou para 2008, já lá vai 2009 e... continua a passar).

Mas, sejamos crentes, optimistas e acreditemos que, pelo menos, o problema do desemprego será resolvido. Certo? Errado! Com o nível de endividamento dos portugueses e com o excesso de oferta de habitação criado nos anos dourados da "política do betão", é duvidoso que, a nível doméstico, se consiga mercado para justificar a dimensão que o sector adquiriu. Admitindo que a União Europeia vai continuar a financiar o desvario, restam as obras públicas, mesmo assim limitadas no tempo e no espaço. Talvez construir dois aeroportos, um em cima do outro, ou uma auto-estrada até aos Açores...


sexta-feira, maio 01, 2009

É preciso mais

Em Vouzela

"O BE vai apresentar, ainda esta sessão legislativa, um projecto de lei em que propõe que as mais-valias urbanísticas decorrentes de um acto administrativo passem a reverter a 100 por cento para o Estado"- Público, 29 de Abril de 2009.

É um dos "motores" da especulação imobiliária, grande responsável pela "ditadura do betão" que nos vai destruindo o território. No entanto, a iniciativa do Bloco de Esquerda não parece ser suficiente para resolver o problema.

O assunto já foi por nós amplamente tratado e até esteve na origem de um dos mais interessantes movimentos cívicos (ver também aqui) que se organizaram em Portugal. Resumidamente, trata-se da valorização de terrenos através da sua mudança de estatuto (da REN ou da RAN para urbanos) e da construção de infraestruturas através de investimento público, possibilitando a apropriação privada das mais-valias assim conseguidas. Os objectivos destes actos têm levantado as maiores dúvidas e o papel desempenhado pelos poderes públicos (nomeadamente as autarquias) também. A este respeito, recorde-se a denúncia feita por José Sócrates, quando estava à frente da pasta do Ambiente, sobre o facto dos Planos Directores Municipais proporem uma área de construção para uma população três vezes superior à portuguesa.

Só que o problema não se esgota aqui. Os próprios poderes públicos que deviam zelar pelo ordenamento do território, podem estar interessados na marosca. Basta pensar no aumento da colecta conseguido com a mudança do estatuto dos terrenos e a consequente autorização para aumentar a área urbanizável. É esta perversão que não nos parece ficar acautelada com a iniciativa do Bloco de Esquerda. Para o conseguir, é necessário reconhecer o serviço público prestado por aqueles que têm terrenos sujeitos a restrições (sobretudo os que integram a Reserva Ecológica Nacional) e pensar em formas de os compensar.

segunda-feira, julho 14, 2008

Cidadãos da Várzea da Moita: um exemplo de luta contra a revisão do PDM

O processo é o do costume e já aqui falámos nele: terrenos da Reserva Ecológica e da Reserva Agrícola que são comprados por tuta e meia e a que, depois, os novos proprietários tentam alterar o estatuto, de modo a multiplicarem, por muito, o seu valor. A novidade está no modo como os cidadãos da Várzea da Moita se mobilizaram para enfrentar o problema, organizando iniciativas, denunciando e, sobretudo, conseguindo abordá-lo ultrapassando as fronteiras locais, lançando o debate em torno de um dos mais importantes problemas do nosso ordenamento do território: a "Lei dos solos".

Agora, a luta das gentes da Moita percorreu mais uma etapa, enviando uma carta ao primeiro-ministro José Sócrates, onde se denuncia a situação. Recorde-se que o nosso primeiro-ministro é precisamente o mesmo que, enquanto esteve à frente da pasta do Ambiente, soube denunciar as perversões dos Planos Directores Municipais (PDM). O problema é que, desde que chefia o governo, permitiu a adopção de regras para aprovação dos PDM que se arriscam a agravar o problema. Quanto à "Lei dos solos", apesar do seu secretário de Estado do Ordenamento do Território ter prometido que 2008 ía ser o ano do início da sua revisão, até agora nada se viu.

De qualquer modo, é de acompanhar este processo da Moita. Independentemente do resultado final, a reacção dos seus habitantes constitui uma lição que importa reter.

segunda-feira, junho 30, 2008

A propósito da discriminação positiva dos habitantes da REN

Roque Gameiro, Moinho- São Pedro do Sul

A decisão anunciada de discriminar positivamente os habitantes da Reserva Ecológica Nacional, vem relançar um debate de grande importância para um país que, até agora, abusou do seu território, encarando-o como a principal “matéria-prima” do crescimento económico. Assunto melindroso que pode chocar com questões culturais, com crenças centenárias, o uso do solo vai acabar por impor uma reflexão sobre os limites do direito de propriedade. Para já, não vamos por aí. Vejamos, apenas, o que deve justificar a existência de compensações para os proprietários de terrenos abrangidos por regimes de excepção.

Sabe-se como tudo se passou: a urbanização de espaços representou, no nosso país, a actividade económica mais dinâmica durante mais de vinte anos, alimentando uma especulação imobiliária que assumiu foros de escândalo e uma actividade financeira cujos resultados estão agora a ser sentidos no brutal endividamento da população. Portugal tornou-se no país da União Europeia com maior consumo de cimento, aquele que mais construiu e menos recuperou e, ainda, o que urbanizou maior percentagem da sua faixa costeira.

Esta perversão foi alimentada pela relativa facilidade na concessão de crédito, pelo desespero dos agricultores (à falta de melhor, aproveitaram a oportunidade para venderem as terras) e pela valorização constante de terrenos e edifícios que, durante anos, foi a imagem de marca do negócio. A limitada exigência na formação da mão-de-obra permitiu, ainda, concentrar na construção muita da oferta de emprego, usando-a como “almofada” para amortecer a crise já então sentida noutros sectores de trabalho pouco qualificado e mal pago.

Claro que os poderes públicos ajudaram (e ajudam) à festa. Governos e autarquias viram na actividade uma forma de esconderem a ausência de alternativas e de criarem uma ilusão de crescimento. Uma lei das finanças locais que estimulava a urbanização do território, foi o suporte legal para a catástrofe.

A sua intervenção fez-se, sobretudo, na alteração do estatuto dos terrenos (passando da REN ou da RAN para urbanos) e na construção de infra-estruturas. Criava-se, assim, uma valorização à custa de dinheiros públicos que apenas beneficiava privados (o proprietário do terreno). Actualmente, este processo verifica-se, também, com a classificação de “interesse estratégico”, dada a empreendimentos em áreas protegidas (os famosos PIN).

Fora de tudo isto, ficaram os terrenos da Reserva Ecológica e da Reserva Agrícola Nacional (REN e RAN). Criadas nos anos 80, aquando da passagem do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles pelo governo, foram os únicos instrumentos que permitiram limitar os estragos. No entanto, nos tempos dourados da especulação imobiliária, não era fácil explicar aos proprietários desses terrenos, por que carga de água lhes era vedado o caminho do dinheiro fácil.

Mas, analisando o problema numa perspectiva de ordenamento do território, existe, de facto, uma grande injustiça e um enorme perigo. Um terreno da REN presta um serviço público e o seu proprietário, em vez de ser compensado, é prejudicado. Se conhecer os “atalhos” certos para lhe mudar o estatuto para urbano, aumenta imediatamente o seu valor, apesar do seu interesse passar a ser exclusivamente privado. Não faz sentido. Grande parte dos Planos Directores Municipais, mostram o resultado final de tudo isto: de modo mais ou menos transparente, as pressões para retirar terrenos da REN e da RAN, são enormes.

O governo de José Sócrates já prometeu, mais do que uma vez, alterar a chamada Lei dos Solos, revendo, nomeadamente, o previsto sobre apropriação de mais-valias (a este respeito, vale a pena ler este texto do Engenheiro José Carlos Guinote). Agora, fala em “discriminação positiva” dos habitantes da REN, no âmbito do processo de redefinição das suas áreas (a cargo das autarquias- ai, ai!- e que tem a sua conclusão prevista para 2013). Veremos o que dali vai sair, numa altura em que estão perdidas todas as ilusões sobre o “arranque da economia”, os “150 mil novos empregos”, etc. Mas que é um debate necessário, lá isso é.

terça-feira, julho 03, 2007

Eles têm medo, têm muito medo

A mobilização dos cidadãos da Moita com o objectivo de reabrirem o processo de revisão do seu PDM, começa a dar frutos. Definindo uma estratégia que não se limitou aos problemas locais, conseguiram centrar o debate na necessidade de alterar a chamada “Lei dos Solos” e, a partir daí, capitalizar o apoio de diversas correntes de opinião. Houve investigações feitas à Câmara pela Polícia Judiciária, revogações de decisões anteriormente tomadas sobre desanexação de terrenos da REN e até o Ministério do Ambiente já se comprometeu com o processo de revisão da lei, que aponta para o final deste ano (ver aqui).

Numa altura em que se cozinham alterações à lei eleitoral para as autarquias, o exemplo da Moita mostra ser possível, barato e eficaz, transferir poderes de gestão local para os cidadãos. Não seria inédito, já que exemplos internacionais como os seguidos em Porto Alegre na definição das orientações orçamentais (a população é chamada a definir as prioridades, como pode ver aqui), há muito usam o método. Mas... “eles” têm medo, têm muito medo.

segunda-feira, julho 02, 2007

Europa, esse continente distante

“Penso que a lei se deveria empenhar em defender apenas e com mais vigor os terrenos que devam ser protegidos por razões ecológicas e não tentar manter viva uma actividade moribunda (agricultura)”.
- Saldanha Sanches, in Expresso de 30/06/2007

Consta que os partidos maioritários (PS e PSD), procuram consensos para alterar a lei eleitoral para as autarquias. Embora com diferenças de pormenor, estão de acordo quanto ao reforço do poder dos executivos, diminuindo a representatividade das oposições, dando como exemplo o que se passa na constituição dos governos nacionais. Ora, apesar do aparente sentido da proposta, “esquece-se” ou esconde-se que as assembleias municipais não são a Assembleia da República e os mecanismos de controlo daquelas, nada têm de comparável com os desta. Reforçar o poder dos executivos camarários é aumentar a margem de manobra de todas as perversidades que limitam a nossa democracia e fizeram do nosso território “coutada” de duvidosos interesses privados.

Simultaneamente, começa a chegar ao domínio público o debate sobre a “Lei dos Solos”. Desta vez foi o “Expresso”, pela mão da jornalista Luísa Schmidt, a chamar a atenção para a falta de sentido da situação actual e para as muitas perversidades já aqui debatidas a propósito da “Conferência da Moita”. É consensual que não pode continuar a haver apropriação privada de mais-valias conseguidas à custa de investimento público e até se denuncia o contraste da nossa situação com a dos restantes países da Europa. É bom sinal. No entanto, limitar o debate a esse ponto (apropriação privada das mais-valias), arrisca-se a esvaziar o objectivo preventivo de uma eventual alteração da lei. De facto, convém não esquecer que as próprias autarquias são parte interessada na alteração do estatuto dos terrenos, na medida em que isso lhes permite beneficiar de mais graúdas tributações. Quer isto dizer que não é preciso haver um “primo” do presidente ou do vereador a querer fazer uma “negociata”. Os próprios autarcas podem estar interessados nela. Depois, importa perceber que a defesa do território, tem que estar associado à melhoria das condições de vida dos “agentes da preservação”: as pessoas que nele residem e que, com a sua actividade, contribuem para a sua manutenção. O proprietário de um terreno da Reserva Ecológica Nacional e da Reserva Agrícola, presta um serviço público que deve ser reconhecido e recompensado. Ignorar esta parte do problema, é permitir que a perversidade continue, reforçada pelas alterações à lei eleitoral que PS e PSD preparam nos bastidores.

E chegamos à declaração de Saldanha Sanches, autor de várias corajosas denúncias de abusos do poder local, mas claramente limitado por uma experiência urbana. Levando à letra o que disse, o território seria um somatório de cidades e de “reservas ecológicas”- nas primeiras, viviam as pessoas; nas segundas, renovava-se o oxigénio e levavam-se as criancinhas a conhecer melros e pardais. Quanto à agricultura, assim numa espécie de compensação dos complexos provocados pelo Tratado de Methuen, ficava limitada aos “países pobres”, mais aptos para, a preços baixos, garantirem o prato cheio dos “países ricos”. O problema deste raciocínio tão “urbano”, é ignorar a função social e ambiental que a agricultura tem que desempenhar, contribuindo para estancar o êxodo rural selvagem (e os problemas sociais a ele associados) e para a manutenção da “parte ecológica” do território, aquilo a que os “urbanos” costumam chamar “a paisagem”. Já nem se fala na qualidade do que se come...

Quando se passeia pelas zonas rurais de alguns dos nossos “parceiros europeus”, países com custos do trabalho bastante mais altos do que os nossos, apercebemo-nos da falsidade destes argumentos. Não são campos de golfe que lá encontramos (também os há), mas terras e florestas trabalhadas e preservadas. É isso que nelas atrai e estimula uma intensa actividade turística, baseada nas especificidades locais. De qualidade. No entanto, importa estar consciente de que, tal como Saldanha Sanches, muitos outros, dos mais variados quadrantes políticos, pensam assim. Contrabalançar estas ideias, fazer entender que a Europa que interessa é a dos povos, exige a criação de mecanismos que permitam uma maior participação das populações na gestão do território, contra os tais que andam para aí, escondidos, a alterar a lei em sentido inverso. Se o não conseguirmos, arriscamo-nos a ser cada vez mais estrangeiros em nossa própria casa e a ver a Europa como um continente cada vez mais distante.

segunda-feira, junho 11, 2007

Começou o "assalto" à Avenida João de Melo

O edifício que se prevê sacrificar, em três épocas diferentes
(Imagens cedidas por Vasco Coutinho e Guilherme Figueiredo)

De acordo com o Notícias de Vouzela (08/06/2007), a reunião do executivo vouzelense do passado dia 1 de Junho, aprovou alterações às Grandes Opções do Plano, prevendo, entre outras coisas, a “aquisição da casa para o prolongamento da Avenida João de Melo”.

Já em Março deste ano, tínhamos chamado a atenção para o absurdo do projecto e para algumas possíveis justificações que o fundamentam. Não vale a pena repetir (quem quiser recordar, basta “clicar” aqui). O que vale a pena, é saber (e denunciar) se estamos perante mais um caso em que interesses privados vão beneficiar com investimento público. A história recente do poder autárquico está, infelizmente, cheia de exemplos (consulte-se, a este respeito, todo o processo da Moita, aqui, aqui e aqui). Mas a Polícia Judiciária também está cheia de trabalho a investigá-los...

quarta-feira, maio 23, 2007

Política de solos e mais-valias: o lado escondido da máquina da especulação

O conjunto de intervenções feitas na Conferência da Moita (ver destaque “Outros folhados”, na coluna da direita), são um importante instrumento teórico para todos quantos se preocupam em conhecer os mecanismos da especulação imobiliária e da consequente ocupação selvagem do solo. De todas elas, optamos por destacar a do Engenheiro José Carlos Guinote, pela abordagem que fez às leis que nos regem, pelo modo como explicou a parte escondida da tramóia e, ainda, pela referência a exemplos de outros países.

Formado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico, José Carlos Guinote é Mestre em Planeamento Regional e Urbano pela Universidade Técnica de Lisboa, tendo defendido a tese “A Formação do Preço do Imobiliário e o Sistema de Planeamento Territorial”.

A QUESTÃO DAS MAIS-VALIAS SIMPLES
Mais-valias: Quem as gera e quem as captura


Se queremos falar de Política de Solos e de Mais-Valias devemos talvez começar por revisitar a Lei de Bases do Urbanismo, Lei 48/98 e o Decreto-Lei nº 380/99 revisto pelo Decreto-Lei nº 310/2003 e tentar perceber a importância que ela ocupa no arquitectura do nosso sistema de planeamento territorial.

A Lei 48/98, no seu art. 16º, ponto 1, determina expressamente que a “A Administração Pública tem o dever de proceder à execução coordenada e programada dos instrumentos de planeamento territorial, recorrendo aos meios de política de solos que vierem a ser estabelecidos na lei” explicitando no ponto 2 que esses meios devem incluir “modos de aquisição ou disponibilização de terrenos e mecanismos de transformação fundiária e formas de parceria ou contratualização, que incentivem a concertação dos diversos interesses”.

No Decreto-Lei nº 380/99, logo no seu preâmbulo, afirma-se que se estabelecem igualmente “instrumentos operacionais necessários à programação da execução dos planos (...) dando igualmente cumprimento à exigência de regulamentação complementar, no domínio da política de solos e nos instrumentos de transformação da estrutura fundiária”. Este reconhecimento da necessidade de regulamentação complementar é uma genuína admissão das fragilidades do sistema nesta matéria.

No entanto, constatamos que o conjunto dos 160 artigos do Decreto-Lei nº 380/99 não faz qualquer referência suplementar às questões da política de solos e que a regulamentação complementar muitas vezes referida ao longo do Decreto nunca foi elaborada.

Pode-se assim concluir que não tem existido vontade política, por parte dos sucessivos Governos, para concretizar uma efectiva política de solos, o que legitima a interpretação daqueles que salientam ser “o mercado imobiliário sempre o espelho de uma politica de solos que, na sua pior expressão, aparenta ser uma ausência de política de solos.”

Recentemente a Agência Europeia do Ambiente veio alertar para o facto de Portugal ser o País da Europa com a maior área do seu Litoral ocupada com construção. Isto aconteceu alguns meses depois de se ter feito sentir uma intensa pressão sobre o Governo, bem sucedida diga-se, no sentido de agilizar a aprovação de projectos turísticos para o Litoral, com o argumento da excessiva burocracia supostamente geradora de perda de investimentos e da perda de competitividade do País. Em simultâneo, algumas têm-se feito ouvir, denunciando a imoralidade económica que a captura, pelos privados, das mais-valias geradas pelas mudanças de uso dos solos rústicos para urbanos constitui. ~

O Governo chegou a prometer, em declarações de João Ferrão, Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, ao Expresso de 5 de Novembro de 2005, mexer na questão das mais-valias durante o ano de 2006, mas pelo menos o Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT), nada acrescenta sobre esta questão e entrados por 2007 nada de novo aconteceu.

Já no início deste ano o Bloco de Esquerda apresentou um Projecto de Lei para promover a “Cativação Pública das Mais-Valias urbanísticas” no contexto do debate político sobre a Corrupção.

Por fim o Governo aprovou um pacote legislativo, no último mês e meio, que visa agilizar os processos de licenciamento e de planeamento territorial e criar um regime jurídico especial para os Projectos de Interesse Nacional de "Importância Estratégica"» os famigerados, digo eu, projectos PIN.

Em tese, os usos urbanos só são permitidos dentro dos perímetros urbanos, com excepção daqueles que se situam fora por razões imperativas, como acontece com grandes infraestruturas de apoio à vida urbana. No entanto, todos somos confrontados com um conjunto cada vez maior de empreendimentos, com uma componente imobiliária similar à dos loteamentos urbanos, que se situam fora dos perímetros urbanos e, num número crescente de casos, em áreas abrangidas por regimes especiais de protecção da natureza. A autorização desses empreendimentos tem implícita uma mudança do uso do solo rústico para urbano e a consequente geração de significativas mais-valias simples.

Mas, afinal, o que são as mais-valias simples? As mais-valias simples correspondem ao acréscimo de valor de um prédio em resultado da autorização de uma alteração de uso a nível administrativo para esse mesmo prédio, independentemente de qualquer intervenção ou mérito do proprietário. Resultam, sobretudo, da mudança de uso do solo rústico para urbano.

É o que acontece quando uma autarquia toma a decisão de integrar no seu perímetro urbano um determinado conjunto de solos rústicos. Neste caso, a mais-valia é proporcional ao índice de construção estabelecido no Plano e função da distribuição da área pelos diversos tipos de utilização.

É o que acontece, agora com inusitada frequência, quando da atribuição do estatuto de interesse público a um qualquer empreendimento por parte do Governo, viabilizando a sua concretização em terrenos rústicos e, inclusive, em terrenos abrangidos por regimes de protecção fixados no âmbito das políticas públicas de conservação da natureza. Falo dos projectos PIN. Neste caso, a mais-valia é função da carga construtiva, sobretudo associada à componente turismo de habitação, que se traduz na construção de algumas centenas ou milhares de moradias mas, igualmente de algumas centenas ou milhares de apartamentos.

É o que acontece, ainda, quando terrenos integrantes das reservas nacionais – agrícola e ecológica – são desafectados pelos anónimos, mas poderosos (5), integrantes das respectivas Comissões, possibilitando a sua urbanização. Milhares de hectares mudaram de uso por esta via, passando de rústicos para urbanos, ao longo dos últimos anos.

As mais-valias podem, ainda, ser determinadas pela mudança de utilização de espaços edificados e pela densificação ou renovação urbana. Estes casos, quer o da mudança de uso do solo quer o da mudança de intensidade do uso, estão hoje presentes na prática da gestão urbanística dos diferentes municípios colocando-se como uma questão transversal à sociedade portuguesa, legitimando a afirmação dos que entendem ser hoje o urbanismo, sobretudo, um instrumento operativo da mudança de bens públicos para mãos privadas.

Para se perceber os valores que estão em jogo nesta questão das mais-valias simples associadas às mudanças de uso do solo rústico para urbano refira-se um pequeno exemplo. Uma propriedade rústica com 500 hectares pode ser adquirida em Portugal por um valor da ordem dos 7,5 milhões de euros. Caso seja autorizada a mudança de uso, bastará a urbanização – é disso que se trata na generalidade dos casos – de dois por cento da sua área, com um índice de construção de 0,5 para que sejam autorizados 50.000 metros quadrados de área de construção. Esta autorização corresponde, por exemplo, á possibilidade de construção de 140 moradias com 500 metros quadrados de área por lote e com 357 m2 de área de construção máxima permitida. Numa situação como esta o proprietário pode transmitir imediatamente a propriedade – sem realizar qualquer obra – apenas em consequência dos direitos de construção concedidos pela administração, por um valor de 21 milhões de euros (admitindo um valor de venda de 150.000 € por lote, um valor baixo para as condições actuais do Mercado sobretudo para lotes com as características referidas e em localizações próximas do litoral). Estamos perante uma mais valia de 13,5 milhões de euros resultado apenas de uma decisão da Administração e capturadas, na sua totalidade, pelos particulares. Claro que se a área a urbanizar fosse de 10% da propriedade existente – um valor muitas vezes ultrapassado - as mais valias subiriam para valores da ordem dos 97,5 milhões de euros. Nalguns casos no Litoral Alentejano a área urbanizada ocupa cerca de 20% da propriedade rústica. É o caso do empreendimento da Herdade do Pinheirinho, no concelho de Grândola, com uma área total de 800 hectares e com a área urbanizada a ascender aos 150 hectares.

As mais-valias simples correntes podem oscilar, facilmente, entre quinze e vinte vezes o valor de aquisição da propriedade rústica, dependendo sempre da generosidade da Administração na delimitação das áreas a urbanizar. Em condições excepcionais em que a aquisição do solo se faz a preços muito baixos – quando os terrenos integram áreas classificadas ou quando o Estado os cede a um preço anormalmente baixo como aconteceu com a venda de parte da Companhia das Lezíria ao Grupo BES, no âmbito do processo Portucale/Vargem Fresca, pelo valor de 39 cêntimos o metro quadrado – e com localizações notáveis do ponto de vista paisagístico, as mais valias por podem corresponder a milhares de vezes os custos iniciais de aquisição da propriedade rústica.

É o facto, surpreendente, da Administração abrir mão da totalidade das mais valias por si geradas – numa generosidade injustamente não reconhecida pelos seus detractores - que estimula a cada vez maior pressão dos usos urbanos sobre os terrenos rústicos e, em consequência, a pressão dos promotores sobre aqueles que, na Administração, têm o poder para decidir as indispensáveis mudanças de uso.

É a mesma generosidade que justifica a pressão que os promotores colocam sobre os autarcas para alterar os usos dentro do uso urbano conseguindo autorizações para construir em terrenos que, à luz dos instrumentos de planeamento existentes, não são urbanizáveis - ou porque integram as áreas destinadas ao verde urbano ou destinadas a equipamentos colectivos - ou ultrapassando as severas restrições à edificabilidade.

O iniludível crescimento da corrupção na interface entre urbanismo e imobiliário alimenta-se muito deste “caldo de cultura.

Diferentes posicionamentos dos Estados face às Mais-Valias

Existem basicamente duas posições quanto à forma como a Administração se relaciona com as mais-valias: uma é a opção pela sua tributação e a outra a opção pela sua captura ou socialização.

Entre os países que optaram por reter as mais-valias, salienta-se a Holanda, que procede à municipalização total da produção do solo urbano e a Suécia, que socializa as mais-valias através da declaração da utilidade pública do solo.

A Holanda é consensualmente reconhecido como o único país em que o valor de mercado dos terrenos rústicos não contém qualquer parcela especulativa, mesmo se localizados junto ao perímetro urbano de uma cidade. Neste caso existem razões históricas que favorecem a ideia de que os terrenos devem estar ao abrigo das tensões especulativas e devem ser objecto de uma gestão pública no sentido o interesse colectivo. Isto apesar de a Holanda ser um país de economia de mercado. São os municípios que urbanizam os terrenos e que depois os colocam no mercado a preços variáveis dependendo do uso a que se destinam. É interessante analisar o caso holandês na perspectiva da resposta às diferentes necessidades sociais em termos da política de habitação.

No caso da Suécia a lei de 1987 reafirmou o principio de que o direito de construir não faz parte do direito de propriedade. A expropriação de um terreno faz-se ao preço correspondente ao seu estado, e aos direitos a ele associados, dez anos antes. Os direitos de construção estabelecidos pelos instrumentos de planeamento são válidos por um período limitado que oscila entre cinco a dez anos. A não utilização dos terrenos no final desse período abre caminho à expropriação.

De entre aqueles que seguiram a via da tributação refere-se, normalmente, a Dinamarca, que cobra o imposto de mais-valias no caso de solos rústicos com uso urbano aprovado, com a taxa a variar entre 40% e 60% das mais-valias geradas. Refira-se a propósito da situação na Dinamarca que esta tributação pressupõe a existência de um conjunto de valores oficialmente fixados para o solo rústico e o solo urbanizável sobre cuja diferença é aplicada a taxa. Isto passa pela existência de um conjunto de condições de que saliento: transparência do mercado, coordenação entre a administração fiscal e a administração urbanística e estabilidade das regras do urbanismo.

A singularidade do “caso” português

Em Portugal, esta questão é completamente omissa no sistema de planeamento urbanístico. A nossa singularidade é feita destas omissões e traduz-se na adopção de um modelo perequativo em que se assume que as mais-valias são integralmente apropriadas pelos particulares e na opção por tributar as mais-valias urbanísticas em sede de IRC e de IRS, associando-as a ganhos de capital.

Estamos perante uma confusão entre lucros de uma actividade normal de promoção imobiliária e ganhos resultantes exclusivamente de decisões da Administração reveladora de que, por via dos Planos Municipais ou dos Planos Especiais de Ordenamento do Território e de declarações de utilidade pública, a Administração Pública gera mais-valias simples que o mercado reconhece, mas permite que sejam os privados a capturá-las na sua totalidade, revelando-se incapaz de as recuperar em favor da comunidade.

Mais Valias: Agentes e comportamentos

Um outro aspecto que interessa tentar compreender é o de se saber quem são os agentes que intervêm neste processo e como se comportam?

Todos os autores que estudaram esta questão identificam um conjunto de agentes que vão dos proprietários rurais, que já não são verdadeiros empresários agrícolas, aos promotores que adquirem os terrenos na perspectiva de uma futura utilização como solo urbano. Mas aquilo que é identificado como comum nestes agentes é o facto de todos eles calcularem o valor do solo rústico em função do valor do uso urbano, e de a posse do solo não visar servir de suporte a qualquer actividade agrícola ou florestal mas perseguir unicamente fins especulativos. A actuação destes agentes é fortemente influenciada pela actuação dos agentes catalisadores e dos agentes permissivos das mudanças de uso do solo. Quem são, pois, estes agentes catalisadores e permissivos?

Os agentes catalisadores são sobretudo aqueles que mais lucram com a especulação imobiliária e a rápida transformação dos terrenos rústicos em terrenos urbanizáveis. É o caso dos bancos, das grandes empresas imobiliárias, dos fundos de investimento, das seguradoras e de instituições dotadas de grande capacidade financeira. São aqueles que investem, ou apoiam o investimento, a baixo custo em terrenos objecto de severas restrições à edificabilidade e que têm poder para condicionar as regras do urbanismo e a forma de actuação dos poderes públicos.

Quanto aos agentes permissivos, eles são sobretudo as autarquias e os governos, em particular ministérios como o do Ambiente, da Economia ou da Agricultura mas também os já atrás referidos integrantes das Comissões das Reservas Agrícola e Ecológica.

É no contexto da actuação dos agentes permissivos das mudanças de uso que são entendíveis dois tipos de actuação diferentes mas, afinal, complementares:

- Em primeiro lugar a actuação dos autarcas abrangidos pelos chamados investimentos estruturantes. Tomam a peito a sua função de agentes permissivos e clamam alto e bom som que o desenvolvimento, seja lá isso o que for, pode estar em causa se os processos não avançarem.
- Em segundo lugar a actuação dos Ministérios, em particular do Ambiente e da Economia, que emitem declarações de interesse público para determinado tipo de operações, permitindo a ultrapassagem das regras do urbanismo.

Sendo cada um de nós perfeitamente capaz de entender o interesse privado dessas operações, seria útil, em nome da transparência, uma divulgação pública das razões que fundamentam cada uma das declarações de utilidade pública.

Quais são os critérios para a sua atribuição? Será que foi ponderado o custo associado ao facto de uma parte significativa do território nacional, com um património natural notável, ser privatizado, ficando o seu usufruto condicionado à capacidade económica para adquirir determinados produtos imobiliários?

Será que faz sentido alienar parte significativa do território, que é de todos, para benefício de alguns, entendendo esse património não como um património colectivo que temos o dever de transmitir às gerações futuras mas tão somente como um mero produto imobiliário ou como suporte de operações imobiliárias?

Será que faz sentido relevar os ensinamentos do passado e tentar compreender as dinâmicas associadas à produção imobiliária, sobretudo na fase do desinvestimento e do abandono do território, como aconteceu na década de setenta, por exemplo, na agora tão badalada Península de Tróia?

Ou a propalada “qualidade” dos empreendimentos – de que os Ministros do Ambiente e da Economia fazem tanta propaganda – que, ao que parece, se mede pela exclusividade no acesso determinada pelos preços muito elevados a que são colocados no mercado os diferentes produtos imobiliários, é suficiente para nos tranquilizar a todos? Qualidade a que apenas alguns podem aceder como acontece com o empreendimento de Tróia cujos primeiros apartamentos foram vendidos, segundo notícias recentemente divulgadas, pelo preço acessível de 800 mil euros.

Um país, duas políticas urbanísticas?

Um Sistema de Planeamento Territorial que se preze tem que merecer a confiança dos seus cidadãos, e para que essa confiança exista os instrumentos de planeamento devem ser estáveis a longo prazo e os cidadãos não devem ser discriminados por ele. Estáveis, entenda-se, nos seus princípios fundadores.

Os pequenos proprietários rurais que acabam por vender os seus terrenos, depois de anos e anos de tentativas frustradas de aprovarem uma simples melhoria das suas condições de habitabilidade, ou porque pura e simplesmente os seus terrenos foram abrangidos por uma Reserva Nacional ou pela área de um Parque entretanto criado, são forçados a acreditar na força da legislação urbanística e na estabilidade dos usos e são forçados a vender os seus terrenos desvalorizados pelas decisões da Administração. A situação adquire foros de escândalo quando, algum tempo após essa venda, se verifica que o conjunto de restrições perdeu eficácia e os terrenos adquiriram repentinamente capacidade construtiva.

Os protagonistas deste milagre são os agentes catalisadores que, com o seu poder económico e político, influenciam as regras do urbanismo, conseguindo moldá-las aos seus interesses. Contam com a inestimável ajuda da Administração que, por um lado, introduz menos-valias com a afectação dos solos a usos conservacionistas ou integrando-os nas reservas nacionais (REN e RAN) e, posteriormente, permite a mudança do uso e a urbanização dos mesmos solos, gerando significativas mais-valias simples capturadas pelos novos proprietários.

Este tipo de actuação fundamenta muita da animosidade com que parte da população olha para as actuações públicas e para as diferentes expressões da política de conservação da natureza. Para esta discussão deveria ser irrelevante o carácter mais ou menos ecológico, mais ou menos “ambientalmente correcto”, dos empreendimentos imobiliários, que tanto fascina parte significativa dos nossos ecologistas.

O que está em causa é de outra natureza. Tem a ver com a existência de dois pesos e duas medidas no que se refere à forma como a Administração usa instrumentos de política de ordenamento do território e de conservação da natureza para se relacionar com os cidadãos. Tem a ver com o facto, inaceitável, de a Administração agir em prejuízo de uns e favorecendo outros, decidindo quem ganha e quem perde no balanço entre menos-valias e mais-valias. No dia em que as mais-valias forem retidas pela Administração ver-se-á que a febre de investimentos ditos estruturantes, fora dos perímetros urbanos, esfumar-se-á. Não haverá então interesse público capaz de mobilizar a perda do interesse privado.

Se ainda for a tempo, o ordenamento do território agradecerá.

PS. Devo reconhecer que existe algum exagero na afirmação de que os privados capturam a totalidade das mais-valias simples. Uma parte será, afinal, “reinvestida” no financiamento partidário e no enriquecimento ilícito de alguns dos agentes. Mas esses serão os custos da perpetuação do sistema e decorrem no campo da economia paralela. Aí o urbanismo nada pode fazer. A ajuda faz-se a montante, na definição da arquitectura do sistema de planeamento territorial e aí dita a sua lei a vontade política. Ou a falta dela.

segunda-feira, maio 21, 2007

Política de solos, mais-valias urbanísticas e ordenamento do território- principais ideias defendidas na Conferência da Moita

Publicamos de seguida, as comunicações e diversas tomadas de posição apresentadas na “Conferência da Moita”, sobre política de solos, mais-valias urbanísticas e ordenamento do território. Todos os documentos aqui divulgados, têm uma ligação ao “blogue oficial” da iniciativa, “UM POR TODOS, TODOS POR UM” e podem não respeitar a ordem por que foram apresentados.


- “PDM da Moita- verdades e mentiras do processo de revisão”, Vítor Cabral, vereador do PS à Câmara Municipal da Moita

- Propostas de alteração ao Programa Nacional das Políticas de Ordenamento do Território, apresentadas pelo Bloco de Esquerda na Assembleia da República.
- "Urbanismo, cancro da Democracia Portuguesa", Paulo Morais, antigo vereador do urbanismo da Câmara Municipal do Porto.
- "Ordenamento do Território, Desenvolvimento e Qualidade de Vida" , Joaquim Raminhos, vereador do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal do Porto.
- "O papel do autarca na regulamentação do uso dos solos" , Luís Nascimento, vereador (PSD/CDS/MPT) à Câmara Municipal da Moita.

sexta-feira, maio 18, 2007

Trapalhadas, mais-valias, Lei dos Solos e outras reflexões em torno de uma Conferência que se saúda


A história conta-se em poucas palavras e só não começa por “era uma vez”, porque o processo ainda decorre: num concelho deste país, caracterizado por uma actividade agrícola com alguma dimensão, surgiu uma proposta, no âmbito da revisão do PDM, para alguns destes terrenos passaram a integrar a Reserva Ecológica Nacional (REN). Não comece a abanar a cabeça em sinal de aprovação, porque as peripécias são escabrosas e nem sempre o que parece, é. O que se passou, foi que alguns- digamos- “investidores”, compraram por “tuta e meia” terrenos da REN que pretendiam ver passar a “terrenos urbanos”. Ora, para que a manobra passasse mais ou menos desapercebida e (quem sabe?) ainda virem a conseguir uma estátua numa rotunda qualquer, propuseram que a área da REN a ser desafectada, fosse compensada com terrenos da Reserva Agrícola.

O Concelho de que falamos é o da Moita e se quiserem mais pormenores, basta ler a entrevista dada pelo Movimento Várzea da Moita a “O Rio.pt”. Entre as várias iniciativas que se estão a organizar para conseguir resposta para a trapalhada, encontra-se a Conferência sobre política de solos, mais- valias urbanísticas e ordenamento do território, já aqui referida, e que começa hoje (o programa pode ser consultado aqui e o grupo de oradores, aqui). A seguir com atenção.

No entanto, o problema com que os cidadãos da Moita se confrontam, é igualzinho aos que se têm vivido por esse país fora, com mais ou menos escândalo, e que resulta de uma simples perversão: a possibilidade de haver apropriação privada de mais- valias conseguidas à custa de investimento público. A simples alteração do estatuto de um terreno, passando das limitações da REN (e até da RAN), para a permissividade de “urbano”, transforma-se numa complexa conta de multiplicar margens de lucro. A verdade é que, enquanto foi da REN e “nada valeu”, esse terreno desempenhou um serviço público. Quando passou a “urbano” e limitou o seu interesse à esfera privada, passou a valer “milhões”. Absurdo! Será difícil conseguirmos melhor exemplo do total desrespeito pelo cidadão.

Tendo em conta a lista dos participantes na Conferência e as posições que muitos deles têm defendido (nomeadamente a Bastonária da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta, o Deputado Francisco Louçã, etc.), este será um dos temas debatidos. Contudo, parece-nos ser desejável tentar ir um pouco mais longe. Limitarmo-nos a reivindicar que não possa haver apropriação privada de benfeitorias públicas, não tem em conta um dos “vilãos” desta história: as AUTARQUIAS. Na verdade, elas têm interesse na trapalhada, mesmo que não haja um “amigo” a quem fazer um “favor”. O índice de ocupação permitido com o estatuto de “terreno urbano”, as novas colectas conseguidas, são motivos suficientes para que continue a perversão. Por isso, é necessário subverter a lógica, pensando em benefícios (a sério!) para todos os que prestam um serviço à colectividade, mantendo os seus terrenos na REN (e, nalguns casos, com uma regulamentação bem estudada, na RAN). É preciso “tirar o ouro ao bandido”. Que a Conferência da Moita seja um importante passo nesse sentido.