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quinta-feira, junho 16, 2011

Para quando a borrasca amainar

Foto de Guilherme Figueiredo

É o costume: ultrapassada a "fase de graça" dos que entram, vamos concluir que, afinal, mais do que o problema da dívida, temos que resolver o da falta de meios para a pagar, o que só é possível com uma economia que funcione. Mas, haja esperança. Depois da reconversão do Professor Cavaco às maravilhas da agricultura, vai ser um fartar de couves nos separadores das auto estradas, para compensar a redução das receitas provocadas pelo aumento das portagens e do preço do "gasoil". Em verdade vos digo.

Mas, enquanto as costas largas da dívida justificarem medidas limitadas ao aumento de impostos e à redução de salários, talvez interesse conhecer o que há muito se pensa e estuda sobre como organizar os espaços e racionalizar recursos nos espaços urbanos. Ao fim e ao cabo, o que vamos precisar depois da borrasca amainar (ou quando outra começar). É ver aqui, aqui e aqui, num importante trabalho do 5ª cidade.

segunda-feira, julho 28, 2008

Sinais de crise

(La Boucherie- Eduardo Luiz)


A propósito da Quinta da Fonte e das ideias da Câmara do Porto para o bairro do Aleixo, tem sido interessante acompanhar as reflexões divulgadas pela comunicação social que, salvos raras excepções, revelam a falta de hábito em pensar o espaço em que vivemos.

O fenómeno dos bairros sociais que hoje andam nas bocas do mundo, foi uma consequência do êxodo rural e da excessiva concentração de pessoas nas grandes cidades. Não o êxodo rural dos primórdios da Revolução Industrial, que deu origem a cinturas onde se concentrou a mão-de-obra das fábricas que iam nascendo. Nessa altura, havia uma identificação de classe, geradora de dinâmicas com capacidade para resolver, melhor ou pior, problemas de integração. Exemplos desse fenómeno, podemos encontrá-los na génese do Bairro do Grandela em Lisboa e, também, na expansão entre Benfica e a Amadora.

Os bairros sociais de que hoje falamos (sobretudo, os problemas de que falamos), têm origem mais recente. Entre nós, mesmo muito recente. São de um tempo em que o sector secundário já não tinha capacidade para absorver as levas de imigrantes, provocadas pela total ausência de perspectivas para o mundo rural. São de um tempo em que a especulação imobiliária começou a ditar as suas leis, desertificando o interior das cidades, empurrando grande parte da população para periferias sem identidade, e circunscrevendo a miséria a áreas de menor interesse. O “assistencialismo”, foi o substituto institucional da velha caridade e a resposta possível de um sistema sem capacidade para integrar as suas “franjas sociais”.

A maior parte dos comentários que têm sido feitos a partir dos acontecimentos da Quinta da Fonte, ou da proposta de destruição do Bairro do Aleixo, limita-se a ideias para arrumar os excluídos ou para os manter na linha. Poucos arriscam uma ideia para acabar com eles. Poucos reconhecem que são a expressão visível de um paradigma de crescimento e de um modelo de gestão do território que lhe está associado- ambos a darem sinais claros de terem esgotado o prazo de validade.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Procurar a ponta da meada


Na hora de pôr as contas em dia e procurar a ponta da meada, socorremo-nos do que outros escreveram para registar alguns acontecimentos de que importa guardar memória. Apesar da nortada, ou talvez por isso mesmo, Agosto não deu descanso: há mesmo motivos para continuarmos preocupados.

Já no final do mês, o Público (20 de Agosto) destacava as “novas políticas” que, para supostamente ordenar o território, dão prioridade às cidades... ignorando tudo o resto. A este respeito, vale a pena ler o apontamento que, na altura, foi publicado por José Carlos Guinote no seu blogue “pedra do homem”. Registe-se, também, a afirmação do incrível João Ferrão, secretário de Estado do Ordenamento do Território: “O debate sobre o interior ainda é muito emotivo, o que tira lucidez sobre causas, soluções e importância relativa”. Ó ilustre secretário, “ainda é”? Para além do interior do Centro Cultural de Belém, ou do centro comercial Colombo, que outros “interiores” é que conhece? Garanto-lhe que, quando apenas restarem eucaliptos, tojos e terras a monte, poderá ter vossa excelência a calma necessária para reflectir, lucidamente, com os passarinhos, sobre o que podia ter feito e não fez, nem se faz há mais de trinta anos. Já não falta muito, acredite.

PIN, pam, pum

Os Projectos de Interesse Nacional aí estão a mostrar a sua verdadeira face. Num país que, durante anos, baseou o seu crescimento na construção civil e na especulação imobiliária, só quem entenda o desenvolvimento de forma integrada consegue fugir à tentação de abusar do território. Não é o caso de quem vai passando pelo governo. Desta vez foi o Parque Alqueva que envolve a Fundação da Casa de Bragança e o Dr. José Roquette que afirmava nada perceber de futebol, mas que sabe muito bem como jogar à defesa, sempre que avança com os cabedais. O problema é que as consequências deste tipo de ocupação do território, rapidamente se vai transformar numa autêntica política de terra queimada. Já que é do Alentejo que falamos, ainda mais queimada.

Quem manda

Entretanto, o Tribunal Constitucional veio dar como provado aquilo de que, há anos, todos suspeitávamos: há uma enorme promiscuidade entre empresas privadas e partidos políticos. Sobretudo, empresas de construção e, claro, partidos que ocupem os corredores do poder. Todos. Por isso mesmo, o Partido Socialista moderou os comentários à tramóia que, desta vez, envolveu o PSD (ver, aqui, o texto de Nelson Peralta, publicado no blogue "A Ilusão da Visão"). Ocorrem-nos várias máximas da sabedoria popular sobre “telhados de vidro” e “mãos que nos dão de comer”, mas neste caso é preciso chamar os bois pelos nomes: eles bem sabem quem manda.

Desfile de máscaras acompanhado com pipocas

Entrando já em Setembro, regista-se o início de uma abordagem mais racional sobre a questão do milho transgénico ((duas semanas após o caso de Silves). Finalmente. O "Público", depois de ter sido veículo de propaganda dos ofendidos com o desrespeito pela propriedade, tenta emendar a mão e dá voz aos dois lados do problema (vejam-se as edições de 2 e 3 de Setembro). Também vale a pena ler o que Miguel Portas escreve no seu blogue, sobre a legislação que regulamenta o assunto. Mas, sobretudo, vale a pena ler, na página da Plataforma “Transgénicos fora!” (ver, "Cultivo comercial de milho transgénico em 2007"), o modo como o Ministério da Agricultura divulgou a lista de zonas cultivadas com milho transgénico (em Julho, muito antes da acção da “Verde Eufémia”). Repare-se que não há uma única indicação precisa sobre a localização dessas culturas. De quem ficou tão chocado com as caras tapadas dos invasores da propriedade, não podia vir melhor exemplo de coerência. Espera-se que o preocupado jornalista Mário Crespo, como compete a qualquer jornalista, continue em cima do acontecimento.

quarta-feira, maio 16, 2007

Estes fogos que nos consomem

São dois textos publicados no início deste mês, dois textos que de algum modo nos mostram duas faces do mesmo problema. Ambos se referem ao desconforto que foi dominando as nossas cidades, à apropriação que se foi fazendo do espaço, sem rosto e sem alma, despromovendo o cidadão para a categoria de simples meio ao serviço de mesquinhos fins. Claro que temos que levar em linha de conta as particularidades que transformaram a especulação imobiliária na actividade económica de “excelência” do Portugal contemporâneo. Claro que temos de considerar as limitações existentes nas relações familiares, na educação... no que quiserem. Mas, se reconhecemos a importância do espaço em que vivemos na evolução do indivíduo, então as cidades, o “urbanismo” que temos, são o primeiro factor de perigo com que se confrontam as nossas crianças e jovens. Seguem-se os textos pela ordem da sua publicação (é só "clicar"):

- O J. foi baleado
- A paisagem global 1

De há uns anos a esta parte, quase adquiriu o estatuto de ritual. É daqueles acontecimentos com data certa, como o início da época balnear- é a “época dos fogos”. Repetem-se imagens e explicações. Denuncia-se o desleixo, reflecte-se sobre as particularidades do clima, lamenta-se o abandono dos campos. Uma vez por ano. Poucos se atrevem a reconhecer que uma floresta monocultural de resinosas e eucaliptos (perto de metade da floresta portuguesa), só serve para arder. Pela minha parte, todos os anos, por esta altura, penso no velho comboio do Vale do Vouga, durante muito tempo acusado de ser o incendiário da região. Foi-se o comboio, ficou o fogo e a estupidez dos homens. Mas também a lucidez de alguns que, como o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, deu à revista “Visão”, entrevista que se segue. Em 2003. Nada mais actual.

- Entrevista com Gonçalo Ribeiro Telles