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domingo, fevereiro 23, 2014

Água de fevereiro, enche o celeiro

 Doisneau

"Vale mais no rebanho ter um lobo, que mês de fevereiro formoso".

São curiosos, os ditados populares. Criados num tempo de grande dependência dos homens em relação às atividades do setor primário, registavam observações de muitos anos sobre as consequências dos ditames de uma natureza de que dependiam em absoluto, transmitindo esse conhecimento e alertando para a diferença entre o parecer e o ser. Hoje, perdeu-se muito desta memória e da natureza quase só nos lembramos quando nos entra pela casa dentro em avalanches de imagens aterradoras, normalmente pondo a nu a ignorância dos homens.

Mas, apetece-nos recorrer aos ditados populares para algo mais do que prever como irá ser o ano agrícola. É que, bem sabemos não necessitarmos de chuvas e ventos fortes para sentirmos que o temporal desaba sobre nós. E Fevereiro aí esteve, feio como os trovões, a inundar-nos de água e más notícias. Desta vez foi a confirmação do encerramento do tribunal, transformado numa coisa que não se sabe muito bem o que seja. Nada de totalmente inesperado, mas uma machadada mais na nossa já debilitada autoestima.

Tal como todo o interior, Vouzela está a ser vítima duma estratégia nacional de concentração de serviços que não tem a mínima preocupação com o equilíbrio do território, nem com a qualidade de vida das pessoas. O objetivo é uma redução de custos imediata em recursos humanos e materiais,  que nos vai custar bem caro a médio prazo, tal o despovoamento que provoca em vastas zonas do país, inevitavelmente condenadas ao desaproveitamento. Mas, é o que temos. No entanto, também nos parece ser tempo de perceber que nada ganhamos com a atitude defensiva a que nos temos remetido, mortos de medo pelo passo seguinte que antecipamos, a que respondemos com indignação e lamentos impotentes. Atacam-nos porque somos fracos, porque temos pouco peso eleitoral, porque somos insignificantes na coleta de impostos- sim, o lobo está dentro do rebanho, fevereiro está a ser horrível mas o importante é que daqui saiam boas "colheitas" futuras.

Em primeiro lugar, é preciso avaliar a verdadeira dimensão do problema e, mais uma vez, as lições do passado dão uma ajuda. Em 1927, Vouzela perdeu a sua comarca. A medida foi sentida como uma humilhação, provocou tomadas de posição firmes, mas também marcou o ponto de partida para um dos mais dinâmicos períodos da história local do século passado: iniciou-se o processo de eletrificação da vila, pediu-se a classificação como "estância de turismo" e organizou-se a famosa Comissão de Iniciativa. Para tudo isto houve uma união de vontades e forças, colocando lado a lado gente de orientações políticas muito diferentes (as polémicas da I República estavam, ainda, muito presentes), mas que percebeu que a causa local era transversal a todas elas.

Em 1973 viveu-se a parte final desta história: Vouzela recuperou a comarca. Motivo de grande contentamento e orgulho... não impediu o agravamento de uma crise que, embora com intervalos de esperança, continuou até aos dias de hoje.

Entendamo-nos: não queremos desvalorizar a importância dos ataques que nos estão a fazer. Queremos, isso sim, saber o que estamos dispostos a fazer para deixarmos de andar a reboque das situações e conquistarmos a liderança das reformas locais. Dito por outras palavras, Vouzela  precisa saber qual a margem de autonomia que lhe resta. Que medidas pode tomar para conter o despovoamento, para reabilitar setores de atividade, para potenciar os seus pontos fortes e, desse modo, conseguir algum resguardo para a avalanche de más notícias da atual estratégia nacional. Limitar a emigração pressupõe a criação de empregos e estes exigem uma definição clara das atividades que se querem desenvolver. Isto, porque não podemos ter "sol na eira e chuva no nabal". Não faz sentido lamentarmo-nos da pouca divulgação do que de melhor temos e não sermos, nós próprios, os primeiros divulgadores em todas as nossas atividades. Não podemos dar rédea solta a construções que descaracterizem os espaços e, ao mesmo tempo, querer manter a tal harmonia entre património natural e edificado que todos elogiam. Não podemos assistir, indiferentes, ao abandono do cultivo da vinha e querer manter a "acentuada beleza policromática" de que falava Amorim Girão. Não podemos encolher os ombros perante o excessivo abandono da agricultura (de todo o setor primário!) e continuar com as características rurais que desenharam a tal paisagem que os estudos apontam como o nosso grande trunfo.  Se Vouzela permanece, hoje, como a mais harmoniosa das três sedes de concelho, isso apenas se deve ao facto de não ter entrado no desvario da construção e não porque haja uma qualquer "lei divina" que nos garanta a beleza eterna. Manter essas características e conciliá-las com o desejado desenvolvimento, parece-nos ser, pois, o desafio que temos que vencer, porque uma coisa não é possível sem a outra.

Também diz o povo que "água em fevereiro, enche o celeiro". Ora, água não tem faltado, tal como más notícias. Dar-lhes algum sentido, transformá-las em algo de produtivo só depende de todos nós. Se assim for, é certo e sabido que "em fevereiro chuva, em agosto uva".

segunda-feira, agosto 26, 2013

Demolir, porquê?

Pedimos a foto emprestada ao Ivo Madeira

Lemos no "Notícias de Vouzela" que a Câmara Municipal notificou os proprietários da casa que se mostra na imagem para intervirem, tendo em conta os sinais de degradação que se têm acentuado. Tudo normal, não tivesse sido apresentada como alternativa... a demolição. Demolição, porquê?

Este edifício integra um conjunto ainda com alguma harmonia, fronteira com  zonas da vila onde, desde há muito, o disparate é rei. Ele próprio integra alguns elementos característicos de um certo tipo das nossas construções em pedra. Ora, o mais elementar bom senso aconselharia a que os serviços técnicos duma terra que diz ter pretensões turísticas, não só tudo fizessem para o preservar, como informassem os seus proprietários sobre o modo de o adaptar às exigências atuais. Pelo contrário, pelo que lemos no "Notícias de Vouzela", parecem antes disponíveis para alargar o espaço da asneira.

Já há muito que alertamos para a importância de se protegerem marcas da nossa identidade, sobretudo quando se sabe que o maior trunfo de toda a região é a paisagem e o maior trunfo de Vouzela é o equilíbrio que ainda mantém entre o património natural e o edificado. Qualquer projeto turístico só terá viabilidade se assentar nesses pilares e tiver consciência de que ninguém nos procura para estar fechado entre quatro paredes, por melhor que seja a animação- disso, há melhor bem mais perto dos grandes centros. Por isso mesmo, é da máxima importância tudo o que possamos fazer para preservar os nossos aspetos mais característicos e não os limitar a essas espécies de disneylândias do antigo que dão pelo nome de "centros históricos".

Os serviços técnicos duma Câmara Municipal, naturalmente dependentes das orientações da sua direção política, têm que ser o melhor centro de recursos que alerta, aconselha, encontra soluções ao serviço do interesse coletivo. Não precisamos de recuar muitos anos, para recordarmos situações em que, em Vouzela, alguns projetos "popularuchos", do agrado das estratégias políticas do momento, foram travados por quem, na altura, soube usar os seus conhecimentos. Na situação atual, pelo contrário: ou os serviços técnicos têm informações (que desconhecemos) que possam justificar a demolição do edifício, garantindo a defesa e o melhoramento do conjunto lá existente, ou arriscam-se a serem, eles próprios, encarados como um dos (muitos) problemas que Vouzela tem que resolver.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Rua da Ponte

Vista geral (juramos que a foto foi retirada daqui, apesar do endereço estar desactivado)

Igreja de São Frei Gil e início da rua com o mesmo nome (imagens da Região de Turismo Dão Lafões)

Casa dos Távoras e pormenor da rua. Em frente, a mancha verde da Costeira (fotos de José Campos e da Região de Turismo Dão Lafões)

Ponte romana sobre o rio Zela (fotos de Vouzela, Antiga Capital de Lafões e Seus Arredores e da Região de Turismo Dão Lafões)

Fonte da Nogueira. Imagem dos anos 60 (José Campos)

Desenvolve-se pelas duas margens do rio Zela e é um dos mais antigos núcleos populacionais que deram origem à vila. Vulgarmente conhecida por Rua da Ponte ou Bairro da Ponte, é um exemplo perfeito da harmonia entre a vegetação luxuriante e as solenes edificações em granito. É, também, um encontro com três pilares da memória dos homens: Fé, História e Lenda. Começa na Igreja de São Frei Gil (ver também aqui), continua pela rua com o mesmo nome, passa o rio por uma ponte romana e termina na Fonte da Nogueira, refúgio de moura encantada que faz cair de amores todos quantos nela bebam. Pelo caminho encontram-se casas brasonadas de diferentes épocas, destacando-se a que terá pertencido aos Távoras- ostenta, ainda, o seu brasão picado, preço menor do muito que pagaram pelos azedumes do Marquês de Pombal.

Visita obrigatória para os que queiram conhecer Vouzela, aqui se encontra (ainda) o segredo da harmonia que outrora dominou toda a região: a envolvente verde da zona da Costeira, realça o edificado, mas impõe o domínio da natureza. Com pouco tempo para estes pormenores, os poderes locais já lhe quiseram acabar com o estilo, projectando-lhe estradas e urbanizações. Não sei se por influência do santo, se da moura, não conseguiram. A conhecer enquanto dura.
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PS: As imagens foram colhidas nos anos 30, 60 e na actualidade.