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sábado, dezembro 12, 2009

Dúvidas e certezas sobre o aquecimento global

"Se os cientistas estiverem certos, safamo-nos e construímos uma economia melhor. Se estiverem errados, safamo-nos de certeza- essa é a boa notícia- e construímos na mesma uma economia melhor- essa é a segunda boa notícia.
Se os cépticos estiverem certos, continuamos com uma indústria poluente e sem incentivos para mudar. E se os cépticos estiverem errados?- aí lixamo-nos de vez"- Rui Tavres, in Público de 09/12/2009.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

A propósito de (mais) uma cimeira

Bartoon, Público de 9 de Dezembro

Vai animado o debate sobre as alterações climáticas (veja estes exemplos domésticos aqui e aqui). Sobretudo a partir de Quioto, começaram a ser divulgados "rigorosos estudos científicos" que procuram contrariar o peso da influência humana no aquecimento global. O ponto alto desta história foi atingido com a divulgação de um conjunto de "mails" que deviam demonstrar que alguns cientistas exageraram, propositadamente, as conclusões. A resposta não se fez esperar, denunciando o facto das mensagens divulgadas terem sido retiradas do contexto. Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal, a única conclusão a tirar é que acreditar na isenção da ciência é como acreditar no Pai Natal: pura ilusão. Agradável, mas de curta duração.

Para o cidadão comum, estes problemas colocam-se de modo, digamos, mais terra-a-terra: seja qual for a causa, as alterações climáticas significam falta de água, alteração no ciclo das plantas, com consequências na alimentação de pessoas e animais e, a prazo, na área habitável do planeta. Ponto final. É para isto que se exigem soluções.

Claro que, num mundo cada vez mais (sub)urbanizado, enquanto o copo puder estar cheio com água engarrafada e a saladinha no prato (mesmo que à custa de produtos que viajaram milhares de quilómetros), estes problemas ou são remetidos para as curiosidades jornalísticas, ou, quando muito, podem justificar uma velinha à janela pela felicidade dos netos. Isto, apesar de já por aí andarem alguns a tremer, perante a ameaça de massivos movimentos migratórios. A manter-se a situação actual, tal cenário parece inevitável, a menos que entremos num nível de barbárie que consiga fechar os olhos à condenação à morte de milhões de pessoas.

Portanto, o que queremos são medidas concretas que, baseando-se nos conhecimentos científicos (que não faltam), permitam corrigir o que se sabe estar mal: quantidade e qualidade da água, excessiva dependência dos combustíveis fósseis, emissões poluentes e qualidade do ar.

Ouvimos, há dias, o secretário de Estado Humberto Rosa falar a este respeito, enaltecendo o investimento feito pelo governo nas energias renováveis. Pena foi que não tivesse falado na avaliação negativa feita pela Comissão Europeia ao famoso Plano Nacional de Barragens, onde se afirma que ele põe em causa a qualidade da água. Pena foi que não tivesse explicado a obsessão pelas auto-estradas, quando, ao mesmo tempo, se despreza o transporte ferroviário que não rime com TGV. Pena foi que não tivesse explicado o que levou o governo a apoiar o fabrico de automóveis eléctricos para consumo privado, quando nada fez para melhorar e alargar a rede de transportes públicos. Enfim, como tem sido hábito, o mais importante é o que não se diz...

Consta que os participantes na cimeira de Copenhaga não conseguiram evitar uma lágrima furtiva, perante os emotivos documentários e os discursos inflamados que abriram os trabalhos. Veremos que sentimentos vão dominar o seu encerramento. Para já, nada de novo: continua-se a condicionar tudo a saber quem vai pagar a factura das alterações necessárias, como se nestas coisas do ambiente fosse possível alterar alguma coisa, sem alterar tudo e todos. A continuar assim, Copenhaga não será mais do que uma desculpa para que tudo continue na mesma.

Aguardemos, pois, pelo desenrolar dos trabalhos, para sabermos se devemos concluir que "algo está podre no reino da Dinamarca", ou se, no mesmo registo shakespeareano, podemos respirar de alívio por, finalmente, se ter percebido que "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia".

domingo, abril 13, 2008

World Press Cartoon

"Aquecimento Global, o Derreter do Árctico"

Da autoria do cartonista norueguês Orkan, o trabalho ficou em 3ºlugar na categoria “Cartoon Editorial” da 4ª edição do World Press Cartoon. Quando a caricatura é a própria realidade.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Estratégia Nacional contra as alterações climáticas

A propósito das conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (grupo científico criado no âmbito da ONU), os jornais divulgaram, entre o divertido e o resignado, os cuidados de linguagem que envolveram a aprovação das cerca de vinte páginas que vieram confirmar o que há muito se sabia. Por exemplo, de acordo com o “Público”, gastou-se um dia inteiro a discutir se a responsabilidade da acção humana no aquecimento global, devia ser apresentada como “virtualmente certa”, ou “muito provável”, numa demonstração clara da estratégia dos governos para a política ambiental. Registe-se a inocência do governo português na habilidade, já que não se fez representar, embora o ministro do Ambiente não saiba bem porquê...

De facto, tudo aponta para que a estratégia governamental vá oscilando entre o “escondidinho” e o “dramatismo controlado”, de acordo com as necessidades do momento. Até porque, à boa maneira do “chico-esperto”, estão criadas condições para surgirem novas oportunidades de negócio, apresentadas como “inevitáveis” ou “garantes da salvação”, logo, sem o empecilho do debate. Por exemplo, como já anteriormente se referiu, estão criadas condições para novo avanço dos interesses ligados à energia nuclear, assim como também o estão, para que se evitem grandes reflexões em torno de medidas que transfiram para a comunidade o ónus do caos. É o caso das restrições à circulação automóvel, sem qualquer investimento em alternativas, como é o da anunciada construção de três novas grandes barragens, a acrescentar aos projectos da EDP “de reforço da Bemposta e Picote e de construção do Baixo Sabor e do Foz Tua” (in, Público, 3/2/2007). É duvidoso que haja condições para pensar um pouco nas consequências de tais medidas que, para além de outros problemas, vão aumentar a retenção de areias, facilitando o avanço das águas do mar.

Tendo sido assunto que, até agora, pouco ocupou o conteúdo do debate político, as questões ambientais apanham a “opinião pública” desprevenida e, consequentemente, facilmente mobilizável por “vendedores de ilusões”. Se ainda não há muito tempo, a tendência era para olhar para as advertências dos cientistas, como uma simples questão de óculos escuros e protector solar, o inevitável aumento da divulgação de dados pode ter o efeito perverso de criar uma receptividade total (e incondicional!) para qualquer "patranha" que ostente o rótulo “verde”. A ausência de planeamento e de reflexão, foi uma das responsáveis pelo estado a que chegamos. A situação não se resolve, pelo simples facto de substituirmos a selvajaria com que se espalharam eucaliptos ao longo do território, por idêntica atitude na instalação de parques eólicos, privatização de recursos hídricos, ou “opções nucleares”. Não vale tudo, para que tudo fique na mesma. O que vale, é saber o que mudar (e como), porque é de mudança que precisamos.