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quinta-feira, outubro 02, 2008

Fatalidades

Estas, foram apanhadas aqui

A coisa é sempre a mesma: somos óptimas pessoas, temos excelentes condições, imensas potencialidades, gostam imenso de nós, mas... a malta está ficar velha e tem pouca formação. Perante isto, batatas. Ou há um surto de iluminados rebentos, ou mais vale fechar para obras.

Agora o problema é com a vitela certificada. Os produtores queixam-se dos preços praticados que não compensam. As tentativas de colocar o produto em grandes superfícies, para aumentar as vendas, fracassaram porque... a produção é pouca. E quando tentamos encontrar a saída do círculo vicioso, lá voltamos nós ao mesmo: quem trabalha no sector anda maioritariamente pelos 60 anos e raramente vem abaixo dos 40, tem pouca instrução, fracos níveis de rendimento. Quase apetece dizer que tudo estaria no melhor dos mundos, se não fôssemos quem somos...

Mas, como nem tudo é o que parece, nem as realidades complexas se resolvem com chavões, os estudos(1) parecem revelar outro tipo de fragilidades: a dificuldade em criar a organização necessária para que os produtores beneficiem, também, com a distribuição do produto; a incapacidade em pensar a região como um todo. A primeira é, de facto, tarefa difícil, a exigir novas mentalidades e dinheiro. Mas, a segunda, só depende da iniciativa daqueles que, com a escola toda e não muita idade, têm dirigido os nossos destinos. Ou, afinal, o problema não é esse?
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(1)- Convém esclarecer que os dados de que falamos (retirados do Notícias de Vouzela de 25 de Setembro de 2008), foram apresentados no seminário “Complexidade e território”, onde se debateu um estudo sobre a vitela de Lafões, da responsabilidade do Instituto de Estudos Regionais e Urbanos da Universidade de Coimbra (IERU). Esta entidade já anteriormente se tinha debruçado sobre potencialidades e os pontos fracos da região, chamando a atenção para uma série de recursos que podem constituir alicerces para uma estratégia de desenvolvimento.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Mudar de agulha

Mais um estudo, desta vez da responsabilidade do Instituto de Estudos Regionais e Urbanos da Universidade de Coimbra (IERU), avançando linhas orientadoras para o “desenvolvimento de Lafões”. Como principais conclusões, a necessidade de delinear estratégias em torno dos vastos “recursos endógenos” (como a paisagem, o património edificado, as aldeias históricas, a gastronomia), a par de um investimento na qualificação dos recursos humanos. Óbvio.

Dos dados fornecidos (que apenas conhecemos pelo que foi publicado no “Notícias de Vouzela”, “Gazeta da Beira” e na página da Câmara Municipal de Vouzela), ressalta a imagem positiva que a região desfruta entre a população portuguesa, embora a maioria só a tenha conhecido através da televisão e, no grupo que realmente a visitou, 61% não tenha permanecido, em média, mais do que 12 horas. Também nos parece justificar reflexão, o facto do conhecimento de Lafões ser maior na faixa etária com mais de 54 anos, destacando-se de entre os produtos mais citados, as Termas (70%), o vinho (54%), a vitela (49%), os pastéis de Vouzela (40%) e o cabrito da Gralheira (13%). Ou seja, a maioria dos inquiridos ouviu falar mas nunca veio à região, referindo maioritariamente os produtos (à excepção do vinho que apresenta dados que nos surpreenderam) que mais divulgam a imagem fora dos seus locais de origem. Aliás, a média de permanência parece apontar o dedo a um dos problemas evidentes, sobretudo se tivermos em conta que os utentes das Termas deviam contribuir para valores mais elevados: não há oferta hoteleira satisfatória.

Uma relação difícil

Não é por falta de estudos e conselhos que a região não encontra o seu caminho. O problema parece estar nas lições que se (não) tiram e no modo como se usam. Tem havido uma relação difícil entre os autarcas e o principal recurso de Lafões- a paisagem. Muito “desenhada” por uma actividade agrícola para que se não tem sabido encontrar saídas, a paisagem de Lafões continua a impor-se, apenas, graças à baixa densidade populacional, a algumas zonas classificadas e aos cada vez mais limitados recursos das autarquias. De facto, ela persiste mais pelo que não se faz, já que a “obra” feita tem ignorado, propositadamente ou não, as características rurais do meio, precisamente as que mais atraem quem nos visita. O desafio passa, então, por integrar estas características nos projectos de desenvolvimento e não apenas criar nichos de ordenamento, no meio da destruição geral.

A procura da diferença

Quando se anuncia até à exaustão a importância de uma simples unidade hoteleira virada para o “turismo sénior”, está-se a insistir no erro. Quando se limitam projectos ao mercado nacional, revela-se uma ignorância grave. De acordo com o Eurostat, em 2020 a população dos países da UE (antes do alargamento), com mais de 60 anos, deve rondar os 25%. Isto representa um mercado potencial que não pode ser ignorado (sobretudo se tivermos em conta uma esperança média de vida a rondar os 80 anos), constituído por pessoas com significativo poder de compra e grande mobilidade, disponíveis para usufruir ofertas de qualidade. Simples hotéis com equipamento específico e animação pensada para as manter fechadas, têm elas nas suas terras. O que vão procurar é o usufruto do espaço, é a alternativa aos grandes centros urbanos, é o paradigma da diferença. Longe de se contentarem com unidades isoladas ou “centros históricos” de delimitação duvidosa, vão procurar a vivência só possível numa região inteira, que saiba preservar e permitir o uso do seu património natural e edificado, fornecendo, ao mesmo tempo, as melhores respostas ao nível das comunicações, da saúde e da segurança. Elas vão ter idade e cultura para saberem o que querem e dinheiro para o pagar.

Mas, apostar neste tipo de projecto, tem ainda outra vantagem: não é necessário “inventar” uma “população ideal” para o conseguir. Basta incentivar a que existe a fazer o que sempre fez, apoiando-a do ponto de vista técnico e permitindo-lhe aceder às necessárias contrapartidas, directamente relacionadas com o êxito da iniciativa. Difícil é convencer os autarcas a “mudar de agulha”, a redefinirem os objectivos que têm presidido à sua acção. Isto, porque uma nova orientação implica preservar em vez de construir, manter e melhorar em vez de alterar. E, no entanto, os ventos que sopram deviam levar a uma mudança de estratégias. Ou de autarcas...