domingo, Setembro 14, 2014

Histórias que por cá se contam-V: Lenda de Santo Estêvão

 Igreja Matriz de Fornelo do Monte, construída em 1724 sobre as ruínas da capela de Santo Estêvão.
"À semelhança de outras terras, Fornelo do Monte também tem a lenda do seu padroeiro.
Santo Estêvão, que foi Papa entre os anos 254 a 257, foi um dos mártires dos primeiros tempos do cristianismo. E um dia, há muitos séculos, o seu espírito passou pelas montanhas de Fornelo, e ao contemplar as belezas naturais que Deus ali criara, resolveu transformar uma das pedras ali existentes na sua própria IMAGEM, deixando-a encostada a um grande penedo, em sítio bem visível dos moradores. E o povo guardou-a com grande devoção, construindo-lhe então uma capela em sua honra.
Mas.., os de Ventosa, quando souberam do aparecimento da milagrosa Imagem, vieram buscá-la, e levaram-na para a Igreja Paroquial de Santa Maria de Ventosa a que Fornelo nesse tempo pertencia. E sempre que os de Ventosa o faziam, a Imagem voltava ao lugar onde tinha aparecido, até que ficou definitivamente em Fornelo, depositada na capela que lhe construíram.
E foi por cima das pedras desta antiga capela, que o povo no século XVIII erigiu a sua própria Igreja".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25

segunda-feira, Setembro 01, 2014

Histórias que por cá se contam-IV: Lenda da caninha verde

 Caminho de acesso à Ribeira de Ribamá. Foto retirada daqui.

Nota prévia: A versão da lenda que apresentamos de seguida, da autoria de Gentil Marques, publicada em 1962,  foi por nós escolhida por ser a mais rica em pormenores. No entanto, alertamos desde já para duas referências que certamente vão parecer estranhas aos leitores mais familiarizados com a região. Desde logo, é duvidoso que na versão original da lenda fosse feita qualquer referência ao rio Vouga (quando muito a Ribamá), tendo em conta o seu percurso pela região. Depois, quando o autor integra Vouzela "na comarca de São Pedro do Sul", é preciso não esquecer que estamos perante um texto inicialmente publicado em 1962. Ora, Vouzela perdeu a comarca em 1927 e apenas a recuperou em 1973... até hoje.
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"Alguma vez, estimado leitor, já passou pela bonita e pitoresca freguesia de Fataunços, perto de Vouzela, na comarca de São Pedro do Sul, situada nas margens fascinantes do rio Vouga?... 
Pois em Fataunços há uma casa brasonada que tem a sua história lendária, recordada por uma escultura graciosa e simbólica que ainda hoje lá está.

Nos exórdios sáfaros da monarquia lusitana, vivia num palacete da freguesia de Fataunços um velho guerreiro ainda descendente do famoso chefe mouro Cid Alafum, que fora senhorio daquelas terras do couto de Alafões, havia já muitos séculos. Mas o descendente de Cid Adafum — El Haturra, era o seu nome — em nada se parecia com o terrível antepassado, que se mostrara sempre cruel e despótico.
Pelo contrário, El Haturra primava por ser bonacheirão e alegre, aceitando sem sombras de tristeza o domínio português.
Era velho e feio, sim. E usava permanentemente, à laia de bengala, uma velha cana ressequida pelo tempo e enegrecida pelo uso. Cana que vinha sendo transmitida na família, de geração em geração, sempre com palavras misteriosas murmuradas ao ouvido do novo possuidor...

Os seus amigos rodeavam-no e perseguiam-no com perguntas acerca de tão estranha caninha. Principalmente Álvaro, um moço português ao qual o velho mouro se afeiçoara sinceramente. E, um dia, Álvaro resolveu-se a falar com ele a sério, muito a sério, sobre o assunto que o intrigava.
— Escutai, El Haturra... Para vosso bem, aconselho-vos a abandonar essa vara negra e feia que utilizais como bordão.
E olhando-o bem de frente, acentuou:
— Para vosso bem, repito!
Mas o velho El Haturra limitou-se a encolher os ombros com ar displicente, e a dizer em tom firme:
— Não quero!
Álvaro voltou a olhá-lo, sem compreender.
— Como é isso possível, se sois um homem de bom raciocínio?... Pois não entendeis que tal vara serve de gáudio à rapaziada e é motivo de constante troça para vós?
Soberbamente, num jeito que contrastava com a sua aparente velhice, o mouro limitou-se a dizer, sem qualquer hesitação:
— Eu sei o que faço, amigo! Esta vara negra e seca vale muito... Muito mais do que podeis pensar... É o bastão derradeiro do comando que usou Alafum, na célebre retirada dos agarenos…
Um sorriso leve nasceu e morreu nos lábios de Álvaro.
— Ora, ninharias!... Velharias!...
Foi a vez de El Haturra o fitar bem no fundo dos olhos.
— Pois não acreditais que esta vara tem magia?
O ligeiro sorriso de Álvaro voltou a aparecer, para logo se transformar numa clamorosa gargalhada.
— Magia? Claro que não acredito que possa haver qualquer espécie de magia nessa vara grotesca!
E voltou a gargalhar, num provocante desafio.
O velho El Haturra primeiramente pareceu irritado. Os seus olhos semicerraram-se e parecia que ia explodir em cólera. Mas depois acalmou-se, e a sua voz tornou-se branda, confidencial:
— Álvaro, vós bem mereceis a minha confiança. Tendes mostrado muita vez que sois realmente meu amigo. Por isso mesmo vou confiar-vos um segredo que somente tem sido transmitido na nossa família, de pais para filhos ou de tios a sobrinhos...
Respirou fundo e fez um gesto de chamamento.
— Aproximai-vos mais, por favor. O que tenho a dizer-vos é segredo, absoluto segredo. Só pode ficar entre nós dois...
E espiando ainda em redor, atentamente, para se convencer de que estavam sozinhos, El Haturra fez a grande revelação.
— Ouvi bem, Álvaro... Quando esta vara, velha e ressequida pelo tempo, conseguir reverdecer é sinal sagrado do almejado encontro de dois primos descendentes de Cid Alafum… Compreendeis agora porque eu nunca deixo esta varinha, meu bom Álvaro?
Este mostrou-se um pouco aturdido. E no seu rosto espelhou-se a dúvida que se lhe formava no espírito.
El Haturra decidiu portanto ser mais explícito.
— Como sabeis, quando Cid Alafum perdeu a batalha, todos os seus tesouros ficaram escondidos por artes mágicas… E com eles as lindas sarracenas que se ouvem por aí, de noite, encantadas, carpindo as suas mágoas...
Um brilho mais vivo passou no seu olhar.
— Porém, no dia em que nestas terras se encontrarem, face a face, um descendente e uma descendente de Cid Alafum...
— Que acontecerá? — perguntou o moço Álvaro, sem poder conter a sua curiosidade.
El Haturra respondeu no mesmo tom calmo de sempre:
— Acontecerá que todo o antigo senhorio destas terras voltará a pertencer-nos... as belas mouras serão desencantadas... e a alegria tornará a substituir a tristeza nos seus corações!
Cordialmente, o moço Álvaro pousou a sua mão forte no ombro de El Haturra.
— E achais... que esse encontro virá a dar-se?
El Haturra elevou os olhos para o alto.
— Estou certo de que sim. Mas já não sei se será no meu tempo... sinto-me velho e cansado...
E baixando a voz, de novo em tom confidencial, ajuntou:
— Além disso, é preciso que os dois primos que se encontrem professem ambos a lei de Mafamede.
— Porquê a de Mafamede?
— Porque é a mais completa em sortilégios!
Álvaro nada mais disse. E, agora em silêncio, os dois homens continuaram o seu passeio.

E muitos outros passeios deram pelos campos fora, falando sobre o mesmo assunto, comentando-o cada um deles à sua maneira...
Até que, em certa linda tarde de Primavera, quando juntos deambulavam nas margens do rio Vouga, viram descer de um dos montes vizinhos uma princesa jovem e esbelta montando um ginete branco. A seu lado cavalgava uma formosíssima aia, montada num cavalo negro. 
O velho El Haturra e o seu companheiro quedaram-se encantados com tão magnífico quadro vivo, na moldura da natureza enebriante. E a princesa e a aia mais belas se mostravam à medida que se aproximavam.
Especialmente a aia apresentava um curioso e estranho contraste entre os seus olhos azuis e a sua trança muito negra...
De súbito, Álvaro agarrou com força o braço de El Haturra e apontou a vara que o outro segurava.
— Vede! Olhai! O vosso bordão está a reverdecer!
E a voz de El Haturra, como que remoçada, confirmou também:
— É verdade... Cumpre-se a profecia do grande Cid Alafum! Acreditais agora?
— Decerto que sim!
Mas já o próprio Álvaro se assombrava mais ainda diante da profunda e inesperada transformação de El Haturra. Desaparecera o velho por completo. O corpo endireitara-se, os ombros tinham alargado, as rugas do rosto sumiram-se, os olhos ganharam novo brilho, o cabelo voltou a ser negro e farto. El Haturra era agora um jovem como ele!
E Álvaro, intrigado, confuso, mal pôde articular uma exclamação de surpresa.
— É fantástico!... Estais jovem e belo!
El Haturra soltou uma risada fresca.
— Ainda bem que testemunhastes tudo quanto se passou, meu bom Álvaro. Assim não tendes mais que duvidar...
A voz de Álvaro balbuciou uma pergunta a medo, demorada e hesitante:
— Quer então dizer... que... nas antigas terras de Cid Alafum... se encontraram dois descendentes seus?...
— É isso mesmo, Álvaro!... No instante em que a olhei, senti logo dentro de mim que algo iria passar-se.
— Referis-vos à princesa, El Haturra?
O agora jovem mouro abanou a cabeça num decidido gesto de negação.
— Não, meu amigo! Falo-vos da aia. A bela aia de cabelos soltos e que montava o cavalo negro... Essa, sim!... Tenho a certeza que é essa que eu encontrei… Ainda oiço a música da sua presença dentro de mim!...
Desde esse dia, não mais El Haturra teve sossego. E o moço Álvaro também não, já que desejava acompanhá-lo na sua aventura. Seguindo no encalço das duas jovens, acabaram por saber que se dirigiam à corte do rei de Portugal. E eles lançaram-se também no mesmo caminho...
Conta a história velhinha que depressa o novo El Haturra conseguiu que a bela aia correspondesse ao seu amor. Tudo os atraía, como se esse encontro estivesse, de facto, marcado pelo Destino...
E, graças à influência de Álvaro e da sua família, fácil foi alcançar também a permissão do rei de Portugal para que o casamento se realizasse o mais rapidamente possível.
Simplesmente, o rei impôs uma condição. Condição essa que a jovem e bela aia se apressou a transmitir ao enamorado El Haturra, pedindo-lhe que viesse falar com ela.
Ele não se fez esperar.
— Aqui estou, minha bem-amada… Passa-se algo de grave?
— Um tanto, sim, meu senhor… Trata-se do nosso futuro.
Os nervos de El Haturra puseram-se em alerta. Desconfiados. Excitados.
— Mas que há? Dizei depressa! Bem sabeis como vos amo... El-rei voltou atrás com a sua palavra?
Ela sorriu, a acalmá-lo.
— Que ideia, meu senhor!... Bem sabeis que palavra de rei não volta atrás...
E inclinando-se para ele, confidenciou-lhe:
— Sim, el-rei consente na nossa união, e até me prometeu como presente de noivado o senhorio destas terras... Porém, impõe uma condição.
De novo, os nervos de El Haturra se alteraram.
— Uma condição? Qual?
O sorriso da bela aia tornou-se ainda mais doce.
— Apenas isto, meu bem: el-rei de Portugal quer que vos baptizeis! 
A reacção foi imediata e violenta.
— Quê? Baptizar-me, eu? Eu que sou um mouro… um descendente do grande Cid Alafum?...
Ela tentou envolvê-lo com a sua sedução.
— Por isso mesmo, meu senhor! El-rei deseja que sejais um dos nossos.
Ainda desta vez El Haturra se refugiou na sua obstinada recusa.
— El-rei pede-me o impossível!
Foi a vez dela se mostrar retraída. Magoada. Chorosa.
— Não aceitais?
Sem a olhar sequer, como que falando consigo próprio, o mouro repetiu monocordicamente.
— Não aceito... Não aceito...
E a donzela, aproximando-se mais, falou-lhe num misto de ternura amimada e de aflita emoção:
— Pensai bem, meu senhor!... Se consentirdes em ser baptizado, el-rei dar-vos-á todas as terras dos vossos antepassados e eu poderei ser a vossa esposa fiel e dedicada... Que mais quereis, meu senhor?
Ele segurou-lhe as mãos. Longamente. Apaixonadamente.
— Amo-vos tanto, senhora... E el-rei pede-me tanto também!
A jovem e bela aia arriscou então uma pergunta decisiva.
— Valerá mais a vossa fé do que o vosso amor?
E logo El Haturra respondeu, como ela esperava que ele respondesse:
— Não, mil vezes não!... Sem vós, eu não serei nada! Só desejo na vida possuir o vosso amor!
— Pois ele vos dará igualmente todas estas terras... Aceitais?
Sem olhar mais para o passado, voltado apenas para o futuro, El Haturra respondeu:
— Aceito!... Aceito, sim, meu amor!
Tudo se aprontou, portanto, para o casamento de El Haturra com jovem e bela aia. Porém, antes da cerimónia nupcial, conforme estava combinado, houve que proceder ao baptismo do noivo. E pela força das circunstâncias este viu-se obrigado a deixar a caninha verde fora da igreja...
Então aconteceu algo de extraordinário. Ao ser baptizado, El Haturra instantaneamente deixou de ser o moço forte e garboso em que se tornara, para se transformar de novo no velho alquebrado e feio que já fora. Conforme fora transmitido de geração em geração, a magia da caninha verde só se realizava se os dois parentes de Cid Alfum obedecessem à lei de Mafamede!
 
Segundo se diz, a noiva desmaiou de comoção. Quando recobrou os sentidos fugiu para o palácio — e não mais quis ouvir falar do seu estranho noivado.
Por seu turno, El Haturra desapareceu também para sempre. Não se voltou a falar dele. Mas a caninha verde foi arrecadada e guardada em sítio secreto, para nunca mais ser descoberta.
Contudo, reza a tradição popular, se na mesma hora e no mesmo local de Fataunços em que se deu o encontro entre os dois descendentes do grande Cid Alafum alguém gritar três vezes: «Viva o fidalgo da caninha verde!» (como o povo ficou a chamar-lhe), logo se escutam pelos montes vizinhos gargalhadas argentinas, seguidas do sussurrar plangente das águas do rio Vouga. Para o bom povo da região trata-se da alegria das mouras encantadas que se julgan libertadas do seu cativeiro, e logo compreendem que tudo continua na mesma..."
Fonte Biblio: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 143-148, in Arquivo Português de Lendas.

quarta-feira, Agosto 20, 2014

Histórias que por cá se contam-III: lenda da Santa Combinha

"A imagem de Santa Combinha apareceu no meio de um monte, num sítio designado por “ladeira da Santa”.
 Muito em segredo, algumas pessoas de Cambra ali iam e carregavam com a imagem para a Igreja. Depois de várias tentativas, foram baldados todos os esforços para levarem até ao fim os seus intentos.
 Mal a colocavam no altar, fugia novamente para o lugar onde aparecera. Por isso, foi necessário construir-lhe a capela naquele lugar, de modo a que ali ficasse para sempre.
 Naturalmente que o povo assim o quis e religiosamente lhe construiu a capela.
 É daquele mirante de paisagem extraordinária que SANTA COMBINHA, - protectora das ovelhas, - recebe no seu seio os suplicantes devotos. No dia 20 de Julho, fazem-lhe a festa, que é muito concorrida por forasteiros que vêm de todos os lados.
 É da tradição que nesse dia da festa, os lavradores com mais bem estar económico abrissem as portas das suas adegas a amigos e conhecidos, contribuindo assim para aumentar a alegria dos forasteiros".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25. Imagem retirada daqui.

terça-feira, Agosto 12, 2014

Histórias que por cá se contam-II: Lendas populares de Figueiredo das Donas

Foto retirada daqui
"Segundo relatos populares, existia no antigo Paço de Figueiredo das Donas, um Pombal.
Junto a esse pombal, há um grande monte de pedras, onde se julga que no meio existe uma, com a forma de cabeça de cavalo que, segundo crença antiga, localizaria o tesouro dos Mouros.
Também é dito que o corpo do cavalo já foi visto, e os crentes em patranhas acreditam que o tesouro está sujeito a um encanto. Encanto esse, que fará desaparecer o tesouro no momento em que for descoberto: - visto já terem encontrado um cálice de ouro e que na altura em que iam para lhe pegar,... a terra engoliu-o!..."
Fonte Biblio: CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26
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"Uma outra lenda que o povo tem transmitido através de muitas gerações, é a seguinte:
Há uma pia de pedra que se encontra nas redondezas do paço e perto da estrada romana que então ali passava, pia essa que tem o nome de “bica do Fuzeiro”, tendo sido ali que começou a desenrolar-se o facto histórico, que deu o nome à freguesia. Foi neste lugar, que o cavaleiro Guesto Ansures encontrou o pai de Mécia, ficando a saber, a partir deste momento, onde se encontrava a sua amada".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26

sexta-feira, Agosto 01, 2014

Histórias que por cá se contam

Deve ser por este chão de granito que nos queima no verão e gela no inverno. Ou, talvez, pela pequenez que sentimos perante a imensidão dos horizontes,  pelo contraste das cores e dos humores das águas nas diversas estações. Deve ser por tudo isso que a memória do que por cá houve nunca se ficou pelas meias tintas. Amor ou ódio, comédia ou tragédia, tudo ou nada. Sentimentos sinceros, mas extremos, que vão muito para além do entendimento da razão. É então que entra a lenda. E elas não faltam por estas terras de santos e pecadores, heróis e mártires. Os gregos usavam-nas para ensinar as virtudes aos seus jovens e adverti-los para as misérias. Desde sempre, passaram de geração em geração, numa tentativa de explicar o inexplicável. Seja como for, as lendas, esse misto de realidade e ficção, refletem o modo como um povo se relacionou com o seu meio, com os seus medos, com os seus desejos. Aí ficam as nossas. Heróis, moiras encantadas, tesouros escondidos, milagres e lobisomens, aí se apresentam.  Apenas acessíveis a corações puros e imaginações largas.

Na última tertúlia organizada pela Associação D. Duarte de Almeida e pelo Agrupamento de Escolas de Vouzela, foi salientada a importância de se fazer uma recolha das lendas locais, usando-as para melhor dar a conhecer os diversos cantos do concelho. Com as oito publicações que se seguem, iniciamos o nosso modesto contributo. Já de seguida, publicamos a conhecida lenda do Tributo das Donzelas, associada a Figueiredo das Donas e, posteriormente, iremos publicar a referência a duas outras dessa localidade (Lendas Populares de Figueiredo das Donas). Seguem-se a lenda da Santa Combinha, a da Caninha Verde, a de Santo Estêvão, a da Cova do Lobisomem, a da aparição de Nossa Senhora dos Milagres e, por último, Queiran (escrita assim mesmo e que se refere a Igarei). Em cada publicação serão indicadas as fontes usadas. No entanto, deixamos já duas referências: a excelente coletânea disponibilizada pelo Arquivo Português de Lendas e o trabalho de recolha realizado, há uns anos, pelo Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela e pela ADRL.

Tributo das Donzelas


"Contam todos os nossos historiadores que o que deu a esta freguezia o sobrenome (das Donas) foi o facto seguinte.
Mauregato, filho de D. Affonso, o catholico, e d’uma escrava, pretendeu usurpar (como usurpou) o throno a seu sobrinho, D. Afonso, filho de D. Fruela, e para isto pediu e obteve o auxilio das tropas do kalifa de Córdova, Abd-el-Raman, em 783, mediante o vergonhoso tributo de 100 donzellas lusitanas, para os harens mouriscos.
Em 784, Orélia e mais 5 companheiras, d’estes sitios, foram escolhidas pelos caçadores do usurpador, para fazerem parte do tributo d’esse anno. Hiam ellas passando por Figueiredo, acompanhadas e guardadas por 20 mouros e 40 castelhanos, todos de cavallaria, álem dos guardas de pé.
Um nobre cavalleiro lusitano, de sangue gôdo, natural de Lafões, chamado D. Guesto Ansur, era namorado de Orelia, que lhe mandou dizer a desgraça que lhe acontecera e pedir-lhe que a salvasse.
D. Guesto junta á pressa uns trinta homens de Lafões e com elles cahe inopinadamente sobre a escolta que conduzia as donzellas a Merida, quando ella passava a Figueiredo. O furor de D. Guesto e dos seus era tal, que os mouros e castelhanos morreram quasi todos no combate. As damas foram libertadas, e D. Guesto as levou para o seu castello e alli casou com Orelia.
(Ha tambem quem diga que este facto não occorreu aqui, mas em Figueiró dos Vinhos. Estes, quanto a mim, fundam-se sómente nos primeiros dois versos da poesia de D. Guesto, que em muitos escripmres veem assim – «No figueyrol de figueyredo – A no figueyrol entrei.»)
No maior furor da peleja, tinha quebrado a espada D. Guesto; mas este estroncando um grosso ramo d’uma figueira, continuou com elle a esmagar os inimigos.
Por esta façanha, D. Bermudo 1.º deu, em 789,  a D. Guesto Ansur o appellido de Fígueiredo (outros ditem, de Figueirôa) e por armas um ramo de figueira.
Depois, na reforma dos brazões, em logar do ramo, foram 5 folhas de figueira, que ainda hoje são as armas dos Figueirôas.
O mesmo rei determinou que ao logar da peleja te chamasse d’ahi em diante Fígueiredo das Donas.
Dizem outros escriptores que estes appelidos e estas armas, foram dadas por D. Ramiro 1.º em 848, mas é mais provavel que fosse D. Bermudo 1.º porque é de suppor que D. Ansur já não existisse 64 annos depois d’este facto, e mesmo porque o rei não demoraria tanto tempo um premio que nada lhe custava.
Os gallegos dizem que um facto semelhante aconteceu junto a Mondonhêdo, por esse tempo, com um cavalleiro da Galliza, que tambem com uma pernada de figueira matou os guardas que escoltavam algumas donzellas d’aquelle reino, destinadas ao infame tributo, resgatando-as. Outros escriptores gallegos e castelhanos dizem que o tal cavalleiro que obrou esta façanha tinha por appellido Figueirôa já antes a d’ella, e que é por esse motivo e não por ter combatido armado do ramo de figueira, que aos seus descendentes se conserva o appellido de Figueirôas.
O que é certissimo é que todos os escriptores de boa nota contam o facto e a origem do appellido e das armas, como primeiro relatei – que em Hespanha ha tambem o appellido de Figueirôa, – e que, nem só em Figueiredo das Donas e Mondonhêdo, mas em varias terras das Hespanhas, o povo por varias vezes sahiu ás escoltas que levavam as donzellas do tributo, e as libertaram, com mais ou menos derramamento de sangue.
Este infamante tributo só durou 6 annos, porque, tendo morrido o usurpador Mauregato, em 789, e subindo ao throno D. Bermudo I, só n’esse anno pagou o tributo, porque atacando as tropas do kalifa Abd-el-Raman, junto de Aledo, as derrotou, e livrou os christãos de tão humilhante tributo".
Fonte Biblio: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo III, pp. 193-194, in Arquivo Português de Lendas.
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Relacionada com esta lenda, existe a "canção do figueiral", datada do século XIII e cuja letra apresentamos de seguida (a adaptação musical feita por Luís Cília e incluída no album de 1974, "O Guerrilheiro", pode ser ouvida aqui):

No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei,
Seis niñas encontrara
Seis niñas encontrei.
Para ellas andara,
Para ellas andei,
Lhorando las achara
Lhorando las achei
Logo las pescudara
Logo las pescudei.
Quem las maltratara
Y a tão mala ley?
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Uma repricara:
"Infançom nom sey,
Mal houvesse a terra
Que teme o mal rey
S'eu las armas usara
Y a mim fee nom sey
Se hombre a mim levara
De tão mala ley.
A Deus vos vayades,
Garçom, cá nom sey
Se onde me falades
Mais vos falarey;"
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Eu lhe repricara:
"A mim fee nom irey
Cá nos olhos dessa cara
Caro los comprarey;
A las longas terras
Entraz vós me irey,
Las compridas vias
Eu las andarey,
Lingoa de aravias
Eu las falarey,
Mouros se me visse
Eu los matarey".
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Mouro que los goarda
Cerca lo achey
Mal la ameaçara
Eu mal me anogey,
Trocom desgalhara
Todolos machuquey,
Las niñas furtara,
Las niñas furtey.
Lá que a mim falara
N'alma la chantey.
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

segunda-feira, Julho 21, 2014

Indicadores de gestão de municípios, áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais


Estão no Portal de Transparência Municipal e podem ter algum interesse, sobretudo através da comparação de dados entre municípios. Aqui fica para consulta.

quinta-feira, Julho 17, 2014

Chegou a hora do Vouga


Foto de João Cosme

É urgente que se construa (de facto) uma nova ETAR em Vouzela e S.Pedro do Sul e que comecem a ser punidos verdadeiramente os responsáveis pela poluição do rio Vouga. Já que nele não me posso banhar pela falta de civismo... 
Gosto
- Francisca Ferreira, Facebook.

Há quem diga que não é bem assim, que as águas estão de boa saúde, mas logo vemos outros a torcer o nariz. A verdade é que o comentário da Francisca traduz os sentimentos dominantes: de desconfiança e de esperança. Desconfiança no que há, por muitos anos de desleixo e falta de informação. Esperança, pelo arranque duma obra que há muito se sabia ser necessária, mas que ultrapassava as fronteiras do nosso desejo. Os atuais executivos camarários de Vouzela e São Pedro do Sul conseguiram dar corpo ao sonho. Têm, por isso, a nossa gratidão.

Os rios sempre foram um dos principais recursos naturais da região de Lafões. Durante séculos, numa perspetiva utilitária, diretamente relacionados com as diversas atividades de que dependia a sobrevivência. Mais tarde, acrescentando-lhe uma componente lúdica que chegou a ser cartaz turístico. Assim foi, logo nos finais dos anos vinte, quando a publicação promocional editada pela Comissão de Iniciativa apresentava a "frescura das águas que banham (...) as várzeas verdejantes" como uma das atrações para quem, "foragido dos grandes aglomerados urbanos, procura na existência pacífica e simples dos campos o retempero da saúde física e moral". Assim foi muitas outras vezes, como o comprovam os diversos artigos publicados no Notícias de Vouzela, anos a fio, propondo maior dinamização e divulgação das zonas ribeirinhas. E até "Os Vouzelenses", em 1958, usavam o Vouga, "essa bela piscina natural"(1), como um dos aliciantes para convencer a juventude a descer às Chãs para participar nos treinos .

Mais tarde, mesmo quando os estragos começavam já a ser visíveis, a Foz, Arrabidazinha, Vau, Termas, Poço Azul e tantos outros, eram locais obrigatórios para preencher os quentes dias de verão.  Nem as rãs tinham descanso com a perseguição da pequenada, no Zela, ao fundo da Rua da Ponte. Por essa altura sentia-se, já, a quebra da procura. O processo de massificação do Algarve estava no auge e as praias dominavam os roteiros de férias dos portugueses. Mesmo assim, os que por aqui passaram nas "férias grandes" da década de 70, ainda conheceram umas Termas de São Pedro do Sul que não se limitavam aos aquistas e quatro unidades hoteleiras em Vouzela bem preenchidas de gente: Hotel Mira Vouga, Pensão Jardim, Pensão Marques e Pensão Serrano. Não havia piscinas, a não ser as naturais e as estadias raramente eram inferiores a uma semana.

Depois... bem, depois Lipovetsky que nos desculpe, mas, por cá, a "era do vazio" também se sentiu na paisagem. E foi isso que a geração da Francisca Ferreira conheceu. As águas continuaram a correr (nem todas...), mas agora acompanhadas pela  consciência dos estragos e pelos receios. A construção de uma ETAR de duvidosos resultados, só agravou o problema. Com as piscinas públicas tentaram-se  alternativas. Insuficientes- o fascínio da região está na possibilidade do seu usufruto pleno, sem portões nem horários.

O Vouga corre lá em baixo com a disponibilidade de sempre, alheio a equívocos e maus tratos. Parece ter chegado a hora de retribuir,  reconhecendo-lhe o estatuto de excelência que sempre teve. Que esse momento seja assinalado com pompa e circunstância pelo consciência que revela de que só há futuro para esta região se alicerçado na proteção dos seus recursos naturais.
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(1)- "Os Vouzelenses" 80 anos- Imagens com histórias, 2010, pág. 60.