Mostrar mensagens com a etiqueta urbanóides. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta urbanóides. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, março 11, 2009

A invasão dos urbanóides- 4: Bom tempo

Magritte, Les valeurs personnelles

“Finalmente, o bom tempo!”- exclamava a locutora de um daqueles programas radiofónicos das manhãs, assim como quem diz, “já cá devias estar há muito tempo, de que é que estavas à espera”? Março mal começou mas, tivesse a Mãe Natureza consultado os nossos urbanóides e ter-se-ia ficado por duas estações: a do ski, com neve a pedido, e o Verão, oscilando entre os 20 e os 34 graus, dependendo do contexto. Chuva? Que horror! Manifestação típica de subdesenvolvidos, preocupados com couves e batatais. Vade retro!

Dizia o povo, “Março, marçagão, de manhã inverno, de tarde verão”. O Borda d’Água ainda fala em geadas e manda preparar as terras para culturas de regadio. Mas o Instituto de Meteorologia avisa: “O ano (2008) termina em situação de seca”. Feitas as contas, 68% do território estava em “seca fraca”, 31% em “seca moderada” e 1% em “seca severa”. Por muito molhado que tenha sido Janeiro, mais os salpicos de Fevereiro, não há água engarrafada que resista. Até quando os recursos hídricos vão estar fora da lista de prioridades dos nossos responsáveis? Até quando vamos continuar a fingir que tudo está bem na protecção das fontes de captação e no tratamento das águas residuais?

“Eleições à porta, seja Deus louvado”. Finalmente, o bom tempo?

sábado, abril 05, 2008

Boletim Polínico

Estamos na Primavera. Tradicionalmente motivo de festa, a ela estavam associados vários ritos de fertilidade. Era o fim das privações do Inverno e o acordar da Natureza. Hoje, é tempo de “Boletim Polínico”. Isso mesmo. Uma informação sobre pólenes para prevenir alergias, divulgada pelos mais variados órgãos de comunicação. Nada escapa nesta história: carvalhos, oliveiras, urtigas, alfavaca-de-cobra. Eu que até sou dos que espirram incessantemente, com um recorde de 158 seguidos sem parar, digo que é estranho. Muito estranho. Num tempo em que o pessoal passa a vida a “snifar” tubos de escape, é preciso que a Mãe Natureza se disponha aos actos da procriação para ouvir bradar “aqui d’El Rei que anda pólen no ar”. Então e os exofres, chumbos e outras porcarias que nos entram nariz dentro, sem cerimónia para com as estações do ano? Será que ninguém é alérgico à poluição atmosférica? Será que não se justifica um “boletim”, um alerta a isso associado? Ou será que nos sentimos tão impotentes que a única luta que acreditamos poder vencer é contra... o voo das abelhas?

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A invasão dos urbanóides-3: a perspectiva das coisas

Magritte, Perspective

Confesso que resisti ao leitor de “cê-dês” no automóvel. Nada contra, mas o incómodo do armazenamento, as previsíveis consequências da trepidação, levaram-me a adiar a novidade. Só que não imaginam o gozo que dá sair de manhã para o trabalho, atravessar as estradas geladas e desertas das nossas serras, a ouvir os dramas engarrafados do pessoal que desespera, parado, no IC19, ou na Ponte do Freixo. Pois- a realidade nacional formatada pela dimensão dos horizontes urbanóides.

Por isso, limitei-me a sorrir quando ouvi o ministro da Saúde dizer que, na tal rede-de- serviços- que- os- técnicos- disseram- dever- ser- de- uma- maneira- mas- que- as- “opções políticas”- têm- montado- de- outra, nenhuma localidade ficava a mais de 30 minutos de um centro de assistência. Ocorreu-me logo que a Aldeia da Pena não tivesse dimensão para se fazer notar nos mapas do ministério. Ou Sul, Coelheira, Covas do Monte, Fujaco... eu sei lá.

Correia de Campos é de Viseu, mas há muito que se deve dirigir ao trabalho a ouvir as informações de trânsito das rádios nacionais. A coisa mexe connosco, acreditem. A páginas tantas já nos põe a ver grandiosas operações “stop” da brigada de trânsito, coletes reflectores e “pirilampos” a brilhar, arranjando espaço para que um helicóptero aterre numas quaisquer quatro faixas dum caminho nos confins de um vale de São Macário ou da Arada. A miudagem a acorrer, galhofeira, presidente de junta e filarmónica à espera, aprumados, e a senhora professora, rendida, a passar para trabalho de casa: “redacção sobre o dia em que o helicóptero veio buscar o tio Malaquias”. Em trinta minutos, registe-se.

Os efeitos são terríveis, não duvidem. Acabei por me render. Hoje já me fiz à estrada com “lobos, raposas, coiotes”, disco já antigo da Maria João e do Mário Laginha, mais de acordo com a minha realidade. No “cê-dê” do carro.

quarta-feira, setembro 05, 2007

A invasão dos urbanóides-2: Descoberta do... óbvio

Magritte, The Human Condition, 1935

Vivemos num país governado por urbanóides: gentinha fechada no seu mundo, olhando para o resto do território através da televisão ou de estudos que vão sendo publicados. E publicam-se poucos estudos...

Só assim se compreende que se abra a boca de espanto, perante a constatação, tardia, de realidades óbvias para quem vai arrastando os pés por terra firme. Desta vez, “descobriram” que o produtor agrícola é quem menos beneficia com o preço a que os produtos chegam ao consumidor. De acordo com os dados recolhidos por um tal Observatório dos Mercados Agrícolas, mais de 70% do dinheiro gasto pelos consumidores na compra de legumes e frutas, fica nas mãos dos distribuidores. A “observação” remonta a 2005, mas a situação já se verificava em 2000 e regista tendência para se agravar. Fantástica descoberta... Onde é que esta gente tem vivido?

O assunto, tem sido uma das preocupações dos textos que por aqui temos publicado. Não é possível reanimar económica e socialmente o interior, sem o apetrechar da organização que permita rentabilizar as suas actividades específicas (controlo de qualidade, promoção e distribuição). São essas actividades que permitem a criação de um mercado próprio, mais protegido da concorrência. Ora, com uma população envelhecida, isolada e pouco informada, não existe poder reivindicativo, nem capacidade para tornear a armadilha dos grandes grupos da distribuição e das grandes superfícies.

Era aqui que as autarquias tinham um papel a desempenhar, colocando os seus significativos recursos técnicos ao serviço da comunidade. Dinamizar, informar e discriminar positivamente, não nos parece que fossem actividades transcendentes, incompatíveis com os afazeres da gestão autárquica. Aliás, a divisão dos pelouros cada vez mais tem que facilitar uma análise global do território, não fazendo qualquer sentido separar, por exemplo, a acção social da dinamização económica. Por outro lado, continuar à espera de uma “vaga de fundo” de iniciativa privada, é a tal história de pôr a raposa a gerir o galinheiro: salvo raras e honrosas excepções, os privados com arcaboiço para a tarefa, não estão interessados em investimentos estruturantes de longo prazo. Resta a eficaz mobilização dos recursos locais em torno de objectivos. Sobretudo, ainda restamos nós, cidadãos, que não temos vocação para cobaias, nem pachorra para aturar urbanóides que abrem a boca de espanto, perante a descoberta... do óbvio.