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quarta-feira, outubro 17, 2012

Agora é uma questão de dignidade!

"A proposta final do Ministério da Justiça para a reforma judiciária retira da lista de encerramentos cinco tribunais, com a extinção de 49, contra os 54 inicialmente previstos.
O ministério de Paula Teixeira da Cruz decidiu manter os tribunais de Valpaços, Almodôvar, Nelas, Sátão e Vila Nova de Foz Côa, nos distritos de Vila Real, Beja, Viseu e Guarda, de acordo com a proposta de reorganização a que a agência Lusa teve acesso"- dnotícias.pt.

Pelos vistos, de pouco vale "ir a despacho". Apesar das esperanças depositadas pelo presidente da Câmara de Vouzela na conversa mantida com a ministra da Justiça, a verdade é que a proposta final para a reforma do sistema judiciário, mantém o encerramento dos tribunais de Vouzela e de Oliveira de Frades. Caso avance esta reorganização, teremos por estas bandas "secções de proximidade" que se descrevem como "locais de atendimento ao público, prestado por oficiais de justiça, com acesso integral ao sistema de informação do tribunal (...)"

Nem vamos falar em questões técnicas jurídicas de que já outros falaram com mais conhecimento, nem sequer dos fundamentos históricos que justificam a existência do nosso tribunal. Agora, temos que falar, apenas, da nossa dignidade. Da dignidade de um povo que tem visto serem-lhe retiradas as condições básicas da existência, obrigado a pagar para circular nas estradas a que o limitaram, impedido de desenvolver as suas tradicionais atividades económicas, violentamente afastado dos serviços que lhe podiam dar alguma segurança e conforto. Falamos da dignidade de um povo que querem expulsar das suas terras, condenando-o a umas quantas assoalhadas num qualquer subúrbio ou aos serviços de assistência, onde o "preço" do cidadão fica mais barato. Qualquer encerramento de serviços, na situação atual de crise violentíssima, de acelerado despovoamento e envelhecimento, tem que ser entendido como um ataque à nossa dignidade.

É cada vez mais evidente que as medidas que têm sido tomadas, têm como único objetivo aumentar a coleta, sem resolver um só dos problemas estruturais que nos trouxeram à triste situação presente. Se por um qualquer milagre a crise acabasse amanhã, continuávamos sem uma agricultura que garantisse, sequer, as reservas estratégicas nacionais; continuávamos sem indústria; continuávamos um dos países com mais elevados índices de corrupção da Europa. Mas é no meio deste desvario generalizado que se lembram de amealhar umas moedinhas encerrando os poucos serviços que ainda por aqui fixam gente e atenuam a dureza do quotidiano. 

Há quem adiante que os encerramentos de tribunais são o ensaio para uma reforma territorial que pode culminar na extinção de concelhos. Com a autoridade que reivindicamos do facto de defendermos a criação do concelho de Lafões, afirmamos que qualquer reordenamento territorial tem que obedecer a fundamentos históricos, geográficos, etnológicos e sempre com o aval do povo que lhe vai dar conteúdo. Excluem-se destes critérios, as "cunhas", o clientelismo e as soluções pré-fabricadas e impostas. Por isso falamos de dignidade.

Quando a notícia do encerramento do tribunal começou a circular, logo houve quem comentasse no Facebook: "O povo de Vouzela é sereno. Se isso fosse em S. Pedro rolavam cabeças de certeza"! É o velho mito dos "brandos costumes". Por aqui recorda-se que, há apenas umas décadas atrás, muitos dos processos que corriam no tribunal de Vouzela eram por agressões à sacholada na sequência de querelas de partilhas de água. Mas, apesar de nos estarem a tirar o líquido vital da nossa dignidade, preferimos recordar a atitude digna da Comissão Administrativa que, em 11 de Julho de 1927, em plena ditadura, recebeu a notícia da então extinção da Comarca: demitiu-se! Ficamos a aguardar a atitude dos nossos eleitos atuais e nem sequer lhes recordamos as "responsabilidades no cartório".  Apenas pretendemos que não se esqueçam do que, agora, está em causa: a nossa dignidade!

sexta-feira, abril 06, 2007

Não pode ser por acaso...

Não pode ser por acaso; ninguém é tão burro. Esta forma de encarar o território, olhando apenas para a faixa litoral e abandonando todo o restante, como quem despeja uma casa para a devolver ao senhorio. Não pode ser por acaso. Certamente não vamos desistir e entregar todo o interior aos "espanhóis". Ou vamos?

Há oitenta anos, Vouzela vivia o drama da supressão da Comarca. Há precisamente oitenta anos, pairavam as incertezas, numa luta contra o tempo, em que se avançava com a construção do tribunal e das casas dos magistrados, tentando contrariar a fatalidade. A notícia acabaria por chegar a 11 de Julho de 1927, originando uma violenta reacção do Presidente da Comissão Administrativa, Dr. Guilherme Coutinho: “(...) tendo chegado a esta terra, cuja autonomia judicial e administrativa tem séculos e ininterrupta existência, o incrível decreto da supressão da sua Comarca, tinha convocado esta sessão extraordinária para se deliberar a atitude a tomar em face da consumação d’este atentado governamental contra a vida d’uma das mais florescentes do paiz e d’uma das mais rendozas comarcas da sua classe, premeditado em proveito das vilas visinhas, modernamente desmembradas da Comarca de Vouzela, por juízes funcionários do Conselho Superior Judiciário inimigos de Vouzela, cujos relatórios parciais e informações tendenciosas enganaram a bôa fé do Exmo. Ministro da Justiça”(1). Seguiu-se a demissão de toda a Comissão Administrativa, porque os homens tinham “vergonha na cara”.

Oitenta anos depois, estamos na mesma. São apenas boatos, ou simples ideias, ou estudos, nada de concreto- seríamos os maiores idiotas se não percebêssemos que o terreno está a ser preparado. Encerraram escolas e até houve quem achasse graça. Encerram as urgências e vai encerrar o Tribunal, substituído por uma “Casa de Justiça”. O mais grave disto tudo, é que nem se pode dizer, como em 1927 se disse da Comarca, que se trata de um “atentado (...) contra a vida d’uma das mais florescentes do paiz e d’uma das mais rendozas comarcas da sua classe”. Vouzela tem estado em processo de morte lenta, com os seus responsáveis distraídos a jogar “Sim City”.

No entanto, talvez seja altura de se reflectir sobre estas medidas dirigidas a serviços estruturantes do ordenamento do território e que estão a ser tomadas assim à laia de quem empurra para o fundo, a cabeça do afogado. Com a facilidade de comunicação que hoje existe entre litoral e Interior, com os “I-Pês”, “I-Cês” e as auto-estradas, porque se insiste no sentido único, “rumo ao mar”? Que justificação “técnica” (obviamente!) impede que a circulação se faça ao contrário, usando serviços bem apetrechados, localizados no Interior? Aparentemente, esta seria a medida racional, já que dispersava os fluxos de trânsito, contribuindo para manter um importante movimento de pessoas em zonas tão deprimidas que já não há psiquiatra que lhes valha.

Mas os senhores autarcas, estejam caladinhos! Lembrarem-se agora que “o Estado está a demitir-se das suas funções”, quando eles próprios se demitiram, abandonando as populações aos ditames do “mercado”, soa a falso. Dizer que “sem serviços, em pouco tempo o que restará a Vouzela será só a cobrança de impostos” é hipocrisia. Na verdade, a sua grande preocupação tem sido o alargamento da área urbana, precisamente para garantir... maior cobrança de impostos. Onde estão as ideias para reordenar as actividades económicas locais, lançar “marcas”, proteger actividades? Nada! A “santa iniciativa privada” havia de aparecer, saída do nevoeiro, e tratar do assunto. Tratou: encostada aos "favores autárquicos" e a tudo o que valesse subsídio, assistiu, interesseira, a um dos mais violentos processos de reconversão social vividos no nosso país. As pessoas foram abandonadas, os mecanismos de apoio social foram subvertidos e o território foi despejado. Agora, talvez possa ser comprado a “pataco”- os "espanhóis" estão entre nós. Não, não pode ter sido por acaso...
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(1)- in, Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001, p. 128