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segunda-feira, junho 10, 2013

Estratégias de propaganda

A D. Otília e o senhor Augusto, como eram carinhosamente tratados os proprietários da Pensão Jardim. Foto retirada do album do neto, João Miguel Ferreira.

Tudo se passou em 1958. Nas eleições presidenciais, Humberto Delgado conseguiu o apoio unânime da oposição e alimentou esperanças de mudança. "Obviamente, demito-o", respondeu, quando interrogado sobre o futuro que reservava a Salazar e o povo acreditou. Centenas de milhar de pessoas sairam às ruas em míticas manifestações em Lisboa e no Porto e, um pouco por toda a parte, organizaram-se apoios. O regime reagiu como sabia: com Américo Tomás e cacetada. Coragem e astúcia eram, então, requisitos obrigatórios, para os que ousavam resistir.

Augusto Lourenço Ferreira, que foi mestre na arte de sapateiro, mas que decidiu investir economias na construção da Pensão Jardim, era um homem forjado nos conflitos da primeira República. Viveu a sua queda e a ascensão dos novos poderes a partir do 28 de Maio, assistindo ao desfile de conterrâneos que, orgulhosamente, publicitavam a pertença à Legião Portuguesa de peito feito e farda engomada. Abra-se, a este respeito, um parêntises e, à laia de desabafo, refira-se que até o campo das Chãs esteve quase transformado em carreira de tiro, para que os garbosos "soldados" afinassem a pontaria na luta contra os "inimigos da Nação", que é como quem diz, aqueles que não afinavam pela cartilha oficial. Certo, certinho é que todos acabavam por ir molhar a goela à loja que ocupava as traseiras da pensão, onde o senhor Augusto, por insondáveis motivos alcunhado de "o Polícia", aviava copos de branco e tinto e alguns petiscos, sem fazer distinções a clientes da situação ou do "reviralho".

Em 1958, Augusto Ferreira apoiou Humberto Delgado. Como de costume, a campanha foi desigual. À quase clandestinidade a que, mesmo em período eleitoral, era remetida a oposição, respondia o regime com a máquina organizada da polícia e de grupos de zelosos "funcionários" que, às claras, distribuíam a propaganda do candidato oficial. Os homens percorriam todo o concelho, distribuinado os papelinhos da "verdade portuguesa" a gente que reunia os requisitos para se pronunciar sobre os destinos da Pátria. A coisa dava sede. E assim, lá iam eles, quando o percurso o proporcionava, encostar a barriga ao balcão do senhor Augusto.

Foi aí que sobressaiu o engenho do velho republicano. A campanha decorreu num mês de Maio que a memória regista mais fresco do que o normal. Mas falamos de um tempo em que a perceção das distâncias dependia da força das pernas e os cães investiam sobre mensageiros que se aproximassem dos portões das propriedades, fossem carteiros ou propagandistas do regime. Ora, é saber antigo que o vinho mata sede, dá forças e arriba o ânimo. Conhecedor de gentes e costumes, o senhor Augusto tratou de encher o copo, mal  avistou o homem da propaganda à porta da loja. Deve ter ido de um trago, adornado com estalo de língua e pancada firme no tampo do balcão. "Bote outro"! Claro que sim. E mais outro e ainda outro, estimulados pela frescura do vinho e por conversa animada. Nada de política. Talvez futebol e do nacional, porque os locais tinham ido levar seis a Vale de Açores, o que não era assunto que se quisesse. E o homem da propaganda lá foi esvaziando um atrás do outro, animado pelo verbo solto e pelos calores que começava a sentir. Tirou o casaco e atirou-o para cima do balcão. "Olhe que o suja. Dê-o cá que lho penduro em local seguro". E assim fez, o senhor Augusto, levando-o para o fundo da loja, aproveitando para trocar os panfletos da distribuição, por outros a favor do general. Missão cumprida, o homem da propaganda lá foi despachado à sua vida. A propaganda foi entregue, mas a mensagem era outra.

De muito do que então se passou, reza a História. Com a oposição impedida de controlar o escrutínio, Américo Tomás foi declarado vencedor com mais de 70% dos votos. Nem Salazar acreditou, apressando-se a mudar o sistema eleitoral para a presidência da república. Humberto Delgado foi, a partir de então, um pesadelo que perseguiu o ditador. Do que poucos souberam, foi do contributo de uns tantos copos de verde, fresco e do engenho de Augusto Lourenço Ferreira.

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Pode ser aqui consultada uma breve cronologia dos principais acontecimentos políticos de 1958.
A imagem da propaganda de Américo Tomás foi  retirada de Ephemera

segunda-feira, maio 06, 2013

O homem dos trocos

Retirado do Almanach Silva

Andava o mundo às avessas lá pelos idos de 40, quando um metal trouxe uma súbita ilusão de abundância a tempos de fome e de medo: o volfrâmio. As carências no mais elementar, conviviam com o exibicionismo dos que acendiam charutos com notas de conto; as angústias da guerra e do racionamento contrastavam com o desfile de enfeites de ouro e automóveis de encher o olho.

Foi então que por aqui houve um homem, comerciante de fazendas e grande tocador de rabecão, que por ter ouvido educado e tato apurado, rapidamente se adaptou às vibrações dominantes.  Dinheiro, ou não havia, ou havia do grosso, coisa complicada quando apenas se pretendia pagar meio quartilho de vinho e umas lascas de presunto.  Faltavam trocos. Ora, como qualquer bom negócio deve responder a necessidades assumidas, não hesitou o nosso tocador de rabecão: trocava por miúdo, o dinheiro graúdo dos outros. Com um pequeno pormenor: nunca tinha a conta certa. “Teria muito gosto em trocar-lhe essa nota de quinhentos, mas só tenho quatrocentos e oitenta”. Quem se preocupava com ninharias quando a fortuna estava à distância dumas pazadas de terra? “Venham de lá esses quatrocentos e oitenta e fique com os vinte por conta do favor que me faz”. Sim, era isso, uma  paga por serviços prestados, ou, se preferirem, uma espécie de taxa de câmbio entre o mundo dos ofuscados pelo brilho das pedras e a baça existência dos simples mortais.

segunda-feira, maio 14, 2007

São Frei Gil, o "Fausto Português"- um conto de Eça de Queirós

Desde sempre, estas terras foram férteis em personagens que deram sentido à máxima de Aquilino Ribeiro: “morra o homem e fique a fama”. Mulheres e homens que fintaram o rigor da História e atingiram uma dimensão épica no coração do povo. Há 742 anos, no dia 14 de Maio de 1265, morreu em Santarém um desses homens. Chamava-se Gil Rodrigues de Valadares e dele se disse ter sido “Fausto”- porque fez um pacto com o Diabo- e “Santo”, primeiro pela “voz do povo” e, depois, pela Igreja (foi canonizado em 1749).

A reconstituição/recriação da vida e da lenda de São Frei Gil, sempre atraiu estudiosos e escritores nas mais diversas épocas. Um deles, foi Eça de Queirós. No dia do nosso feriado municipal, dedicado ao Santo (e “Fausto Português”), parece-nos ser a altura ideal para divulgar o escrito (inacabado) do grande escritor.

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PS: A partir de agora, mais uma "caixa de dúzia" disponível na coluna da direita.

sábado, fevereiro 10, 2007

Reflectindo

Era uma vez um rei que não conseguia aprender a andar a cavalo. É isso mesmo. Sua majestade bem tentava, comprava os melhores cavalos, contratava os melhores mestres, prometia, ameaçava... mas o resultado era sempre o mesmo: “catrapumba” no meio do chão! Foi então que um dos ministros, já farto de tanta insistência e- porque não dizê-lo- algo receoso das iras régias, concebeu uma teoria que obteve aprovação geral: “se não é possível ensinar o rei a andar a cavalo, então... ensinam-se os cavalos a andar com o rei”. Lá voltaram os melhores mestres para trabalharem com os melhores cavalos, consta até que foi apurada uma nova raça, mais larga e baixa e ainda um complicado sistema de roldanas para colocar o traseiro real na sela. Mas, mal os animais ensaiavam os primeiros passos, aí estava sua majestade estatelada no meio do chão. A paciência esgotou-se. Era evidente a incompetência dos mestres que não sabiam educar os cavalos! Merecedora de PENA DE MORTE! E foi assim que um belo dia, já depois de terem rolado várias cabeças, apresentou-se um mestre que dizia ter a solução para o problema. Com ele estava um animal de bom porte, longas crinas ondulantes, que impressionava pelo olhar fixo e rígida imobilidade. Na verdade, tratava-se de um cavalo embalsamado, mas isso, talvez pela ânsia da experiência, passou despercebido ao rei. Abreviemos o relato e imaginemos o rei receoso em cima do cavalo. A medo, bateu com os calcanhares no dorso do animal, mas não houve qualquer resposta. Bateu com mais força e... nada- o cavalo não se movia. Já irritado, depois de várias tentativas, gritou para o mestre: “Mas este cavalo não anda”! Ao que o mestre lhe retorquiu, fazendo uma cerimoniosa vénia: “E Vossa Majestade não cai...”