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domingo, fevereiro 23, 2014

Água de fevereiro, enche o celeiro

 Doisneau

"Vale mais no rebanho ter um lobo, que mês de fevereiro formoso".

São curiosos, os ditados populares. Criados num tempo de grande dependência dos homens em relação às atividades do setor primário, registavam observações de muitos anos sobre as consequências dos ditames de uma natureza de que dependiam em absoluto, transmitindo esse conhecimento e alertando para a diferença entre o parecer e o ser. Hoje, perdeu-se muito desta memória e da natureza quase só nos lembramos quando nos entra pela casa dentro em avalanches de imagens aterradoras, normalmente pondo a nu a ignorância dos homens.

Mas, apetece-nos recorrer aos ditados populares para algo mais do que prever como irá ser o ano agrícola. É que, bem sabemos não necessitarmos de chuvas e ventos fortes para sentirmos que o temporal desaba sobre nós. E Fevereiro aí esteve, feio como os trovões, a inundar-nos de água e más notícias. Desta vez foi a confirmação do encerramento do tribunal, transformado numa coisa que não se sabe muito bem o que seja. Nada de totalmente inesperado, mas uma machadada mais na nossa já debilitada autoestima.

Tal como todo o interior, Vouzela está a ser vítima duma estratégia nacional de concentração de serviços que não tem a mínima preocupação com o equilíbrio do território, nem com a qualidade de vida das pessoas. O objetivo é uma redução de custos imediata em recursos humanos e materiais,  que nos vai custar bem caro a médio prazo, tal o despovoamento que provoca em vastas zonas do país, inevitavelmente condenadas ao desaproveitamento. Mas, é o que temos. No entanto, também nos parece ser tempo de perceber que nada ganhamos com a atitude defensiva a que nos temos remetido, mortos de medo pelo passo seguinte que antecipamos, a que respondemos com indignação e lamentos impotentes. Atacam-nos porque somos fracos, porque temos pouco peso eleitoral, porque somos insignificantes na coleta de impostos- sim, o lobo está dentro do rebanho, fevereiro está a ser horrível mas o importante é que daqui saiam boas "colheitas" futuras.

Em primeiro lugar, é preciso avaliar a verdadeira dimensão do problema e, mais uma vez, as lições do passado dão uma ajuda. Em 1927, Vouzela perdeu a sua comarca. A medida foi sentida como uma humilhação, provocou tomadas de posição firmes, mas também marcou o ponto de partida para um dos mais dinâmicos períodos da história local do século passado: iniciou-se o processo de eletrificação da vila, pediu-se a classificação como "estância de turismo" e organizou-se a famosa Comissão de Iniciativa. Para tudo isto houve uma união de vontades e forças, colocando lado a lado gente de orientações políticas muito diferentes (as polémicas da I República estavam, ainda, muito presentes), mas que percebeu que a causa local era transversal a todas elas.

Em 1973 viveu-se a parte final desta história: Vouzela recuperou a comarca. Motivo de grande contentamento e orgulho... não impediu o agravamento de uma crise que, embora com intervalos de esperança, continuou até aos dias de hoje.

Entendamo-nos: não queremos desvalorizar a importância dos ataques que nos estão a fazer. Queremos, isso sim, saber o que estamos dispostos a fazer para deixarmos de andar a reboque das situações e conquistarmos a liderança das reformas locais. Dito por outras palavras, Vouzela  precisa saber qual a margem de autonomia que lhe resta. Que medidas pode tomar para conter o despovoamento, para reabilitar setores de atividade, para potenciar os seus pontos fortes e, desse modo, conseguir algum resguardo para a avalanche de más notícias da atual estratégia nacional. Limitar a emigração pressupõe a criação de empregos e estes exigem uma definição clara das atividades que se querem desenvolver. Isto, porque não podemos ter "sol na eira e chuva no nabal". Não faz sentido lamentarmo-nos da pouca divulgação do que de melhor temos e não sermos, nós próprios, os primeiros divulgadores em todas as nossas atividades. Não podemos dar rédea solta a construções que descaracterizem os espaços e, ao mesmo tempo, querer manter a tal harmonia entre património natural e edificado que todos elogiam. Não podemos assistir, indiferentes, ao abandono do cultivo da vinha e querer manter a "acentuada beleza policromática" de que falava Amorim Girão. Não podemos encolher os ombros perante o excessivo abandono da agricultura (de todo o setor primário!) e continuar com as características rurais que desenharam a tal paisagem que os estudos apontam como o nosso grande trunfo.  Se Vouzela permanece, hoje, como a mais harmoniosa das três sedes de concelho, isso apenas se deve ao facto de não ter entrado no desvario da construção e não porque haja uma qualquer "lei divina" que nos garanta a beleza eterna. Manter essas características e conciliá-las com o desejado desenvolvimento, parece-nos ser, pois, o desafio que temos que vencer, porque uma coisa não é possível sem a outra.

Também diz o povo que "água em fevereiro, enche o celeiro". Ora, água não tem faltado, tal como más notícias. Dar-lhes algum sentido, transformá-las em algo de produtivo só depende de todos nós. Se assim for, é certo e sabido que "em fevereiro chuva, em agosto uva".

sábado, dezembro 22, 2012

Vouzela precisa de mais

Bad luck, Videmo

A Câmara Municipal de Vouzela apresentou o orçamento e o plano de atividades para 2013. Segundo conta a VFM, perante as críticas da oposição sobre a ausência de medidas que enfrentem o despovoamento do concelho e o encerramento de serviços, o presidente Telmo Antunes terá respondido que "(...) as obras e investimentos previstos nos documentos falam por si". Por acaso falam, mas... não dizem grande coisa.

Vamos por partes. Ao vereador Luís Alcides é, normalmente, atribuído o mérito de por alguma ordem na situação financeira da Câmara. Honra lhe seja feita. Também se percebe que a maioria PSD procure capitalizar a competência que lhe é reconhecida, tentando enfatizar a componente "técnica" das opções que faz. Por isso mesmo, aquando da apresentação do orçamento e do plano de atividades de 2013, foi dado legítimo destaque ao muito que melhorou na sua área de intervenção. O problema é que, por detrás da "técnica", estão escolhas políticas e são essas que criaram o impasse em que nos encontramos.

Um dos dogmas que sempre orientou as equipas lideradas por Telmo Antunes, é o de que a Câmara não deve interferir na economia, área que, em sua opinião, é para ficar limitada à iniciativa dos privados. Como já por diversas vezes aqui dissemos, este princípio não passa de  uma figura de estilo e, na pior das hipóteses, pode ser uma mentira grave. "Interferir na economia" foi o que as câmaras deste país se fartaram de fazer, quando entraram descaradamente nos truques da especulação imobiliária, da alteração do estatuto dos terrenos, da invenção de obra para justificar a captação de fundos europeus. Olhe-se para a recente alteração feita ao PDM de Vouzela e facilmente se encontram tais... "interferências".

No entanto, foi esta orientação (política) que secundarizou um papel mais ativo do município na mobilização de vontades e na adoção de medidas de discriminação positiva, erros que a dureza da crise que vivemos atenuou, mas não anulou. De acordo com o que está a ser divulgado pela VFM, para 2013 continuamos a ter, como "obra de maior destaque", mais uma das chamadas "zonas industriais" (neste caso a de Queirã, com 800 mil euros de investimento previsto), sem que alguma vez tenha sido explicado onde estão essas empresas, esses investidores, ou que outros fundamentos presidem a essa estratégia, numa altura em que o concelho vive um aceleradíssimo processo de despovoamento (também seria interessante saber o que impede a oposição de pedir esclarecimentos sobre este assunto).

Depois, uma série de outros investimentos que não surgem articulados, nem parecem justificados como "motores" de qualquer plano estratégico: "(...) 230 mil € em caminhos florestais, 365 mil € em defesa da floresta, 200 mil € no cemitério de Campia, no turismo, na rota Vouzela, 163 mil €, nos bungalows 81 mil € (P. Campismo) e na animação cerca de 100 mil €. O cineteatro vai ser objecto de requalificação, está com graves problemas ao nível das infiltrações de água, vai merecer um investimento considerável. Vamos ainda investir 200 mil € na rede de esgotos".

Sem por em causa a importância de qualquer deles (até porque não os conhecemos em pormenor), não se percebe como é que este plano pode responder aos problemas do despovoamento acelerado e do encerramento quase generalizado dos serviços. Fazem muito bem em investir no parque de campismo, mas, do que Vouzela precisa, é duma estratégia para o turismo que tem que ir muito para além de "bungalows" e de "animação". É importantíssimo investir na "defesa da floresta", mas essa atividade tem que ser entendida numa perspetiva integrada, negociando com os produtores a defesa de espécies endógenas (cuidado com a legislação que promove a expansão do eucalipto!) e em articulação com outras atividades económicas.  Por último, dá que pensar que  uma equipa que tanto se orgulha das suas estrondosas vitórias eleitorais, fuja de tudo quanto não seja "obra visível" como "o diabo foge da cruz", continuando a adiar a resolução dos graves problemas sentidos no concelho quanto a água e saneamento (200 mil euros de investimento previstos).

Vouzela precisa de muito mais. Precisa de acreditar que os seus responsáveis aprenderam com os erros do passado que, pela negativa, são todo um programa. Precisa de ser mobilizada em torno de propostas efetivas de mudança e não desperdiçar esforços em querelas inúteisPrecisa de acreditar, que não está condenada a medidas de "faz de conta". Vouzela precisa de esperança! 
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Sim, Vouzela precisava de muito mais. Por isso, também não se compreende o elogio feito pelo vereador Viriato Garcez, eleito pelo Partido Socialista, ao facto dos documentos privilegiarem a captação de fundos comunitários, como se a simples vinda de dinheiro fosse critério, independentemente do modo como se prevê gastá-lo. Será que não aprendemos?

segunda-feira, dezembro 10, 2012

"Em luta por Vouzela" não pode ser apenas um ato simbólico


Vamos a ela! Com o mesmo objetivo, apoiamos a anterior; com o mesmo objetivo, repetimos o alerta que então lançamos: façamos vigílias, manifestações, marchas sobre Lisboa, até, mas pensemos no "dia seguinte". Que acontece se, a seguir à vigília, tudo continuar na mesma? Que "plano B" existe? Vouzela já não tem tempo para meros atos simbólicos. Talvez fosse importante que, desta iniciativa, saísse uma comissão de gente da região ligada ao Direito, disposta a pedir uma audiência à ministra, para lhe explicar o absurdo do que nos quer impor. Talvez fosse importante ouvir algum responsável pelo maior partido da oposição, comprometer-se com a reversibilidade das medidas que venham a ser tomadas. Talvez fosse importante, sentirmos que os responsáveis locais poem Vouzela acima dos interesses pessoais e de grupo e assumem a responsabilidade de se demitirem de todos os cargos para que foram eleitos por um povo que está a ser traído. Vamos a isso?

terça-feira, novembro 27, 2012

Uma questão de justiça

O grupo promotor da “Iniciativa Cidadã pelo Desenvolvimento de Vouzela”, na sequência das declarações do presidente da Câmara Municipal de Vouzela, Telmo Antunes, que considerou ter sido uma perda de tempo a reunião com a Ministra da Justiça sobre o enceramento do Tribunal de Vouzela considera que é necessária a mobilização cidadã em defesa do Tribunal de Vouzela.

Este grupo de cidadãos convida a população do concelho de Vouzela para uma vigília a realizar junto ao edifício do Tribunal para o próximo dia 30 de Novembro a partir das 17,30 horas.

Apela-se aos autarcas, aos partidos políticos, ao movimento associativo, aos agentes económicos e à população em geral que se juntem a esta iniciativa contra o encerramento de mais um serviço público no concelho de Vouzela.


Vouzela, 20 de Novembro de 2012

 
Pelo grupo promotor da “Iniciativa Cidadã pelo Desenvolvimento de Vouzela”

Alexandrino Matos,
Cristina Pinheiro, Maria do Carmo Bica, Raquel Ferreira

quarta-feira, novembro 07, 2012

"Ou há pulmões/ Ou não há!"


Algures pela Penoita

Sinceramente, estamos a ver as coisas mal paradas. Muito lamento, muita acusação, muito faz de conta, mas nada de soluções concretas para problemas concretos. A menos de um ano das próximas eleições para as autarquias locais, ou arrepiamos caminho, ou arriscamo-nos a ficar pelos azedumes impotentes, enquanto o concelho se esvai de gente, serviços e ideias. Como dizia o Torga, "Ou há pulmões/ Ou não há"! Veremos se há.

O anúncio do encerramento do Tribunal esteve muito longe de ser uma surpresa. Foi a evolução natural de uma estratégia mais do que errada, que já tinha disparado todos os alarmes por altura do encerramento dos serviços de saúde. Por um qualquer motivo insondável, ou por puro e simples exibicionismo, os dois principais partidos do concelho, PS e PSD, preferiram as jogadas de bastidores, assim a modos de quem quer mostrar que "eu tenho mais influência do que tu". Como na altura disse José Junqueiro, quem melhor se "mexeu" foram as "forças vivas" de São Pedro e o resultado foi o que se viu. Agora, com o tribunal, estamos na mesma, apenas com um governo diferente. O dr. Telmo Antunes parece ter confiado na sua influência junto dos colegas de partido e fartou-se de anunciar que não acreditava no encerramento. A evolução da história é conhecida e talvez o presidente da Câmara de Vouzela tenha percebido que já poucos se lembram dele lá pelos gabinetes da São Caetano. É o preço da interioridade...

Perante isto, só nos restam dois caminhos: ou aceitamos, mal encarados mas passivos, um "destino" que se cumprirá com o encerramento de mais serviços e com um final de concelho assim como quem nos apunhala pelas costas; ou pomos os interesses de Vouzela e de Lafões à frente das contabilidades de "clube" e procuramos o que nos une, de modo a ganharmos força reivindicativa. Dispensam-se "aves agoirentas"!

Temos consciência de que estamos a sofrer as consequências de um esvaziamento destas terras que, como em todo o interior, começou lá pelos idos de 60. Podemos, até, testemunhar, que a primeira descrição que ouvimos do que estamos a viver, foi em plena década de 70, quando uma senhora fantástica que por estas terras houve, rematou uma lúcida análise do que já então se anunciava (mas poucos viam), com um tremendo "Vouzela está a morrer!". Não percebemos, na altura, quando sinais vários do que muitos chamavam "progresso" se traduziam numa miríade de aviários que nasciam por toda a parte e nas cabeças de frangos que desciam rio abaixo e se cruzavam com os banhistas na Foz e na Arrabidazinha. Naquele jeito de dizer qualquer coisa só para não ficarmos calados, dissemos que não, que as terras não morriam. Respondeu-nos a senhora, com o ar sereno e terno que a caracerizava, à porta de sua casa na mítica Quinta das Beijocas: "Morrem sim. Morrem quando morre quem lhes dá sentido". É isso que precisamos saber: conseguimos, ou não, encontrar um sentido para estas terras e para a nossa existência nelas? Somos gente para encontrar esse sentido, ou não passamos de ranchos de mortos-vivos, afogados nas nossas pequenas vaidades e entretidos com quezílias estéreis?

Nunca foi fácil a vida nestas terras talhadas na pedra. Tudo o que se construiu foi à força de braço, de muitos braços juntos, que o esforço exigido não se compadecia com individualismos. Definiam-se objetivos e uniam-se esforços para os alcançar. É do que voltamos a precisar. Sabemos que há culpados do que estamos a viver. Mas, muito mais importante do que perder tempo a apontá-los, é termos consciência de que todos somos muito poucos para que nos possamos dar ao luxo de desperdiçar esforços. "Ou há pulmões/ Ou não há!" Veremos se há.

Ar livre

Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte…
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
-e nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe,
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
-Miguel Torga,  In Antologia poética


quarta-feira, outubro 17, 2012

Agora é uma questão de dignidade!

"A proposta final do Ministério da Justiça para a reforma judiciária retira da lista de encerramentos cinco tribunais, com a extinção de 49, contra os 54 inicialmente previstos.
O ministério de Paula Teixeira da Cruz decidiu manter os tribunais de Valpaços, Almodôvar, Nelas, Sátão e Vila Nova de Foz Côa, nos distritos de Vila Real, Beja, Viseu e Guarda, de acordo com a proposta de reorganização a que a agência Lusa teve acesso"- dnotícias.pt.

Pelos vistos, de pouco vale "ir a despacho". Apesar das esperanças depositadas pelo presidente da Câmara de Vouzela na conversa mantida com a ministra da Justiça, a verdade é que a proposta final para a reforma do sistema judiciário, mantém o encerramento dos tribunais de Vouzela e de Oliveira de Frades. Caso avance esta reorganização, teremos por estas bandas "secções de proximidade" que se descrevem como "locais de atendimento ao público, prestado por oficiais de justiça, com acesso integral ao sistema de informação do tribunal (...)"

Nem vamos falar em questões técnicas jurídicas de que já outros falaram com mais conhecimento, nem sequer dos fundamentos históricos que justificam a existência do nosso tribunal. Agora, temos que falar, apenas, da nossa dignidade. Da dignidade de um povo que tem visto serem-lhe retiradas as condições básicas da existência, obrigado a pagar para circular nas estradas a que o limitaram, impedido de desenvolver as suas tradicionais atividades económicas, violentamente afastado dos serviços que lhe podiam dar alguma segurança e conforto. Falamos da dignidade de um povo que querem expulsar das suas terras, condenando-o a umas quantas assoalhadas num qualquer subúrbio ou aos serviços de assistência, onde o "preço" do cidadão fica mais barato. Qualquer encerramento de serviços, na situação atual de crise violentíssima, de acelerado despovoamento e envelhecimento, tem que ser entendido como um ataque à nossa dignidade.

É cada vez mais evidente que as medidas que têm sido tomadas, têm como único objetivo aumentar a coleta, sem resolver um só dos problemas estruturais que nos trouxeram à triste situação presente. Se por um qualquer milagre a crise acabasse amanhã, continuávamos sem uma agricultura que garantisse, sequer, as reservas estratégicas nacionais; continuávamos sem indústria; continuávamos um dos países com mais elevados índices de corrupção da Europa. Mas é no meio deste desvario generalizado que se lembram de amealhar umas moedinhas encerrando os poucos serviços que ainda por aqui fixam gente e atenuam a dureza do quotidiano. 

Há quem adiante que os encerramentos de tribunais são o ensaio para uma reforma territorial que pode culminar na extinção de concelhos. Com a autoridade que reivindicamos do facto de defendermos a criação do concelho de Lafões, afirmamos que qualquer reordenamento territorial tem que obedecer a fundamentos históricos, geográficos, etnológicos e sempre com o aval do povo que lhe vai dar conteúdo. Excluem-se destes critérios, as "cunhas", o clientelismo e as soluções pré-fabricadas e impostas. Por isso falamos de dignidade.

Quando a notícia do encerramento do tribunal começou a circular, logo houve quem comentasse no Facebook: "O povo de Vouzela é sereno. Se isso fosse em S. Pedro rolavam cabeças de certeza"! É o velho mito dos "brandos costumes". Por aqui recorda-se que, há apenas umas décadas atrás, muitos dos processos que corriam no tribunal de Vouzela eram por agressões à sacholada na sequência de querelas de partilhas de água. Mas, apesar de nos estarem a tirar o líquido vital da nossa dignidade, preferimos recordar a atitude digna da Comissão Administrativa que, em 11 de Julho de 1927, em plena ditadura, recebeu a notícia da então extinção da Comarca: demitiu-se! Ficamos a aguardar a atitude dos nossos eleitos atuais e nem sequer lhes recordamos as "responsabilidades no cartório".  Apenas pretendemos que não se esqueçam do que, agora, está em causa: a nossa dignidade!

terça-feira, julho 03, 2012

Duas histórias com pouca moral


1. Recordar 1927

11 de Julho de 1927. Confirmando rumores e receios, chegava a Vouzela a notícia da supressão da Comarca. O presidente da Comissão Administrativa, Dr. Guilherme Coutinho, convocou uma sessão extraordinária e reagiu: “(...) tendo chegado a esta terra, cuja autonomia judicial e administrativa tem séculos e ininterrupta existência, o incrível decreto da supressão da sua Comarca, tinha convocado esta sessão extraordinária para se deliberar a atitude a tomar em face da consumação d’este atentado governamental (...)”(1). Seguiu-se a demissão de toda a Comissão Administrativa. Um ano antes, em 28 de Maio de 1926, tinha sido instaurada a ditadura em Portugal. Vouzela tinha cerca de 15 mil habitantes.

Julho de 2012. Confirmando suspeitas e, sobretudo, certezas, diversos serviços de Vouzela encerraram ou correm o risco de encerrar. Foram escolas, serviços de saúde, de apoio à agricultura, está quase o tribunal e fala-se nas finanças. Como se não chegasse, afasta-se o poder do povo, através duma forçada agregação de fre
guesias. No conforto de uma democracia com 38 anos, os poderes locais "esperguiçam" uma vaga oposição, exibem influências, lamentam-se muito, no tom moderado e bocejante que se sabe não ferir os ouvidos delicados das lideranças partidárias. Vouzela tem 10 540 habitantes. Ainda!

Não tropecemos nas comparações. Ao contrário do processo de 1927, a rota da nossa desgraça presente é fácil de seguir: não temos atividades económicas que ofereçam trabalho, logo não temos pessoas, logo perdemos capacidade reivindicativa. Ao contrário de 1927, o partido que lidera a Câmara de Vouzela, tem grandes responsabilidades na triste situação nacional e local. Ao contrário de 1927, qualquer posição firme tomada hoje, pode beneficiar do peso de uma opinião pública livre, a que o governo e as contabilidades partidárias não são indiferentes (como o prova o caso do autarca de Valpaços). Ponto final. A moral da história (ou a falta dela), fica ao critério de cada um.

2. "Há mais marés do que marinheiros"

Quando tudo parecia bem encaminhado e os eleitos locais assumiam humildemente que devia ser a população a pronunciar-se sobre a agregação das freguesias, o caldo entornou-se. A história, resumida, pode ser lida aqui e deu origem à declaração da vereadora Carmo Bica que já publicamos. No "Facebook" seguiu-se uma prolongada trocas de argumentos com o PSD local, a partir da qual foi crescendo a ideia de que houve "jogada de bastidores". Por agora, interessa-nos, apenas, chamar a atenção para a ingenuidade da atitude do presidente da Junta de Figueiredo das Donas.

Dando de barato que o seu objetivo foi, apenas, proteger a sua freguesia da ameaça da agregação, o senhor presidente da Junta abriu a "caixa de Pandora" ao sacudir para outros o que não quer para si. Toda a solidariedade necessária para enfrentar este processo é, agora, muito mais improvável. Caso o assunto tenha repetições e/ou novos capítulos; caso necessite da compreensão dos restantes presidentes em futuras medidas, vai provavelmente lamentar a divisão que provocou. Até porque, como diz o povo, "há (sempre!) mais marés do que marinheiros".

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(1)- in, Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001, p. 128

terça-feira, abril 17, 2007

Problemas de simetria

Ambiente agitado em Vouzela, na sequência das reacções aos estudos que propõem o encerramento de vários serviços. “Não passam de estudos”- diz o PS. “Quem cala consente”- responde o PSD. Pena foi que as duas principais forças políticas do Concelho tenham parado o debate, já que é isso mesmo que por aqui tem faltado. O problema não está em saber se o Governo vai ou não aplicar as propostas do polémico estudo. O problema está em avaliar a capacidade de Vouzela para o impedir e saber que alternativas propõe. O líder local do Partido Socialista, Adélio Fonseca, colocou o dedo na ferida quando criticou a falta de articulação entre as edilidades de Lafões e a necessidade de “adequar os meios disponíveis às funções que mais e melhor sirvam os vouzelenses”. Era aí que o debate devia ter começado, já agora com a participação de todos os restantes partidos, grupos de cidadãos, associações.

A parte irónica de toda esta história é que, a confirmar-se o encerramento do Tribunal, isso obedece às linhas orientadoras de uma “reforma da Justiça”, feita com o acordo dos dois maiores partidos. Os mesmos que devem responder, caso Vouzela revele não ter força (e ideias) para travar a medida. De facto, desde os anos 90 (quando se acentuou a recessão demográfica do Concelho), até aos nossos dias, PS e PSD têm o mesmo número de mandatos: dois para cada um. Seria interessante saber se, na hora de propor soluções, agora que as “vacas emagrecem”, podemos contar com algo mais do que as simples “composições simétricas” que têm caracterizado a sua acção à frente da autarquia.