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quarta-feira, março 03, 2010

A mobilidade dos estudos


Telmo Antunes e Viriato Garcez, "arrumaram" a proposta sobre o metro de superfície apresentada pela vereadora Carmo Bica, com o anúncio de um estudo sobre a mobilidade na região de Lafões. O assunto já entrou nas conversas locais, mais a brincar do que a sério, que é o modo como gostamos de tratar as coisas sérias que suspeitamos virem a ser usadas para brincarem connosco. Ora, ao falarmos em estudos sobre mobilidade, convém não esquecer a mobilidade dos estudos- não, não é um jogo de palavras.

Por mais técnicos que intervenham, as decisões sobre mobilidade são políticas. Por exemplo, quando decidimos concentar as crianças de uma região em centros escolares, estamos a tomar uma decisão política com consequências nas deslocações diárias das famílias. O mesmo se passa quando se aumenta o tempo de deslocação casa/trabalho, se desvaloriza a relação entre zonas rurais e urbanas, etc. Não venham, pois, com a máscara da "técnica", disfarçar opções que se devem, exclusivamente, aos responsáveis políticos (nacionais e locais).

Também parece evidente que não faz qualquer sentido fazer um estudo sobre a mobilidade, sem primeiro definirmos que caminho queremos percorrer rumo ao futuro. Entendemos a região de Lafões no seu conjunto, como um centro de múltiplos recursos complementares, ou continuamos cada um por si, invejando (e copiando) a galinha da vizinha? Entendemos que a paisagem é uma das nossas principais riquezas (como mostram todos os estudos!) e, como tal, deve exigir intervenções muito cuidadosas, ou acreditamos que o futuro está nessa coisa a que chamam "zonas industriais", prevendo-se a concentração das pessoas na sua proximidade? Defendemos que há alguma coisa a fazer na reabilitação de certos produtos agrícolas, ou essas áreas são para abandonar à floresta e a uma eventual nova vaga de cimento? As respostas a estas perguntas são determinantes na definição da política de mobilidade que queremos. Mais: são fundamentais para definir os princípios orientadores da acessibilidade, que é o que verdadeiramente interessa para a organização da vida das pessoas.

Recorde-se que mesmo num assunto tão limitado como o da ampliação da avenida João de Melo, nunca foram apresentadas justificações que a fundamentassem, para além duns vagos argumentos sobre "dignificar o monumento" (Igreja da Misericórdia) e o ordenamento do trânsito (que não se percebe como). Por isso, e porque nenhuma reflexão se conhece sobre o que queremos para a região, não se percebe quais os parâmetros de tal estudo, correndo-se até o risco de chegar a conclusões antes de... "estudar". Esperamos que não.
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Uma nota final sobre o "metro de superfície". Tal como o presidente da Câmara de Vouzela, também não gostamos da designação. Não somos uma metrópole (nem queremos ser), logo, não podemos ter um metropolitano. Mas a criação de uma alternativa ferroviária de transporte na região, parece-nos fazer sentido. Até arriscamos dizer que será inevitável. Só que não pode ser limitada aos três concelhos (nem precisa) e, mais uma vez, o seu aproveitamento depende do que queremos para a região- aquele assunto que nenhum dos responsáveis locais gosta de abordar. Em público...

segunda-feira, maio 19, 2008

O ordenamento que nos permitem

Pedro Cabrita Reis- Found cities

Que interesse pode ter um governo em criar uma “política consistente de mobilidade”, se lucrar com a desorganização reinante, quer através dos impostos sobre a gasolina, quer dos impostos sobre veículos, portagens, estacionamento, etc.? Nenhum. E é precisamente isso que se passa.

Em Outubro de 2007, a Comissão Europeia publicou o Livro Verde – Por uma nova cultura de mobilidade urbana. Objectivo, “criar uma política consistente em matéria de mobilidade urbana”, abrangendo cidades e vilas. O Instituto de Mobilidade e dos Transportes Terrestres (IMTT), abriu um debate público, cujas conclusões apresentou na publicação Resposta Portuguesa ao Livro Verde – Para uma nova cultura da mobilidade urbana. Vale a pena ler, para percebermos o raciocínio que preside àquilo que, na cabeça dos nossos governantes, mais se aproxima de uma política de ordenamento do território.


Muita conversa sobre a vantagem de andar de bicicleta, elaborados discursos sobre a necessidade de mudar as mentalidades, mil e uma ideias para sacar o coiro e o cabelo ao cidadão. Ah! E a escola, pois claro, essa entidade milagreira que da técnica do corte das unhas aos caprichos da senhora dona Carlota Joaquina, passando pelos méritos do dar ao penante, tudo há-de ensinar para a salvação dos homens. Medidas concretas de planeamento e reorganização dos transportes, nada mais do que vagos conselhos.

Durante anos estimulou-se o transporte individual e desinvestiu-se no colectivo. O transporte ferroviário foi (é) praticamente abandonado, como opção de circulação interna. As contas com que se justifica tudo isto, esquecem sempre as parcelas sociais e ambientais e, sobretudo, escondem o que se ganha em manter tudo na mesma. Soluções, só as que dependam do esforço e da bolsa do cidadão.

É por isso mesmo que não se vai aproveitar o brutal aumento do preço do petróleo para introduzir correcções. Não dá lucro. Ao contrário das portagens, dos estacionamentos pagos e do aumento do preço do combustível- estas sim, as únicas medidas de “ordenamento” a que teremos direito.

Em Vouzela


Não basta acabar com o estacionamento para melhorar a imagem da Praça

Em Vouzela preparam-se medidas de reorganização do estacionamento. Também aqui a falta de planeamento vai fazer estragos, cujas consequências vão recair, exclusivamente, sobre os ombros dos cidadãos. Quando se "pensou" o bairro da Senra, devia ter sido prevista a limitação de estacionamento em áreas como a Praça Morais de Carvalho e a Avenida João de Melo. Não foi. Agora tudo vai ser mais difícil. Até a hospedaria se debate com a dificuldade de não poder contar com qualquer espaço que facilite uma simples saída de bagagem.

Como alternativa à Praça da República e à Avenida João de Melo, talvez a melhor solução seja a adaptação do Largo da Feira, conciliando as duas funções (feira e estacionamento). Não é inédito. Mas, importante mesmo é que se aprenda com os erros e se perceba que áreas de expansão não podem servir, apenas, para a apropriação privada de mais-valias. Têm que integrar espaços que desempenhem serviços públicos.