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quarta-feira, janeiro 01, 2014

Vouzela: é obrigatório ter futuro


 Fotos de Margarida Maia

Dizem que é uma característica dos países desenvolvidos, mas nós duvidamos. Outros preferem explicar a coisa pelas exigências da vida moderna, carregada de incertezas e obrigações de carreira, mas a verdade é que os empregos dignos de registo terminaram na geração anterior que ainda trouxe crianças ao mundo e que, como diz um amigo nosso, "andava com os filhos no bolso de trás". O que  é certo é que o envelhecimento é um problema real, particularmente sentido nestas regiões do interior em despovoamento acelerado. Por isso mesmo, Vouzela passou os últimos dias de 2013 a debatê-lo: o envelhecimento e os caminhos para reencontrar essa juventude desaparecida. Foi mais uma iniciativa de Associação Dom Duarte de Almeida e do Agrupamento de Escolas de Vouzela, a que o Café Central deu um carinho especial. Para a história ficaram muitas ideias e uma casa cheia até às tantas, coisa que já não víamos desde que o mestre Guilherme Cosme por lá animava serões de dominó e xadrez.


São duros os números(1) da nossa realidade presente, mas também apontam caminhos a trilhar e... a evitar. Entre 2001 e 2011 Vouzela perdeu 11,34 % da população. Um ano depois, continuava a perdê-la(2). Mais preocupante, ainda: o único grupo etário que aumentou, foi o que integra as pessoas com mais de 65 anos (Quadro-I). No entanto, independentemente da idade, Vouzela tem, hoje, as pessoas com maior nível de  escolaridade de sempre (Quadro-II), em que o grupo com habilitações de nível "superior" quase triplicou nos dez anos avaliados pelo último Censos.
Quadro-I: Distribuição da população por grupos etários
Grupo
0-14
15-24
25-64
65>
Ano
2001
2011
2001
2011
2001
2011
2001
2011
Vouzela
1765
1332 (-24,53)
1695
1130 (-33,33)
5819
5260 (-9,60)
2637
2842 (7,77)
S. Pedro Sul
2872
2145
2649
1795
9165
8463
4397
4448
Oliveira Frades
1830
1543
1583
1183
5107
5371
2064
2164

Quadro-II: Distribuição da população por nível de escolaridade
Nível
2001
2011
S/ escolaridade
2743
1360
1º ciclo
3495
3392
2º ciclo
1614
1261
3º ciclo
1169
1453
Secundário
795
1038
Médio
39
68
Superior
296
660

Contudo, quando analisamos a situação dos diversos grupos de atividade (Quadro-III), não só constatamos que esse acréscimo de habilitações não se refletiu em todos eles, como só por tradição continuamos a dizer que vivemos numa região predominantemente rural. Todos os concelhos têm um setor primário abaixo da média nacional, sendo Vouzela o que menos pessoas emprega em atividades tão importantes para a região, como a agricultura e a criação de gado. Para agravar o quadro, a população economicamente ativa de Oliveira de Frades, Vouzela e São Pedro do Sul, não chega aos 50 porcento.
Quadro-III: distribuição da população ativa por setor de atividade
Concelho
População ativa
Homens
Vouzela
3958 (37,46%)
2131
323 
(8,16%)
1553 (39,23%)
2082 (52,6%)
S. Pedro Sul
6011 (35,67%)
3361
593 
(9,86%)
1720 (28,61%)
3698 (61,52%)
Oliveira Frades
4380 (42,68%)
2383
367 
(8,37%)
1903 (43,44%)
2110 (48,17%)
Portugal
(53,9%)
-
(9,9%)
(27,3%)
(62,8%)

Olhando para os setores aparentemente mais ativos, constata-se uma empregabilidade no setor secundário superior à média nacional, mas, como já tínhamos alertado, muito dependente do mercado local e com média muito baixa de número de rabalhadores por empresa. Mesmo o setor terciário, aquele que mais parece ter beneficiado com o acréscimo de habilitações académicas, revela uma distribuição de "alto risco", percetível quando analisamos os dados do Quadro-IV.

Quadro IV: Empregados no setor terciário

De natureza social
Relacionado com atividade económica
TOTAL
Vouzela
1004 
(48,22%)
1078
2082
S. Pedro Sul
1838 
(49,70%)
1860
3698
Oliveira Frades
896 
(42,46%)
1214
2110

De facto, há um elevado número de pessoas no setor terciário "de natureza social", onde se incluem aquelas atividades que, de acordo com as opções políticas atuais, maior número de "cortes" vão sofrer, sobretudo se estiverem dependentes de financiamento público. Se relacionarmos as caractarísticas de Lafões, com os ataques que estão a ser dirigidos a todos os serviços sociais do Estado, só podemos concluir que pretender ser professor por estas bandas, ou apostar numa carreira na administração local, é, nos tempos mais próximos, correr um risco elevado. Mesmo as atividades dirigidas à chamada "terceira idade" que, como sabemos, não só abunda na região, como em todo o país e que podem ser um "nicho de mercado" a trabalhar com mais cuidado e outra dimensão, convém que não dependam excessivamente das "boas vontades" de quem nos governa.

Quadro V: Núcleos familiares e alojamentos nos concelhos de Lafões
Concelho
Núcleos familiares
Alojamentos familiares (total)
Alojamentos coletivos
Vouzela
3264
6704
12
S. Pedro Sul
5204
11574
88
Oliveira Frades
3115
5669
10

Por último, apresentam-se alguns números sobre a oferta de alojamento na região (Quadros V, VI e VII). Com uma média de 1,57 habitantes por alojamento familiar, Vouzela é o concelho com mais habitação disponível (Quadro VII). Contudo, apesar do elevado número de casas que tem aparecido no mercado, essa relação reflete o despovoamento que se tem verificado, mas também uma grande oportunidade: o restauro. Apostar nele parece ser a atitude correta não só para dinamizar uma construção civil de qualidade, como também para convencer pessoas a fixarem-se no concelho, ou aqui adquirirem uma segunda habitação. As belezas naturais ajudam e a facilidade de acesso, também. Só precisa saber quem procurar.

Quadro VI: Núcleos familiares e alojamentos no concelho de Vouzela
Freguesia
Núcl. familiares
Aloj. familiares
Aloj. coletivos
Alcofra
328
732
0
Cambra
356
837
3
Campia
468
842
1
Carv. Vermilhas
69
227
0
Fataunços
238
444
0
Fig. das Donas
115
210
0
Fornelo Monte
91
278
0
P.  Vilharigues
206
336
0
Queirã
445
880
0
S. Miguel Mato
297
611
1
Ventosa
249
568
0
Vouzela
402
739
7

Quadro VII: Relação habitantes/alojamentos familiares nos concelhos de Lafões
Concelho
Habitante/Habitação
Vouzela
1,57
S. Pedro Sul
1,64
Oliveira Frades
1,81

Resumindo e concluindo: Vouzela tem um presente preocupante, mas só depende de si própria para ganhar o futuro. Investindo nos seus principais recursos e evitando as armadilhas de conjuntura, tem condições para melhorar as condições dos que nela vivem e atrair novos habitantes. Apostar num acréscimo de valor em todos os setores de atividade, procurar a inovação, proteger e desenvolver o que tem de mais característico, as marcas da sua identidade, certificar os seus produtos de excelência, incentivar o restauro, criar um calendário de iniciativas de todo o ano e... investir na divulgação, a sério, parece ser o caminho a seguir. À juventude presente, exige-se a consciência de que terá que ser o motor da mudança. Para tal, tem que conquistar o direito à participação, ser solidária, ter irreverência, poder reivindicativo, ideias sustentadas por sólida formação. Sobretudo, recusar o conformismo, a desculpa fácil, a "queixinha" medíocre, a indiferença. Porque, como dizia o Paulo Quintela, "o deixa lá, levou-nos ao estado em que isto está".
_____________
(1)- Dados retirados do Censos 2011 e da PORDATA:
(2)- A atualização dos Censos, feita em 2012, confirmava nova redução da população residente nos três concelhos de Lafões.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Contra os mitos marchar, marchar!

Tempos houve em que o homem acreditou ser a Terra o centro do universo

Prometemos não interferir na campanha eleitoral e vamos cumprir. No entanto, o "calor do debate" tem dado eco a uma série de ideias feitas, de mitos, que podem provocar estragos caso alimentem a ânsia populista do voto fácil. Parece-nos, pois, necessária, uma chamada de atenção, sem referir concretamente qualquer das candidaturas, sem termos a ilusão de conseguir alterar o que quer que seja, mas deixando registo para... memória futura.

A que ideias feitas nos referimos? Fundamentalmente, a duas: zonas industriais são a solução para aumentar a oferta de emprego e promover o desenvolvimento; criar zonas de expansão na vila de Vouzela é a solução para evitar a saída de jovens. Vamos por partes.

Zonas industriais: a solução?

Limitando-nos à informação disponível na página da Câmara Municipal de Vouzela (procurar em Planeamento/Parque Empresarial) que está muito desatualizada, o que é que concluímos? Na zona industrial do Monte Cavalo, há 13 lotes desocupados em 33 possíveis. A de Campia tem 12 lotes ocupados. Sobre os últimos espaços não há informação disponível, mas lemos no Notícias de Vouzela que a de Vasconha (Queirã), vai oferecer 20 lotes e vai custar um milhão e trezentos mil euros, beneficiando de um financiamento comunitário de um milhão de euros.

Que podemos concluir de tudo isto? Num concelho com 10540 habitantes e que beneficia de excelentes vias de comunicação, esta oferta, com este nível de investimento, devia ter entusiasmado muitos jovens,  atraindo-os ou, pelo menos, impedindo a sua saída. Não entusiasmou! Se olharmos para as áreas de negócio das empresas instaladas, percebemos que se relacionam, maioritariamente, com setores que atravessam crises graves (construção), que estão muito dependentes do mercado local (reparações automóveis) ou que pouca articulação têm com outras áreas económicas da região, nomeadamente as que necessitamos de recuperar. Quer isto dizer que a oferta de emprego é limitada, quer no número, quer nas áreas, quer nas perspetivas de futuro. Claro que as empresas não têm culpa alguma. Mas a verdade é que se está a fazer um investimento significativo de modo desordenado, sem obedecer a qualquer plano estratégico para o concelho. É o preço a pagar pelo dogma de que o poder local não deve interferir no funcionamento da economia (o que, ainda por cima, é falso).

Os jovens saem de Vouzela porque não há casas disponíveis?

Mas, talvez o problema esteja na falta de habitação e centenas ou milhares de jovens não consigam encontrar uma única casa vaga na vila. Assim de memória e num rápido passeio pelas ruas de Vouzela, encontram-se casas à venda ou espaços desocupados e a exigirem intervenção urgente no Largo da Feira, na Avenida João Ramalho, na Sidónio Pais, Ayres de Gouveia (para venda e para alugar), Rua de São Frei Gil, Morais de Carvalho, várias no percurso entre esta rua e o Largo do Convento (onde também há), no bairro da Senra, Praça da República, Mousinho de Albuquerque e na Avenida João de Melo. Arriscamos dizer que não há rua na vila de Vouzela onde não apareça uma oferta para venda ou um espaço desocupado a exigir intervenção. Se quisermos alargar a pesquisa a Fataunços, Vilharigues ou até Ventosa, a oferta que encontramos entre casas, terrenos e quintas, assusta, pelo que revela sobre eventuais dificuldades financeiras dos proprietários e, sobretudo, sobre a vontade de abandonar a terra.

Claro que sempre que avançamos com esta lista, respondem-nos que a maior parte da oferta é constituída por edifícios antigos a necessitarem de obras e "é mais caro restaurar do que construir ou comprar novo". Reconheça-se que este argumento ultrapassa as fronteiras regionais e pode ser ouvido do Minho ao Algarve. Só que precisamos de pensar nos seus fundamentos, já que se limita a ser uma especificidade portuguesa, recusada por essa Europa fora onde sempre foi dada maior atenção ao restauro do que á construção. É que, talvez tenhamos que nos confrontar com mais uma triste consequência do modo como, durante anos, se deu rédea solta à especulação imobiliária, criando perversões no setor da construção. Porque, como já alguém disse, "hoje, em Portugal, é fácil amontoar tijolos. Difícil é encontrar um bom pedreiro". E nós até somos de uma região com tradições no trabalho da pedra... Queremos ou não continuar a sê-lo?

Resumindo e concluindo: se querem contribuir para a resolução dos problemas sentidos pelos vouzelenses, enfrentem os verdadeiros e não se refugiem em "mitos" e desculpas fáceis.

"Nunca devemos admitir senão aquilo que a razão nos mostra como evidentes; em caso algum podemos aceitar o que nos é imposto pela nossa imaginação ou pelos nossos sentidos. (...) Não devmos pensar que o Sol tem, de facto, o tamanho com que o vemos"
- René Descartes, Discursos do Método, 1637


sábado, maio 10, 2008

Para guardar em local seco-III

(Foto: Pastel de Vouzela)

Ideias de outros que interessa guardar. Para consumir mais tarde ou para reproduzir em futuras sementeiras.

Só foi pena não se terem lembrado disto antes de venderem património ao desbarato

É o fim dos bairros sociais. E da solução dos problemas habitacionais através da entrega de uma casa. Em vez de mandar construir mais fogos para as 40 mil famílias que têm necessidade imediata de habitação, o Estado deverá dinamizar o mercado de arrendamento e ser ele próprio a adquirir ou arrendar imóveis, para constituir uma bolsa de fogos com que possa resolver algumas das carências habitacionais detectadas- Público.

Construtores e banca, uma aliança explosiva

Importa referir que no final dos anos 80 a diminuição das taxas de juro e a folga no rendimento disponível das famílias foi completamente absorvida pelo aumento especulativo do preço das casas que beneficiaram apenas duas entidades: os construtores e a banca. Os Governos foram cúmplices desta situação quando dispunham de mecanismos de regulação que não quiseram usar- pedra do homem

PINtem-nos de verde

A miopia dos PIN’s só tem equivalente na miopia de muitos dos nossos empresários. Juntos vão destruir de forma irreversível um património único que deveria e poderia ser preservado. O bem comum também passa por aqui e não é incompatível com o mercado regulado e bem encaminhado- Ladrões de Bicicletas.

Um debate decisivo para o Mundo Rural

Nadir Bensmail mostra como a produção 'moderna' para os mercados internacionais mantém no essencial as estruturas sociais existentes (o recurso ao trabalho assalariado desqualificado, a concentração da propriedade, etc.); inversamente, discute como a associação entre produtores e uma postura mais consciente dos consumidores pode conduzir não apenas à preservação da diversidade cultural, mas também a modelos de desenvolvimento do sector agrícola mais sustentáveis, em termos ambientais, sociais e económicos. Ou seja, paradoxalmente, a produção 'tradicional' pode revelar-se mais progressista do que a produção 'moderna', desde que enquadrada por uma atitude crítica por parte de produtores e consumidores. O mesmo tipo de lógica é facilmente extensível à generalidade dos produtos tradicionais- Ladrões de Bicicletas.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Lindo serviço...

Integrada na “Quinzena da Habitação” (iniciativa no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia), foi feita a divulgação pública de parte do trabalho da equipa responsável pelo Plano Estratégico da Habitação (PEH). As conclusões finais só estão previstas para o próximo mês de Março, mas existem já indicadores que merecem reflexão.

De tudo quanto foi divulgado, o mais surpreendente talvez tenha sido o facto de ainda faltarem perto de 200 mil fogos para responder às necessidades da população (Público, 3/10/2007). Lindo serviço. Andámos nós a “cimentar” o país de lés a lés e chegamos à triste conclusão que ainda não chega! É desta que nos lançamos à conquista de Espanha...

Será interessante analisar o relatório final, mas pensamos que a perversão esteja relacionada com o êxodo rumo ao litoral, tendo havido excesso de construção precisamente onde não era necessária. Isto reaviva a polémica sobre a capacidade da iniciativa privada, por si só, conseguir responder às necessidades de uma área socialmente tão importante como a da habitação, para além de deixar de rastos os critérios dos nossos autarcas.

As restantes conclusões divulgadas, vão ao encontro da percepção que vamos tendo do fenómeno: necessidade de privilegiar a reabilitação, peso excessivo da compra da habitação devido à falta de um mercado de arrendamento (provocando um endividamento equivalente a 117% do rendimento das famílias!), ineficácia da política social. Registe-se pela sua importância, o facto de cerca de 20% da população portuguesa não ter condições para aceder à habitação sem apoio.

Os trabalhos do grupo responsável pelo PEH podem ser acompanhados aqui. Pela semelhança com a realidade de Lafões, chamamos a atenção para a síntese das conclusões do Fórum Regional de Vila Real (aqui).