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terça-feira, agosto 14, 2012

A diferença entre o parecer e o ser

Escultura de Joana Vasconcelos

Vai uma grande distância, como sabemos, entre o que parece ser e o que realmente é. O problema surge quando se fazem opções, críticas, ou mobilizam vontades, a partir do que parece, sem termos o cuidado de confirmar se realmente é. Ora, a região tem vivido com muitos "parece-me que", completamente infundados, que já justificaram algumas asneiras.

Numa tentativa de ir além do que parece, o Rui Costa, membro da Assembleia Municipal de São Pedro do Sul, comparou alguns dados estatísticos relativos aos três concelhos de Lafões que vale a pena conhecer. Nem que mais não seja, para acabarmos com falsas certezas e, duma vez por todas, enfrentarmos os problemas tal como são e não como gostávamos que fossem. Porque não é verdade que haja concelhos de Lafões que atraiam a população dos outros, não é verdade que Oliveira de Frades consiga traduzir em população residente a sua prosperidade económica, não é verdade que o aumento da construção tenha uma relação direta com o aumento da população.

Façam o favor de consultar, aqui.

sexta-feira, julho 01, 2011

Quase mais casas do que gente

"Clique" na imagem para ampliar.
São os dados que vão estando disponíveis do Censos 2011 (ver na página do Instituto Nacional de Estatística). Vouzela regista uma população residente de 10552 habitantes, menos 1203 do que na actualização feita em 2006 ao Censos 2001 (ver aqui). Quebra ainda mais acentuada é registada em São Pedro do Sul, com menos 2335 residentes do que em 2006. Oliveira de Frades, foi o concelho de Lafões que resistiu melhor entre 2006 e 2011, mantendo-se nos 10245 habitantes (menos 389 do que em 2006). Curiosos são os números dos edifícios e alojamentos existentes que, por este andar, ainda vão ultrapassar os das pessoas. Para reflectir.

quarta-feira, julho 21, 2010

Números que interessa conhecer quando se fala de... "números"

Em 1957 existiam, no concelho de Vouzela, 32 escolas (7 femininas, 7 masculinas e 18 mistas) e 17 "postos escolares". Todos esses equipamentos eram frequentados por 1668 crianças (890 rapazes e 778 raparigas), o que dava uma média (arredondada) de 34 petizes por estabelecimento. Por essa altura, Vouzela tinha um saldo fisiológico positivo (números de 1954 referem 336 nascimentos e 198 óbitos) e orgulhava-se de ser o concelho com menor taxa de analfabetismo do distrito.

No entanto, a década de 50 marcou o início de um movimento migratório que, a pouco e pouco, inverteu o optimismo dos números. Por essa altura, muitos vouzelenses tentaram melhor sorte em centros nacionais de maior dimensão, ou optaram mesmo pela saída do País, tendo Brasil e África como principais destinos. Reflectindo isso, o "Notícias de Vouzela" começou a publicar colunas de correspondentes noutras paragens, como a famosa "Daqui, Rio de Janeiro" de Afonso Campos, bem como anúncios publicitando actividades nos mais diversos cantos do mundo. A situação chegou a tal ponto, que vezes houve em que "Os Vouzelenses" tiveram dificuldade em formar equipa. Até ao final da década calcula-se ter havido uma quebra de 5 por cento na população residente.

Tal como sucedeu na maior parte do país, foi nos anos 60 que se sentiram as principais consequências da emigração. De acordo com o "XI Recenseamento Geral da População Portuguesa" (Instituto Nacional de Estatística), entre 1961 e 1971 a totalidade da população do concelho desceu para 13128 habitantes, menos 2168 do que na década anterior. Contudo, freguesias houve que viram o número de residentes aumentar: P. Vilharigues (mais 31 pessoas), Fornelo do Monte (mais 8 pessoas) e Vouzela (mais 4 pessoas). Esta última tinha, na altura, 1231 habitantes.

A partir de então a quebra demográfica foi constante. Com todas as reservas que a Wikipédia nos deve merecer, os números apresentados estão de acordo com a actualização feita pelo INE em 2006 (na página apresenta-se ligação para o documento original). Neste último estudo, o concelho de Vouzela tinha 11755 habitantes e o maior índice de envelhecimento de toda a região. A população até aos 24 anos, pouco ultrapassava os 25 por cento.

No próximo ano vai ser divulgado novo estudo que, ou muito nos enganamos (quem dera!), ou vai confirmar esta tendência. Mas, gostemos ou não, são estes números que interessa conhecer, quando se discute o encerramento de escolas, de serviços de saúde e, sobretudo, a indiferença que sentimos pelos problemas do Interior. Também são estes números que explicam certas prioridades definidas pelos responsáveis locais. Ao fim e ao cabo, o que está em causa... são "números".
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Nota: Para além das publicações do INE que foram citadas, usamos números publicados pelo "Notícias de Vouzela" de 01/02/1955, 16/03/1955 e 01/03/1957.

quarta-feira, junho 04, 2008

É a altura certa para arrumar a casa

Eduardo Luiz- Natureza Ressuscitada, 1972

Na página do Instituto Nacional de Estatística estão disponíveis os dados sobre a estimativa da população residente em 2007. Para Lafões, as boas notícias têm que ver com o estancar da sangria. As más, com tudo o resto: envelhecimento, natalidade, capacidade de atracção... Fiquemo-nos pelas boas.

Comparando os números actuais com os anteriormente divulgados, parece-nos ser possível concluir que não houve alterações significativas. Os três concelhos continuam abaixo do desejável e a explicação para a recente estabilidade pode não ser muito agradável. No entanto, como este é dos tais problemas para que não há remédio de rápido efeito, mais do que “chorar sobre o leite derramado”, impõe-se aproveitar este período de “ponto morto” para tirar conclusões e preparar o futuro.

É evidente que, no actual contexto, não faz qualquer sentido estar a pensar em “zonas de expansão”. Mas faz todo o sentido melhorar as condições de vida dos que por cá permanecem, na certeza de que a nossa capacidade de atracção futura, depende do grau de satisfação que conseguirmos nos residentes do presente. É a altura certa para arrumar a casa, concentrando esforços na melhoria dos serviços fornecidos, na melhoria da imagem e na organização.

Levar os benefícios do saneamento básico a todas as freguesias, recuperar e preservar os recursos hídricos, melhorar o sistema de tratamento de esgotos, renovar canalizações evitando o desperdício de água, são obras prioritárias, não se percebendo muito bem como foi possível gastar tanto dinheiro noutras coisas sem as concluir. Depois, acabar com o desleixo. Edifícios inacabados ou com claros sinais de abandono (alguns em zonas bem sensíveis e até nas sedes dos concelhos), barreiras arquitectónicas absurdas, sinalização inadequada, insuficiente e mal localizada, vias em péssimo estado, zonas de interesse turístico a necessitarem de cuidados de manutenção, lixo- estes são alguns aspectos a merecer intervenção urgente.

Mas é no planeamento, na preparação do futuro que parecem estar os principais desafios. De uma vez por todas, que actividades consideramos prioritárias? Que estamos em condições de fazer para promover a tal mítica actividade turística, há anos apontada como o centro nevrálgico do desenvolvimento regional? Como pensamos deverem ser organizados os serviços, para que os concelhos se complementem? De que modo teremos que articular outras actividades (a agricultura, por exemplo) na tal perspectiva de desenvolvimento sustentado?

Depois, racionalizar o consumo de energia (a começar nos edifícios públicos- vale a pena ler isto), repensar os transportes públicos locais, de modo a oferecer alternativas que sustentem futuras limitações à circulação, dinamizar a selecção e certificação de produtos de interesse regional, estimular o associativismo que dinamize a reorganização de sectores económicos, apoiada pela necessária formação. Finalmente, estudar a melhor forma de conseguir a colaboração dos importantes recursos intelectuais da região (a Universidade de Aveiro aqui tão perto...), para que, de uma vez por toda, se acabe com o empirismo, o "jeitinho", como único suporte da intervenção no território.

Há muito para fazer se quisermos aproveitar o momento para lançar a viragem. Ninguém diz que seja tarefa fácil, mas é urgente. Não existe fatalidade ou “mau-olhado” que nos condene à paralisia e à mediocridade. Apenas têm existido estratégias erradas e prioridades duvidosas. Este parece ser o tempo certo para arrepiar caminho.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Em 2007, a olhar para 2008

As cores próprias da época

Talvez seja preciso recuar oitenta anos, para encontrarmos um período tão negro para a História de Vouzela. Nessa altura, perdeu-se a comarca. Durante o ano de 2007, encerraram-se escolas, limitaram-se os serviços de saúde, sentimos a ameaça do encerramento do Tribunal. Para além disso, vimos a nossa Câmara na lista das mais endividadas, sem que tenham sido resolvidos alguns dos principais problemas do Concelho. Iniciou-se a absurda ampliação da Avenida João de Melo, e a variante de Cambarinho (que alguns classificam como a "obra do mandato") está pronta para arrancar, ignorando os argumentos dos que reclamavam a defesa dos melhores solos agrícolas- coisa pouca, comparativamente com o preço do alcatrão.

De facto, Vouzela não tem motivos para sentir saudades de 2007- “annus horribilis”. Temos consciência de que a perda de serviços, está directamente relacionada com a perda do nosso poder reivindicativo. A população diminui, ignora-se a necessidade de reconverter actividades económicas, não há oferta de emprego, vive-se mal, envelhecemos. A gestão do Concelho é feita com a mesma estreiteza de vistas com que se encurtam os passeios públicos e tapam monumentos com as decorações de Natal. Para além do "paradigma" do betão, não há ideias para Vouzela. Nem para Lafões!

No entanto, temos tudo para dar certo. Recursos paisagísticos e humanos, localização privilegiada, proximidade de um dos mais dinâmicos centros universitários do país. Como já alguém disse, só precisamos gostar um pouco mais de nós próprios, do que somos e temos e deixar de tentar construir uma realidade copiada. Vouzela é paisagem, é floresta é uma imensa riqueza cultural. É a partir daí que terá de conseguir melhorar as condições dos que nela vivem e de atrair os outros. Isso não chega para promover carreiras políticas? Problema das carreiras políticas.

Porque estamos em época de desejos, aí vão os nossos: que 2008 veja nascer uma maior vontade de participação dos vouzelenses na "coisa pública", para que, de uma vez por todas, seja a nossa vontade a impor os caminhos rumo ao futuro. É urgente dar voz a Vouzela.

terça-feira, setembro 11, 2007

À espera, sentados...

Doisneau

As medidas recentemente anunciadas pelo primeiro-ministro para estimular a criação de empresas no interior e beneficiar as existentes, fazem lembrar aquelas urbanizações que são lançadas sem que, previamente, se organizem as condições necessárias para as pessoas lá viverem. Na realidade, limitam-se a ser um amontoado de casas à espera que o cidadão resolva problemas básicos como a escola onde meter o filho, o transporte que pode usar para o local de trabalho, etc. Também agora, José Sócrates limitou-se a “amontoar ideias”, sem avaliar as reais condições de concretização e os impactos de médio, longo prazo.

O “nosso” interior, nem é dos piores. Estamos longe da depressão que afecta regiões como Sertã, Vila de Rei, Pedrógão Grande. No entanto, sentimos a sangria: se compararmos e evolução da população entre 1996 e 31 de Dezembro de 2006, só Oliveira de Frades não apresenta valores negativos. No que diz respeito a Vouzela, passou de 12300 habitantes (números da Associação Nacional de Municípios Portugueses), para 11755 (números do Instituto Nacional de Estatística). Para além disso, é reconhecida a crise em actividades tradicionalmente fortes como a criação de gado, não tendo surgido qualquer alternativa para uma agricultura que sempre foi pobre, mas que hoje, pura e simplesmente, não existe.

Claro que temos algumas empresas com dimensão e um sector de comércio e serviços (turismo incluído) com potencial de crescimento se... houver vontade de o repensar e reconverter. No entanto, não se prevêem investimentos estruturantes com dimensão para fixar a população residente e conseguir atrair alguma mais, o que apenas seria conseguido com a promoção de marcas (produtos) locais.

Perante isto, será que as ajudas recentemente anunciadas pelo governo são suficientes para inverter a situação? Não nos parece. Que é que pode levar uma empresa a preferir a sua localização nesta zona do país, quando a maior parte dos serviços de que vai necessitar estão no litoral? Depois, num contexto internacional de retracção do investimento, quem ousará avançar terra dentro, sabendo que vai ser obrigado não só a montar uma empresa, como todos os apoios de que necessite e que existem, prontos a usar, no litoral? Finalmente, qual a real capacidade de recrutamento de mão-de-obra no interior ou que vantagens existem para incentivar os trabalhadores a deslocarem-se para cá? Com que ordenados?

A história seria diferente, se já existissem sectores organizados, desde a produção à distribuição, passando pela formação, que se baseassem no que a região tem de específico. Não existem e era por aí que se devia ter começado. Aliás, de específico, com capacidade para atrair investimento, quase só temos a paisagem. Por isso, receamos que tudo o que possa interessar no imediato ao investidor, se revele, a prazo, negativo para a região: terrenos (mais) baratos. Isso mesmo. Daqui a uns anos as empresas encerram ou mudam de ares, porque o que vêm para cá fazer, pode ser feito em qualquer outro lugar. O terreno será o que resta. Com jeitinho, o poder local ainda dá uma ajuda e vai valer bom dinheiro. E nós continuaremos à espera. Sentados. Embora, como diz o Chico Buarque, “quem espera nunca alcança”.