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sexta-feira, agosto 24, 2007

Excessivamente bem ensaiada…

“(…) os media podem dirigir, efectivamente, a percepção da realidade desde que não existam informações que a contrariem. E ainda que não possam moldar cada opinião individual sobre cada assunto particular, podem, isso sim, delimitar a realidade perceptiva geral no interior da qual se vão formar as opiniões. Aqui radica, talvez, o seu aspecto mais importante: estabelecer a ordem do dia para todos, organizando o espaço público, as questões em que pensar”.

- A Formação da Mentalidade Submissa, Vicente Romano, Porto, Deriva Editores, 2006, p. 159

A história do milho transgénico de Silves, tocou a cerrar fileiras, não contra os OGM ou a seu favor, mas sim na defesa da inviolabilidade da propriedade privada. Aliás, não se via nada assim, desde os “vendavais” do PREC. As edições do Público são um bom exemplo do que afirmo. Até professores doutores em Biologia e “ambientalistas encartados” tiveram direito a espaço para dissertarem sobre tácticas e estratégias de acções de protesto, sem uma única vez usarem os seus doutos conhecimentos para dizerem o que quer que fosse sobre o milho. No entanto, reconheço que a acção da “Verde Eufémia” esteve longe de ser bem organizada. Bem melhor seria pôr o ministro a lamber-se com umas papas feitas com aquele material e fazer dele um “case study”.

Curioso é verificar que, passados todos estes dias, não estamos mais informados sobre os OGM, nem sobre o modo como estão a ser controlados os diversos hectares desses produtos espalhados pelo país (se é que estão). Não foram essas as questões em que quiseram que pensássemos. É pena. Até porque, como foi reconhecido pela Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sogro (Anpromis), os transgénicos fazem parte da estratégia para enfrentar os “novos desafios que se colocam aos agricultores” (Público de 22 de Agosto) e sobre os quais também nada sabemos- só suspeitamos…

Também não sabemos o que levou os activistas da “Verde Eufémia” a escolher aquela propriedade como alvo, quando era fácil prever que a sua pequena dimensão iria ser aproveitada para denegrir a iniciativa. Por estranho que pareça, nem sabemos o que move tal organização, quando as declarações do seu dirigente (que falava em “repor a normalidade ecológica”) davam pano para mangas.

De facto, ficamos com a sensação de ter assistido a um drama, em que só uma parte estava bem ensaiada: a da feroz mobilização informativa a favor da inviolabilidade da propriedade privada. Excessivamente bem ensaiada…

terça-feira, agosto 21, 2007

O primeiro milho é dos pardais

(O pardal voou a partir daqui)

Portugal assistiu à radicalização das formas de protesto sobre questões ambientais. Lutando contra os produtos transgénicos, cerca de uma centena de activistas de um movimento denominado “Verde Eufémia”, invadiu uma propriedade em Silves e destruiu perto de um hectare de milho geneticamente modificado.

O tom geral da notícia, difundida pela comunicação social, era de espanto e de choque. Ao fim e ao cabo, é saber de ciência certa que somos um povo de “brandos costumes”. Depois, onde está o folclore habitual neste tipo de acções, coisas bonitas para televisão ver, com bombos e sardinha assada, discursos e queixas para as instâncias internacionais? Caramba, foi logo a “arrear”, invadindo propriedade privada, sem dar hipótese ao “funcionamento das instituições”…

No entanto, quem quiser analisar os acontecimentos sem preconceitos ou hipocrisia, percebe que, pela primeira vez no nosso país, fomos confrontados com a verdadeira essência da luta ambiental: a ditadura dos interesses privados fere de morte o interesse colectivo.

Limitando-nos ao tema da discórdia, temos que reconhecer que a própria atitude da União Europeia, deixa muito a desejar. Tendo começado por assumir fortes suspeitas sobre os transgénicos, acabou por permitir a sua legalização (em Portugal isso aconteceu em 2005), não porque alguma informação científica tenha posto de lado os receios iniciais, mas pelos ditames de uma estratégia concorrencial com os Estados Unidos. Mantêm-se todas as dúvidas sobre as consequências para a saúde humana e para as culturas biológicas. Tal como o milho, a “instituição” não mostrou ser digna de confiança.

A nível mundial, as preocupações ambientais têm sido “adormecidas” por uma estratégia de “faz de conta” adoptada pelos diversos governos. Quando muito, atitudes mais estruturadas são tomadas a propósito do “negócio verde”, como sucede já com as energias alternativas, sobretudo com o biocombustível. Biocombustível que, longe de ser solução, ameaça criar mais um problema, até pela força que vai dar aos organismos geneticamente modificados, dada a exigência da sua produção intensiva. Ora, por esclarecer continuam as dúvidas sobre a sua ameaça para a saúde de todas as formas de vida, que não são protegidas pelos muros de uma qualquer propriedade. Privada. Até porque “o primeiro milho é dos pardais” que, tal como o ambiente, não têm fronteiras, nem aceitam dono.
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PS: Significativamente, os comentários a estes acontecimentos, desde o ministro da Agricultura, até Pacheco Pereira, passando por Vasco Graça Moura, nada avançam sobre as legítimas preocupações com os produtos transgénicos e a total ausência de protecção dos cidadãos face aos interesses a eles ligados. Toda a retórica se limitou à "invasão de propriedade privada". De algum modo, têm razão: é aí mesmo que temos que centrar o debate, sabendo até que ponto os interesses privados podem limitar os colectivos.