sexta-feira, maio 22, 2009

Os leitores lançam as mãos à massa-VI

Mais de vinte anos após a sua última passagem por estas terras, o comboio continua presente. São as obras de arte que se transformaram em marcos da nossa identidade, é a paisagem que o engenho dos homens adaptou à sua passagem. É, sobretudo, o enorme desejo de o ver regressar, certos que estamos de ser o meio de transporte que melhor se adapta aos tempos que correm. Tal como nós, assim pensam muitos leitores que não perdem oportunidade para nos chamar a atenção para uma imagem, uma opinião que reforce a ideia que há muito nos alimenta a revolta: foi um fantástico recurso que se desperdiçou. Foi o que fez o Augusto Rodrigues que nos enviou cópia de um apanhado das impressões publicadas por Brito Camacho (em Jornadas) , a propósito da Linha do Vale do Vouga. Publicado na página da CP

A Linha do Vouga vista por Brito Camacho



Por montes e vales

Nascido em Aljustrel, em 1862, e falecido em 1934, Brito Camacho foi figura importante do campo republicano. Médico, militar e alto-comissário em Moçambique (1921/23), publicou numerosos artigos e diversos livros, dos quais o relacionado com as viagens de comboio é «Jornadas». Aí se encontra um interessante retrato do Portugal nas primeiras décadas do séc. XX.

Painel de azulejo sobre a Ponte de Santiago (Sever do Vouga)- retirado daqui

O traçado da Linha do Vale do Vouga, embora sinuoso, tinha uma amplitude de vistas sem igual na rede ferroviária portuguesa. Um dos muitos que se encantaram com esta viagem entre Viseu e Sernada do Vouga foi Brito Camacho que, nas «Jornadas», deixou colorida e interessante descrição.

Tudo começa em Viseu, por volta do meio-dia. Logo à saída da cidade o escritor mal reconhece Abravezes, «na garridice dos seus prédios novos, com telha de Marselha, tão diferente do que era há vinte anos». É claro que naquele tempo, e a vapor, a viagem não era rápida. Nada que incomode pois, «assim pode ver-se tudo muito à vontade, à direita e à esquerda, o que fica longe e o que fica perto, com detalhes de observação que as grandes velocidades não permitem».

Como naquele tempo as carruagens tinham plataformas abertas nos dois topos, esse era o ponto de observação ideal: «a navette de janela para janela, além de ser muito incómoda, não deixa que a paisagem se fixe bem na retina». Será que tanta curva fazia enjoar? «Se disserem ao leitor que a paisagem incomoda, que nele se enjoa como a bordo de uma barcaça desmastreada, com que as ondas brincam, se lhe disserem isto, não acredite».

Em contrapartida, «o desnível, considerando os pontos términos da linha é de, proximadamente, seiscentos metros, e basta lançar os olhos para um mapa da região para se ver que o comboio não poderia ir de Viseu a Sarnadas, na margem do Vouga, sem dar muitas voltas e reviravoltas, aqui e além tão apertadas, que milagre parece vencê-las sem descarrilar a traquitana».

Por isso, «os que desejam fazer este passeio, devem preferir o comboio ao automóvel, porquanto a linha, ficando num plano muito superior à estrada deixa ver mais largos horizontes». Passam-se os panoramas grandiosos da serra da Gralheira, as águas de São Pedro do Sul, os encantos de Vouzela até que «por volta das quatro horas saímos da Sarnada para Espinho, de tal modo encantados com o Vale do Vouga, que muito solicitamente recomendamos ao leitor que faça o passeio como nós o fizemos...»

3 comentários:

CP disse...

Quão grande seria a tristeza de Brito Camacho se soubesse o que fizemos à linha do Vale do Vouga...

B.A. disse...

E,sem demagogia,mais triste ficaria em saber que os "maquinistas" desta Era nova, preferem gastar milhões num TGV que, do Litoral, nos leva a Espanha, esquecendo que este país tem um Interior cujas vias férreas vão sendo apagadas dos mapas.
E quantas Linhas do Vale do Vouga se não reactivariam com o investimento naquela outra vaidade voadora?

António Luís disse...

Este post faz-me lembrar um outro livro igualmente interessante titulado «A Beira num Relâmpago» de Teixeira de Pascoaes, editado pela Assírio e Alvim, em que saindo de Amarante fazem toda a Beira (atravessam a zona de Lafões), por estrada, num voluptuoso automóvel durante... 4 dias!