Está tudo dito, Molero

Era um lisboeta assumido, mas daquela Lisboa que foi as terras todas e hoje já não há. Dinis Machado morreu aos 78 anos.
A notícia correu célere, deu três pancadas nas portas com os nós dos dedos (era assim que corriam as notícias), as putas vieram ver o turista, os chulos quedaram-se, inquietos, a trinta metros, o Franciú pintou os lábios, as gaivotas suspenderam momentaneamente o voo, cristalizadas no ar, e o Pintor aproveitou para fixar na tela o que nunca mais voltaria a acontecer: o homem de preto tirou a harpa do ombro e dedilhou nela sons prateados que deslizaram ao longo da pedra do cais e se espalharam no dorso das ondas, tornando-as mais oleosas. As crianças gostaram muito (nunca tinham visto mar prateado por sons de harpa), os chulos ficaram esverdeados, e até eu, que tenho uma harpa debaixo da cama, e que dedilho nela às vezes para acalmar os nervos, ou ouvir a voz dos anjos, não fazia ideia que se pudesse pratear ondas daquela maneira apenas com a linguagem de uma harpa- Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez.
Sem comentários:
Enviar um comentário