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sábado, junho 14, 2014

Poupanças que nos vão custar muito caro- a propósito do encerramento das escolas


Vem sempre embrulhado em comovedores discursos sobre o insucesso escolar e crianças que não têm colegas para brincar, mas o objetivo é só um: reduzir custos. Falamos do folhetim do encerramento das escolas que no próximo ano vai conhecer novos episódios. Só na região de Lafões prevêem-se 21 (veja aqui a lista, retirada do maisnorte.pt). A moral desta história é sempre a mesma: no interior, os cidadãos são de segunda.

A argumentação sobre a reorganização da rede escolar, baseia-se em várias armadilhas e truques baixos, tentando que  se confunda a árvore com a floresta, ou seja, que nunca se analise a totalidade do problema. Vamos por partes.

As crianças que não há e o fado do 21

É verdade que nascem menos crianças em Portugal e que isso tem que se refletir nas escolas. Em cerca de trinta anos perdemos um milhão, facto que serve para múltiplos lamentos, mas nenhum estudo digno desse nome sobre as diversas causas. O que ninguém diz é que já aquando da reforma Roberto Carneiro (finais dos anos 80), os estudos coordenados pelo Prof. Fraústo da Silva alertavam para uma previsível redução de 500 mil alunos até ao ano 2000. Houve, então, tempo mais do que suficiente para se repensar tudo: escolas, curricula, acesso à formação inicial de professores. Ora, a reorganização da rede de escolas só começou em 2005 (encerramento de estabelecimentos com menos de 10 alunos). Que é que se fez entre esses dois momentos? No fundamental, nada!

Mas, a mentira mais grave está no simplismo dos argumentos apresentados, como essa misteriosa inevitabilidade de encerrar escolas com menos de 21 alunos. Já aqui tínhamos falado nisso, estava Isabel Alçada à frente da Educação no último governo de José Sócrates. Na verdade, nunca foi explicado esse número mágico de 21, a partir do qual é suposto estarem reunidas as melhores condições sociais e pedagógicas, mas que remete para o inferno todos os anteriores. Pior: nunca se falou nas consequências dessa medida em regiões envelhecidas, com localidades onde ter duas dezenas de crianças a correr pelas ruas é não só raro, mas, nos tempos que correm,  um dos poucos sinais de esperança que lhes resta. E é aqui que entramos na mistificação pura e dura.

O barato que sai caro

A Escola presta e é um serviço social que se reflete no funcionamento global da sociedade, mas que também sente no seu interior os "sinais" que esta lhe envia. Não é, pois, possível, pensar a Educação sem ter em conta o contexto em que vai ser aplicada, estejamos nós a falar do programa desta ou daquela disciplina, ou da localização de uma determinada escola. Isto, porque não é a mesma coisa decidir sobre o encerramento de um estabelecimento de ensino no centro de Lisboa ou em Covas do Monte, do mesmo modo que não é possível exigir igual desempenho, numa mesma área do conhecimento, a crianças desses dois diferentes meios. Não se trata de dizer que uma é melhor do que a outra. Trata-se de reconhecer que dispõem de recursos diferentes, logo, exigem soluções diferentes.

Se nos limitarmos à aparência das coisas, até podemos dizer que o ministério da Educação quer dar a todas as crianças as mesmas condições que têm as do centro de Lisboa (ou do Porto, ou de Coimbra, ou...). Não é verdade. O encerramento das escolas em localidades do interior, está a ser feito numa altura em que aí se acaba com muitos outros serviços, com o argumento de que é necessário racionalizar a sua oferta, devido ao despovoamento. Ora, se o encerramento de uma escola no centro de Lisboa pode provocar o incómodo de obrigar a mudar de linha de autocarro ou de metro, no interior transmite uma mensagem clara, se não para as crianças, de certeza que para os seus pais: "ponham-se a andar daqui para fora porque não têm futuro". Ou seja, a medida tende a agravar o problema que a provocou. Mas não se fica por aqui. Se a opção for emigrar, por muito bem sucedida que seja do ponto de vista económico, isso representará, sempre, a rutura com a rede de suporte daquela família, obrigada a recorrer a serviços pagos para conseguir o apoio que, antes, qualquer familiar ou vizinho lhe dava. Transfere-se, assim, para o cidadão, o custo da resolução de um problema que não provocou e que competia aos governos ter resolvido.

É tudo? Não, ainda há mais. Para as localidades afetadas é um drama. Por mais projetos que tenham para atrair investimento, apoiar atividades económicas e, desse modo,  aumentar a oferta de emprego, são obrigadas a entrar num confronto desigual, contra um adversário que dificulta a circulação de pessoas e viaturas com as portagens, que diminui a capacidade de resposta dos serviços encerrando-os, que provoca a saída sobretudo dos mais jovens por falta de emprego e de perspetivas de futuro. Esse adversário chama-se governo central. Um governo que não percebe que, para conseguir algumas poupanças imediatas, hipoteca muitas receitas futuras, desperdiçando o potencial produtivo de grande parte do país.

Que ideias há para o território?

Por tudo isto, não é honesto falar em encerramento de escolas ou de quaisquer outros serviços sem  falar disto tudo e sem que nos apresentem opções claras e globais para todo o território nacional. O que queremos saber é se o despovoamento do interior é para continuar ou contrariar. É muito diferente considerarmos uma situação inevitável e irmo-nos adaptando a ela, assim como quem vai fechando as divisões de uma casa que ameaça ruína, ou, pelo contrário, saber que "obras" urge fazer e quando. Aceitar responder aos problemas, sem respostas claras para estas dúvidas, é permitir que a vida das populações do interior seja um joguete ao sabor de opções orçamentais de curto prazo.

Começaram por fechar escolas com menos de 10 alunos, passaram, depois, para os 21 e, se não pusermos um ponto de ordem nesta coisa, arriscamo-nos a que a parada vá sempre subindo. Ataque á escola pública? É muito mais do que isso. É um sinal de que se quer desistir de grande parte do país.
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Nota final: Depois de vários disparates, o ministério da Educação percebeu que é muito diferente medir distâncias entre localidades com régua e esquadro e percorrê-las em estradas de serra cobertas de gelo no inverno. Fala, agora, em tempo de viagem e transfere para as autarquias locais a decisão final sobre o encerramento das escolas. Mas, cuidado: convém saber se as verbas que venham a ser transferidas vão respeitar este acréscimo de sensibilidade.

quarta-feira, julho 21, 2010

Números que interessa conhecer quando se fala de... "números"

Em 1957 existiam, no concelho de Vouzela, 32 escolas (7 femininas, 7 masculinas e 18 mistas) e 17 "postos escolares". Todos esses equipamentos eram frequentados por 1668 crianças (890 rapazes e 778 raparigas), o que dava uma média (arredondada) de 34 petizes por estabelecimento. Por essa altura, Vouzela tinha um saldo fisiológico positivo (números de 1954 referem 336 nascimentos e 198 óbitos) e orgulhava-se de ser o concelho com menor taxa de analfabetismo do distrito.

No entanto, a década de 50 marcou o início de um movimento migratório que, a pouco e pouco, inverteu o optimismo dos números. Por essa altura, muitos vouzelenses tentaram melhor sorte em centros nacionais de maior dimensão, ou optaram mesmo pela saída do País, tendo Brasil e África como principais destinos. Reflectindo isso, o "Notícias de Vouzela" começou a publicar colunas de correspondentes noutras paragens, como a famosa "Daqui, Rio de Janeiro" de Afonso Campos, bem como anúncios publicitando actividades nos mais diversos cantos do mundo. A situação chegou a tal ponto, que vezes houve em que "Os Vouzelenses" tiveram dificuldade em formar equipa. Até ao final da década calcula-se ter havido uma quebra de 5 por cento na população residente.

Tal como sucedeu na maior parte do país, foi nos anos 60 que se sentiram as principais consequências da emigração. De acordo com o "XI Recenseamento Geral da População Portuguesa" (Instituto Nacional de Estatística), entre 1961 e 1971 a totalidade da população do concelho desceu para 13128 habitantes, menos 2168 do que na década anterior. Contudo, freguesias houve que viram o número de residentes aumentar: P. Vilharigues (mais 31 pessoas), Fornelo do Monte (mais 8 pessoas) e Vouzela (mais 4 pessoas). Esta última tinha, na altura, 1231 habitantes.

A partir de então a quebra demográfica foi constante. Com todas as reservas que a Wikipédia nos deve merecer, os números apresentados estão de acordo com a actualização feita pelo INE em 2006 (na página apresenta-se ligação para o documento original). Neste último estudo, o concelho de Vouzela tinha 11755 habitantes e o maior índice de envelhecimento de toda a região. A população até aos 24 anos, pouco ultrapassava os 25 por cento.

No próximo ano vai ser divulgado novo estudo que, ou muito nos enganamos (quem dera!), ou vai confirmar esta tendência. Mas, gostemos ou não, são estes números que interessa conhecer, quando se discute o encerramento de escolas, de serviços de saúde e, sobretudo, a indiferença que sentimos pelos problemas do Interior. Também são estes números que explicam certas prioridades definidas pelos responsáveis locais. Ao fim e ao cabo, o que está em causa... são "números".
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Nota: Para além das publicações do INE que foram citadas, usamos números publicados pelo "Notícias de Vouzela" de 01/02/1955, 16/03/1955 e 01/03/1957.

quarta-feira, setembro 23, 2009

A ver vamos

Foto de José Campos

"O que arreta o frio, arreta o calor". Assim era a capucha, traje unisexo para miúdos e graúdos, protegia o serrano do frio cortante do Inverno e do calor tórrido do Verão. O segredo estava no modo como era tecida a lã, de forma compacta-não passava nada.

A imagem da capuchinha com suas ovelhas, remete-nos, talvez, para uma Vouzela lá dos confins da memória, do tempo em que era mais fácil encontrar um lobo do que um automóvel a cortar-nos o caminho. Um tempo de trabalho sem idade e sem horário, de luta constante "contra" os ditames de uma natureza que ainda não tinha adquirido estatuto nem letra maiúscula. Talvez algures pelos finais do século XIX ou princípios do século XX... Falso! Esta imagem tem pouco mais de quarenta anos e isso diz tudo sobre o desenvolvimento que (não) tivemos- a História dos povos tem que ser assumida mesmo quando dói e essa ideia dos ranchos de homens e mulheres cantando e bailando no fim da jorna, foi uma criação do António Ferro para adoçar o Portugal de Salazar.

Agora, quando terminar a campanha para as Legislativas e saírem de cena as "altas velocidades", escutas telefónicas, e "linhas da frente", é tempo de falarmos dos problemas do cidadão real. É tempo de assumirmos, com orgulho, a riqueza imensa que nos foi deixada por esses homens e mulheres de capucha e mãos calejadas, mas tendo presente que, como dizia um grande amigo já desaparecido, "não queremos ser uma reserva de índios". É sobre este equilíbrio entre o respeito pela tradição e a modernidade; sobre a utilização das riquezas naturais como pilares de uma estratégia de desenvolvimento, que queremos ouvir os candidatos à Autarquia. Há unhas para tocar tão delicada guitarra? A ver vamos.
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A menina da foto, talvez seja, hoje, uma mãe de família ou, até, avó. Talvez ainda use capucha e tenha um rebanho. Nestas alturas, convive com a indiferença de quem não a inclui nas "grandes preocupações nacionais", embora lhe deixe um ou outro avental, isqueiros e esferográficas. Provavelmente, até lhe deixam uma fotografia do líder das suas simpatias que coloca ao lado do crucifixo, por cima da mesa de refeições- é a história do "junta-te aos bons...". O que muito provavelmente esta senhora não tem, é alguém mais jovem para a ajudar a tomar conta das ovelhas e não é preocupação com o trabalho infantil. É porque, muito provavelmente, viu os filhos saírem porta fora para um qualquer grande centro, fugindo da miséria a que sempre associaram a vida da mãe- ninguém lhes explicou que não tinha que ser assim. Por lá constituíram família e mostram, hoje, à descendência, a fotografia pitoresca da avó, de capucha vestida, que já os mais novos se vão habituando a associar a pobreza, alimentando o mito e o vício do círculo. Esta gente existe e merece respostas que, até agora, foram sempre ignoradas. Também pelos autarcas.

quinta-feira, junho 11, 2009

Pastel de Vouzela citado ao mais alto nível

"Não podemos esquecer o mundo rural, cujo desenvolvimento é decisivo, tanto na perspectiva da produção agrícola e de actividades complementares, como na perspectiva do ordenamento territorial, do combate ao despovoamento do interior e da coesão do todo nacional"- Discurso do Presidente da República nas cerimónias do 10 de Junho, na linha do que (não) nos fartamos de dizer.

quarta-feira, maio 07, 2008

Bastava uma simples comunicação

“Estou saturada da desculpa de que Bruxelas é que tem a culpa”- Ana Soeiro, antiga funcionária do Ministério da Agricultura

A falta de protecção aos produtos tradicionais é da exclusiva responsabilidade das autoridades portuguesas. Bastava uma simples comunicação a Bruxelas para que fosse possível continuar a usar materiais e métodos de fabrico tradicionais. Só que ninguém a fez e o assunto só começou a dar nas vistas quando a opinião pública se virou contra o que considerou ser um abuso da actuação da ASAE.

Quem já teve oportunidade de comparar o que por cá é exigido, com o que se passa noutros países da União Europeia, não pôde deixar de estranhar o contraste. Pão caseiro, licores, aguardentes, queijos, tudo nos é oferecido lá fora e proibido cá dentro. As costas largas de Bruxelas serviram de desculpa. Injustamente.

Não é difícil imaginar a importância de muitas dessas actividades, para regiões altamente deprimidas como as do Interior. Ao fim e ao cabo, elas podiam ter sido as dinamizadoras de pequenos focos de economia familiar, ao mesmo tempo que garantiam uma oferta diferenciada, a partir da cultura local. Nada disso foi tido em conta pelos sucessivos governos, com a cumplicidade de muitos autarcas que mantiveram um silêncio indiferente. Preferiu-se empurrar as pessoas para os subsídios da Segurança Social, pelos vistos mais fácil do que preencherem um simples formulário.

Mas a gravidade da situação é tal que, de acordo com Ana Soeiro, nem os produtos qualificados “como denominação de origem (carne do porco alentejano ou pêra-rocha do Oeste, por exemplo) e como indicação geográfica (ovos-moles de Aveiro, presunto de Vinhais)” estão protegidos perante a legislação comunitária. Porquê? Porque “o Governo aprovou o caderno de especificações (que descreve a forma como são fabricados/manuseados), mas não fez as obrigatórias comunicações à Comissão Europeia nem informou à Autoridade de segurança Alimentar e Económica (ASAE)”.

Alto aí! Então e a vitela de Lafões, o cabrito da Gralheira... os pastéis de Vouzela? Impõe-se exigir das autoridades locais e das associações o completo esclarecimento da situação, porque manter a opinião pública informada é a nossa única defesa. Depois, aprender com esta experiência, também ajudava...

quarta-feira, abril 02, 2008

Decoração de interiores

Nicolas Persheid- 1901

Vale a pena ler a reflexão de Henrique Pereira dos Santos, a propósito da hipotética mobilidade dos funcionários do Ministério da Agricultura e publicada no Ambio. Assim se vê que a “decoração” não é a mesma para todos os “interiores”:

"E lembrei-me de que este Ministro é o mesmo que tem na sua mão a responsabilidade de formatar o apoio das políticas públicas ao mundo rural através da definição da regras de aplicação das formidáveis verbas que a política agrícola comum canaliza.Lembrei-me das discussões havidas na altura da definição destas regras. O Sr. Ministro preferiu apoiar os sectores competitivos da produção agrícola e agro-industrial com essas políticas públicas, deixando para a floresta o resto do país (que é muito mais que 50% do território, a grande maioria do qual nem sequer suporta uma floresta competitiva).Este Ministro preferiu alocar cerca de 11% dessas verbas ao projecto de Alqueva (ou seja, ao apoio ao turismo e olival intensivo, cuja importância económica não desprezo mas me parecem ser sectores que dispensam as ajudas públicas)".

Já agora, sobre as consequências da exploração intensiva do olival, recordar o aviso de Gonçalo Ribeiro Teles.

Quanto a soluções para combater a desertificação do Interior, talvez adaptar esta solução, pintando gente na paisagem. Nada que não tenha já sido testado nalguns estádios de futebol...

terça-feira, setembro 11, 2007

À espera, sentados...

Doisneau

As medidas recentemente anunciadas pelo primeiro-ministro para estimular a criação de empresas no interior e beneficiar as existentes, fazem lembrar aquelas urbanizações que são lançadas sem que, previamente, se organizem as condições necessárias para as pessoas lá viverem. Na realidade, limitam-se a ser um amontoado de casas à espera que o cidadão resolva problemas básicos como a escola onde meter o filho, o transporte que pode usar para o local de trabalho, etc. Também agora, José Sócrates limitou-se a “amontoar ideias”, sem avaliar as reais condições de concretização e os impactos de médio, longo prazo.

O “nosso” interior, nem é dos piores. Estamos longe da depressão que afecta regiões como Sertã, Vila de Rei, Pedrógão Grande. No entanto, sentimos a sangria: se compararmos e evolução da população entre 1996 e 31 de Dezembro de 2006, só Oliveira de Frades não apresenta valores negativos. No que diz respeito a Vouzela, passou de 12300 habitantes (números da Associação Nacional de Municípios Portugueses), para 11755 (números do Instituto Nacional de Estatística). Para além disso, é reconhecida a crise em actividades tradicionalmente fortes como a criação de gado, não tendo surgido qualquer alternativa para uma agricultura que sempre foi pobre, mas que hoje, pura e simplesmente, não existe.

Claro que temos algumas empresas com dimensão e um sector de comércio e serviços (turismo incluído) com potencial de crescimento se... houver vontade de o repensar e reconverter. No entanto, não se prevêem investimentos estruturantes com dimensão para fixar a população residente e conseguir atrair alguma mais, o que apenas seria conseguido com a promoção de marcas (produtos) locais.

Perante isto, será que as ajudas recentemente anunciadas pelo governo são suficientes para inverter a situação? Não nos parece. Que é que pode levar uma empresa a preferir a sua localização nesta zona do país, quando a maior parte dos serviços de que vai necessitar estão no litoral? Depois, num contexto internacional de retracção do investimento, quem ousará avançar terra dentro, sabendo que vai ser obrigado não só a montar uma empresa, como todos os apoios de que necessite e que existem, prontos a usar, no litoral? Finalmente, qual a real capacidade de recrutamento de mão-de-obra no interior ou que vantagens existem para incentivar os trabalhadores a deslocarem-se para cá? Com que ordenados?

A história seria diferente, se já existissem sectores organizados, desde a produção à distribuição, passando pela formação, que se baseassem no que a região tem de específico. Não existem e era por aí que se devia ter começado. Aliás, de específico, com capacidade para atrair investimento, quase só temos a paisagem. Por isso, receamos que tudo o que possa interessar no imediato ao investidor, se revele, a prazo, negativo para a região: terrenos (mais) baratos. Isso mesmo. Daqui a uns anos as empresas encerram ou mudam de ares, porque o que vêm para cá fazer, pode ser feito em qualquer outro lugar. O terreno será o que resta. Com jeitinho, o poder local ainda dá uma ajuda e vai valer bom dinheiro. E nós continuaremos à espera. Sentados. Embora, como diz o Chico Buarque, “quem espera nunca alcança”.

sexta-feira, setembro 07, 2007

ASAE ou AS(A)Elhices?

Já aqui brincámos com a “perseguição” aos vendedores de bolas de berlim nas praias, mas a acção fiscalizadora da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) justifica reflexão mais cuidada. Ao fim e ao cabo, mais do que a protecção da saúde pública, podem estar em causa mecanismos de integração social e manifestações de iniciativa local que, longe de serem reprimidas, deviam ser estimuladas.

Claro que a culpa não é dos funcionários da instituição, que se limitam a cumprir o previsto na lei. Claro que ninguém põe em causa a necessidade de se privilegiar a defesa da saúde pública. O que defendemos, é que se opte por uma intervenção mais formativa do que repressiva, compreendendo a importância social das actividades e arranjando um compromisso entre o necessário para salvaguardar a saúde do consumidor e as reais capacidades económicas de quem presta o serviço.

Falemos de casos concretos. Os percursos pedestres na região de Lafões e os passeios de BTT, têm sido um sucesso. Milhares de pessoas têm aderido, nas mais variadas épocas do ano, a uma forma diferente de contactarem com o nosso património natural e edificado. Isso mostra que a iniciativa tem potencial para outros voos, podendo constituir uma fonte de recursos para regiões que deles bem necessitam. Uma das medidas que podia ser explorada, era a de acompanhar algumas paragens com o serviço de um petisco, em ambiente típico e privilegiando produtos locais. Não é difícil imaginar a importância que a iniciativa podia ter para economias de âmbito familiar e para a preservação de receitas tradicionais. Só que isto não é possível devido à panóplia de exigências que são feitas para a confecção e conservação dos produtos, incompatível com a disponibilidade económica daquelas pessoas. Será assim tão difícil conciliar as coisas, ou será preferível empurrar toda aquela gente para “rendimentos sociais de inserção” e outras medidas de apoio social, ao fim e ao cabo o que lhes resta depois de verem fechar-se todas as portas?

Outro caso, tem que ver com as festas populares. Li algures que também foram alvo dos agentes da ASAE, sendo confrontadas com a necessidade de respeitarem uma pesada lista de exigências para verem autorizadas as cabidelas, febras e sardinhadas. Talvez convenha levar em linha de conta que estas festas são dos poucos hábitos associativos que restam, depois da pressão económica ter acabado com os restantes. Nalguns casos, são até o único momento de encontro de uma população obrigada a fazer-se ao mundo. Ora, o preço a pagar por lavatórios e bancadas em inox, pode ser a morte do que ainda há de iniciativa local. Ou é isso mesmo que se pretende?

Mais uma vez, parece-nos que os autarcas podiam dar uma ajuda. Não seria desprestigiante meterem-se ao barulho e negociarem um ponto de equilíbrio. Até porque- deixemo-nos de conversa fiada- em todo o mundo servem-se licores caseiros aos turistas e fazem-se gigantescos churrascos no meio da rua, em ocasiões festivas. Depois, a própria ASAE deve estar interessada em que a importância do seu serviço, não se dilua na caricatura da AS(A)Elhice.

quarta-feira, setembro 05, 2007

A invasão dos urbanóides-2: Descoberta do... óbvio

Magritte, The Human Condition, 1935

Vivemos num país governado por urbanóides: gentinha fechada no seu mundo, olhando para o resto do território através da televisão ou de estudos que vão sendo publicados. E publicam-se poucos estudos...

Só assim se compreende que se abra a boca de espanto, perante a constatação, tardia, de realidades óbvias para quem vai arrastando os pés por terra firme. Desta vez, “descobriram” que o produtor agrícola é quem menos beneficia com o preço a que os produtos chegam ao consumidor. De acordo com os dados recolhidos por um tal Observatório dos Mercados Agrícolas, mais de 70% do dinheiro gasto pelos consumidores na compra de legumes e frutas, fica nas mãos dos distribuidores. A “observação” remonta a 2005, mas a situação já se verificava em 2000 e regista tendência para se agravar. Fantástica descoberta... Onde é que esta gente tem vivido?

O assunto, tem sido uma das preocupações dos textos que por aqui temos publicado. Não é possível reanimar económica e socialmente o interior, sem o apetrechar da organização que permita rentabilizar as suas actividades específicas (controlo de qualidade, promoção e distribuição). São essas actividades que permitem a criação de um mercado próprio, mais protegido da concorrência. Ora, com uma população envelhecida, isolada e pouco informada, não existe poder reivindicativo, nem capacidade para tornear a armadilha dos grandes grupos da distribuição e das grandes superfícies.

Era aqui que as autarquias tinham um papel a desempenhar, colocando os seus significativos recursos técnicos ao serviço da comunidade. Dinamizar, informar e discriminar positivamente, não nos parece que fossem actividades transcendentes, incompatíveis com os afazeres da gestão autárquica. Aliás, a divisão dos pelouros cada vez mais tem que facilitar uma análise global do território, não fazendo qualquer sentido separar, por exemplo, a acção social da dinamização económica. Por outro lado, continuar à espera de uma “vaga de fundo” de iniciativa privada, é a tal história de pôr a raposa a gerir o galinheiro: salvo raras e honrosas excepções, os privados com arcaboiço para a tarefa, não estão interessados em investimentos estruturantes de longo prazo. Resta a eficaz mobilização dos recursos locais em torno de objectivos. Sobretudo, ainda restamos nós, cidadãos, que não temos vocação para cobaias, nem pachorra para aturar urbanóides que abrem a boca de espanto, perante a descoberta... do óbvio.

segunda-feira, junho 04, 2007

Revelações

Há momentos assim: de repente, sem que nada o faça prever, são desvendados os mais insondáveis mistérios do Universo. Este fim-de-semana, foi um deles- estou que nem posso. Desde a conclusão do Presidente da República (Sua Excelência...) de que é preciso fazer algo para travar o envelhecimento do País, até à descoberta do Vasco Pulido Valente, de que, de Lisboa à Ota são 3 horas de viagem... de táxi (ver “Público” de Sábado), foi um fartote de revelações.

Fazendo umas contas rápidas, penso não errar muito se disser que o Professor Cavaco anda nas lides políticas há quase vinte anos. Quanto ao Dr. Vasco Pulido Valente, investigador com obra feita na área do Liberalismo (não esse, o outro), tem mais currículo, mas também andou pelo governo, mais ou menos pela mesma altura. Pois, neste ano da graça de 2007, foram os profetas da “boa nova” que nos deixou, a todos, conscientes de uma única coisa: estes senhores não fazem a mais pequena ideia do que é o país que governam (ou governaram) e dos dramas que por cá se vivem.

O envelhecimento da população é problema que há muito preocupa o interior do País (tendo a A1 como referência, aquela parte que fica do lado direito se estivermos virados para Norte, ou do lado esquerdo, no sentido inverso). Há muito que nos sentimos impotentes para travar o despovoamento e renovar o “tecido” social e económico. Não foi preciso que, lá em Lisboa, os homens das contas começassem a perceber o desequilíbrio entre a coluna do “deve” e a do “haver” e desatassem a fechar escolas, centros de saúde, tribunais, ou a inventar fórmulas para adiar reformas que, por estes lados, pouco pesam no Orçamento. Quanto aos problemas de circulação do Dr. Vasco, arrisco dizer que o “seu” táxi cobre mais rapidamente os cinquenta e tal quilómetros que separam Lisboa da Ota, do que a distância que vai do Rossio à Portela em “hora de ponta”. Não me interpretem mal, porque não tomo posição pela morada do novo aeroporto e até sou dos que vão assistir pela televisão, se alguma vez um desastre, que se espera que nunca aconteça (bato três vezes na secretária, em nogueira velha), abrir um “corredor” entre a Avenida da República e Sacavém.

Mas, no meio destas “revelações”, convém que nós, cidadãos que resistem longe do mar, compreendamos que somos uma pequenina mancha de cor, nos gráficos desta gente ilustre. Conseguir alcançar os seus ouvidos (certamente afectados pela poluição sonora), exige que nos deixemos de “querelas de paróquia” e de confianças cegas em “representantes”, cujo único objectivo é atravessarem a A1 para o outro lado e esquecerem-se da distância e do passado.