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segunda-feira, setembro 03, 2007

Procurar a ponta da meada


Na hora de pôr as contas em dia e procurar a ponta da meada, socorremo-nos do que outros escreveram para registar alguns acontecimentos de que importa guardar memória. Apesar da nortada, ou talvez por isso mesmo, Agosto não deu descanso: há mesmo motivos para continuarmos preocupados.

Já no final do mês, o Público (20 de Agosto) destacava as “novas políticas” que, para supostamente ordenar o território, dão prioridade às cidades... ignorando tudo o resto. A este respeito, vale a pena ler o apontamento que, na altura, foi publicado por José Carlos Guinote no seu blogue “pedra do homem”. Registe-se, também, a afirmação do incrível João Ferrão, secretário de Estado do Ordenamento do Território: “O debate sobre o interior ainda é muito emotivo, o que tira lucidez sobre causas, soluções e importância relativa”. Ó ilustre secretário, “ainda é”? Para além do interior do Centro Cultural de Belém, ou do centro comercial Colombo, que outros “interiores” é que conhece? Garanto-lhe que, quando apenas restarem eucaliptos, tojos e terras a monte, poderá ter vossa excelência a calma necessária para reflectir, lucidamente, com os passarinhos, sobre o que podia ter feito e não fez, nem se faz há mais de trinta anos. Já não falta muito, acredite.

PIN, pam, pum

Os Projectos de Interesse Nacional aí estão a mostrar a sua verdadeira face. Num país que, durante anos, baseou o seu crescimento na construção civil e na especulação imobiliária, só quem entenda o desenvolvimento de forma integrada consegue fugir à tentação de abusar do território. Não é o caso de quem vai passando pelo governo. Desta vez foi o Parque Alqueva que envolve a Fundação da Casa de Bragança e o Dr. José Roquette que afirmava nada perceber de futebol, mas que sabe muito bem como jogar à defesa, sempre que avança com os cabedais. O problema é que as consequências deste tipo de ocupação do território, rapidamente se vai transformar numa autêntica política de terra queimada. Já que é do Alentejo que falamos, ainda mais queimada.

Quem manda

Entretanto, o Tribunal Constitucional veio dar como provado aquilo de que, há anos, todos suspeitávamos: há uma enorme promiscuidade entre empresas privadas e partidos políticos. Sobretudo, empresas de construção e, claro, partidos que ocupem os corredores do poder. Todos. Por isso mesmo, o Partido Socialista moderou os comentários à tramóia que, desta vez, envolveu o PSD (ver, aqui, o texto de Nelson Peralta, publicado no blogue "A Ilusão da Visão"). Ocorrem-nos várias máximas da sabedoria popular sobre “telhados de vidro” e “mãos que nos dão de comer”, mas neste caso é preciso chamar os bois pelos nomes: eles bem sabem quem manda.

Desfile de máscaras acompanhado com pipocas

Entrando já em Setembro, regista-se o início de uma abordagem mais racional sobre a questão do milho transgénico ((duas semanas após o caso de Silves). Finalmente. O "Público", depois de ter sido veículo de propaganda dos ofendidos com o desrespeito pela propriedade, tenta emendar a mão e dá voz aos dois lados do problema (vejam-se as edições de 2 e 3 de Setembro). Também vale a pena ler o que Miguel Portas escreve no seu blogue, sobre a legislação que regulamenta o assunto. Mas, sobretudo, vale a pena ler, na página da Plataforma “Transgénicos fora!” (ver, "Cultivo comercial de milho transgénico em 2007"), o modo como o Ministério da Agricultura divulgou a lista de zonas cultivadas com milho transgénico (em Julho, muito antes da acção da “Verde Eufémia”). Repare-se que não há uma única indicação precisa sobre a localização dessas culturas. De quem ficou tão chocado com as caras tapadas dos invasores da propriedade, não podia vir melhor exemplo de coerência. Espera-se que o preocupado jornalista Mário Crespo, como compete a qualquer jornalista, continue em cima do acontecimento.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Excessivamente bem ensaiada…

“(…) os media podem dirigir, efectivamente, a percepção da realidade desde que não existam informações que a contrariem. E ainda que não possam moldar cada opinião individual sobre cada assunto particular, podem, isso sim, delimitar a realidade perceptiva geral no interior da qual se vão formar as opiniões. Aqui radica, talvez, o seu aspecto mais importante: estabelecer a ordem do dia para todos, organizando o espaço público, as questões em que pensar”.

- A Formação da Mentalidade Submissa, Vicente Romano, Porto, Deriva Editores, 2006, p. 159

A história do milho transgénico de Silves, tocou a cerrar fileiras, não contra os OGM ou a seu favor, mas sim na defesa da inviolabilidade da propriedade privada. Aliás, não se via nada assim, desde os “vendavais” do PREC. As edições do Público são um bom exemplo do que afirmo. Até professores doutores em Biologia e “ambientalistas encartados” tiveram direito a espaço para dissertarem sobre tácticas e estratégias de acções de protesto, sem uma única vez usarem os seus doutos conhecimentos para dizerem o que quer que fosse sobre o milho. No entanto, reconheço que a acção da “Verde Eufémia” esteve longe de ser bem organizada. Bem melhor seria pôr o ministro a lamber-se com umas papas feitas com aquele material e fazer dele um “case study”.

Curioso é verificar que, passados todos estes dias, não estamos mais informados sobre os OGM, nem sobre o modo como estão a ser controlados os diversos hectares desses produtos espalhados pelo país (se é que estão). Não foram essas as questões em que quiseram que pensássemos. É pena. Até porque, como foi reconhecido pela Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sogro (Anpromis), os transgénicos fazem parte da estratégia para enfrentar os “novos desafios que se colocam aos agricultores” (Público de 22 de Agosto) e sobre os quais também nada sabemos- só suspeitamos…

Também não sabemos o que levou os activistas da “Verde Eufémia” a escolher aquela propriedade como alvo, quando era fácil prever que a sua pequena dimensão iria ser aproveitada para denegrir a iniciativa. Por estranho que pareça, nem sabemos o que move tal organização, quando as declarações do seu dirigente (que falava em “repor a normalidade ecológica”) davam pano para mangas.

De facto, ficamos com a sensação de ter assistido a um drama, em que só uma parte estava bem ensaiada: a da feroz mobilização informativa a favor da inviolabilidade da propriedade privada. Excessivamente bem ensaiada…

terça-feira, agosto 21, 2007

O primeiro milho é dos pardais

(O pardal voou a partir daqui)

Portugal assistiu à radicalização das formas de protesto sobre questões ambientais. Lutando contra os produtos transgénicos, cerca de uma centena de activistas de um movimento denominado “Verde Eufémia”, invadiu uma propriedade em Silves e destruiu perto de um hectare de milho geneticamente modificado.

O tom geral da notícia, difundida pela comunicação social, era de espanto e de choque. Ao fim e ao cabo, é saber de ciência certa que somos um povo de “brandos costumes”. Depois, onde está o folclore habitual neste tipo de acções, coisas bonitas para televisão ver, com bombos e sardinha assada, discursos e queixas para as instâncias internacionais? Caramba, foi logo a “arrear”, invadindo propriedade privada, sem dar hipótese ao “funcionamento das instituições”…

No entanto, quem quiser analisar os acontecimentos sem preconceitos ou hipocrisia, percebe que, pela primeira vez no nosso país, fomos confrontados com a verdadeira essência da luta ambiental: a ditadura dos interesses privados fere de morte o interesse colectivo.

Limitando-nos ao tema da discórdia, temos que reconhecer que a própria atitude da União Europeia, deixa muito a desejar. Tendo começado por assumir fortes suspeitas sobre os transgénicos, acabou por permitir a sua legalização (em Portugal isso aconteceu em 2005), não porque alguma informação científica tenha posto de lado os receios iniciais, mas pelos ditames de uma estratégia concorrencial com os Estados Unidos. Mantêm-se todas as dúvidas sobre as consequências para a saúde humana e para as culturas biológicas. Tal como o milho, a “instituição” não mostrou ser digna de confiança.

A nível mundial, as preocupações ambientais têm sido “adormecidas” por uma estratégia de “faz de conta” adoptada pelos diversos governos. Quando muito, atitudes mais estruturadas são tomadas a propósito do “negócio verde”, como sucede já com as energias alternativas, sobretudo com o biocombustível. Biocombustível que, longe de ser solução, ameaça criar mais um problema, até pela força que vai dar aos organismos geneticamente modificados, dada a exigência da sua produção intensiva. Ora, por esclarecer continuam as dúvidas sobre a sua ameaça para a saúde de todas as formas de vida, que não são protegidas pelos muros de uma qualquer propriedade. Privada. Até porque “o primeiro milho é dos pardais” que, tal como o ambiente, não têm fronteiras, nem aceitam dono.
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PS: Significativamente, os comentários a estes acontecimentos, desde o ministro da Agricultura, até Pacheco Pereira, passando por Vasco Graça Moura, nada avançam sobre as legítimas preocupações com os produtos transgénicos e a total ausência de protecção dos cidadãos face aos interesses a eles ligados. Toda a retórica se limitou à "invasão de propriedade privada". De algum modo, têm razão: é aí mesmo que temos que centrar o debate, sabendo até que ponto os interesses privados podem limitar os colectivos.