sábado, dezembro 06, 2014

Vouzela 2006, Vouzela 2014: um caminho percorrido e um até sempre


Dezembro de 2006. Ventos ameaçadores sopravam já, marcando o fim de um equívoco de crescimento que nos "animou" durante décadas, baseado na construção civil e na exploração do mercado interno. Portugal envelhecia, agarrado à televisão e ao telemóvel (no primeiro caso, com um número de horas médio de assistência superior ao do conjunto de países da União Europeia) e com uma adesão crescente à internet (1). As redes sociais davam os primeiros passos, mas só 4% participava em fóruns de discussão de assuntos de interesse público.

Vouzela mantinha-se orgulhosa do que a "Mãe Natureza" lhe deu, mas cheia de incertezas sobre o que os homens lhe preparavam. Previam-se encerramentos de serviços, alterações administrativas, anunciavam-se obras absurdas. Sobretudo, receava-se o futuro. A população diminuía, o setor primário esvaziava, Por mais "parques industriais" que criassem, a oferta de emprego não aumentava. Como sempre, os medos alimentavam explicações fáceis e mitos: os "outros" eram muito melhores. Não eram. Mas os lamentos em surdina, dificultavam a percepção da realidade.

Foi neste contexto que, em 6 de dezembro de 2006, apareceu o "Pastel de Vouzela". Já por aí contamos como foi. Hoje, o que interessa é o que temos sido. Bem ou mal, defendemos ideias, fizemos propostas, divulgamos o que de melhor tem a região, recordamos pessoas e acontecimentos, animamos debates. Fiéis à delicadeza do nosso símbolo- o pastel de Vouzela- esforçamo-nos por manter o "folhado fino": nada de ataques ou querelas pessoais. Vivemos momentos de alegria e de profunda tristeza. Outros de raiva. Mas tentamos nunca esquecer o que aqui nos trouxe: Vouzela e a região de Lafões, com uma história e um património invejáveis e recursos naturais e humanos riquíssimos que terão que ser, obrigatoriamente, os pilares de qualquer projeto com futuro.

Dezembro de 2014. A ventania continua e esta encosta do Caramulo não nos protege das ameaças. Mas, muita coisa mudou. As águas do Vouga reclamam mil cuidados, mas, finalmente, há a manifestação pública de vontade de lhes acudir. A "Casa das Ameias" continua em ruína,  mas há quem se mexa para impedir o desastre. O eucalipto continua a conquistar espaço, mas organizam-se projetos para lhe impor regras. Escasseia gente no setor primário, mas promovem-se iniciativas para lhe melhorar a imagem. Não menos importante: muitos recusaram o silêncio preguiçoso e triste e animam tertúlias, formam associações, organizam projetos, levantam a voz. Se nos for reconhecida alguma influência nesta mudança, ainda que modesta, a nossa aposta foi ganha.

Após oito anos em que, na maior parte das vezes, estivemos na margem oposta à dos poderes, é de elementar justiça reconhecer que, também aí, alguma coisa mudou. Há, hoje, o sentimento generalizado (que também é o nosso), de que Vouzela é dirigida por quem dela gosta e que tem como elemento norteador da sua ação a defesa e divulgação do que tem de mais característico, em diálogo franco e aberto com os munícipes. Que assim se mantenha e que não lhes faltem forças porque, como já por diversas vezes dissemos, as regiões do interior não têm mais espaço para falhar.

E é tudo. Este "Pastel de Vouzela" interrompe, hoje, a sua atividade. Não se trata de uma despedida, porque as causas que nos animaram desde o início, mantêm-se. Por outro lado, as ameaças são muitas e muito há, ainda, para fazer. A recuperação do Vouga, as garantias sobre a qualidade das nossas águas, a recuperação e preservação dos elementos mais característicos da nossa paisagem, a valorização das atividades rurais, a conquista de lugar cativo no mapa turístico, são algumas das coisas que falta fazer, sem as quais Vouzela (Lafões) será outra coisa qualquer, mas não a que nos interessa. Continuaremos disponíveis para todas essas causas. Se nos parecer útil regressar, regressaremos (vamos manter ativo o nosso espaço no Facebook). Podemos, até, criar novos espaços, porque doçaria inspiradora não falta. Só que um pastel de Vouzela que se preze é produto delicado, com elevadas exigências de qualidade. Não se compadece com rotinas, massa mal trabalhada e recheio aldrabado. "Só os eleitos o sabem fazer, poucos o sabem comer". E só em Vouzela.

António Gil Campos, o sempre vosso "Zé Bonito"

segunda-feira, novembro 17, 2014

Histórias que por cá se contam-VIII: Queiran

Foto retirada do blogue Igarei 
"A dois kilometros da egreja matriz, está o logar de Igarei, onde ha uma capella dedicada a Nossa Senhora das Neves.
Segundo a lenda, a imagem d’esta Senhora appareceu em um monte proximo, aonde hoje existe uma cruz, para memoria, e por isso se chamou o monte de Santa Cruz.
Diz-se que, depois, a mesma imagem apparecêra junto á estrada real, e perto de Igarei.
O povo construiu logo n’aquelle sitio uma ermida, toda de cantaria lavrada, com 52 palmos de comprimento e 31 de largo, com um só altar, que é o da Senhora.
Esta imagem é formada de pedra fina e de excellente esculptura".
Fonte Biblio: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo VIII, pp. 16-17

segunda-feira, novembro 03, 2014

Histórias que por cá se contam-VII: Lenda da aparição de Nª Sra. dos Milagres

"Conta-se que em Adside, freguesia de Campia, concelho de Vouzela, apareceu Nossa Senhora debaixo dum cabeço enorme. Fala-se que essa mesma imagem já tinha aparecido noutra povoação perto, mas como não lhe fizeram nenhuma capela ela veio aparecer em Adside. Quem a viu pela primeira vez foi um cego por isso ninguém acreditou. Então ele pediu que o conduzissem até ao local onde ele dizia ter visto Nossa Senhora. Alguns mais crentes conduziram-no, subiram o monte, atravessaram penedos até que a certa altura ele disse que era ali. Não valia a pena caminhar mais. Tinha sido ali que a vira.
 Estavam perplexos, o rochedo era enorme e estava assente numa das suas partes mais estreitas, estavam admirados como é que não caía. De repente o cego começou a falar, e a caminhar sozinho, começou a ver tudo e todos e dizia continuadamente que tinha sido debaixo daquele rochedo que vira Nossa Senhora que vestia um manto branco. Como todos começaram a fazer troça só porque não viam nada, o homem resolveu ir embora. E foi visto que já conseguia ver foi sozinho.
 Quando chegou à sua povoação a ver, as pessoas começaram todas a dizer que tinha sido um milagre pois ele que não via um palmo à frente do nariz e agora conseguia ver coisas que ninguém via.
 Nessa mesma noite esse homem faleceu. A partir desse dia as pessoas que acreditavam, a sua vida continuou a correr normalmente enquanto que às pessoas que não acreditavam começaram a acontecer-lhes desgraças e os seus animais começaram a morrer. Assim as pessoas que acreditaram começaram a pensar em fazer uma capela. Mas eles começaram a fazer a capela num sítio e no dia a seguir aparecia tudo estragado e uns metros mais abaixo apareciam 4 pedras como que a indicar que era ali que a capela deveria ser feita. Andaram assim durante 15 dias, no final um senhor disse que assim não poderia continuar e apesar dos incómodos e trabalhos que isso pudesse trazer a capela teria de ser feita no sítio que aparecia marcado.
 Assim fizeram e nunca mais o trabalho apareceu estragado e o nome da Santa ficou Nossa Senhora dos Milagres porque diziam que o que aconteceu ao cego tinha sido um milagre".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.24

quinta-feira, outubro 09, 2014

500 anos do foral manuelino de Lafões

Imagem retirada da página do Município de Vouzela no Facebook

"(...) e portanto mandamos que todas as coisas contidas neste foral que nós pomos por lei se cumpram para sempre do teor do qual mandamos fazer três um deles para a Câmara do dito concelho de Lafões e outro para o senhorio dos ditos direitos e outro para a nossa Torre do Tombo para em todo o tempo se poder tirar qualquer dúvida que sobre isso possa sobrevir dada na nossa mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa aos XV dias de Dezembro do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e catorze (...)"- in, Foral de Lafões 1514, Câmara Municipal de Vouzela, 1997.

No mesmo ano em que se publicou a primeira edição completa das Ordenações Manuelinas (que havia de ter uma versão definitiva em 1521), Lafões via reformadas algumas das diretivas por que se tinha regido até então e aprovado o seu novo foral para regular a vida de todos quantos por estas terras viviam. Todos? Não.  Havia exceções, como as do "lugar do Banho" (Termas), porque, como então se explicava, "particularmente se fará foral do dito lugar e foros dele para ser sempre apartado da dita terra". Assim aconteceu, no ano seguinte. Para além dele, mereciam tratamento especial Calvos, Queirã, Moçâmedes, Oliveira de Frades, o "couto do mosteiro de São Crsitovão" e Alcofra.

D. Manuel I foi o rei em cujo reinado os navegadores portugueses chegaram à Índia e ao Brasil, na continuação do rumo da política expansionista traçado pelo seu antecessor e primo, D. João II. Se a consolidação do império português foi o grande objetivo da sua política externa, o reforço do poder real, através da aplicação de normas unificadoras, fez do seu reinado um patamar importante da construção do Estado moderno. Como exemplo do que dizemos, tanto podemos referir o conjunto das suas "Ordenações" (em que, por exemplo, se generalizava a todo o reino os padrões de pesos e medidas já então usados em Lisboa), como os diversos forais publicados, conhecidos por "Forais Novos". Ao contrário dos primeiros forais, estes mais não eram do que listas de "impostos", coimas e exceções com a preocupação (nem sempre conseguida) de uniformizar.

O foral de Lafões de 15 de dezembro de 1514, é um interessante documento para se compreenderem as relações sociais da época, a vida económica da região e os valores que orientavam a vida dos homens. Fique sabendo que o imposto exigido pela venda de um escravo, era igual ao do negócio de um "cavalo rocim ou égua e de mir ou mula". Quanto às penas aplicadas por  ofensas à integridade física, ficava isenta "mulher de qualquer idade". Contudo... também disso beneficiavam "os que castigando sua mulher e filhos e escravos tirarem sangue (...)". E numa altura em que se tenta dar cobertura legal à apropriação privada dos baldios, talvez valha a pena atender ao que  se dizia sobre o uso das "terras maninhas", permitindo que "os povos ou pessoas a que tocar as podem tomar e destapar e fazer delas livremente o que faziam e converte-las em seus usos e logramento sem mais haverem mester outra autoridade de justiça nem incorrerem por isso em alguma pena (...)" (1).

Em 1997, a Câmara Municipal de Vouzela fez uma primeira edição deste documento que rapidamente esgotou. Para as comemorações do quinto centenário, está prevista nova edição, a não perder por todos quantos se interessam em conhecer os mais importantes mosaicos da nossa história coletiva.
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(1)- A este respeito é interessante a contradição entre o disposto na maioria destes forais e nas "Ordenações", onde aparece uma maior preocupação pelo uso coletivo destas terras (vd., História de Portugal, dir. José Mattoso, 3º vol., pág. 172 )

quarta-feira, outubro 01, 2014

Histórias que por cá se contam-VI: A cova do Lobisomem

"A cova do Lobisomem é uma caverna pré-histórica, encontra-se na povoação de Cambra de Baixo, da freguesia de Cambra, situada na margem direita do rio Alfusqueiro. Acerca desta caverna, existe uma lenda, onde se fala que havia um fantasma  que de dia descansava na margem do rio, e de noite percorria sete freguesias. A situação desta caverna em relação ao rio, e o facto de ficar na parte externa duma curva deste, onde a erosão é portanto mais activa, levando a querer que ela tenha sido em parte escavada pelas águas.
Esta caverna consta de uma galeria, ou corredor cuja entrada mede 2.40m de altura por 2m de largura, indo estreitando gradualmente para o interior, conduzindo a uma vasta câmara de forma oval irregular por um estrangulamento onde a custo cabe um homem de pé, pois não tem de largura mais de 40 cm, tendo aliás 2.20m de comprimento.
A câmara, com cerca de 5m de comprimento por 2.50m de largura e outro tanto de altura, pode comportar 10 homens bem à vontade, O comprimento total incluindo galeria e câmara mede l8m.
Toda a caverna foi aberta em saibro muito rijo, quase tão consistente como o granito, tendo na parte superior da câmara um pequeno buraco totalmente tapado por uma cobertura de pedras roladas ligadas por um cimento arenoso e argiloso muito duro e incontestavelmente produto da indústria humana. O fundo está completamente obstruído de areia e pedras roladas.
Depois de feitas algumas escavações, demonstrou-se que as águas das cheias em sucessivas invasões, levaram quaisquer restos humanos que ali porventura tivessem sido depositados, enterrados, mas a prova irrefutável de que a caverna foi habitada tivemo-la nós, pela presença de pedras calcinadas e vestígios de fogo no tecto do recinto interior".
Fonte Biblio: CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.29.

A lenda

Reza a lenda que em noites de lua cheia o lobisomem percorre as ruelas graníticas da povoação de Cambra, caçando quem apanhar desprevenido. As portadas das janelas fecham-se e as crianças escondem-se debaixo das mantas quando ouvem o tropel das suas patas na calçada. Mas que monstro é este que assim apavora as noites enluaradas?
Acontece que nas famílias da região, nas mais numerosas, era costume haver 7, 8, 9 e mais filhos... Se, ao chegar o sétimo filho, nascesse uma menina havia que chamar-lhe Custódia ou Benta e se fosse menino havia que pôr-lhe o nome de Bento ou Custódio. Mas, nem todas se lembravam ou então não acreditavam na maldição e assim lá lhe davam outro nome. Então, em todas as noites de lua cheia, essa criança, ao chegar à idade adolescente sofria uma terrível transformação: crescia-lhe os dentes e as orelhas, as unhas transformavam-se em garras e o corpo ficava coberto de pêlo negro e hirsuto... os olhos chamejantes vasculhavam o escuro, saltava de casa para fora, procurava as vítimas indefesas, caçava-as e depois arrastava-as para o seu esconderijo: uma gruta, na margem do rio Couto, perto de uma velha torre onde as devorava sofregamente! Testemunho disso são os ossos que por ali se iam encontrando e as paredes enfarruscadas da cova onde, nas noites mais frias, o monstro acendia uma fogueira para se aquecer.

- Retirada de Geocaching

domingo, setembro 14, 2014

Histórias que por cá se contam-V: Lenda de Santo Estêvão

 Igreja Matriz de Fornelo do Monte, construída em 1724 sobre as ruínas da capela de Santo Estêvão.
"À semelhança de outras terras, Fornelo do Monte também tem a lenda do seu padroeiro.
Santo Estêvão, que foi Papa entre os anos 254 a 257, foi um dos mártires dos primeiros tempos do cristianismo. E um dia, há muitos séculos, o seu espírito passou pelas montanhas de Fornelo, e ao contemplar as belezas naturais que Deus ali criara, resolveu transformar uma das pedras ali existentes na sua própria IMAGEM, deixando-a encostada a um grande penedo, em sítio bem visível dos moradores. E o povo guardou-a com grande devoção, construindo-lhe então uma capela em sua honra.
Mas.., os de Ventosa, quando souberam do aparecimento da milagrosa Imagem, vieram buscá-la, e levaram-na para a Igreja Paroquial de Santa Maria de Ventosa a que Fornelo nesse tempo pertencia. E sempre que os de Ventosa o faziam, a Imagem voltava ao lugar onde tinha aparecido, até que ficou definitivamente em Fornelo, depositada na capela que lhe construíram.
E foi por cima das pedras desta antiga capela, que o povo no século XVIII erigiu a sua própria Igreja".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25

segunda-feira, setembro 01, 2014

Histórias que por cá se contam-IV: Lenda da caninha verde

 Caminho de acesso à Ribeira de Ribamá. Foto retirada daqui.

Nota prévia: A versão da lenda que apresentamos de seguida, da autoria de Gentil Marques, publicada em 1962,  foi por nós escolhida por ser a mais rica em pormenores. No entanto, alertamos desde já para duas referências que certamente vão parecer estranhas aos leitores mais familiarizados com a região. Desde logo, é duvidoso que na versão original da lenda fosse feita qualquer referência ao rio Vouga (quando muito a Ribamá), tendo em conta o seu percurso pela região. Depois, quando o autor integra Vouzela "na comarca de São Pedro do Sul", é preciso não esquecer que estamos perante um texto inicialmente publicado em 1962. Ora, Vouzela perdeu a comarca em 1927 e apenas a recuperou em 1973... até hoje.
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"Alguma vez, estimado leitor, já passou pela bonita e pitoresca freguesia de Fataunços, perto de Vouzela, na comarca de São Pedro do Sul, situada nas margens fascinantes do rio Vouga?... 
Pois em Fataunços há uma casa brasonada que tem a sua história lendária, recordada por uma escultura graciosa e simbólica que ainda hoje lá está.

Nos exórdios sáfaros da monarquia lusitana, vivia num palacete da freguesia de Fataunços um velho guerreiro ainda descendente do famoso chefe mouro Cid Alafum, que fora senhorio daquelas terras do couto de Alafões, havia já muitos séculos. Mas o descendente de Cid Adafum — El Haturra, era o seu nome — em nada se parecia com o terrível antepassado, que se mostrara sempre cruel e despótico.
Pelo contrário, El Haturra primava por ser bonacheirão e alegre, aceitando sem sombras de tristeza o domínio português.
Era velho e feio, sim. E usava permanentemente, à laia de bengala, uma velha cana ressequida pelo tempo e enegrecida pelo uso. Cana que vinha sendo transmitida na família, de geração em geração, sempre com palavras misteriosas murmuradas ao ouvido do novo possuidor...

Os seus amigos rodeavam-no e perseguiam-no com perguntas acerca de tão estranha caninha. Principalmente Álvaro, um moço português ao qual o velho mouro se afeiçoara sinceramente. E, um dia, Álvaro resolveu-se a falar com ele a sério, muito a sério, sobre o assunto que o intrigava.
— Escutai, El Haturra... Para vosso bem, aconselho-vos a abandonar essa vara negra e feia que utilizais como bordão.
E olhando-o bem de frente, acentuou:
— Para vosso bem, repito!
Mas o velho El Haturra limitou-se a encolher os ombros com ar displicente, e a dizer em tom firme:
— Não quero!
Álvaro voltou a olhá-lo, sem compreender.
— Como é isso possível, se sois um homem de bom raciocínio?... Pois não entendeis que tal vara serve de gáudio à rapaziada e é motivo de constante troça para vós?
Soberbamente, num jeito que contrastava com a sua aparente velhice, o mouro limitou-se a dizer, sem qualquer hesitação:
— Eu sei o que faço, amigo! Esta vara negra e seca vale muito... Muito mais do que podeis pensar... É o bastão derradeiro do comando que usou Alafum, na célebre retirada dos agarenos…
Um sorriso leve nasceu e morreu nos lábios de Álvaro.
— Ora, ninharias!... Velharias!...
Foi a vez de El Haturra o fitar bem no fundo dos olhos.
— Pois não acreditais que esta vara tem magia?
O ligeiro sorriso de Álvaro voltou a aparecer, para logo se transformar numa clamorosa gargalhada.
— Magia? Claro que não acredito que possa haver qualquer espécie de magia nessa vara grotesca!
E voltou a gargalhar, num provocante desafio.
O velho El Haturra primeiramente pareceu irritado. Os seus olhos semicerraram-se e parecia que ia explodir em cólera. Mas depois acalmou-se, e a sua voz tornou-se branda, confidencial:
— Álvaro, vós bem mereceis a minha confiança. Tendes mostrado muita vez que sois realmente meu amigo. Por isso mesmo vou confiar-vos um segredo que somente tem sido transmitido na nossa família, de pais para filhos ou de tios a sobrinhos...
Respirou fundo e fez um gesto de chamamento.
— Aproximai-vos mais, por favor. O que tenho a dizer-vos é segredo, absoluto segredo. Só pode ficar entre nós dois...
E espiando ainda em redor, atentamente, para se convencer de que estavam sozinhos, El Haturra fez a grande revelação.
— Ouvi bem, Álvaro... Quando esta vara, velha e ressequida pelo tempo, conseguir reverdecer é sinal sagrado do almejado encontro de dois primos descendentes de Cid Alafum… Compreendeis agora porque eu nunca deixo esta varinha, meu bom Álvaro?
Este mostrou-se um pouco aturdido. E no seu rosto espelhou-se a dúvida que se lhe formava no espírito.
El Haturra decidiu portanto ser mais explícito.
— Como sabeis, quando Cid Alafum perdeu a batalha, todos os seus tesouros ficaram escondidos por artes mágicas… E com eles as lindas sarracenas que se ouvem por aí, de noite, encantadas, carpindo as suas mágoas...
Um brilho mais vivo passou no seu olhar.
— Porém, no dia em que nestas terras se encontrarem, face a face, um descendente e uma descendente de Cid Alafum...
— Que acontecerá? — perguntou o moço Álvaro, sem poder conter a sua curiosidade.
El Haturra respondeu no mesmo tom calmo de sempre:
— Acontecerá que todo o antigo senhorio destas terras voltará a pertencer-nos... as belas mouras serão desencantadas... e a alegria tornará a substituir a tristeza nos seus corações!
Cordialmente, o moço Álvaro pousou a sua mão forte no ombro de El Haturra.
— E achais... que esse encontro virá a dar-se?
El Haturra elevou os olhos para o alto.
— Estou certo de que sim. Mas já não sei se será no meu tempo... sinto-me velho e cansado...
E baixando a voz, de novo em tom confidencial, ajuntou:
— Além disso, é preciso que os dois primos que se encontrem professem ambos a lei de Mafamede.
— Porquê a de Mafamede?
— Porque é a mais completa em sortilégios!
Álvaro nada mais disse. E, agora em silêncio, os dois homens continuaram o seu passeio.

E muitos outros passeios deram pelos campos fora, falando sobre o mesmo assunto, comentando-o cada um deles à sua maneira...
Até que, em certa linda tarde de Primavera, quando juntos deambulavam nas margens do rio Vouga, viram descer de um dos montes vizinhos uma princesa jovem e esbelta montando um ginete branco. A seu lado cavalgava uma formosíssima aia, montada num cavalo negro. 
O velho El Haturra e o seu companheiro quedaram-se encantados com tão magnífico quadro vivo, na moldura da natureza enebriante. E a princesa e a aia mais belas se mostravam à medida que se aproximavam.
Especialmente a aia apresentava um curioso e estranho contraste entre os seus olhos azuis e a sua trança muito negra...
De súbito, Álvaro agarrou com força o braço de El Haturra e apontou a vara que o outro segurava.
— Vede! Olhai! O vosso bordão está a reverdecer!
E a voz de El Haturra, como que remoçada, confirmou também:
— É verdade... Cumpre-se a profecia do grande Cid Alafum! Acreditais agora?
— Decerto que sim!
Mas já o próprio Álvaro se assombrava mais ainda diante da profunda e inesperada transformação de El Haturra. Desaparecera o velho por completo. O corpo endireitara-se, os ombros tinham alargado, as rugas do rosto sumiram-se, os olhos ganharam novo brilho, o cabelo voltou a ser negro e farto. El Haturra era agora um jovem como ele!
E Álvaro, intrigado, confuso, mal pôde articular uma exclamação de surpresa.
— É fantástico!... Estais jovem e belo!
El Haturra soltou uma risada fresca.
— Ainda bem que testemunhastes tudo quanto se passou, meu bom Álvaro. Assim não tendes mais que duvidar...
A voz de Álvaro balbuciou uma pergunta a medo, demorada e hesitante:
— Quer então dizer... que... nas antigas terras de Cid Alafum... se encontraram dois descendentes seus?...
— É isso mesmo, Álvaro!... No instante em que a olhei, senti logo dentro de mim que algo iria passar-se.
— Referis-vos à princesa, El Haturra?
O agora jovem mouro abanou a cabeça num decidido gesto de negação.
— Não, meu amigo! Falo-vos da aia. A bela aia de cabelos soltos e que montava o cavalo negro... Essa, sim!... Tenho a certeza que é essa que eu encontrei… Ainda oiço a música da sua presença dentro de mim!...
Desde esse dia, não mais El Haturra teve sossego. E o moço Álvaro também não, já que desejava acompanhá-lo na sua aventura. Seguindo no encalço das duas jovens, acabaram por saber que se dirigiam à corte do rei de Portugal. E eles lançaram-se também no mesmo caminho...
Conta a história velhinha que depressa o novo El Haturra conseguiu que a bela aia correspondesse ao seu amor. Tudo os atraía, como se esse encontro estivesse, de facto, marcado pelo Destino...
E, graças à influência de Álvaro e da sua família, fácil foi alcançar também a permissão do rei de Portugal para que o casamento se realizasse o mais rapidamente possível.
Simplesmente, o rei impôs uma condição. Condição essa que a jovem e bela aia se apressou a transmitir ao enamorado El Haturra, pedindo-lhe que viesse falar com ela.
Ele não se fez esperar.
— Aqui estou, minha bem-amada… Passa-se algo de grave?
— Um tanto, sim, meu senhor… Trata-se do nosso futuro.
Os nervos de El Haturra puseram-se em alerta. Desconfiados. Excitados.
— Mas que há? Dizei depressa! Bem sabeis como vos amo... El-rei voltou atrás com a sua palavra?
Ela sorriu, a acalmá-lo.
— Que ideia, meu senhor!... Bem sabeis que palavra de rei não volta atrás...
E inclinando-se para ele, confidenciou-lhe:
— Sim, el-rei consente na nossa união, e até me prometeu como presente de noivado o senhorio destas terras... Porém, impõe uma condição.
De novo, os nervos de El Haturra se alteraram.
— Uma condição? Qual?
O sorriso da bela aia tornou-se ainda mais doce.
— Apenas isto, meu bem: el-rei de Portugal quer que vos baptizeis! 
A reacção foi imediata e violenta.
— Quê? Baptizar-me, eu? Eu que sou um mouro… um descendente do grande Cid Alafum?...
Ela tentou envolvê-lo com a sua sedução.
— Por isso mesmo, meu senhor! El-rei deseja que sejais um dos nossos.
Ainda desta vez El Haturra se refugiou na sua obstinada recusa.
— El-rei pede-me o impossível!
Foi a vez dela se mostrar retraída. Magoada. Chorosa.
— Não aceitais?
Sem a olhar sequer, como que falando consigo próprio, o mouro repetiu monocordicamente.
— Não aceito... Não aceito...
E a donzela, aproximando-se mais, falou-lhe num misto de ternura amimada e de aflita emoção:
— Pensai bem, meu senhor!... Se consentirdes em ser baptizado, el-rei dar-vos-á todas as terras dos vossos antepassados e eu poderei ser a vossa esposa fiel e dedicada... Que mais quereis, meu senhor?
Ele segurou-lhe as mãos. Longamente. Apaixonadamente.
— Amo-vos tanto, senhora... E el-rei pede-me tanto também!
A jovem e bela aia arriscou então uma pergunta decisiva.
— Valerá mais a vossa fé do que o vosso amor?
E logo El Haturra respondeu, como ela esperava que ele respondesse:
— Não, mil vezes não!... Sem vós, eu não serei nada! Só desejo na vida possuir o vosso amor!
— Pois ele vos dará igualmente todas estas terras... Aceitais?
Sem olhar mais para o passado, voltado apenas para o futuro, El Haturra respondeu:
— Aceito!... Aceito, sim, meu amor!
Tudo se aprontou, portanto, para o casamento de El Haturra com jovem e bela aia. Porém, antes da cerimónia nupcial, conforme estava combinado, houve que proceder ao baptismo do noivo. E pela força das circunstâncias este viu-se obrigado a deixar a caninha verde fora da igreja...
Então aconteceu algo de extraordinário. Ao ser baptizado, El Haturra instantaneamente deixou de ser o moço forte e garboso em que se tornara, para se transformar de novo no velho alquebrado e feio que já fora. Conforme fora transmitido de geração em geração, a magia da caninha verde só se realizava se os dois parentes de Cid Alfum obedecessem à lei de Mafamede!
 
Segundo se diz, a noiva desmaiou de comoção. Quando recobrou os sentidos fugiu para o palácio — e não mais quis ouvir falar do seu estranho noivado.
Por seu turno, El Haturra desapareceu também para sempre. Não se voltou a falar dele. Mas a caninha verde foi arrecadada e guardada em sítio secreto, para nunca mais ser descoberta.
Contudo, reza a tradição popular, se na mesma hora e no mesmo local de Fataunços em que se deu o encontro entre os dois descendentes do grande Cid Alafum alguém gritar três vezes: «Viva o fidalgo da caninha verde!» (como o povo ficou a chamar-lhe), logo se escutam pelos montes vizinhos gargalhadas argentinas, seguidas do sussurrar plangente das águas do rio Vouga. Para o bom povo da região trata-se da alegria das mouras encantadas que se julgan libertadas do seu cativeiro, e logo compreendem que tudo continua na mesma..."
Fonte Biblio: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 143-148, in Arquivo Português de Lendas.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Histórias que por cá se contam-III: lenda da Santa Combinha

"A imagem de Santa Combinha apareceu no meio de um monte, num sítio designado por “ladeira da Santa”.
 Muito em segredo, algumas pessoas de Cambra ali iam e carregavam com a imagem para a Igreja. Depois de várias tentativas, foram baldados todos os esforços para levarem até ao fim os seus intentos.
 Mal a colocavam no altar, fugia novamente para o lugar onde aparecera. Por isso, foi necessário construir-lhe a capela naquele lugar, de modo a que ali ficasse para sempre.
 Naturalmente que o povo assim o quis e religiosamente lhe construiu a capela.
 É daquele mirante de paisagem extraordinária que SANTA COMBINHA, - protectora das ovelhas, - recebe no seu seio os suplicantes devotos. No dia 20 de Julho, fazem-lhe a festa, que é muito concorrida por forasteiros que vêm de todos os lados.
 É da tradição que nesse dia da festa, os lavradores com mais bem estar económico abrissem as portas das suas adegas a amigos e conhecidos, contribuindo assim para aumentar a alegria dos forasteiros".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25. Imagem retirada daqui.

terça-feira, agosto 12, 2014

Histórias que por cá se contam-II: Lendas populares de Figueiredo das Donas

Foto retirada daqui
"Segundo relatos populares, existia no antigo Paço de Figueiredo das Donas, um Pombal.
Junto a esse pombal, há um grande monte de pedras, onde se julga que no meio existe uma, com a forma de cabeça de cavalo que, segundo crença antiga, localizaria o tesouro dos Mouros.
Também é dito que o corpo do cavalo já foi visto, e os crentes em patranhas acreditam que o tesouro está sujeito a um encanto. Encanto esse, que fará desaparecer o tesouro no momento em que for descoberto: - visto já terem encontrado um cálice de ouro e que na altura em que iam para lhe pegar,... a terra engoliu-o!..."
Fonte Biblio: CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26
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"Uma outra lenda que o povo tem transmitido através de muitas gerações, é a seguinte:
Há uma pia de pedra que se encontra nas redondezas do paço e perto da estrada romana que então ali passava, pia essa que tem o nome de “bica do Fuzeiro”, tendo sido ali que começou a desenrolar-se o facto histórico, que deu o nome à freguesia. Foi neste lugar, que o cavaleiro Guesto Ansures encontrou o pai de Mécia, ficando a saber, a partir deste momento, onde se encontrava a sua amada".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26

sexta-feira, agosto 01, 2014

Histórias que por cá se contam

Deve ser por este chão de granito que nos queima no verão e gela no inverno. Ou, talvez, pela pequenez que sentimos perante a imensidão dos horizontes,  pelo contraste das cores e dos humores das águas nas diversas estações. Deve ser por tudo isso que a memória do que por cá houve nunca se ficou pelas meias tintas. Amor ou ódio, comédia ou tragédia, tudo ou nada. Sentimentos sinceros, mas extremos, que vão muito para além do entendimento da razão. É então que entra a lenda. E elas não faltam por estas terras de santos e pecadores, heróis e mártires. Os gregos usavam-nas para ensinar as virtudes aos seus jovens e adverti-los para as misérias. Desde sempre, passaram de geração em geração, numa tentativa de explicar o inexplicável. Seja como for, as lendas, esse misto de realidade e ficção, refletem o modo como um povo se relacionou com o seu meio, com os seus medos, com os seus desejos. Aí ficam as nossas. Heróis, moiras encantadas, tesouros escondidos, milagres e lobisomens, aí se apresentam.  Apenas acessíveis a corações puros e imaginações largas.

Na última tertúlia organizada pela Associação D. Duarte de Almeida e pelo Agrupamento de Escolas de Vouzela, foi salientada a importância de se fazer uma recolha das lendas locais, usando-as para melhor dar a conhecer os diversos cantos do concelho. Com as oito publicações que se seguem, iniciamos o nosso modesto contributo. Já de seguida, publicamos a conhecida lenda do Tributo das Donzelas, associada a Figueiredo das Donas e, posteriormente, iremos publicar a referência a duas outras dessa localidade (Lendas Populares de Figueiredo das Donas). Seguem-se a lenda da Santa Combinha, a da Caninha Verde, a de Santo Estêvão, a da Cova do Lobisomem, a da aparição de Nossa Senhora dos Milagres e, por último, Queiran (escrita assim mesmo e que se refere a Igarei). Em cada publicação serão indicadas as fontes usadas. No entanto, deixamos já duas referências: a excelente coletânea disponibilizada pelo Arquivo Português de Lendas e o trabalho de recolha realizado, há uns anos, pelo Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela e pela ADRL.

Tributo das Donzelas


"Contam todos os nossos historiadores que o que deu a esta freguezia o sobrenome (das Donas) foi o facto seguinte.
Mauregato, filho de D. Affonso, o catholico, e d’uma escrava, pretendeu usurpar (como usurpou) o throno a seu sobrinho, D. Afonso, filho de D. Fruela, e para isto pediu e obteve o auxilio das tropas do kalifa de Córdova, Abd-el-Raman, em 783, mediante o vergonhoso tributo de 100 donzellas lusitanas, para os harens mouriscos.
Em 784, Orélia e mais 5 companheiras, d’estes sitios, foram escolhidas pelos caçadores do usurpador, para fazerem parte do tributo d’esse anno. Hiam ellas passando por Figueiredo, acompanhadas e guardadas por 20 mouros e 40 castelhanos, todos de cavallaria, álem dos guardas de pé.
Um nobre cavalleiro lusitano, de sangue gôdo, natural de Lafões, chamado D. Guesto Ansur, era namorado de Orelia, que lhe mandou dizer a desgraça que lhe acontecera e pedir-lhe que a salvasse.
D. Guesto junta á pressa uns trinta homens de Lafões e com elles cahe inopinadamente sobre a escolta que conduzia as donzellas a Merida, quando ella passava a Figueiredo. O furor de D. Guesto e dos seus era tal, que os mouros e castelhanos morreram quasi todos no combate. As damas foram libertadas, e D. Guesto as levou para o seu castello e alli casou com Orelia.
(Ha tambem quem diga que este facto não occorreu aqui, mas em Figueiró dos Vinhos. Estes, quanto a mim, fundam-se sómente nos primeiros dois versos da poesia de D. Guesto, que em muitos escripmres veem assim – «No figueyrol de figueyredo – A no figueyrol entrei.»)
No maior furor da peleja, tinha quebrado a espada D. Guesto; mas este estroncando um grosso ramo d’uma figueira, continuou com elle a esmagar os inimigos.
Por esta façanha, D. Bermudo 1.º deu, em 789,  a D. Guesto Ansur o appellido de Fígueiredo (outros ditem, de Figueirôa) e por armas um ramo de figueira.
Depois, na reforma dos brazões, em logar do ramo, foram 5 folhas de figueira, que ainda hoje são as armas dos Figueirôas.
O mesmo rei determinou que ao logar da peleja te chamasse d’ahi em diante Fígueiredo das Donas.
Dizem outros escriptores que estes appelidos e estas armas, foram dadas por D. Ramiro 1.º em 848, mas é mais provavel que fosse D. Bermudo 1.º porque é de suppor que D. Ansur já não existisse 64 annos depois d’este facto, e mesmo porque o rei não demoraria tanto tempo um premio que nada lhe custava.
Os gallegos dizem que um facto semelhante aconteceu junto a Mondonhêdo, por esse tempo, com um cavalleiro da Galliza, que tambem com uma pernada de figueira matou os guardas que escoltavam algumas donzellas d’aquelle reino, destinadas ao infame tributo, resgatando-as. Outros escriptores gallegos e castelhanos dizem que o tal cavalleiro que obrou esta façanha tinha por appellido Figueirôa já antes a d’ella, e que é por esse motivo e não por ter combatido armado do ramo de figueira, que aos seus descendentes se conserva o appellido de Figueirôas.
O que é certissimo é que todos os escriptores de boa nota contam o facto e a origem do appellido e das armas, como primeiro relatei – que em Hespanha ha tambem o appellido de Figueirôa, – e que, nem só em Figueiredo das Donas e Mondonhêdo, mas em varias terras das Hespanhas, o povo por varias vezes sahiu ás escoltas que levavam as donzellas do tributo, e as libertaram, com mais ou menos derramamento de sangue.
Este infamante tributo só durou 6 annos, porque, tendo morrido o usurpador Mauregato, em 789, e subindo ao throno D. Bermudo I, só n’esse anno pagou o tributo, porque atacando as tropas do kalifa Abd-el-Raman, junto de Aledo, as derrotou, e livrou os christãos de tão humilhante tributo".
Fonte Biblio: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo III, pp. 193-194, in Arquivo Português de Lendas.
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Relacionada com esta lenda, existe a "canção do figueiral", datada do século XIII e cuja letra apresentamos de seguida (a adaptação musical feita por Luís Cília e incluída no album de 1974, "O Guerrilheiro", pode ser ouvida aqui):

No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei,
Seis niñas encontrara
Seis niñas encontrei.
Para ellas andara,
Para ellas andei,
Lhorando las achara
Lhorando las achei
Logo las pescudara
Logo las pescudei.
Quem las maltratara
Y a tão mala ley?
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Uma repricara:
"Infançom nom sey,
Mal houvesse a terra
Que teme o mal rey
S'eu las armas usara
Y a mim fee nom sey
Se hombre a mim levara
De tão mala ley.
A Deus vos vayades,
Garçom, cá nom sey
Se onde me falades
Mais vos falarey;"
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Eu lhe repricara:
"A mim fee nom irey
Cá nos olhos dessa cara
Caro los comprarey;
A las longas terras
Entraz vós me irey,
Las compridas vias
Eu las andarey,
Lingoa de aravias
Eu las falarey,
Mouros se me visse
Eu los matarey".
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Mouro que los goarda
Cerca lo achey
Mal la ameaçara
Eu mal me anogey,
Trocom desgalhara
Todolos machuquey,
Las niñas furtara,
Las niñas furtey.
Lá que a mim falara
N'alma la chantey.
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

segunda-feira, julho 21, 2014

Indicadores de gestão de municípios, áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais


Estão no Portal de Transparência Municipal e podem ter algum interesse, sobretudo através da comparação de dados entre municípios. Aqui fica para consulta.

quinta-feira, julho 17, 2014

Chegou a hora do Vouga


Foto de João Cosme

É urgente que se construa (de facto) uma nova ETAR em Vouzela e S.Pedro do Sul e que comecem a ser punidos verdadeiramente os responsáveis pela poluição do rio Vouga. Já que nele não me posso banhar pela falta de civismo... 
Gosto
- Francisca Ferreira, Facebook.

Há quem diga que não é bem assim, que as águas estão de boa saúde, mas logo vemos outros a torcer o nariz. A verdade é que o comentário da Francisca traduz os sentimentos dominantes: de desconfiança e de esperança. Desconfiança no que há, por muitos anos de desleixo e falta de informação. Esperança, pelo arranque duma obra que há muito se sabia ser necessária, mas que ultrapassava as fronteiras do nosso desejo. Os atuais executivos camarários de Vouzela e São Pedro do Sul conseguiram dar corpo ao sonho. Têm, por isso, a nossa gratidão.

Os rios sempre foram um dos principais recursos naturais da região de Lafões. Durante séculos, numa perspetiva utilitária, diretamente relacionados com as diversas atividades de que dependia a sobrevivência. Mais tarde, acrescentando-lhe uma componente lúdica que chegou a ser cartaz turístico. Assim foi, logo nos finais dos anos vinte, quando a publicação promocional editada pela Comissão de Iniciativa apresentava a "frescura das águas que banham (...) as várzeas verdejantes" como uma das atrações para quem, "foragido dos grandes aglomerados urbanos, procura na existência pacífica e simples dos campos o retempero da saúde física e moral". Assim foi muitas outras vezes, como o comprovam os diversos artigos publicados no Notícias de Vouzela, anos a fio, propondo maior dinamização e divulgação das zonas ribeirinhas. E até "Os Vouzelenses", em 1958, usavam o Vouga, "essa bela piscina natural"(1), como um dos aliciantes para convencer a juventude a descer às Chãs para participar nos treinos .

Mais tarde, mesmo quando os estragos começavam já a ser visíveis, a Foz, Arrabidazinha, Vau, Termas, Poço Azul e tantos outros, eram locais obrigatórios para preencher os quentes dias de verão.  Nem as rãs tinham descanso com a perseguição da pequenada, no Zela, ao fundo da Rua da Ponte. Por essa altura sentia-se, já, a quebra da procura. O processo de massificação do Algarve estava no auge e as praias dominavam os roteiros de férias dos portugueses. Mesmo assim, os que por aqui passaram nas "férias grandes" da década de 70, ainda conheceram umas Termas de São Pedro do Sul que não se limitavam aos aquistas e quatro unidades hoteleiras em Vouzela bem preenchidas de gente: Hotel Mira Vouga, Pensão Jardim, Pensão Marques e Pensão Serrano. Não havia piscinas, a não ser as naturais e as estadias raramente eram inferiores a uma semana.

Depois... bem, depois Lipovetsky que nos desculpe, mas, por cá, a "era do vazio" também se sentiu na paisagem. E foi isso que a geração da Francisca Ferreira conheceu. As águas continuaram a correr (nem todas...), mas agora acompanhadas pela  consciência dos estragos e pelos receios. A construção de uma ETAR de duvidosos resultados, só agravou o problema. Com as piscinas públicas tentaram-se  alternativas. Insuficientes- o fascínio da região está na possibilidade do seu usufruto pleno, sem portões nem horários.

O Vouga corre lá em baixo com a disponibilidade de sempre, alheio a equívocos e maus tratos. Parece ter chegado a hora de retribuir,  reconhecendo-lhe o estatuto de excelência que sempre teve. Que esse momento seja assinalado com pompa e circunstância pelo consciência que revela de que só há futuro para esta região se alicerçado na proteção dos seus recursos naturais.
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(1)- "Os Vouzelenses" 80 anos- Imagens com histórias, 2010, pág. 60.


sábado, junho 14, 2014

Poupanças que nos vão custar muito caro- a propósito do encerramento das escolas


Vem sempre embrulhado em comovedores discursos sobre o insucesso escolar e crianças que não têm colegas para brincar, mas o objetivo é só um: reduzir custos. Falamos do folhetim do encerramento das escolas que no próximo ano vai conhecer novos episódios. Só na região de Lafões prevêem-se 21 (veja aqui a lista, retirada do maisnorte.pt). A moral desta história é sempre a mesma: no interior, os cidadãos são de segunda.

A argumentação sobre a reorganização da rede escolar, baseia-se em várias armadilhas e truques baixos, tentando que  se confunda a árvore com a floresta, ou seja, que nunca se analise a totalidade do problema. Vamos por partes.

As crianças que não há e o fado do 21

É verdade que nascem menos crianças em Portugal e que isso tem que se refletir nas escolas. Em cerca de trinta anos perdemos um milhão, facto que serve para múltiplos lamentos, mas nenhum estudo digno desse nome sobre as diversas causas. O que ninguém diz é que já aquando da reforma Roberto Carneiro (finais dos anos 80), os estudos coordenados pelo Prof. Fraústo da Silva alertavam para uma previsível redução de 500 mil alunos até ao ano 2000. Houve, então, tempo mais do que suficiente para se repensar tudo: escolas, curricula, acesso à formação inicial de professores. Ora, a reorganização da rede de escolas só começou em 2005 (encerramento de estabelecimentos com menos de 10 alunos). Que é que se fez entre esses dois momentos? No fundamental, nada!

Mas, a mentira mais grave está no simplismo dos argumentos apresentados, como essa misteriosa inevitabilidade de encerrar escolas com menos de 21 alunos. Já aqui tínhamos falado nisso, estava Isabel Alçada à frente da Educação no último governo de José Sócrates. Na verdade, nunca foi explicado esse número mágico de 21, a partir do qual é suposto estarem reunidas as melhores condições sociais e pedagógicas, mas que remete para o inferno todos os anteriores. Pior: nunca se falou nas consequências dessa medida em regiões envelhecidas, com localidades onde ter duas dezenas de crianças a correr pelas ruas é não só raro, mas, nos tempos que correm,  um dos poucos sinais de esperança que lhes resta. E é aqui que entramos na mistificação pura e dura.

O barato que sai caro

A Escola presta e é um serviço social que se reflete no funcionamento global da sociedade, mas que também sente no seu interior os "sinais" que esta lhe envia. Não é, pois, possível, pensar a Educação sem ter em conta o contexto em que vai ser aplicada, estejamos nós a falar do programa desta ou daquela disciplina, ou da localização de uma determinada escola. Isto, porque não é a mesma coisa decidir sobre o encerramento de um estabelecimento de ensino no centro de Lisboa ou em Covas do Monte, do mesmo modo que não é possível exigir igual desempenho, numa mesma área do conhecimento, a crianças desses dois diferentes meios. Não se trata de dizer que uma é melhor do que a outra. Trata-se de reconhecer que dispõem de recursos diferentes, logo, exigem soluções diferentes.

Se nos limitarmos à aparência das coisas, até podemos dizer que o ministério da Educação quer dar a todas as crianças as mesmas condições que têm as do centro de Lisboa (ou do Porto, ou de Coimbra, ou...). Não é verdade. O encerramento das escolas em localidades do interior, está a ser feito numa altura em que aí se acaba com muitos outros serviços, com o argumento de que é necessário racionalizar a sua oferta, devido ao despovoamento. Ora, se o encerramento de uma escola no centro de Lisboa pode provocar o incómodo de obrigar a mudar de linha de autocarro ou de metro, no interior transmite uma mensagem clara, se não para as crianças, de certeza que para os seus pais: "ponham-se a andar daqui para fora porque não têm futuro". Ou seja, a medida tende a agravar o problema que a provocou. Mas não se fica por aqui. Se a opção for emigrar, por muito bem sucedida que seja do ponto de vista económico, isso representará, sempre, a rutura com a rede de suporte daquela família, obrigada a recorrer a serviços pagos para conseguir o apoio que, antes, qualquer familiar ou vizinho lhe dava. Transfere-se, assim, para o cidadão, o custo da resolução de um problema que não provocou e que competia aos governos ter resolvido.

É tudo? Não, ainda há mais. Para as localidades afetadas é um drama. Por mais projetos que tenham para atrair investimento, apoiar atividades económicas e, desse modo,  aumentar a oferta de emprego, são obrigadas a entrar num confronto desigual, contra um adversário que dificulta a circulação de pessoas e viaturas com as portagens, que diminui a capacidade de resposta dos serviços encerrando-os, que provoca a saída sobretudo dos mais jovens por falta de emprego e de perspetivas de futuro. Esse adversário chama-se governo central. Um governo que não percebe que, para conseguir algumas poupanças imediatas, hipoteca muitas receitas futuras, desperdiçando o potencial produtivo de grande parte do país.

Que ideias há para o território?

Por tudo isto, não é honesto falar em encerramento de escolas ou de quaisquer outros serviços sem  falar disto tudo e sem que nos apresentem opções claras e globais para todo o território nacional. O que queremos saber é se o despovoamento do interior é para continuar ou contrariar. É muito diferente considerarmos uma situação inevitável e irmo-nos adaptando a ela, assim como quem vai fechando as divisões de uma casa que ameaça ruína, ou, pelo contrário, saber que "obras" urge fazer e quando. Aceitar responder aos problemas, sem respostas claras para estas dúvidas, é permitir que a vida das populações do interior seja um joguete ao sabor de opções orçamentais de curto prazo.

Começaram por fechar escolas com menos de 10 alunos, passaram, depois, para os 21 e, se não pusermos um ponto de ordem nesta coisa, arriscamo-nos a que a parada vá sempre subindo. Ataque á escola pública? É muito mais do que isso. É um sinal de que se quer desistir de grande parte do país.
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Nota final: Depois de vários disparates, o ministério da Educação percebeu que é muito diferente medir distâncias entre localidades com régua e esquadro e percorrê-las em estradas de serra cobertas de gelo no inverno. Fala, agora, em tempo de viagem e transfere para as autarquias locais a decisão final sobre o encerramento das escolas. Mas, cuidado: convém saber se as verbas que venham a ser transferidas vão respeitar este acréscimo de sensibilidade.

quarta-feira, junho 11, 2014

Sabem o que vos digo? Passem férias no campo!

 
Como se não bastasse a falta de areia e a queda de arribas, agora permite-se a privatização de espaço público. Não acredita? É ler aqui.

quarta-feira, maio 28, 2014

Tertúlia de maio: o associativismo


Já faz parte das agendas: na última sexta-feira de cada mês, há tertúlia em Vouzela. Desta vez, é sobre associativismo, hábito de que os mais velhos tinham grande experiência, mas que parece ter perdido força nas últimas décadas.

Na verdade, a esmagadora maioria das coletividades do concelho, nasceram da livre iniciativa de uns quantos, num tempo em que nada havia a esperar dos poderes instituídos a não ser dificuldades. Talvez por isso o associativismo despertasse tantos entusiasmos: contornava a falta de liberdade de organização e de reunião e, muitas vezes, era um pretexto para juntar pessoas e lançar debates impossíveis de fazer às claras. O país está cheio histórias de cineclubes, grupos teatrais, associações culturais de âmbito local, encerradas à força pela polícia e com os seus dirigentes perseguidos e, muitas vezes, presos. Não eram muitos, mas eram bons.

Com a instauração do regime democrático, viveu-se um "boom" de participação cívica em Portugal. No entanto,  ela foi maioritariamente dirigida para os partidos políticos, sindicatos e outras associações profissionais que impuseram uma orientação nacional às suas atividades, secundarizando as particularidades locais. A chegada dos fundos europeus e o modo como foram geridos, institucionalizou o poder de iniciativa, dispensando a participação dos cidadãos progressivamente limitados à condição de consumidores e de eleitores (1).  Se a tudo isto juntarmos o desemprego e o descrédito de alguns dos pilares do regime, facilmente encontramos os ingredientes dum "caldo" explosivo: em Portugal há pouca participação política (ver aqui um estudo da OCDE), baixos índices de sindicalização e, apesar de terem proliferado associações de toda a espécie e com os mais variados objetivos, a intervenção ativa dos portugueses é muito pequena. A significativa adesão às redes sociais e, sobretudo, o que podemos chamar de "militância de Facebook", não compensa o estado das coisas, mais parecendo uma válvula a que se limita a libertação da pressão acumulada.

A nível local tudo isto foi sentido, mas o "caldo" teve dois ingredientes bastante mais corrosivos: o despovoamento e o envelhecimento, ainda por cima, numa altura em que se exigia poder reivindicativo e capacidade de iniciativa para enfrentar os vários ataques que todo o interior tem sofrido.  Que fazer? É esse debate que se propõe em mais uma iniciativa da Associação D. Duarte de Almeida e do Agrupamento de Escolas de Vouzela, ele próprio um exemplo do caminho a seguir: definição de objetivos comuns e respeito por todas as opiniões. Lá estaremos.
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(1)- Mesmo assim, a sua opinião foi dispensada em algumas decisões importantes, como as que tiveram que ver com as opções europeias, o que agravou o sentimento crescente de impossibilidade de influenciar os centros da governação.

quarta-feira, maio 07, 2014

Ideias a propósito de um comboio em miniatura


É o Liliputbahn, um comboio em miniatura que circula  no Prater, uma enorme área de lazer no centro da cidade de Viena, transformada no primeiro parque de diversões do mundo quando o imperador José II, em meados do século XVIII, passou  para o domínio público o que era uma reserva de caça da aristocracia local. A dimensão da sua área verde é impressionante, ainda por cima numa cidade onde elas abundam. Amplos espaços relvados e densamente arborizados fazem do local um destino de eleição para quem queira fazer algum exercício físico, ou simplesmente passear ou preguiçar no centro de uma cidade com 1 milhão e 600 mil habitantes.

Mas, o que por agora nos interessa é o comboio, com as suas locomotivas a vapor e a disel que circula numa linha de bitola estreita ao longo de cerca de quatro quilómetros. É uma atração turística, claro está, mas também um meio de transporte que liga a vários pontos de interesse e a estações de metro, de autocarro, de comboio...

Lembramo-nos dele quando passeávamos entre Vouzela e as Termas pela antiga linha do caminho de ferro: porque não, fazer ali circular o nosso "comboio turístico"? Sim, somos dos que ainda não perderam a esperança de voltar a ver por ali passar um comboio a sério. Mas, para já, aquele "fopinhas" de faz de conta teria a vantagem de evitar o trânsito automóvel, permitindo desfrutar um percurso interessante e oferecendo mais uma alternativa de acesso às duas localidades. Além do mais, não parece difícil compatibilizá-lo com a existência de circuitos pedonais ou para bicicletas. Fica a ideia que veio do centro da Europa, assumindo que aquela história da Câmara de São Pedro do Sul não permitir o acesso do comboio turístico às Termas, não passa de uma piada de mau gosto.

segunda-feira, abril 07, 2014

My name is John e vivo em Real das Donas

Vouzela, Quinta de Cima, Caritel.

Foi durante a tertúlia sobre turismo, organizada pela Associação D. Duarte de Almeida e pelo Agrupamento de Escolas de Vouzela. Cenário: a Casa Museu, ali na Praça Morais Carvalho, passava das nove da noite. António Liz Dias tinha acabado de iniciar a sessão com um conjunto de ideias, daquelas que mostram como é fácil abrir portas que pensamos irremediavelmente fechadas . Passou a palavra. No meio da sala levantou-se uma figura imponente, cabelo branco, que se apresentou com sotaque acentuado: "My name is John e vivo em Real das Donas". E em tudo o que disse, tudo ficou dito. Um verdadeiro programa.

Mr. John, cidadão britânico, escolheu o concelho de Vouzela para viver. Porquê? Foi isso mesmo que ali foi explicar, alargando o âmbito: que é que pode levar alguém, depois de uma vida de trabalho,  a sair de Inglaterra para vir residir neste concelho? Gente com algum dinheiro, a querer saborear até à última gota uma energia que ainda tem e que a rotina do trabalho limitou, mas com a segurança necessária para quem sabe aproximarem-se aqueles anos em que a jovialidade do espírito pode não encontrar resposta à altura nas limitações do corpo.

E Mr. John explicou. Falou do poder de compra, da facilidade de acesso, da existência de serviços de saúde, da simpatia das gentes e, apesar de tudo, do clima. Também elogiou a gastronomia, embora inglês prefira peixe, o que remete para segundo plano este trunfo que gostamos de usar na conquista dos corações dos visitantes. Mas, logo de seguida, avançou com a palavra-chave: "pitoresco". Isso mesmo. O que o turista britânico aqui vem procurar, é precisamente o mesmo que sempre foi elogiado por quem nos visita, descrito desde Ramalho Ortigão a Ferreira de Castro e que, por vezes, parece que só os locais desvalorizam: a paisagem rural, a ligação perfeita entre homem e natureza, com toda a riqueza de cores, de sons, de silêncios. Procuram a variedade que ainda existe na nossa floresta (cuidado com o eucalipto e a monocultura!), o verde vivo das videiras, os socalcos, os muros de pedra, as habitações tradicionais, "o marulho doce das águas", a imponência dos horizontes marcados pelas serras. Procuram, sobretudo, o usufruto de tudo isto. Querem mexer na terra, refrescar-se nas águas, passear pela calma dos bosques, sentir a lentidão do tempo, ouvir histórias antigas, conviver com as gentes. Numa palavra, querem sentir-se em casa.

Quando, em 1978, foi lançada a experiência do Turismo em Espaço Rural (TER), Vouzela foi um dos polos escolhidos, conjuntamente com Ponte de Lima, Castelo de Vide e Vila Viçosa. Não foi por acaso. Considerou-se existir, aqui, o "cenário" desejável à experiência. Ainda existe. Mas... precisa de cuidados. Vouzela tem um número muito baixo de pessoas empregadas no setor primário, tem excessivas "feridas de desleixo" na sua paisagem, tem preocupantes sinais de que, alguns, gostariam que ela fosse outra coisa qualquer. Mas não é "outra coisa qualquer" que procuram os que nos visitam. É tão somente o que somos e temos, aquilo com que a "Mãe Natureza" nos brindou e de que os nossos antepassados cuidaram. Nada de novo. Recordem-se os projetos turísticos que foram idealizados nos idos de 70, de 60, de 50... Recuem até aos finais dos anos 20, quando Vouzela pediu a certificação com "estância de turismo" e vejam o que era privilegiado na divulgação feita pela Comissão de Iniciativa. Sim, sempre por aqui houve quem soubesse que trunfos temos para jogar. Com todas as deficiências e hesitações, hoje temos mais: temos a população mais escolarizada que alguma vez tivemos, grande ajuda para que o "estrangeiro" se sinta em casa. Assim lhe saibam dar uso.

Naquela noite de 28 de março muito mais houve para contar e registar: o saber de experiência feito da  anfitriã, Celeste Carvalho; a confiança no futuro de vários investidores; a tenacidade e o excelente trabalho do único produtor de vinho de Lafões, António Costa; a vontade da nova equipa de vereadores em dialogar e mostrar serviço. De tudo isso deu conta o "Notícias de Vouzela". Pela nossa parte, quisemos dar todo o protagonismo a Mr. John. O homem que nos veio mostrar, com clareza, aquilo que sempre esteve à frente dos nossos olhos e que, talvez por isso, nem sempre temos facilidade em ver. Thank you, Mr. John.

terça-feira, abril 01, 2014

Lafões: unir sem fundir


Sabemos que Lafões já foi apenas um concelho, fará sentido voltar a sê-lo? A meu ver, talvez não. Mas de algo não haverá dúvidas: é que, definitivamente, Lafões deverá tornar-se numa região unida através de objetivos comuns e complementares. Lafões, como região, precisa de renascer, condição necessária para revitalizar marcas comuns, como a vitela e o vinho, que estão a definhar. Há um declínio de uma região formada por três concelhos que estão (e desde que me lembro, sempre estiveram) de costas voltadas uns para os outros. 

As pequenas "guerrinhas" têm de ser, de uma vez por todas, postas de parte. A região de Lafões precisa de se posicionar e ganhar importância no país, na europa, no mundo! As exigências atuais assim o ditam. Para tal é premente adotarem-se políticas comuns, de intermunicipalidade, de distribuição estratégica de infra-estruturas e serviços pelos três municípios,  até- porque não?- um programa de ordenamento e planeamento do território comum. Os três concelhos são muito semelhantes em variados aspetos. A paisagem é o que os une. Vamos de Oliveira para São Pedro, passando por Vouzela, e há uma continuidade harmoniosa da paisagem: os núcleos urbanos, redes de comunicação, usos do solo e até ao carácter biofísico e orográfico de todo o território partilham do mesmo espaço sem chocar uns com os outros. Há uma união na paisagem que precisa de ser reforçada com uma união mais pragmática e programática.
Já Alexandre Cancela d’Abreu e outros autores, numa obra em que definem as Unidades de Paisagem de Portugal Continental, definiu a região de Lafões como um território muito marcado e definido, de características muitos semelhantes entre os três concelhos que o compoem, e com grande valor paisagístico - devido à, ainda, pouca destruição da paisagem.

No entanto, penso que os municípios devem manter, cada um,  a sua independência. É certo que Lafões já foi concelho. Mas não fará sentido recuarmos no tempo. Mesmo que exista uma estratégia comum é necessário cada concelho, individualmente, fixar as suas metas, garantido uma posição marcada face aos vizinhos.

Já diz a canção, "Lafões é um Jardim....".  E não pode estar cada um, solitariamente, a cuidar do seu próprio canteiro. Há que construir um jardim comum! 

quinta-feira, março 20, 2014

E no entanto, a primavera chegou

Coro da primavera, José Afonso

terça-feira, março 18, 2014

Turismo: que fazer?

Já faz parte do calendário: na última sexta feira de cada mês, a Associação D. Duarte de Almeida e o Agrupamento de Escolas de Vouzela propoem um tema de reflexão aos vouzelenses. O próximo é sobre o turismo, esse objetivo que sempre tivemos no horizonte dos nossos desejos, mas que, por um motivo ou por outro, nunca alcançamos satisfatoriamente. Que fazer? É isso mesmo que nos propomos debater no próximo dia 28 de março, pelas 20.30 horas, no ambiente acolhedor (e inspirador) da Casa Museu. A não perder.