quinta-feira, dezembro 12, 2013

Os leitores lançam as mãos à massa-XI

Na caixa de comentários dos "Desabafos" que o Pedro aqui publicou, apareceu-nos o António Damásio que se apresentou: "Olá amigos de Vouzela. Em 1976/77 fui professor na escola Secundária de S. Pedro do Sul que ficava perto da estação de comboios. A linha do Vouga é uma das mais belas e S.Pedro e Vouzela com as suas belas pontes de comboio a atravessar o rio deixam-me saudades. Tenho algumas fotos de Vouzela das pontes e da vossa banda filarmónica a tocar numa procissão que tirei nessa época e que gostava de partilhar com vocês, digam-me como posso enviá-las". Claro que dissemos e elas aí ficam como registo de um tempo, da memória do António Damásio e de pessoas que bem conhecemos, algumas já nesse espaço onde a saudade as torna eternas.

Vouzela- 1977



domingo, dezembro 08, 2013

Desabafos (e mais qualquer coisa)

Oxalá o comboio chegue! E tomara que Vouzela o apanhe!

Vejo Vouzela cada vez mais triste e abandonada... Olho à volta e o que vislumbro não me deixa otimista... Parece que se espera algo que nunca acontece! O nevoeiro, característico do vale do zela, já cria o cenário, só falta mesmo Dom Sebastião surgir por entre a névoa!...

Na vila há um movimento que se concentra em Julho e principalmente Agosto - qual aldeia de emigrantes, que triplica a população na época estival, passa o Verão passa a animação. Por aqui, os fins de semana de outono e de inverno parecem todos iguais, o mesmo estado sonolento, de uma vila que só dá sinais de alguma vida entre segunda e sexta feira, entre as nove da manhã e as seis, sete da tarde... O fim de semana quer-se de descanso. Assim seja, a vila descansa. E o estado de letargia continua, perpetua-se. Não é preciso mais?! Claro que é! Há um comboio para apanhar! Um comboio que nos leve a um futuro que rompa com a apatia e monotonia generalizadas. Um comboio cheio de ideias fora da caixa e projetos inovadores, criativos, que consigam envolver uma juventude que pertence a Vouzela, é vouzelense, mas que precisa de impulsos, de saber que há uma estrutura que sabe que eles "andam por aí" e que podem contar com o seu apoio.

Vouzela perdeu o comboio e tarda em o querer apanhar...

Ouço em vilas vizinhas, "Vouzela parou no tempo", "Vouzela a terra dos velhos", "Cada vez que vou a Vouzela não vejo ninguém na rua"... A mim custa-me ouvir isto, mas na verdade sei que é muito assim, apesar de partir na defesa da minha linda vila. Mas beleza não é tudo, e nem essa beleza é aproveitada. Se temos uma paisagem bela, uma vila agradável porque não promovê-la?! Porque não fazer uma campanha promocional com "prata da casa"? Há entre nós pessoas capazes de desenvolver ótimas campanhas através de vídeos e fotografia. Havendo divulgação, ficam a faltar iniciativas. Que tal começar por criar um calendário anual de atividades? Porque não ter mais feiras? Mas feiras que queiram ir mais além, capazes de captar visitantes. Vouzela precisa de se dar a conhecer!

Estamos em Dezembro, e como em todo o inverno, fica a faltar um evento com alguma dimensão para a vila. Uma feira de doçaria e gastronomia regional não fará todo o sentido ser no inverno, anterior ou durante a época natalícia? Haverá altura mais propícia para tal?! E perguntam-me, mas onde fazer tal feira? A mim surge-me logo a ideia, porque não no ginásio da escola preparatória? É um local central e aí haveria uma mostra com "stands". A esta feira associava-se uma outra iniciativa que envolvesse os restaurantes e pastelarias , através de um roteiro pela vila. Sendo esta feira durante um fim-de-semana, os restaurantes teriam de ser "obrigados" a abrir ao domingo. E talvez com este impulso pudessem continuar a abrir ao domingo (!). Mas claro que para o sucesso deste tipo de fim de semana gastronómico seria necessário apostar numa divulgação certeira que não podia nunca restringir-se à região.

Isto são ideias. Há muitas outras. E muitas, ou mesmo todas, são aquelas que se desperdiçam. Quem perde é Vouzela, somos nós.

Não podemos deixar o comboio passar... sem nunca o apanhar.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Se7e


A imagem de referência deste espaço (foto de Margarida Maia). 

Sete é um número levado da breca. Tantos são os pecados capitais e foram as pragas do Egito. Sete são os Selos do Livro do Apocalipse, os palmos de terra com que se cobre ruim defunto, o número de chaves que encerra fechadura segura. Mas também são sete as cores do arco-íris, as notas musicais, as belas artes, os dias da criação e até as letras com que se escreve Vouzela.

Tudo isto para recordarmos que o "Pastel de Vouzela" completa, hoje, sete anos de existência. Foi no dia 6 de dezembro de 2006 que o nosso Manel Vaca abriu as portas desta casa a todos quantos quisessem refletir sobre o concelho e a região de Lafões. Para imagem de referência escolhemos os nossos pasteis, produto de excelência que exige dentada firme, mas que se caracteriza pela elegância e leveza do folhado. Esses foram os nossos princípios.

Ao longo destes sete anos, não enfrentamos pragas de gafanhotos, nem os Cavaleiros do Apocalipse, mas vimos crescer o desânimo dum concelho envelhecido, com um despovoamento considerável, ameaçado por opções centralistas e de curto prazo em todos os caminhos que tenta para contrariar a morte. Procuramos participar nessa caminhada. Em mais de novecentas publicações, apresentamos propostas, fizemos chamadas de atenção, procuramos as lições do passado. Com 295 imagens publicadas, tentamos que não se esquecesse o que de melhor temos e que de âncora tem que servir para projetos futuros. Aqui chegados, temos a sensação de muito estar dito, mas de quase tudo estar por fazer. Continuemos, pois, porque, quanto a pasteis, só há caixas de meia e de dúzia. A primeira já foi. Será um privilégio partilhar convosco as seguintes nas reflexões e, sobretudo, nas ações. Porque somos dos que acreditam que ainda temos um comboio para apanhar.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Mais uma vez sobre a o Decreto-Lei 96/2013: Facilita-se a plantação de eucaliptos, dificulta-se a plantação de espécies florestais autóctones

"Mas a "Lei do Eucalipto Livre" tem exclusivamente que ver com eucaliptos e com a liberalização da sua plantação. Senão vejamos: esta lei simplifica plantações de eucaliptos, mas complica a plantação de espécies florestais autóctones como o sobreiro, o castanheiro, o carvalho ou a azinheira, que passa a ter que ser comunicada. Que simplificação da burocracia é esta, quando passa a ter que ser comunicada, por exemplo, a plantação de sobreiros no meio do montado alentejano ou de carvalhos no Douro"? -João Camargo, Visão (Ler mais )

sábado, novembro 23, 2013

Há coisas a acontecer em Vouzela

Há coisas a acontecer em Vouzela. Ainda pouco para as necessidades, mas possíveis inícios que vençam a letargia e o sentimento de impotência. Como todas as grandes caminhadas começam por um pequeno passo, interessa participar. Depois... bem, depois é como se canta no famoso verso do castelhano António Machado: "se hace camino al andar".


Apanhemos, então, o comboio
Foto de José Campos

A propósito das comemorações do centenário da chegada do comboio a Vouzela, organizadas pela Associação D. Duarte de Almeida e pela Câmara Municipal, alguns debates têm sido realizados, não só desfiando memórias, mas também perspetivando o futuro. Foi o que aconteceu no Painel 7º dia, programa da Vouzela FM: recordaram-se pessoas, viagens, acidentes; lamentou-se o encerramento da linha e refletiu-se sobre as possibilidades de recuperação futura.

A este respeito convém recordar que a importância da opção ferroviária vai muito para além da nostalgia em torno da antiga linha do Vale do Vouga. É uma inevitabilidade, tendo em conta a reorganização das opções de mobilidade, hoje limitadas ao rodoviário. A manter-se a situação atual, Portugal fica totalmente dependente das variações do preço do petróleo que só os elevados valores atuais, têm permitido que se explorem novas jazidas e usem  técnicas de extração altamente polémicas como o "fracking". A seguir-se pelo rumo atual, os problemas ambientais vão impor sérias restrições à circulação automóvel e custos dificilmente suportáveis. Mesmo que acreditemos numa rápida resposta das viaturas elétricas individuais, a experiência presente chega para percebermos os perigos da inexistência duma rede de transportes públicos diversificada e de qualidade, transferindo para o cidadão o preço de uma mobilidade cada vez mais necessária, tal o nível de concentração populacional que se está a promover. A menos que optemos por não sair de casa...

Por tudo isto, pensamos ser do interesse de todos quantos vivem na região de Lafões, o projeto de ligação ferroviária entre Aveiro e Salamanca e a reivindicação dos viseenses para voltarem a ser servidos pelo comboio. Se, a partir daí, for possível fazer o aproveitamento turístico da parte que nos cabe da linha do Vale do Vouga, óptimo. Acertavam-se as contas com o passado e recuperava-se (parte) de um recurso estupidamente perdido.

Silvatica

Foto retirada da página no Facebook

Consta que, em latim, se refere a selva, silva, selvagem... É o nome de uma associação que tem por objetivo gerir territórios para promover a conservação e que teve o seu encontro de lançamento em Vouzela. Com o dedo do João Cosme, pois claro. Na prática, vão tentar adquir terrenos ou negociar a sua gestão com os proprietários, de modo a criarem uma reserva natural privada. Para já, a sua atenção está concentrada nas serras envolventes do Vouga (Freita, Arada, Montemuro, Lapa, Caramulo) e, aos poucos, criar condições para a proteção do lobo ibérico.

Esta iniciativa baseia-se em experiências que já fizeram o seu caminho (veja-se Associação Transumância e Natureza) e tenta ultrapassar os obstáculos que têm sido colocados a idênticas áreas com gestão estatal. Nesta região vai, obrigatoriamente, confrontar-se com os receios e o individualismo típicos do minifúndio, mas, talvez, aproveitar do abandono de muitas áreas e da falta de perspetivas das gentes. Por mera curiosidade, registe-se que este método está a ser tentado, também (embora com objetivos mais modestos), de modo a garantir a utilização de espaços privados a bem do interesse público. É o que se passa em Leiria, onde um grupo de cidadãos tenta adquirir uma quinta de modo a transformá-la num parque da cidade.

Vouzela do século XX
"Clique" na imagem para ampliar

E terminamos com nova iniciativa da Associação D. Duarte de Almeida, coletividade que tem mostrado um dinamismo digno de registo e que, mais uma vez, contou com a colaboração do Agrupamento de Escolas de Vouzela. É no próximo dia 29 de novembro, a partir das 20.30 horas, no Café Rocha. A acompanhar o café (ou o chá) no final do jantar, reflete-se sobre a história local que ainda é o método mais seguro de perceber onde tropeçamos e de como evitar trambolhões futuros. Do início da florestação do Monte Castelo, até à recente ameaça de encerramento de serviços, muito há para recordar e avaliar. Se quiser falar, fala. Se não quiser... não quer. O ambiente é aquecido e a experiência dos dinamizadores promete tornar bem agradável a noite. Guarde espaço para um pastel de Vouzela.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Rua Conselheiro Morais de Carvalho

1950's


Colecção Passaporte "LOTY"

terça-feira, novembro 05, 2013

Temos um comboio para apanhar

O dia da inauguração. Foto gentilmente cedida pelo Augusto Rodrigues

Novembro de 1913. À incerteza da obra tinha sucedido a esperança e o espanto. Centenas de operários e engenhos nunca antes vistos, ergueram um viaduto com os seus dezasseis arcos de pedra que muitos apostavam não conseguir resistir. Finalmente, o comboio ia chegar. Todos quantos alguma vez o viram, podem imaginá-lo a entrar na ponte, lançando aos ares o seu apito de aviso de aproximação, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio. Do outro lado, junto à estação, o povo apinhado, olhando, admirado e incrédulo, aquela massa de ferro preto que avançava com um som cadenciado por entre nuvens de fumo branco. Finalmente,  o comboio chegou.

Vouzela sempre foi local de "encontros e despedidas". Desde que os romanos lhe toparam a orografia e alargaram e empedraram estradas, a sua história ficou indissociavelmente ligada a vias de comunicação. Para o bem e para o mal. A linha do caminho de ferro do Vale do Vouga foi uma delas e a chegada do comboio naquele dia de 1913, marcou o início duma revolução nos afazeres e nos hábitos, imagem de marca  do último período de desenvolvimento que por estas terras houve. 

Hermínio Dias, no texto que redigiu para o cinquentenário da linha, descreveu os primeiros tempos com o poder de síntese do grande fotógrafo que era: "Festas, foguetes, contentamentos, encorajamentos para viagens a Espinho (...)". Encorajamento, sim, que isso de entregar a vida a um amontoado de parafusos a que não se podia puxar rédeas, nem obedecia a voz de comando, era aventura arriscada para quem, naqueles tempos, estava mais habituado a confiar nos músculos do que na técnica.

Mas da novidade passou-se à oportunidade e desta à rotina. Aos poucos, Vouzela foi-se familiarizando com uma nova categoria de gente composta por fatores, fogueiros, revisores, guarda freios, carregadores... e esse símbolo de autoridade, respeitado e invejado, o chefe da estação. Aos poucos, foi-se habituando à mistura com os operários da Serração- que, entretanto, tinha procurado a proximidade ao comboio- e das muitas partidas e chegadas, como a da comitiva de António Ferro que, em 1930, ainda antes de dirigir o Secretariado Nacional da Propaganda, usou o caminho de ferro para vir apresentar as entranhas do país aos jornalistas da capital e acabou no Castelo a admirar as vistas, extasiado, enquanto matava a sede com taças de Lafões fresquinho- parece que estava um calor dos diabos. Chegavam estudantes aos fins-de-semana, chegavam jornais ao fim da tarde, chegava gente diferente no verão que, mal descia o último degrau e punha os pés na terra, esticava as costas e enchia o peito de ar, o tal bem puro que por cá a trazia em estadias mais ou menos prolongadas numa das unidades hoteleiras da vila. O Mira Vouga era logo ali, depois da ponte, a caminho do São Sebastião. O comboio marcava o ritmo e os humores. Até os amores, porque o "vou ali ver chegar o comboio" era desculpa aceite e pretexto válido para passeios de namorados e os arcos da ponte sempre foram pilares seguros para as toneladas de ferro e de afetos.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Num tarda nada já eram mais as partidas do que as chegadas e os risos dos encontros não chegavam para fazer esquecer as lágrimas das despedidas. Brasil, África, mais tarde França e Alemanha "porque aqui não dá e é preciso fazer pela vida". Ou enganar a morte... E o soldado lá escolhia partir, bem cedo, sozinho, gola do capote levantada para que não se percebesse que, afinal, um homem também chora. Ao comboio descobria-se o desconforto dos bancos, a lentidão da marcha, o lado do negro do fumo. Provocava fogos, diziam- graças a Deus que de então para cá nunca mais tal coisa  vimos! O futuro estava nas quatro rodas, de preferência individuais e nessas mortalhas de alcatrão negro que nos levavam à porta e haviam de cobrir o país. Recusaram-se propostas de modernização e ignoraram-se sugestões de aproveitamento turístico. Em 27 de Dezembro de 1983, cobriram-no com coroas de flores e bandeiras e chamaram-lhe "Histórico", porque não se diz mal dum defunto. Pela última vez, o seu apito ecoou ao entrar na ponte, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio das gentes que lhe prestavam a última homenagem, suspeitando estarem a enterrar muito mais do que aquela massa de ferro que se despedia por entre nuvens de fumo branco.

Mas os senhores deste mundo, não conhecem a ironia corrosiva do beirão. Vamos ouvindo as notícias sobre a crise do petróleo e os insuportáveis custos da energia e, então, fecho os olhos e imagino-me na sala de jantar da saudosa Pensão Jardim, amplas janelas abertas para o vale e para a ponte. Recordo o som cadenciado da aproximação e aquele silvo agudo que desperta e grita: "acordem, vouzelenses! Temos um comboio para apanhar".
- Texto escrito para a exposição "100 anos da chegada do comboio a Vouzela".


Ao Carlos Pereira

A exposição que a Associação D. Duarte de Almeida inaugura, neste 5 de Novembro, no Museu Municipal de Vouzela, deve muito ao investimento e ao entusiasmo do nosso colaborador, Carlos Pereira. Contactamos com ele, pela primeira vez, em 2007, numa altura em que dinamizava um blogue irónica mas certeiramente chamado "Postal de Vouzela". Já então tinha publicadas dezenas de imagens da vila, revelando um amor pela terra onde, jovem, andou a estudar. Mais tarde, decidiu integrar o grupo de colaboradores do "Pastel de Vouzela" e o resultado final é conhecido: muitas das mais de duzentas imagens da região de Lafões que publicamos, vieram da sua coleção particular. Mas um outro interesse sempre o animou que, curiosamente, ligava bem com as iniciais, "CP", com que assinava e assina os seus textos: a história da linha do Vale do Vouga. Esta exposição é o resultado desse interesse, mas também uma simples homenagem a um homem que, embora afastado da região, a sente como poucos. Obrigado, Carlos Pereira.  Vouzela precisa de amigos como tu.