domingo, dezembro 08, 2013

Desabafos (e mais qualquer coisa)

Oxalá o comboio chegue! E tomara que Vouzela o apanhe!

Vejo Vouzela cada vez mais triste e abandonada... Olho à volta e o que vislumbro não me deixa otimista... Parece que se espera algo que nunca acontece! O nevoeiro, característico do vale do zela, já cria o cenário, só falta mesmo Dom Sebastião surgir por entre a névoa!...

Na vila há um movimento que se concentra em Julho e principalmente Agosto - qual aldeia de emigrantes, que triplica a população na época estival, passa o Verão passa a animação. Por aqui, os fins de semana de outono e de inverno parecem todos iguais, o mesmo estado sonolento, de uma vila que só dá sinais de alguma vida entre segunda e sexta feira, entre as nove da manhã e as seis, sete da tarde... O fim de semana quer-se de descanso. Assim seja, a vila descansa. E o estado de letargia continua, perpetua-se. Não é preciso mais?! Claro que é! Há um comboio para apanhar! Um comboio que nos leve a um futuro que rompa com a apatia e monotonia generalizadas. Um comboio cheio de ideias fora da caixa e projetos inovadores, criativos, que consigam envolver uma juventude que pertence a Vouzela, é vouzelense, mas que precisa de impulsos, de saber que há uma estrutura que sabe que eles "andam por aí" e que podem contar com o seu apoio.

Vouzela perdeu o comboio e tarda em o querer apanhar...

Ouço em vilas vizinhas, "Vouzela parou no tempo", "Vouzela a terra dos velhos", "Cada vez que vou a Vouzela não vejo ninguém na rua"... A mim custa-me ouvir isto, mas na verdade sei que é muito assim, apesar de partir na defesa da minha linda vila. Mas beleza não é tudo, e nem essa beleza é aproveitada. Se temos uma paisagem bela, uma vila agradável porque não promovê-la?! Porque não fazer uma campanha promocional com "prata da casa"? Há entre nós pessoas capazes de desenvolver ótimas campanhas através de vídeos e fotografia. Havendo divulgação, ficam a faltar iniciativas. Que tal começar por criar um calendário anual de atividades? Porque não ter mais feiras? Mas feiras que queiram ir mais além, capazes de captar visitantes. Vouzela precisa de se dar a conhecer!

Estamos em Dezembro, e como em todo o inverno, fica a faltar um evento com alguma dimensão para a vila. Uma feira de doçaria e gastronomia regional não fará todo o sentido ser no inverno, anterior ou durante a época natalícia? Haverá altura mais propícia para tal?! E perguntam-me, mas onde fazer tal feira? A mim surge-me logo a ideia, porque não no ginásio da escola preparatória? É um local central e aí haveria uma mostra com "stands". A esta feira associava-se uma outra iniciativa que envolvesse os restaurantes e pastelarias , através de um roteiro pela vila. Sendo esta feira durante um fim-de-semana, os restaurantes teriam de ser "obrigados" a abrir ao domingo. E talvez com este impulso pudessem continuar a abrir ao domingo (!). Mas claro que para o sucesso deste tipo de fim de semana gastronómico seria necessário apostar numa divulgação certeira que não podia nunca restringir-se à região.

Isto são ideias. Há muitas outras. E muitas, ou mesmo todas, são aquelas que se desperdiçam. Quem perde é Vouzela, somos nós.

Não podemos deixar o comboio passar... sem nunca o apanhar.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Se7e


A imagem de referência deste espaço (foto de Margarida Maia). 

Sete é um número levado da breca. Tantos são os pecados capitais e foram as pragas do Egito. Sete são os Selos do Livro do Apocalipse, os palmos de terra com que se cobre ruim defunto, o número de chaves que encerra fechadura segura. Mas também são sete as cores do arco-íris, as notas musicais, as belas artes, os dias da criação e até as letras com que se escreve Vouzela.

Tudo isto para recordarmos que o "Pastel de Vouzela" completa, hoje, sete anos de existência. Foi no dia 6 de dezembro de 2006 que o nosso Manel Vaca abriu as portas desta casa a todos quantos quisessem refletir sobre o concelho e a região de Lafões. Para imagem de referência escolhemos os nossos pasteis, produto de excelência que exige dentada firme, mas que se caracteriza pela elegância e leveza do folhado. Esses foram os nossos princípios.

Ao longo destes sete anos, não enfrentamos pragas de gafanhotos, nem os Cavaleiros do Apocalipse, mas vimos crescer o desânimo dum concelho envelhecido, com um despovoamento considerável, ameaçado por opções centralistas e de curto prazo em todos os caminhos que tenta para contrariar a morte. Procuramos participar nessa caminhada. Em mais de novecentas publicações, apresentamos propostas, fizemos chamadas de atenção, procuramos as lições do passado. Com 295 imagens publicadas, tentamos que não se esquecesse o que de melhor temos e que de âncora tem que servir para projetos futuros. Aqui chegados, temos a sensação de muito estar dito, mas de quase tudo estar por fazer. Continuemos, pois, porque, quanto a pasteis, só há caixas de meia e de dúzia. A primeira já foi. Será um privilégio partilhar convosco as seguintes nas reflexões e, sobretudo, nas ações. Porque somos dos que acreditam que ainda temos um comboio para apanhar.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Mais uma vez sobre a o Decreto-Lei 96/2013: Facilita-se a plantação de eucaliptos, dificulta-se a plantação de espécies florestais autóctones

"Mas a "Lei do Eucalipto Livre" tem exclusivamente que ver com eucaliptos e com a liberalização da sua plantação. Senão vejamos: esta lei simplifica plantações de eucaliptos, mas complica a plantação de espécies florestais autóctones como o sobreiro, o castanheiro, o carvalho ou a azinheira, que passa a ter que ser comunicada. Que simplificação da burocracia é esta, quando passa a ter que ser comunicada, por exemplo, a plantação de sobreiros no meio do montado alentejano ou de carvalhos no Douro"? -João Camargo, Visão (Ler mais )

sábado, novembro 23, 2013

Há coisas a acontecer em Vouzela

Há coisas a acontecer em Vouzela. Ainda pouco para as necessidades, mas possíveis inícios que vençam a letargia e o sentimento de impotência. Como todas as grandes caminhadas começam por um pequeno passo, interessa participar. Depois... bem, depois é como se canta no famoso verso do castelhano António Machado: "se hace camino al andar".


Apanhemos, então, o comboio
Foto de José Campos

A propósito das comemorações do centenário da chegada do comboio a Vouzela, organizadas pela Associação D. Duarte de Almeida e pela Câmara Municipal, alguns debates têm sido realizados, não só desfiando memórias, mas também perspetivando o futuro. Foi o que aconteceu no Painel 7º dia, programa da Vouzela FM: recordaram-se pessoas, viagens, acidentes; lamentou-se o encerramento da linha e refletiu-se sobre as possibilidades de recuperação futura.

A este respeito convém recordar que a importância da opção ferroviária vai muito para além da nostalgia em torno da antiga linha do Vale do Vouga. É uma inevitabilidade, tendo em conta a reorganização das opções de mobilidade, hoje limitadas ao rodoviário. A manter-se a situação atual, Portugal fica totalmente dependente das variações do preço do petróleo que só os elevados valores atuais, têm permitido que se explorem novas jazidas e usem  técnicas de extração altamente polémicas como o "fracking". A seguir-se pelo rumo atual, os problemas ambientais vão impor sérias restrições à circulação automóvel e custos dificilmente suportáveis. Mesmo que acreditemos numa rápida resposta das viaturas elétricas individuais, a experiência presente chega para percebermos os perigos da inexistência duma rede de transportes públicos diversificada e de qualidade, transferindo para o cidadão o preço de uma mobilidade cada vez mais necessária, tal o nível de concentração populacional que se está a promover. A menos que optemos por não sair de casa...

Por tudo isto, pensamos ser do interesse de todos quantos vivem na região de Lafões, o projeto de ligação ferroviária entre Aveiro e Salamanca e a reivindicação dos viseenses para voltarem a ser servidos pelo comboio. Se, a partir daí, for possível fazer o aproveitamento turístico da parte que nos cabe da linha do Vale do Vouga, óptimo. Acertavam-se as contas com o passado e recuperava-se (parte) de um recurso estupidamente perdido.

Silvatica

Foto retirada da página no Facebook

Consta que, em latim, se refere a selva, silva, selvagem... É o nome de uma associação que tem por objetivo gerir territórios para promover a conservação e que teve o seu encontro de lançamento em Vouzela. Com o dedo do João Cosme, pois claro. Na prática, vão tentar adquir terrenos ou negociar a sua gestão com os proprietários, de modo a criarem uma reserva natural privada. Para já, a sua atenção está concentrada nas serras envolventes do Vouga (Freita, Arada, Montemuro, Lapa, Caramulo) e, aos poucos, criar condições para a proteção do lobo ibérico.

Esta iniciativa baseia-se em experiências que já fizeram o seu caminho (veja-se Associação Transumância e Natureza) e tenta ultrapassar os obstáculos que têm sido colocados a idênticas áreas com gestão estatal. Nesta região vai, obrigatoriamente, confrontar-se com os receios e o individualismo típicos do minifúndio, mas, talvez, aproveitar do abandono de muitas áreas e da falta de perspetivas das gentes. Por mera curiosidade, registe-se que este método está a ser tentado, também (embora com objetivos mais modestos), de modo a garantir a utilização de espaços privados a bem do interesse público. É o que se passa em Leiria, onde um grupo de cidadãos tenta adquirir uma quinta de modo a transformá-la num parque da cidade.

Vouzela do século XX
"Clique" na imagem para ampliar

E terminamos com nova iniciativa da Associação D. Duarte de Almeida, coletividade que tem mostrado um dinamismo digno de registo e que, mais uma vez, contou com a colaboração do Agrupamento de Escolas de Vouzela. É no próximo dia 29 de novembro, a partir das 20.30 horas, no Café Rocha. A acompanhar o café (ou o chá) no final do jantar, reflete-se sobre a história local que ainda é o método mais seguro de perceber onde tropeçamos e de como evitar trambolhões futuros. Do início da florestação do Monte Castelo, até à recente ameaça de encerramento de serviços, muito há para recordar e avaliar. Se quiser falar, fala. Se não quiser... não quer. O ambiente é aquecido e a experiência dos dinamizadores promete tornar bem agradável a noite. Guarde espaço para um pastel de Vouzela.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Rua Conselheiro Morais de Carvalho

1950's


Colecção Passaporte "LOTY"

terça-feira, novembro 05, 2013

Temos um comboio para apanhar

O dia da inauguração. Foto gentilmente cedida pelo Augusto Rodrigues

Novembro de 1913. À incerteza da obra tinha sucedido a esperança e o espanto. Centenas de operários e engenhos nunca antes vistos, ergueram um viaduto com os seus dezasseis arcos de pedra que muitos apostavam não conseguir resistir. Finalmente, o comboio ia chegar. Todos quantos alguma vez o viram, podem imaginá-lo a entrar na ponte, lançando aos ares o seu apito de aviso de aproximação, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio. Do outro lado, junto à estação, o povo apinhado, olhando, admirado e incrédulo, aquela massa de ferro preto que avançava com um som cadenciado por entre nuvens de fumo branco. Finalmente,  o comboio chegou.

Vouzela sempre foi local de "encontros e despedidas". Desde que os romanos lhe toparam a orografia e alargaram e empedraram estradas, a sua história ficou indissociavelmente ligada a vias de comunicação. Para o bem e para o mal. A linha do caminho de ferro do Vale do Vouga foi uma delas e a chegada do comboio naquele dia de 1913, marcou o início duma revolução nos afazeres e nos hábitos, imagem de marca  do último período de desenvolvimento que por estas terras houve. 

Hermínio Dias, no texto que redigiu para o cinquentenário da linha, descreveu os primeiros tempos com o poder de síntese do grande fotógrafo que era: "Festas, foguetes, contentamentos, encorajamentos para viagens a Espinho (...)". Encorajamento, sim, que isso de entregar a vida a um amontoado de parafusos a que não se podia puxar rédeas, nem obedecia a voz de comando, era aventura arriscada para quem, naqueles tempos, estava mais habituado a confiar nos músculos do que na técnica.

Mas da novidade passou-se à oportunidade e desta à rotina. Aos poucos, Vouzela foi-se familiarizando com uma nova categoria de gente composta por fatores, fogueiros, revisores, guarda freios, carregadores... e esse símbolo de autoridade, respeitado e invejado, o chefe da estação. Aos poucos, foi-se habituando à mistura com os operários da Serração- que, entretanto, tinha procurado a proximidade ao comboio- e das muitas partidas e chegadas, como a da comitiva de António Ferro que, em 1930, ainda antes de dirigir o Secretariado Nacional da Propaganda, usou o caminho de ferro para vir apresentar as entranhas do país aos jornalistas da capital e acabou no Castelo a admirar as vistas, extasiado, enquanto matava a sede com taças de Lafões fresquinho- parece que estava um calor dos diabos. Chegavam estudantes aos fins-de-semana, chegavam jornais ao fim da tarde, chegava gente diferente no verão que, mal descia o último degrau e punha os pés na terra, esticava as costas e enchia o peito de ar, o tal bem puro que por cá a trazia em estadias mais ou menos prolongadas numa das unidades hoteleiras da vila. O Mira Vouga era logo ali, depois da ponte, a caminho do São Sebastião. O comboio marcava o ritmo e os humores. Até os amores, porque o "vou ali ver chegar o comboio" era desculpa aceite e pretexto válido para passeios de namorados e os arcos da ponte sempre foram pilares seguros para as toneladas de ferro e de afetos.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Num tarda nada já eram mais as partidas do que as chegadas e os risos dos encontros não chegavam para fazer esquecer as lágrimas das despedidas. Brasil, África, mais tarde França e Alemanha "porque aqui não dá e é preciso fazer pela vida". Ou enganar a morte... E o soldado lá escolhia partir, bem cedo, sozinho, gola do capote levantada para que não se percebesse que, afinal, um homem também chora. Ao comboio descobria-se o desconforto dos bancos, a lentidão da marcha, o lado do negro do fumo. Provocava fogos, diziam- graças a Deus que de então para cá nunca mais tal coisa  vimos! O futuro estava nas quatro rodas, de preferência individuais e nessas mortalhas de alcatrão negro que nos levavam à porta e haviam de cobrir o país. Recusaram-se propostas de modernização e ignoraram-se sugestões de aproveitamento turístico. Em 27 de Dezembro de 1983, cobriram-no com coroas de flores e bandeiras e chamaram-lhe "Histórico", porque não se diz mal dum defunto. Pela última vez, o seu apito ecoou ao entrar na ponte, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio das gentes que lhe prestavam a última homenagem, suspeitando estarem a enterrar muito mais do que aquela massa de ferro que se despedia por entre nuvens de fumo branco.

Mas os senhores deste mundo, não conhecem a ironia corrosiva do beirão. Vamos ouvindo as notícias sobre a crise do petróleo e os insuportáveis custos da energia e, então, fecho os olhos e imagino-me na sala de jantar da saudosa Pensão Jardim, amplas janelas abertas para o vale e para a ponte. Recordo o som cadenciado da aproximação e aquele silvo agudo que desperta e grita: "acordem, vouzelenses! Temos um comboio para apanhar".
- Texto escrito para a exposição "100 anos da chegada do comboio a Vouzela".


Ao Carlos Pereira

A exposição que a Associação D. Duarte de Almeida inaugura, neste 5 de Novembro, no Museu Municipal de Vouzela, deve muito ao investimento e ao entusiasmo do nosso colaborador, Carlos Pereira. Contactamos com ele, pela primeira vez, em 2007, numa altura em que dinamizava um blogue irónica mas certeiramente chamado "Postal de Vouzela". Já então tinha publicadas dezenas de imagens da vila, revelando um amor pela terra onde, jovem, andou a estudar. Mais tarde, decidiu integrar o grupo de colaboradores do "Pastel de Vouzela" e o resultado final é conhecido: muitas das mais de duzentas imagens da região de Lafões que publicamos, vieram da sua coleção particular. Mas um outro interesse sempre o animou que, curiosamente, ligava bem com as iniciais, "CP", com que assinava e assina os seus textos: a história da linha do Vale do Vouga. Esta exposição é o resultado desse interesse, mas também uma simples homenagem a um homem que, embora afastado da região, a sente como poucos. Obrigado, Carlos Pereira.  Vouzela precisa de amigos como tu.


sexta-feira, novembro 01, 2013

Há 100 anos o comboio chegou

(Clique na imagem para ampliar)

É mais uma iniciativa da Associação D. Duarte de Almeida, com o apoio da Câmara Municipal. Começa já no próximo dia 5 (17.30 horas), no Museu,  com uma exposição alusiva à chegada do comboio a Vouzela. Segue-se, no dia 16, um percurso em biciclete e uma caminhada em dois troços da antiga linha do Vale do Vouga (Ribeiradio-Vouzela e Pinheiro de Lafões-Vouzela). Termina no dia 30 com o "almoço do Centenário" no restaurante "Meu Menino" em Vouzela (13 horas) e com uma tertúlia no café Serôdio de Figueiredo das Donas (20 horas). A não perder.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Hotel Mira Vouga


1950's


Colecção Passaporte "LOTY"

sábado, outubro 19, 2013

Porque hoje é sábado

E porque nasceu há cem anos. Teria gostado dos pasteis de Vouzela e das lendas sobre moiras encantadas. Amava a vida - era dos nossos. Vinicius de Moraes, aqui recordado no seu "Dia da criação".

segunda-feira, outubro 14, 2013

Onde fica?

Um delicioso pastel de Vouzela ao primeiro que descobrir em que estação da Linha do Vouga é que esta foto do railcar Me53 foi tirada.


Fotógrafo: D. Trevor Rowe - 26-05-1955

quinta-feira, outubro 10, 2013

"Portugal tem a maior área de eucalipto plantado de toda a Europa"

"Se considerarmos além disto que a previsão atual é de que a temperatura no país possa subir até 10ºC nos próximos 75 anos e que o mercado mundial do papel está em declínio, ficam perguntas: qual é o objetivo de tudo isto? Porquê um eucaliptugal, um portugalipto? Quem ganha com este ecocídio ? E quando é que vamos deixar de vez de aceitar que espezinhem o nosso direito universal a um ambiente saudável? Quando já não houver?", João Camargo, Visão (ler mais).

segunda-feira, outubro 07, 2013

Castelo de Vilharigues

1950's


Sem referência ao editor. Foto de A. Pessoa - Abrantes


sábado, outubro 05, 2013

quarta-feira, setembro 25, 2013

Contra os mitos marchar, marchar!

Tempos houve em que o homem acreditou ser a Terra o centro do universo

Prometemos não interferir na campanha eleitoral e vamos cumprir. No entanto, o "calor do debate" tem dado eco a uma série de ideias feitas, de mitos, que podem provocar estragos caso alimentem a ânsia populista do voto fácil. Parece-nos, pois, necessária, uma chamada de atenção, sem referir concretamente qualquer das candidaturas, sem termos a ilusão de conseguir alterar o que quer que seja, mas deixando registo para... memória futura.

A que ideias feitas nos referimos? Fundamentalmente, a duas: zonas industriais são a solução para aumentar a oferta de emprego e promover o desenvolvimento; criar zonas de expansão na vila de Vouzela é a solução para evitar a saída de jovens. Vamos por partes.

Zonas industriais: a solução?

Limitando-nos à informação disponível na página da Câmara Municipal de Vouzela (procurar em Planeamento/Parque Empresarial) que está muito desatualizada, o que é que concluímos? Na zona industrial do Monte Cavalo, há 13 lotes desocupados em 33 possíveis. A de Campia tem 12 lotes ocupados. Sobre os últimos espaços não há informação disponível, mas lemos no Notícias de Vouzela que a de Vasconha (Queirã), vai oferecer 20 lotes e vai custar um milhão e trezentos mil euros, beneficiando de um financiamento comunitário de um milhão de euros.

Que podemos concluir de tudo isto? Num concelho com 10540 habitantes e que beneficia de excelentes vias de comunicação, esta oferta, com este nível de investimento, devia ter entusiasmado muitos jovens,  atraindo-os ou, pelo menos, impedindo a sua saída. Não entusiasmou! Se olharmos para as áreas de negócio das empresas instaladas, percebemos que se relacionam, maioritariamente, com setores que atravessam crises graves (construção), que estão muito dependentes do mercado local (reparações automóveis) ou que pouca articulação têm com outras áreas económicas da região, nomeadamente as que necessitamos de recuperar. Quer isto dizer que a oferta de emprego é limitada, quer no número, quer nas áreas, quer nas perspetivas de futuro. Claro que as empresas não têm culpa alguma. Mas a verdade é que se está a fazer um investimento significativo de modo desordenado, sem obedecer a qualquer plano estratégico para o concelho. É o preço a pagar pelo dogma de que o poder local não deve interferir no funcionamento da economia (o que, ainda por cima, é falso).

Os jovens saem de Vouzela porque não há casas disponíveis?

Mas, talvez o problema esteja na falta de habitação e centenas ou milhares de jovens não consigam encontrar uma única casa vaga na vila. Assim de memória e num rápido passeio pelas ruas de Vouzela, encontram-se casas à venda ou espaços desocupados e a exigirem intervenção urgente no Largo da Feira, na Avenida João Ramalho, na Sidónio Pais, Ayres de Gouveia (para venda e para alugar), Rua de São Frei Gil, Morais de Carvalho, várias no percurso entre esta rua e o Largo do Convento (onde também há), no bairro da Senra, Praça da República, Mousinho de Albuquerque e na Avenida João de Melo. Arriscamos dizer que não há rua na vila de Vouzela onde não apareça uma oferta para venda ou um espaço desocupado a exigir intervenção. Se quisermos alargar a pesquisa a Fataunços, Vilharigues ou até Ventosa, a oferta que encontramos entre casas, terrenos e quintas, assusta, pelo que revela sobre eventuais dificuldades financeiras dos proprietários e, sobretudo, sobre a vontade de abandonar a terra.

Claro que sempre que avançamos com esta lista, respondem-nos que a maior parte da oferta é constituída por edifícios antigos a necessitarem de obras e "é mais caro restaurar do que construir ou comprar novo". Reconheça-se que este argumento ultrapassa as fronteiras regionais e pode ser ouvido do Minho ao Algarve. Só que precisamos de pensar nos seus fundamentos, já que se limita a ser uma especificidade portuguesa, recusada por essa Europa fora onde sempre foi dada maior atenção ao restauro do que á construção. É que, talvez tenhamos que nos confrontar com mais uma triste consequência do modo como, durante anos, se deu rédea solta à especulação imobiliária, criando perversões no setor da construção. Porque, como já alguém disse, "hoje, em Portugal, é fácil amontoar tijolos. Difícil é encontrar um bom pedreiro". E nós até somos de uma região com tradições no trabalho da pedra... Queremos ou não continuar a sê-lo?

Resumindo e concluindo: se querem contribuir para a resolução dos problemas sentidos pelos vouzelenses, enfrentem os verdadeiros e não se refugiem em "mitos" e desculpas fáceis.

"Nunca devemos admitir senão aquilo que a razão nos mostra como evidentes; em caso algum podemos aceitar o que nos é imposto pela nossa imaginação ou pelos nossos sentidos. (...) Não devmos pensar que o Sol tem, de facto, o tamanho com que o vemos"
- René Descartes, Discursos do Método, 1637


sexta-feira, setembro 20, 2013

Crónica do tempo que passa

Cruzeiro Seixas/ Santiago Areal

"Por graça, costumo dizer que essa chávena é o retrato de todos nós. Tem a asa para dentro e nós, infelizmente, também (...). E há algumas pessoas que nem asas para dentro têm".
- Artur Cruzeiro Seixas, in Jornal de Leiria, 19 de Setembro de 2013

quinta-feira, setembro 12, 2013

Foi você que falou em "pretensões turísticas"?


"Esta perspetiva, gostam? Há quem fale da paisagem, património, planeamento... Eu fui brindada com este acrescento paisagístico. Um mimo! Adoro o campo!"- Ângela Carvalhas no Facebook.

É um problema antigo e, por isso mesmo, ainda mais irritante: passeamos pelos locais mais interessantes, escolhemos os melhores ângulos para uma fotografia e... lá está o diabo de um fio elétrico a estragar a composição. Às vezes, até a instalação toda! Não, não somos saudosistas dos lampiões de carbureto. Apenas sabemos haver alternativas mais de acordo com as pretensões turísticas de Vouzela.

O "obelisco" que mostramos na imagem, foi colocado a norte, cortando, sem dó nem piedade,  uma belíssima mancha verde ainda ocupada por algumas quintas que, num passado não muito longínquo, constituíam parte importante da cintura agrícola da vila. Não é o caso mais chocante. Apenas é o mais recente. É verdade que se trata duma zona já bastante maltratada. Mas também o é que o objetivo não pode ser dar asas à asneira em tudo o que saia do que administrativamente foi batizado de "centro histórico". Antes pelo contrário.

Num momento em que se avança para uma eleição para a autarquia local, gostaríamos de saber quem é que, de facto, já percebeu que, mais do que defender "centros históricos", esta vila e grande parte do concelho é, no seu todo, um conjunto histórico que tem que ser cuidado e preservado nos mais pequenos pormenores. E os responsáveis locais da EDP ou da REN, ou do raio que os parta, têm que perceber isso. Para que, de uma vez por todas, as tais "pretensões turísticas" sejam mais do que palavras de circunstância.

quinta-feira, setembro 05, 2013

O "Pastel de Vouzela" e as eleições autárquicas

"Por que motivo se mantêm em silêncio quando já se conhecem todos os candidatos"? 

Esta pergunta, que nos foi enviada por uma leitora, resume várias outras que nos têm sido feitas sobre o mesmo assunto e que, nalguns casos, até chegam a pedir indicações de voto. Pois bem, mantemo-nos fiéis a princípios que seguimos desde a primeira hora: o "Pastel de Vouzela" procura debater ideias- e só isso- podendo pronunciar-se sobre propostas concretas associadas a este ou àquele programa eleitoral. Em circunstância alguma discute pessoas; em circunstância alguma entrará na campanha, apoiando uma candidatura específica. Mesmo a aceitação de eventuais convites para debates, está condicionada à presença das diversas correntes candidatas (e da disponibilidade, claro, porque a nossa vida não é esta).

Neste momento, aguardamos pela divulgação de todos os programas, aquela "coisinha" que para muitos é secundária, mas que, na realidade, deve ser o compromisso que separa a nobreza de um serviço público, do mero oportunismo dos interesses de uma qualquer carreira. Depois... veremos.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Demolir, porquê?

Pedimos a foto emprestada ao Ivo Madeira

Lemos no "Notícias de Vouzela" que a Câmara Municipal notificou os proprietários da casa que se mostra na imagem para intervirem, tendo em conta os sinais de degradação que se têm acentuado. Tudo normal, não tivesse sido apresentada como alternativa... a demolição. Demolição, porquê?

Este edifício integra um conjunto ainda com alguma harmonia, fronteira com  zonas da vila onde, desde há muito, o disparate é rei. Ele próprio integra alguns elementos característicos de um certo tipo das nossas construções em pedra. Ora, o mais elementar bom senso aconselharia a que os serviços técnicos duma terra que diz ter pretensões turísticas, não só tudo fizessem para o preservar, como informassem os seus proprietários sobre o modo de o adaptar às exigências atuais. Pelo contrário, pelo que lemos no "Notícias de Vouzela", parecem antes disponíveis para alargar o espaço da asneira.

Já há muito que alertamos para a importância de se protegerem marcas da nossa identidade, sobretudo quando se sabe que o maior trunfo de toda a região é a paisagem e o maior trunfo de Vouzela é o equilíbrio que ainda mantém entre o património natural e o edificado. Qualquer projeto turístico só terá viabilidade se assentar nesses pilares e tiver consciência de que ninguém nos procura para estar fechado entre quatro paredes, por melhor que seja a animação- disso, há melhor bem mais perto dos grandes centros. Por isso mesmo, é da máxima importância tudo o que possamos fazer para preservar os nossos aspetos mais característicos e não os limitar a essas espécies de disneylândias do antigo que dão pelo nome de "centros históricos".

Os serviços técnicos duma Câmara Municipal, naturalmente dependentes das orientações da sua direção política, têm que ser o melhor centro de recursos que alerta, aconselha, encontra soluções ao serviço do interesse coletivo. Não precisamos de recuar muitos anos, para recordarmos situações em que, em Vouzela, alguns projetos "popularuchos", do agrado das estratégias políticas do momento, foram travados por quem, na altura, soube usar os seus conhecimentos. Na situação atual, pelo contrário: ou os serviços técnicos têm informações (que desconhecemos) que possam justificar a demolição do edifício, garantindo a defesa e o melhoramento do conjunto lá existente, ou arriscam-se a serem, eles próprios, encarados como um dos (muitos) problemas que Vouzela tem que resolver.

quinta-feira, agosto 22, 2013

As Festas da Nª. Srª. do Castelo: a minha reflexão

Facto número um: as Festas do Castelo têm potencialidades várias.
Facto número dois: as potencialidades estão a ser desperdiçadas ano após ano, após ano, após ano... De diversas maneiras, em inúmeras ocasiões.
Facto número três: não são necessárias enormes estruturas, grandes obras e eventos megalómanos para impulsionar Vouzela. Será apenas necessário observar, olhar, reflectir sobre as potencialidades e perceber o que pode ser feito. Ao fim ao cabo, passa por fazer a chamada análise SWOT, que em português é a análise FOFA ou PFOA (potencialidades, fraquezas, oportunidades e ameaças).

Por agora penso nas potencialidades. Apenas uma ou duas, ou talvez mais. Que vi nestes dias a serem desperdiçadas. 

* * *

Potencialidades para o comércio e a restauração

Durante as Festas da Nª. Srª. do Castelo deste ano, em que estive especialmente atento, mais uma vez a vila encheu-se de vida. A mim, e acho que a qualquer Vouzelense, dá gosto ver este mar de gente a invadir a nossa terra.
Na última noite, era uma da manhã e a Rua Moraes Carvalho parecia qual rua do comércio de cidade agitada. E o movimento já existia em noites anteriores. Mas naquela última noite, depois do concorrido fogo de artifício, ao passar naquelas ruas vieram-me várias ideias à mente: "Que bom que seria que estas lojas e cafés tivessem alargado o seu período de abertura pela noite dentro". Como se faz em muitas terras durante períodos de festa. Que não fossem as lojas a estar abertas, mas os cafés - o Café Central lucraria em não fechar tão cedo, certamente.
Bem sabemos que muitos dos proprietários são pessoas com pouco vagar para grandes labutas noite dentro mas com certeza haverá quem consiga assegurar,  por estes dias, o negócio "fora de horas". 
A festa faz-se na alameda. Começa lá e termina lá. A vila não aproveita.

A Feira de Artesanato como potencial

A festa é paga. Valor simbólico, mas significativo, para qualquer um que não seja gastador. E os tempos são de poupar. Portanto, quem paga a entrada dificilmente se alarga na Feira de Artesanato. Como ouvi alguém exclamar "Gasto 2,50€ no bilhete já não vou gastar na feira...". Compreende-se! A Feira deveria estar "livre de bilhete". As pessoas deveriam poder usufruir da feira, das tasquinhas, das (poucas) diversões - era só o Touro Mecânico, não era?! Nem o vi..., sem terem de pagar obrigatoriamente os dois euros e meio. A organização optou por ouvir os "senhores das farturas" e colocou-os do lado de fora - pelo menos um, que eu visse. Mas os feirantes também se queixaram - "Havíamos de estar do lado de fora, para as pessoas poderem vir ver a feira sem pagar", disse um feirante.

As potencialidades do espaço

A festa lá decorreu. O concerto da cantora Aurea preencheu a Alameda. Público alvo: crianças, jovens, jovens adultos e a faixa etária dos 50/60. Cenário: plateia principal coberta de cadeiras. Tipo de música: essencialmente Pop. Portanto, os bancos não deveriam estar ali. Talvez o zelo pelos idosos, que deve ser sempre prioritário, seja desajustado em algumas situações - como num concerto com o target definido para um público essencialmente jovem e adulto. Em alturas desse espectáculo, estou em crer que as cadeiras estorvaram!
A Alameda é suficientemente grande para permitir um bom recinto para concertos. E um bom concerto faz-se com o calor do público. As cadeiras devem estar, mas em espectáculos de música que merece, e necessita, maior atenção e calma - como no concerto da fadista Ana Moura. Todo o espaço da Alameda, em frente ao palco, deveria estar preparado de acordo com a banda ou artista que actua. 

Outras potencialidades: desde o título das festas
 à romaria da Nª. Srª. do Castelo 

A divulgação das festas é feita. Mas quem olhou o cartaz nem percebeu exactamente os dias, nem os eventos. Faltava leitura. Mas isto é algo supérfluo. O importante, o "título" das Festas que apareceu em todos os cartazes e panfletos. É que não faz muito sentido - onde está o castelo? Há quantos anos existem estas festas? Não seria um elemento de marketing positivo enumerar a edição - Vi algures no Notícias de Vouzela, 98ª edição, que pelo número elevado, bem capaz seria de impressionar muita gente. E não será adulteração eliminar a "Nª. Sr.ª" da identificação das nossas festas? 
Sabendo que as festas são em honra da Nª. Sr.ª do Castelo, e que antigamente havia romaria no Monte com o mesmo nome, porque se quebrou tal tradição? Que sentido faz desligar a romaria das restantes festividades? Concerteza que aglutinando tudo, as festas ganhariam mais "alma". Até para as pessoas de fora, que não conhecem a nossa história, seria uma mais valia dar a conhecer o "santuário" e o Monte da N.ª Sr.ª do Castelo. Melhor para os turistas e para a nossa terra, que iria usufruir do lado mais tradicional e original das festas. Falta a estas festas o verdadeiro carácter, que se foi perdendo.

Se as Festas do Castelo não têm castelo e não há ligação à romaria da Nª. Srª. do Castelo, porquê manter este nome? Até porque, com designação parecida, há as Festas da Senhora do Castelo, em Mangualde (ver aqui). Onde certamente há romaria durante os dias de festividades e, provavelmente, até algum castelo por perto, ou vestígios.

quarta-feira, agosto 21, 2013

"Olhe para as plantas e para as árvores e começará a compreender este país"

Foto retirada do Público

A citação que usamos como título é de Roberto Bolaño (1) e qualquer especialista na matéria confirmará que tem um alcance universal. Pelos piores motivos, percebemos o seu significado sobretudo no verão, quando as chamas cobrem o país. Nessa altura, opinamos como se todos fôssemos experientes bombeiros e competentes gestores florestais. Depois... passa-nos. Diz quem sabe que os fogos evitam-se, dificilmente se combatem. Conhecer o que estamos a fazer com a nossa floresta, talvez ajude. Promover a criação de gado, também.
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(1)- Roberto  Bolaño, Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, Quetzal, 2011