quarta-feira, agosto 07, 2013

Já não dá para esperar

Foto retirada daqui.

Organizado pelo jornal Público, o dossier "Autárquicas 2013", apresenta um conjunto de dados já conhecidos e divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, mas que são uma boa ajuda para percebermos até que ponto as diversas candidaturas conhecem a realidade (e assumem responsabilidades!).

Claro que o "retrato" da região de Lafões é triste e nenhum concelho tem motivos para se rir do vizinho. Mas, uma análise mais cuidada, mostra a imagem de um interior totalmente abandonado em que, no que ao nosso distrito diz respeito, só o concelho de Viseu consegue apresentar dados mais animadores. Não há, pois, motivos para meias palavras: todos os sinais de alarme já há muito que dispararam e não há mais tempo para esperas e indiferenças. Que têm os candidatos para oferecer?

Para uma mais completa interpretação dos números, recordamos a população dos três concelhos. Vouzela: 10564; Oliveira de Frades: 10261; São Pedro do Sul: 16851.


 Vouzela
Oliveira de Frades
São Pedro do Sul
Média nacional
Índice de envelhecimento
213,4
140,2
207,4
127,8
Relação médico/habitantes
1341,1
1025,1
542
246,7
Pensionistas Seg. Social
40,6%
35,9%
38,8%
32,8%
Desemprego
9,9%
8,7%
11%
13,2%
Beneficiários RMG/RSI
2%
3,1%
5,7%
 5%
- Indicam-se a vermelho os valores que se afastam, pela negativa, da média nacional.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Vouzela na "Illustração Portugueza" com referências à "Monarquia do Norte"


Illustração Portugueza, II série, Nº 684, 31 de Março de 1919, pág. 256, (Hemeroteca Digital, p.p. 18 e 19) - clique nas imagens para ampliar

Através do Facebook, o Prof. Jean-Pierre Silva alertou-nos para esta publicação da Illustração Portugueza. Trata-se de um  trabalho de divulgação da terra, com as tradicionais referências aos aspetos mais pitorescos. Mas, o mais curioso é a alusão feita aos "últimos acontecimentos", nem mais nem menos que os que a História regista com a designação de Monarquia do Norte. Tratou-se de uma tentativa de restaurar a monarquia, na sequência da situação criada com o assassinato de Sidónio Pais e que teve largo apoio, sobretudo, no norte do país. Vouzela é, habitualmente, referenciada no grupo apoiante desse movimento. Ora, pelo que se lê no artigo da Illustração, as coisas não se passaram bem assim. Não só há referência a grupos de civis, "fieis às instituições republicanas", a guardarem a ponte do caminho de ferro, como se termina com um aberto elogio coletivo: "(...) foi esta vila uma d'aquelas que mais valiosos serviços prestou à causa republicana nos últimos acontecimentos". Aqui está um assunto a merecer maior atenção futura.

Destaque, também,  para as imagens que ilustram o artigo. Cinco delas (não sabemos quais), são anteriores à data da elaboração do texto, já que eram apresentadas como oferta de uma "senhora muito modesta, que deseja ocultar o seu nome". De qualquer modo, chamamos a atenção para a que mostra uma avenida João de Melo de menor densidade e uma alameda (atual jardim) que mais não era que um prolongamento do espaço onde se realizava a feira.

sexta-feira, julho 26, 2013

Eleições autárquicas, como de costume


Texto publicado na "Gazeta da Beira" de 25 de Julho de 2013:

Para já, o ambiente que antecede as eleições autárquicas está a ser como de costume. Os partidos do costume, a prioridade dada a nomes em vez de ideias, como de costume. Seria importante que a nossa atitude, enquanto eleitores, não fosse a do costume e, para variar, exigíssemos antes de escolher. Avizinham-se tempos ainda mais difíceis que, para quem vive e trabalha no interior, podem atingir requintes de malvadez.

Estamos a viver uma austeridade que nos apresentam como inevitável, autêntica expiação de pecados que sabemos não ter cometido, mas de que somos constantemente acusados.  A pouco e pouco, começamos a perceber tratar-se de uma estratégia que visa  concentrar riqueza nalguns países e nalgumas instituições financeiras, à custa de um completo desinvestimento nos serviços sociais do Estado e de uma redução do preço do trabalho. De facto, não são necessárias muitas contas para percebermos que fica mais barato condenar os cidadãos a viverem amontoados num qualquer subúrbio de uma grande cidade, do que estar a organizar redes de transportes e serviços de proximidade espalhados pelo país. Além do mais, essa concentração, ao criar um aumento da procura de emprego nas zona onde há maior oferta, contribui para reduzir os salários. Pois é. Tudo se passa, como se o cidadão fosse um incómodo ou um mero joguete ao serviço de interesses alheios e não a razão última de qualquer política.  Mas, é com isso que precisamos de saber viver e, sobretudo, é a isso que precisamos conseguir responder.

Perante tais ameaças, o reduzido poder reivindicativo da região de Lafões é um problema. Os 10261 habitantes de Oliveira de Frades, os 10540 de Vouzela, ou os 16851 de São Pedro do Sul representam, isoladamente, um insignificante peso eleitoral e uma reduzida coleta de impostos para convencer os responsáveis pela atual adaptação nacional das diretivas europeias.  Mas, em conjunto, são quase quarenta mil que, ainda por cima, partilham um património natural comum ao longo dos seus quase 688 Km2. Saber rentabilizar essa força, tem que ser a primeira exigência a fazer às diversas candidaturas porque, sem isso, nada mais conseguimos.

Por outro lado, parece-nos importante termos consciência das prioridades e percebermos que,  oitenta e um mil milhões de euros depois de, em 1989, terem chegado os primeiros fundos europeus, somos um país diferente, mas nem sempre pelos melhores motivos. As autoestradas chegam-nos à porta, mas, fora dos grandes centros, não temos um sistema de transportes públicos minimamente satisfatório. Temos piscinas para todos os gostos e feitios, mas é evidente o desleixo de grande parte dos nossos recursos hídricos (o Vouga que o diga) e há inadmissíveis dúvidas sobre a qualidade da água da rede pública de todos os concelhos de Lafões.  Aumentou o espaço construído (raramente com qualidade), enquanto a população diminui a olhos vistos e é grave o desleixo em que se encontra parte significativa do património edificado. Temos "parques industriais" espalhados por todos os cantos, mas faltam empregos e fogem os jovens. Consumimos produtos das mais variadas partes do mundo, importamos enormes quantidades de carne de vaca, mas os produtores de vitela de Lafões estão cada vez mais envelhecidos e grande parte dos nossos produtos agrícolas mais característicos não passam de meras recordações. Bem precisávamos, agora, de alguns desses milhões que a Europa enviou. Não os vamos ter. Contudo, os problemas que sentimos são reais e exigem solução. São necessárias ideias, tanto ou mais do que dinheiro. Os que quiserem merecer o nosso voto têm que provar tê-las.

Por último, mas, talvez, o mais importante, é urgente estreitar a relação entre eleitores e eleitos, criando mecanismos de participação e controlo que não deixem reduzir a cidadania a atos simbólicos de quatro em quatro anos.  Ao contrário do que ele próprio gosta de apregoar, o poder local nunca foi, entre nós, um exemplo de democracia. Com um executivo dominante, debilmente controlado por assembleias municipais sem grandes condições de funcionamento, não admira que tenha sido terreno fértil para os muitos abusos de que há muito suspeitávamos e que, a pouco e pouco,  vão sendo denunciados. Com a fusão de freguesias promovida pela chamada "reforma Relvas", o problema agravou-se, na medida em que afastou os órgãos de decisão dos habitantes e aumentou a complexidade de gestão. As clientelas partidárias talvez agradeçam, mas nós... nem por isso.  É mais do que tempo de se introduzirem formas de democracia participativa que o reduzido número de habitantes das nossas freguesias facilita, conseguindo-se, desse modo, um maior envolvimento nas decisões e um mais eficiente controlo.  Até que ponto os candidatos a eleitos pelo povo têm dele receio?

Para já, o ambiente que antecede as eleições autárquicas está a ser como de costume. Mas não será o do costume aquele que se lhe irá seguir. Nos recursos disponíveis, nas exigências, na impossibilidade de falhar e, sobretudo, na capacidade de mobilização de vontades, tudo vai ser bem diferente. Seja, então, diferente também, o filtro a que submetemos as diversas candidaturas, para que os próximos quatro anos não se reduzam, como de costume, a um longo lamento em torno de oportunidades perdidas.

quarta-feira, julho 24, 2013

Uma juventude sem vontade


 A juventude da nossa terra é como as águas do Zela. Está cá, mas a maior parte das vezes está parada!


Sou novo por aqui. Um novo elemento no Pastel de Vouzela. Talvez o mais jovem. Dou pelo nome de Rapaz da Senra. E por ser jovem, e preocupado com o rumo da minha terra, não posso deixar de mostrar o meu descontentamento pois apercebo-me que há muito desinteresse dos jovens da minha terra em querer ingressar em movimentos políticos.

É claro que a política não agrada a todos, e cada um é livre de escolher em que iniciativas “se meter”. Mas salta à vista a descrença. Como se o ambiente político que se vive fosse uma alavanca a funcionar ao contrário – “isto está mal e eu quero é afastar-me ainda mais!”. E funciona. A juventude mais qualificada de sempre da nossa região quer ficar longe da política. Essa distância que querem manter como que prepara uma outra distância, mais real e preocupante - o abandono da sua terra natal. E eu percebo! Mas desejava o oposto. Que houvesse vontade de não desistir de viver nas nossas terras.

Qualquer que seja o partido, sendo em prol das nossas terras, e livre das amarras da corrupção, da austeridade e do capital, é um meio para conseguir travar o desequilíbrio e empobrecimento a todos os níveis que se vive em Lafões.

Mas falta a vontade dos jovens da nossa terra. As ideias novas e a força juvenil escasseiam. Precisa-se injectar novo sangue nas nossas autarquias. E não é “novo por ser novo”, não é meter “juventude” a trabalhar nos municípios. É preciso mais que isso. Muito mais. É necessário (urgente!) pensar em ideias e soluções novas, projetos inovadores. Nem tudo envolve grandes quantias de dinheiro. 

Cada município de Lafões pode chamar a si o investimento, no entanto há (muitos) riscos de nunca vir a ser aplicado esse investimento. A força de Lafões, com os três municípios unidos - e não fundidos, pois sou contra o concelho de Lafões- é o futuro. Aceite-se ou não. O “orgulhosamente sós” já lá vai. Não faz sentido que os municípios puxem cada um por si e andem de costas voltadas.

Voltando atrás… Apesar de tudo percebo a descrença dos jovens - a não vontade de entrar, de certa forma, na vida política. Percebo-os! Mas desilude-me essa descrença. A política faz-se por pessoas e para as pessoas. É por ela que parte da nossa vida em sociedade se desenrola. As grandes decisões são tomadas em ambiente político.

Face aos tempos que correm, é um ato de cidadania fazer parte de iniciativas capazes de juntar pessoas em torno de objetivos que contraponham aquilo que se vai fazendo de errado e injusto na esfera política e na governação. Mas (muitos) dos jovens mais qualificados que a nossa terra tem querem é distância da política. E devia ser ao contrário. Perante o rumo errante que as nossas terras levam é nosso dever (de todos, dos jovens principalmente) lutar por mais justiça para estas terras do interior. “Bater punho” como alguém diz por aí. Só lutando, e temos de ser nós, é que se poderá conseguir melhor qualidade de vida para a nossa terra.

 Os jovens que ainda resistem, e existem, por estas terras, são extremamente necessários para criar novas dinâmicas! Venham à luta. Precisamos de ser nós a criar movimentos de cidadãos, juntar pessoas, formar a chamada massa crítica, debater ideias, perceber o que há de errado, pensar em novas soluções. Gerar alternativas. Desenvolver novas iniciativas. 

Queremos as nossas terras a desaparecer?
Queremos ver o interior a ser engolido pelo litoral?
Queremos “Ah, eles que decidam, eu depois voto” ?!
Com certeza que não!
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Esta é a estreia do Rapaz da Senra, o novo colaborador do Pastel de Vouzela. Mais um contributo, de outra geração,com que procuramos contribuir para que Vouzela e a região de Lafões seja alvo de reflexão. Deem-se, pois, as boas vindas ao Rapaz da Senra e que o "punho" não lhe doa, nem o ânimo lhe falte nesse empreendimento.

Pastel de Vouzela

sexta-feira, julho 19, 2013

Dia negro para a floresta

A LPN –Liga para a Protecção da Natureza, repudia veementemente a publicação de hoje em Diário da República do Decreto-Lei nº 96/2013, relativo à acções de arborização e rearborização.

Esta lei vem liberalizar a plantação de espécies exóticas como o eucalipto, penalizar a plantação de espécies autóctones e centralizar, todas as operações, numa entidade recentemente criada, ainda em fase de estruturação, subdimensionada, sem capacidade real e efectiva de fiscalizar e zelar pelo correcto ordenamento florestal no País.  

Apesar da rejeição generalizada das associações ambientalistas e de organizações da sociedade civil, o Governo não teve em conta os avisos que alertaram para o erro crasso e destruidor desta iniciativa.  

A LPN empreenderá todos os esforços para conseguir a revogação deste diploma, porque se trata de um verdadeiro desastre para a floresta e biodiversidade de Portugal.

Lisboa, 19 de Julho de 2013



A Direcção Nacional da LIGA PARA A PROTECÇÃO DA NATUREZA

Era uma "morte" anunciada, um crime que, a partir de hoje, tem cobertura legal. Resta-nos a ação lúcida das associações de produtores, das autarquias locais e dos cidadãos, para tentar minorar os estragos. Pelo menos, que se consigam impor mínimos de proteção de espécies autóctones. Mais uma prova à imaginação dos poderes locais. Ou à falta dela.

quarta-feira, julho 10, 2013

A locomotiva a vapor E96: Aquilo que para nós foi sucata sem valor, foi classificada Monument Historique pelos franceses

 Imagem da locomotiva na atualidade (wikipédia)

A data exata de aquisição desta locomotiva pela Compagnie Française por la Construction et Exploitation de Chemins de Fer a L'Etranger não é totalmente conhecida, mas já estaria em funcionamento na empresa em 1913 (segundo alguns registos de manutenção). Faz parte da série E91 - E97 que a empresa sempre tratou como sendo da marca Orenstein & Koppel, no entanto, duas delas são Decauville's (E93 e E95). Sabe-se hoje em dia que houve algumas trocas de contratos e que teriam sido construídas pela Koppel mas sob licença Decauville que terá fornecido os desenhos e até algumas peça.
A E96 é seguramente de construção Koppel, no entanto, fontes francesas referem que alguns componentes têm gravado um "D" (de droite) e um "G" (de gauche), siglas essas que não têm correspondência nem na língua alemã (origem da Orenstein & Koppel que a fabricou), nem na língua portuguesa (que a adquiriu e manteve). Consideram assim que também esta foi fabricada sob licença Decauville.
Independentemente da sua construção, o que é facto, é que foi adquirida pelas linhas do Vale do Vouga. Manteve-se na empresa até à nacionalização de 1946.
Já na vigência da CP, foi transferida para a Linha do Tâmega em 1974.
Em 1978, a CP considerou que não tinha qualquer interesse e, a exemplo do que fez com outras locomotivas a vapor, vendeu-a ao MTVS (Musée des Tramways à Vapeur et des Chemins de Fer Secondaires Français) que a manteve em funcionamento.

Edição: Musée des Transports de la Vallée du Sausseron (Gare de Valmondois)
Coleção: Carlos Pereira

Aquilo que para nós foi sucata sem valor, foi classificada Monument Historique pelos franceses em 31-12-2002, o que garante a sua preservação.


A "Castella Cigars" numa coleção de 30 cromos que editou, intitulada In search os Steam publicou uma imagem desta locomotiva em pleno funcionamento.

Coleção: Carlos Pereira

A cor original da locomotiva era preta. Desconheço se a locomotiva foi pintada de verde ainda na vigência da CP ou se foi uma pintura posterior. 

Como dizia a minha avó, "o lixo de uns é o tesouro de outros". É uma pena que, no que toca a comboios, sejamos sempre os "uns" e nunca os "outros". Resta-nos a consolação de saber que está em boas mãos, a locomotiva que tantas vezes cruzou a nossa terra e tantos vouzelenses transportou.

segunda-feira, julho 01, 2013

Pensão Jardim


13-08-1955
Querida Avó e Pai
Saúde. A viagem foi boa; boas companhias e grande recepção na estação.
A cruz assinála o nosso quarto. Todos bem dispostos. Saudades em casa do Tio, beijos aos miúdos, um abraço da mãe e outro da vossa neta e filha.

terça-feira, junho 25, 2013

Isto também nos diz respeito: Iniciativa cidadã europeia faz recuar privatização da água


"Um milhão e meio de assinaturas de cidadãos e cidadãs de sete países europeus puseram Bruxelas em sentido: o comissário para o Mercado Interno, Michel Barnier, anunciou que a directiva (...) os planos para legislar sobre a liberalização do abastecimento de água seriam alterados para dar satisfação aos peticionários" (texto completo).

É dos assuntos do momento, daqueles que nos podem entrar pela porta dentro sem haver convite, sobretudo num tempo em que se rapa o fundo ao tacho e se procuram todas as moedinhas que ficaram no fundo dos bolsos. Por isso, convém estarmos atentos. Sobre o que se preparava, já aqui tínhamos falado. Agora, depois desta primeira vitória, é importante que a União Europeia assuma a água como um património público que não pode estar sujeito aos "caprichos" do mercado. Para isso, ajuda assinar esta petição. Isto, diz-nos respeito. 

segunda-feira, junho 10, 2013

Estratégias de propaganda

A D. Otília e o senhor Augusto, como eram carinhosamente tratados os proprietários da Pensão Jardim. Foto retirada do album do neto, João Miguel Ferreira.

Tudo se passou em 1958. Nas eleições presidenciais, Humberto Delgado conseguiu o apoio unânime da oposição e alimentou esperanças de mudança. "Obviamente, demito-o", respondeu, quando interrogado sobre o futuro que reservava a Salazar e o povo acreditou. Centenas de milhar de pessoas sairam às ruas em míticas manifestações em Lisboa e no Porto e, um pouco por toda a parte, organizaram-se apoios. O regime reagiu como sabia: com Américo Tomás e cacetada. Coragem e astúcia eram, então, requisitos obrigatórios, para os que ousavam resistir.

Augusto Lourenço Ferreira, que foi mestre na arte de sapateiro, mas que decidiu investir economias na construção da Pensão Jardim, era um homem forjado nos conflitos da primeira República. Viveu a sua queda e a ascensão dos novos poderes a partir do 28 de Maio, assistindo ao desfile de conterrâneos que, orgulhosamente, publicitavam a pertença à Legião Portuguesa de peito feito e farda engomada. Abra-se, a este respeito, um parêntises e, à laia de desabafo, refira-se que até o campo das Chãs esteve quase transformado em carreira de tiro, para que os garbosos "soldados" afinassem a pontaria na luta contra os "inimigos da Nação", que é como quem diz, aqueles que não afinavam pela cartilha oficial. Certo, certinho é que todos acabavam por ir molhar a goela à loja que ocupava as traseiras da pensão, onde o senhor Augusto, por insondáveis motivos alcunhado de "o Polícia", aviava copos de branco e tinto e alguns petiscos, sem fazer distinções a clientes da situação ou do "reviralho".

Em 1958, Augusto Ferreira apoiou Humberto Delgado. Como de costume, a campanha foi desigual. À quase clandestinidade a que, mesmo em período eleitoral, era remetida a oposição, respondia o regime com a máquina organizada da polícia e de grupos de zelosos "funcionários" que, às claras, distribuíam a propaganda do candidato oficial. Os homens percorriam todo o concelho, distribuinado os papelinhos da "verdade portuguesa" a gente que reunia os requisitos para se pronunciar sobre os destinos da Pátria. A coisa dava sede. E assim, lá iam eles, quando o percurso o proporcionava, encostar a barriga ao balcão do senhor Augusto.

Foi aí que sobressaiu o engenho do velho republicano. A campanha decorreu num mês de Maio que a memória regista mais fresco do que o normal. Mas falamos de um tempo em que a perceção das distâncias dependia da força das pernas e os cães investiam sobre mensageiros que se aproximassem dos portões das propriedades, fossem carteiros ou propagandistas do regime. Ora, é saber antigo que o vinho mata sede, dá forças e arriba o ânimo. Conhecedor de gentes e costumes, o senhor Augusto tratou de encher o copo, mal  avistou o homem da propaganda à porta da loja. Deve ter ido de um trago, adornado com estalo de língua e pancada firme no tampo do balcão. "Bote outro"! Claro que sim. E mais outro e ainda outro, estimulados pela frescura do vinho e por conversa animada. Nada de política. Talvez futebol e do nacional, porque os locais tinham ido levar seis a Vale de Açores, o que não era assunto que se quisesse. E o homem da propaganda lá foi esvaziando um atrás do outro, animado pelo verbo solto e pelos calores que começava a sentir. Tirou o casaco e atirou-o para cima do balcão. "Olhe que o suja. Dê-o cá que lho penduro em local seguro". E assim fez, o senhor Augusto, levando-o para o fundo da loja, aproveitando para trocar os panfletos da distribuição, por outros a favor do general. Missão cumprida, o homem da propaganda lá foi despachado à sua vida. A propaganda foi entregue, mas a mensagem era outra.

De muito do que então se passou, reza a História. Com a oposição impedida de controlar o escrutínio, Américo Tomás foi declarado vencedor com mais de 70% dos votos. Nem Salazar acreditou, apressando-se a mudar o sistema eleitoral para a presidência da república. Humberto Delgado foi, a partir de então, um pesadelo que perseguiu o ditador. Do que poucos souberam, foi do contributo de uns tantos copos de verde, fresco e do engenho de Augusto Lourenço Ferreira.

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Pode ser aqui consultada uma breve cronologia dos principais acontecimentos políticos de 1958.
A imagem da propaganda de Américo Tomás foi  retirada de Ephemera

segunda-feira, maio 20, 2013

As sementes... do futuro


Não experimentem lá em casa, mas podem ter a certeza de que, quando alguém se está a afogar, dificilmente presta atenção às características da vegetação das margens.  Náufragos que somos, nestes tempos de águas agitadas e correntes fortes, sem referências nem boias de salvação, esbracejamos tentando manter a cabeça à tona, esgotados. Mas, algo se passa nas margens. Não estivéssemos demasiadamente cansados e perceberíamos o riso de gozo de quem parece deliciar-se enquanto nos afundamos.

Bruxelas prepara-se para regulamentar a troca de sementes. Isso mesmo. Algo que resulta da adaptação do homem ao meio, através de milhares de anos de experiências e que, como tal, é património da humanidade, pode ser limitado pela exigência de registo de patentes. A consequência prática duma medida destas seria (está a ser!), não só, a perda das espécies tradicionais, como a limitação do comércio de produtos aos que resultem das sementes patenteadas. E quem são os detentores dessas patentes? As grandes empresas agro-químicas, pois claro.

Já em 1984 a FAO calculava a perda da biodiversidade agrícola em todo o mundo, em cerca de 75%. "Até os anos 70, quando a agricultura industrial tomou o globo, cada espécie de planta tinha milhares ou mesmo centenas de milhares de variedades, nalguns casos cultivadas só por uma família. Na altura na Índia existiam perto de duas centenas de milhares de variedades de arroz. Hoje, apenas quatro variedades de arroz alimentam a maioria da população humana e na Índia estima-se que sobrem talvez 10% das variedades tradicionais" (Quercus). Se, durante algum tempo, tudo resultou do poder económico das grandes empresas e do modo como dominaram o mercado, a regulamentação que se anuncia representa uma clara interferência da União Europeia, tomando partido e assumindo um frete ao lado mais forte desta contenda.

Mas, há mais. Acrescentem-se as manobras pouco claras em que Bruxelas tem entrado para promover a privatização da  água, veja-se a regulamentação já existente sobre diversas espécies, recordemo-nos do que esteve quase, quase quanto aos pesticidas e facilmente concluímos que a tal bandeira em prol do "comércio livre" foi remetida para a dispensa da história e que a União Europeia está apostada em facilitar uma monumental concentração de riqueza nos "bolsos" de alguns grupos e de alguns países. E quando lhe disserem que os sacrifícios que lhe estão a exigir são "inevitáveis"; que a privatização das "jóias da coroa" são caminho obrigatório para pagar a dívida... pense nisto. Não querem discutir o "pós-troika"?

segunda-feira, maio 06, 2013

O homem dos trocos

Retirado do Almanach Silva

Andava o mundo às avessas lá pelos idos de 40, quando um metal trouxe uma súbita ilusão de abundância a tempos de fome e de medo: o volfrâmio. As carências no mais elementar, conviviam com o exibicionismo dos que acendiam charutos com notas de conto; as angústias da guerra e do racionamento contrastavam com o desfile de enfeites de ouro e automóveis de encher o olho.

Foi então que por aqui houve um homem, comerciante de fazendas e grande tocador de rabecão, que por ter ouvido educado e tato apurado, rapidamente se adaptou às vibrações dominantes.  Dinheiro, ou não havia, ou havia do grosso, coisa complicada quando apenas se pretendia pagar meio quartilho de vinho e umas lascas de presunto.  Faltavam trocos. Ora, como qualquer bom negócio deve responder a necessidades assumidas, não hesitou o nosso tocador de rabecão: trocava por miúdo, o dinheiro graúdo dos outros. Com um pequeno pormenor: nunca tinha a conta certa. “Teria muito gosto em trocar-lhe essa nota de quinhentos, mas só tenho quatrocentos e oitenta”. Quem se preocupava com ninharias quando a fortuna estava à distância dumas pazadas de terra? “Venham de lá esses quatrocentos e oitenta e fique com os vinte por conta do favor que me faz”. Sim, era isso, uma  paga por serviços prestados, ou, se preferirem, uma espécie de taxa de câmbio entre o mundo dos ofuscados pelo brilho das pedras e a baça existência dos simples mortais.

quinta-feira, maio 02, 2013

A vitória das abelhas


"Três pesticidas vão ser proibidos na União Europeia devido às evidências científicas de que causam a morte das abelhas. Portugal foi um dos países que votou contra, mas a proposta acabou por ter o apoio de 15 dos 27 estados-membros"- Euronews.

Já há muito se sabe que a União Europeia tem as costas largas. Já há muito se sabe ser altamente suspeita a atitude de vários supostos representantes portugueses lá nas cúpulas europeias. Mas, de uma vez por todas, convém que as suas atitudes sejam denunciadas.

Desta vez, tratou-se da proibição de alguns dos pesticidas que  causam a morte das abelhas, situação que, relacionada com outras ameaças, está a ter consequências graves em várias espécies polinizadoras. De acordo com aquela mediocridade a que já nos habituamos vinda do tal "círculo vicioso da governação", a posição portuguesa era a de "empurrar o problema" sem qualquer decisão, mas, claro está, justificando a inoperância com estilo, à imagem  das gravatas do Dr. Paulo Portas: "É nosso entendimento que deve ser dada continuidade aos trabalhos já em curso com vista à consolidação dos princípios e orientações técnicas de avaliação do risco e tomada de decisão relativa aos efeitos dos produtos fitofarmacêuticos em abelhas e, ainda a revisão científica dos protocolos de ensaio de toxicidade de produtos fitofarmacêuticos sobre abelhas, incluindo outros polinizadores, de modo a melhor aferir dos efeitos tóxicos agudos, e subletais destes produtos e dos seus resíduos" (ver aqui)É a tal história do país engravatado de que falava o O'Neill... Na realidade, o que estava em causa era enfrentar empresas como a Bayer (alemã) e a Syngenta (Suíça).

O final da história acabou por se traduzir numa vitória (provisória!) das abelhas e de todos nós. Esperamos para ver quanto tempo vai demorar a transposição da diretiva para a legislação nacional...

terça-feira, abril 23, 2013

Festas do Castelo de 1956

Cuidadíssimo booklet publicitário relativo às Festas do Castelo de 1956. Na época em que tudo se fazia mais devagar, até estas publicidades eram feitas com um carinho especial, "encadernadas" uma a uma com um cordão com as cores da vila. Tive a sorte de um dos 1500 exemplares com 20 páginas (incluindo capa e contracapa) ter chegado às minhas mãos em excelente estado de conservação.


Capa

 

Contracapa

quinta-feira, abril 11, 2013

E as ideias, senhores?


Hesitamos na escolha: não sabemos se é mais correto dizer que a coisa quase atingiu foros de ciência, se de metodologia de concurso de beleza. A verdade é que houve medições, comparações, quem sabe se pesagens. Talvez, até, avaliações em vestes de cerimónia e em fato de banho. Os candidatos desfilaram e assim... ficamos a conhecer a figura proposta pelo PSD para a presidência da Câmara de Vouzela. O que não conhecemos e, muito provavelmente, continuaremos sem conhecer, são as ideias, esse pormenor, pelos vistos insignificante, que devia ser o ponto de partida de qualquer candidatura e a cuja concretização se devia submeter a escolha dos candidatos. Fazer o contrário, deixa a perigosa sensação de se pretender governar "de ouvido", ao sabor da lista de fundos disponíveis ou de qualquer outra coisa ainda pior.

O PS parece querer trilhar caminho semelhante, apenas com uma metodologia- digamos- menos "científica". Neste caso, tudo se tem passado dentro de portas (mas com as janelas escancaradas), numa espécie de processo autofágico invertido, já que têm sido os "organelos envelhecidos" a eliminar (ou, pelo menos, a tentar) o que de mais jovem e inovador tem aparecido. A verdade é que tudo se tem limitado a nomes, ao jogo de influências, sem qualquer conhecido debate de ideias. Aguarda-se, agora, por uma decisiva intervenção da Distrital de onde irá sair uma cara. Mas, nada mais do que isso.

Claro que é triste concluirmos que as delegações concelhias dos dois maiores partidos nacionais, pouco ou nada aprenderam com o que de pior temos vivido na nossa história recente. Mas,  pior ainda, é sabermos que, ou são afirmadas alternativas à gestão municipal que temos tido, ou será inevitável o agravamento das condições de vida dos que ainda por aqui vivem. Ainda mais!

Vouzela tem, neste momento, os piores indicadores de toda a região de Lafões (que, de um modo geral, também não são famosos). Não consegue atrair investimento, não consegue fixar (e muito menos atrair) população, não tem poder reivindicativo, não tem uma estratégia. Também não tem tido a sorte de encontrar quem consiga estabelecer pontes, de modo a que projetos simples, mas de interessante impacto local, possam avançar.

De facto, seria desejável que, independentemente de quem vença as próximas eleições, tivéssemos a certeza de que iriam avançar projetos que, de uma vez por todas, pusessem a região (toda) nas rotas turísticas; que a riqueza do património natural e edificado seria, sempre, um alicerce fundamental desse projeto e um elemento disciplinador de todos outros, devendo, como tal, ser protegido e recuperado; que seriam pensadas estratégias para atrair investimento, de preferência em articulação com atividades locais ou que as possam enriquecer; que seria estudado o modo de conseguirmos um cuidadoso aproveitamento dos recursos naturais; que seria dada prioridade às respostas sociais, quer para melhorar as existentes, quer para enfrentar o agravamento previsível da situação nacional; que seriam dados passos para que haja diálogo entre as lideranças dos três concelhos. Qualquer destas medidas, pode ser alvo de consenso, porque não interfere com as fraturas ideológicas que justificam os partidos. Apenas resolvem problemas e criam condições para que valha a pena viver aqui.

Claro que, em nossa opinião, outras são necessárias e até urgentes. Por exemplo, repensar regulamentos e impostos locais, de modo a estimular a reabilitação dos espaços; proteger marcas da nossa identidade, como as construções em pedra; garantir que, no ordenamento florestal, são protegidas espécies autóctones; repensar todo o sistema de transportes a uma escala regional; criar mecanismos que permitam uma maior participação dos munícipes nas decisões (orçamento participativo), sobretudo numa altura em que, pela infeliz extinção de algumas freguesias, muitas pessoas sentem serem tratadas como cidadãos de segunda. No entanto, percebemos que, nesta última lista, já muito depende dos princípios ideológicos de cada um e do modo como encara a relação entre poderes públicos e iniciativa privada. Fiquemo-nos, então, pela primeira. Que têm a dizer os candidatos a seu respeito? Não fazemos a mais pequena ideia. Para já, tudo se resume à pose para a fotografia oficial de quem parece pensar que o corte do fato é mais importante do que as ideias; de quem parece pensar que as eleições para as autarquias locais mais não são do que uma "contagem de espingardas" ao serviço dos aparelhos nacionais.
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"Não desistimos de viver aqui" é o lema da primeira candidatura à Câmara de Vouzela, a divulgar o seu manifesto. O facto de, neste texto, não lhe termos feito referência, não quer dizer que lhe atribuamos menor importância, mas apenas que não entra nas "contas" que, aqui, quisemos "ajustar".

quinta-feira, abril 04, 2013

Miguel Relvas demitiu-se

Demitiu-se aquele que ficará ligado a uma das maiores mistificações políticas e um dos maiores ataques à democracia cometidos nos últimos tempos: a reorganização administrativa territorial autárquica. A História não o recordará, porque não regista minudências conjunturais. Mas nós, pelos piores motivos, não o esqueceremos.

sábado, março 23, 2013

É para levar a sério?


"O Vice-presidente da Câmara de S. Pedro do Sul desafiou, ontem, os municípios da região a aproveitarem ao máximo as oportunidades que vão estar ao dispor do sector agro-florestal do novo QREN, Quadro Comunitário de Apoio, que vai vigorar entre 2014 e 2020. As declarações de Adriano Azevedo foram feitas na abertura das comemorações do Dia Mundial da Floresta em Lafões, que decorreu (...) em Oliveira de Frades"- VFM

Aqui está um exemplo de um património comum a toda a região, que como tal devia ser gerido e que raramente o foi. Aqui está um exemplo da necessidade de uma melhor articulação das diversas autarquias locais, na gestão de dois importantes recursos: a floresta e a paisagem. Reconhece-se o empobrecimento do património regional, deitam-se lágrimas de crocodilo, sobretudo na "época dos fogos" e tudo volta ao mesmo com as primeiras chuvas. Se é sincero o desejo expresso pelo vice-presidente da Câmara de São Pedro do Sul, só pode ter o nosso apoio. Sobretudo quando se sabe existirem ameaças devido a uma legislação que estimula a proliferação do eucalipto e que não cuida da proteção de outras espécies. Desejamos, sinceramente, que estas preocupações não se limitem a ornamentos de discursos em ano de eleições. Desejamo-lo, sinceramente.

quinta-feira, março 21, 2013

Porque precisamos de poesia. Pelo menos de alguma...

Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
                                     [morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés, 
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
   não pensam noutra coisa
   senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
   nos pintores, nas aflitas,
   no tojé, na grana, no tempero,
   nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
                                        [trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

                          *

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas

quinta-feira, março 14, 2013

Sobre a região de Lafões ou um modesto contributo para avivar a memória


 O Dr. Fernando Ruas, presidente da Câmara  de Viseu e da Associação Nacional de Municípios, decidiu propor a mudança do nome da Comunidade Intermunicipal Dão-Lafões, para Comunidade Intermunicipal da Região de Viseu. Enfim. Já há muito nos habituamos a ouvir do Dr. Ruas, declarações ditadas por necessidades de conjuntura ou, até, sem qualquer sentido, pelo que não estranhamos. No entanto, numa das últimas emissões do programa "Trilogia das Ideias" (4 de Março) da VFM, os intervenientes pronunciaram-se contra o modo como a proposta foi feita (sem consulta aos diversos municípios), mas desvalorizaram a perda de Lafões como identidade que, segundo disseram, quase se limita à vitela e ao vinho. Isso sim, merece reflexão.

Não nos cansamos de citar Amorim Girão (1) quando definiu Lafões como "um todo homogéneo e correspondendo (...) a uma verdadeira região natural". Já nessa altura se insurgia, o Professor, contra uma divisão administrativa "apostada em retalhar e descaracterizar o que de mais profundamente nacional existe no nosso país", contribuindo para o esquecimento de "antigas designações regionais, correspondentes a outros tantos organismos bem individualizados, cujos aspectos dominantes assumem (...) um cunho próprio, que por vezes se revela tanto na constituição geológica dos terrenos e nas formas do relêvo e do clima, como nas diversas manifestações da actividade humana e da vida económica". Hoje, retirem-lhe a especificidade das "diversas manifestações da actividade humana e da vida económica" e o resto está lá todo. Até a necessidade de lutar contra o esvaziamento da memória.

Lafões tem características geográficas bem definidas e uma história razoavelmente conhecida. Quem procura saber algo a respeito de vinho para além da quantidade que lhe enche o copo, sabe não ser por acaso que, num espaço relativamente pequeno, existem qualidades tão diferentes como o Dão e o Lafões. São os ditames da "Mãe Natureza" que criaram condições próprias de solo e clima, orientadoras da vida dos homens ao longo dos séculos e ainda hoje presentes nos aspetos mais pitorescos da paisagem e... na "febre" dos mirtilos.

Só que, há muito que o poder local (com as exceções do costume, claro) deixou de entender o território como um conjunto complementar de recursos que, como tal, deve ser protegido e gerido. O território passou a ser encarado como um meio de dinamizar negócios mais ou menos claros (ou escuros) e um pretexto para justificar a captação de fundos. Tudo foi subordinado a esses objetivos. Ignoraram-se características dos solos e de clima, qualidade das águas, produtos, a possível reconversão de atividades, em favor de parques industriais sem indústrias, urbanizações intensas sem população, produções financiadas para não serem colhidas. Nada se restaura e tudo se constroi, porque é para isso que há "linhas de financiamento". De acordo com esta maneira de pensar, pouco importa a identidade das regiões, porque elas devem sossobrar à impiedosa uniformização. É este o princípio em que se baseia a proposta do Dr. Ruas, mas é, também, tudo o que devemos recusar.

Claro que nos podem dizer que a designação "Lafões" de pouco serviu, até agora. As direções camarárias pouco ou nada dialogam (apesar de serem do mesmo partido), o património comum é ignorado, o território é entendido como área fechada em fronteiras rígidas, em vez de recurso partilhado. Perderam-se produtos característicos, desapareceram atividades, descaracterizaram-se muitos espaços e, por tudo isto, perdeu-se gente. Mas as especificidades naturais lá se mantêm, como um diamante em bruto à espera de quem o saiba trabalhar.

Aqueles que olham para a região limitados ao que há em vez do que queremos que haja e menospresam a sua afirmação,  devem ser coerentes e alargar os horizontes de análise ao todo nacional. Também ele pouco produz, perde serviços e mostra-se incapaz de manter a sua juventude mais qualificada. Apliquem-lhe, então, os mesmos critérios que levam a desvalorizar Lafões e tentem responder: que sentido faz?
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(1)- Antiguidades Pré- Históricas de Lafões, in Memórias e Notícias, Coimbra, Publicações do Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra, 1921 (respeita-se a ortografia original).

quinta-feira, março 07, 2013

São Pedro do Sul: Quando a rainha D. Amélia ia "fazer uso dos banhos thermais"


"De Vizeu a Vouzella- uma distancia de 18 kilometros (sic)- a paysagem é larga e lavada: montanhas aqui, mais além desenrolando-se já em vastissimas planicies, verdadeiros jardins, a esmo espalhados e que só uma concepção divina poderia crear!... Um encanto! Uma manhã d'abril ou maio (...) tomem o carro da carreira, subam para a imperial, e percorram esse pedaço, esse recanto da Beira Alta que vae de Vizeu a Oliveira de Frades".

Trata-se duma reportagem publicada na revista Branco e Negro de 21 de Junho de 1896, que encontramos no Facebook pela mão de José Daniel Soares Ferreira. Na altura, a rainha D. Amélia passava temporadas na região, o que devia aguçar a curiosidade dos jornalistas da capital e os brios locais. Recorde-se que, de acordo com a investigação de Lopes da Costa, foi a uma dessas visitas que se ficaram a dever algumas das primeiras imagens promocionais de Vouzela. Como eram vistas estas terras e as nossas gentes? Como era entendida a ação social da rainha? Onde ficava hospedada? Aí fica um testemunho documental que vale a pena conhecer.

segunda-feira, março 04, 2013

Tirem as mãos da nossa água!

Para ver as legendas em português, passe com o rato sobre a parte inferior do filme e, quando aparecer a barra com as diversas opções, clique em "cc".

É um bem essencial e escasso, logo, um potencial negócio de lucro certo e nulos riscos. Num momento de crise como o que vivemos, a pressão para se arranjarem uns "cobres" com a sua privatização é grande, a que a péssima gestão pública, como a que tem sido feita em Vouzela, cria condições favoráveis. Os problemas vêm depois: aumento do preço, dúvidas sobre a qualidade e, sobretudo, um bem essencial e escasso que sai do controlo público. Numa região de muitos recursos mal aproveitados e mal tratados, convém estar alerta e conhecer as teias dum negócio que devemos recusar. Também interessa saber o que sobre o assunto têm a dizer os candidatos à direção do município. Porque, se o governo pode ser despedido ao som da "Grândola", convém começar a pensar no "E Depois do Adeus".