segunda-feira, maio 06, 2013

O homem dos trocos

Retirado do Almanach Silva

Andava o mundo às avessas lá pelos idos de 40, quando um metal trouxe uma súbita ilusão de abundância a tempos de fome e de medo: o volfrâmio. As carências no mais elementar, conviviam com o exibicionismo dos que acendiam charutos com notas de conto; as angústias da guerra e do racionamento contrastavam com o desfile de enfeites de ouro e automóveis de encher o olho.

Foi então que por aqui houve um homem, comerciante de fazendas e grande tocador de rabecão, que por ter ouvido educado e tato apurado, rapidamente se adaptou às vibrações dominantes.  Dinheiro, ou não havia, ou havia do grosso, coisa complicada quando apenas se pretendia pagar meio quartilho de vinho e umas lascas de presunto.  Faltavam trocos. Ora, como qualquer bom negócio deve responder a necessidades assumidas, não hesitou o nosso tocador de rabecão: trocava por miúdo, o dinheiro graúdo dos outros. Com um pequeno pormenor: nunca tinha a conta certa. “Teria muito gosto em trocar-lhe essa nota de quinhentos, mas só tenho quatrocentos e oitenta”. Quem se preocupava com ninharias quando a fortuna estava à distância dumas pazadas de terra? “Venham de lá esses quatrocentos e oitenta e fique com os vinte por conta do favor que me faz”. Sim, era isso, uma  paga por serviços prestados, ou, se preferirem, uma espécie de taxa de câmbio entre o mundo dos ofuscados pelo brilho das pedras e a baça existência dos simples mortais.

quinta-feira, maio 02, 2013

A vitória das abelhas


"Três pesticidas vão ser proibidos na União Europeia devido às evidências científicas de que causam a morte das abelhas. Portugal foi um dos países que votou contra, mas a proposta acabou por ter o apoio de 15 dos 27 estados-membros"- Euronews.

Já há muito se sabe que a União Europeia tem as costas largas. Já há muito se sabe ser altamente suspeita a atitude de vários supostos representantes portugueses lá nas cúpulas europeias. Mas, de uma vez por todas, convém que as suas atitudes sejam denunciadas.

Desta vez, tratou-se da proibição de alguns dos pesticidas que  causam a morte das abelhas, situação que, relacionada com outras ameaças, está a ter consequências graves em várias espécies polinizadoras. De acordo com aquela mediocridade a que já nos habituamos vinda do tal "círculo vicioso da governação", a posição portuguesa era a de "empurrar o problema" sem qualquer decisão, mas, claro está, justificando a inoperância com estilo, à imagem  das gravatas do Dr. Paulo Portas: "É nosso entendimento que deve ser dada continuidade aos trabalhos já em curso com vista à consolidação dos princípios e orientações técnicas de avaliação do risco e tomada de decisão relativa aos efeitos dos produtos fitofarmacêuticos em abelhas e, ainda a revisão científica dos protocolos de ensaio de toxicidade de produtos fitofarmacêuticos sobre abelhas, incluindo outros polinizadores, de modo a melhor aferir dos efeitos tóxicos agudos, e subletais destes produtos e dos seus resíduos" (ver aqui)É a tal história do país engravatado de que falava o O'Neill... Na realidade, o que estava em causa era enfrentar empresas como a Bayer (alemã) e a Syngenta (Suíça).

O final da história acabou por se traduzir numa vitória (provisória!) das abelhas e de todos nós. Esperamos para ver quanto tempo vai demorar a transposição da diretiva para a legislação nacional...

terça-feira, abril 23, 2013

Festas do Castelo de 1956

Cuidadíssimo booklet publicitário relativo às Festas do Castelo de 1956. Na época em que tudo se fazia mais devagar, até estas publicidades eram feitas com um carinho especial, "encadernadas" uma a uma com um cordão com as cores da vila. Tive a sorte de um dos 1500 exemplares com 20 páginas (incluindo capa e contracapa) ter chegado às minhas mãos em excelente estado de conservação.


Capa

 

Contracapa

quinta-feira, abril 11, 2013

E as ideias, senhores?


Hesitamos na escolha: não sabemos se é mais correto dizer que a coisa quase atingiu foros de ciência, se de metodologia de concurso de beleza. A verdade é que houve medições, comparações, quem sabe se pesagens. Talvez, até, avaliações em vestes de cerimónia e em fato de banho. Os candidatos desfilaram e assim... ficamos a conhecer a figura proposta pelo PSD para a presidência da Câmara de Vouzela. O que não conhecemos e, muito provavelmente, continuaremos sem conhecer, são as ideias, esse pormenor, pelos vistos insignificante, que devia ser o ponto de partida de qualquer candidatura e a cuja concretização se devia submeter a escolha dos candidatos. Fazer o contrário, deixa a perigosa sensação de se pretender governar "de ouvido", ao sabor da lista de fundos disponíveis ou de qualquer outra coisa ainda pior.

O PS parece querer trilhar caminho semelhante, apenas com uma metodologia- digamos- menos "científica". Neste caso, tudo se tem passado dentro de portas (mas com as janelas escancaradas), numa espécie de processo autofágico invertido, já que têm sido os "organelos envelhecidos" a eliminar (ou, pelo menos, a tentar) o que de mais jovem e inovador tem aparecido. A verdade é que tudo se tem limitado a nomes, ao jogo de influências, sem qualquer conhecido debate de ideias. Aguarda-se, agora, por uma decisiva intervenção da Distrital de onde irá sair uma cara. Mas, nada mais do que isso.

Claro que é triste concluirmos que as delegações concelhias dos dois maiores partidos nacionais, pouco ou nada aprenderam com o que de pior temos vivido na nossa história recente. Mas,  pior ainda, é sabermos que, ou são afirmadas alternativas à gestão municipal que temos tido, ou será inevitável o agravamento das condições de vida dos que ainda por aqui vivem. Ainda mais!

Vouzela tem, neste momento, os piores indicadores de toda a região de Lafões (que, de um modo geral, também não são famosos). Não consegue atrair investimento, não consegue fixar (e muito menos atrair) população, não tem poder reivindicativo, não tem uma estratégia. Também não tem tido a sorte de encontrar quem consiga estabelecer pontes, de modo a que projetos simples, mas de interessante impacto local, possam avançar.

De facto, seria desejável que, independentemente de quem vença as próximas eleições, tivéssemos a certeza de que iriam avançar projetos que, de uma vez por todas, pusessem a região (toda) nas rotas turísticas; que a riqueza do património natural e edificado seria, sempre, um alicerce fundamental desse projeto e um elemento disciplinador de todos outros, devendo, como tal, ser protegido e recuperado; que seriam pensadas estratégias para atrair investimento, de preferência em articulação com atividades locais ou que as possam enriquecer; que seria estudado o modo de conseguirmos um cuidadoso aproveitamento dos recursos naturais; que seria dada prioridade às respostas sociais, quer para melhorar as existentes, quer para enfrentar o agravamento previsível da situação nacional; que seriam dados passos para que haja diálogo entre as lideranças dos três concelhos. Qualquer destas medidas, pode ser alvo de consenso, porque não interfere com as fraturas ideológicas que justificam os partidos. Apenas resolvem problemas e criam condições para que valha a pena viver aqui.

Claro que, em nossa opinião, outras são necessárias e até urgentes. Por exemplo, repensar regulamentos e impostos locais, de modo a estimular a reabilitação dos espaços; proteger marcas da nossa identidade, como as construções em pedra; garantir que, no ordenamento florestal, são protegidas espécies autóctones; repensar todo o sistema de transportes a uma escala regional; criar mecanismos que permitam uma maior participação dos munícipes nas decisões (orçamento participativo), sobretudo numa altura em que, pela infeliz extinção de algumas freguesias, muitas pessoas sentem serem tratadas como cidadãos de segunda. No entanto, percebemos que, nesta última lista, já muito depende dos princípios ideológicos de cada um e do modo como encara a relação entre poderes públicos e iniciativa privada. Fiquemo-nos, então, pela primeira. Que têm a dizer os candidatos a seu respeito? Não fazemos a mais pequena ideia. Para já, tudo se resume à pose para a fotografia oficial de quem parece pensar que o corte do fato é mais importante do que as ideias; de quem parece pensar que as eleições para as autarquias locais mais não são do que uma "contagem de espingardas" ao serviço dos aparelhos nacionais.
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"Não desistimos de viver aqui" é o lema da primeira candidatura à Câmara de Vouzela, a divulgar o seu manifesto. O facto de, neste texto, não lhe termos feito referência, não quer dizer que lhe atribuamos menor importância, mas apenas que não entra nas "contas" que, aqui, quisemos "ajustar".

quinta-feira, abril 04, 2013

Miguel Relvas demitiu-se

Demitiu-se aquele que ficará ligado a uma das maiores mistificações políticas e um dos maiores ataques à democracia cometidos nos últimos tempos: a reorganização administrativa territorial autárquica. A História não o recordará, porque não regista minudências conjunturais. Mas nós, pelos piores motivos, não o esqueceremos.

sábado, março 23, 2013

É para levar a sério?


"O Vice-presidente da Câmara de S. Pedro do Sul desafiou, ontem, os municípios da região a aproveitarem ao máximo as oportunidades que vão estar ao dispor do sector agro-florestal do novo QREN, Quadro Comunitário de Apoio, que vai vigorar entre 2014 e 2020. As declarações de Adriano Azevedo foram feitas na abertura das comemorações do Dia Mundial da Floresta em Lafões, que decorreu (...) em Oliveira de Frades"- VFM

Aqui está um exemplo de um património comum a toda a região, que como tal devia ser gerido e que raramente o foi. Aqui está um exemplo da necessidade de uma melhor articulação das diversas autarquias locais, na gestão de dois importantes recursos: a floresta e a paisagem. Reconhece-se o empobrecimento do património regional, deitam-se lágrimas de crocodilo, sobretudo na "época dos fogos" e tudo volta ao mesmo com as primeiras chuvas. Se é sincero o desejo expresso pelo vice-presidente da Câmara de São Pedro do Sul, só pode ter o nosso apoio. Sobretudo quando se sabe existirem ameaças devido a uma legislação que estimula a proliferação do eucalipto e que não cuida da proteção de outras espécies. Desejamos, sinceramente, que estas preocupações não se limitem a ornamentos de discursos em ano de eleições. Desejamo-lo, sinceramente.

quinta-feira, março 21, 2013

Porque precisamos de poesia. Pelo menos de alguma...

Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
                                     [morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés, 
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
   não pensam noutra coisa
   senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
   nos pintores, nas aflitas,
   no tojé, na grana, no tempero,
   nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
                                        [trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

                          *

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas