quinta-feira, março 21, 2013

Porque precisamos de poesia. Pelo menos de alguma...

Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
                                     [morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés, 
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
   não pensam noutra coisa
   senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
   nos pintores, nas aflitas,
   no tojé, na grana, no tempero,
   nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
                                        [trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

                          *

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas

quinta-feira, março 14, 2013

Sobre a região de Lafões ou um modesto contributo para avivar a memória


 O Dr. Fernando Ruas, presidente da Câmara  de Viseu e da Associação Nacional de Municípios, decidiu propor a mudança do nome da Comunidade Intermunicipal Dão-Lafões, para Comunidade Intermunicipal da Região de Viseu. Enfim. Já há muito nos habituamos a ouvir do Dr. Ruas, declarações ditadas por necessidades de conjuntura ou, até, sem qualquer sentido, pelo que não estranhamos. No entanto, numa das últimas emissões do programa "Trilogia das Ideias" (4 de Março) da VFM, os intervenientes pronunciaram-se contra o modo como a proposta foi feita (sem consulta aos diversos municípios), mas desvalorizaram a perda de Lafões como identidade que, segundo disseram, quase se limita à vitela e ao vinho. Isso sim, merece reflexão.

Não nos cansamos de citar Amorim Girão (1) quando definiu Lafões como "um todo homogéneo e correspondendo (...) a uma verdadeira região natural". Já nessa altura se insurgia, o Professor, contra uma divisão administrativa "apostada em retalhar e descaracterizar o que de mais profundamente nacional existe no nosso país", contribuindo para o esquecimento de "antigas designações regionais, correspondentes a outros tantos organismos bem individualizados, cujos aspectos dominantes assumem (...) um cunho próprio, que por vezes se revela tanto na constituição geológica dos terrenos e nas formas do relêvo e do clima, como nas diversas manifestações da actividade humana e da vida económica". Hoje, retirem-lhe a especificidade das "diversas manifestações da actividade humana e da vida económica" e o resto está lá todo. Até a necessidade de lutar contra o esvaziamento da memória.

Lafões tem características geográficas bem definidas e uma história razoavelmente conhecida. Quem procura saber algo a respeito de vinho para além da quantidade que lhe enche o copo, sabe não ser por acaso que, num espaço relativamente pequeno, existem qualidades tão diferentes como o Dão e o Lafões. São os ditames da "Mãe Natureza" que criaram condições próprias de solo e clima, orientadoras da vida dos homens ao longo dos séculos e ainda hoje presentes nos aspetos mais pitorescos da paisagem e... na "febre" dos mirtilos.

Só que, há muito que o poder local (com as exceções do costume, claro) deixou de entender o território como um conjunto complementar de recursos que, como tal, deve ser protegido e gerido. O território passou a ser encarado como um meio de dinamizar negócios mais ou menos claros (ou escuros) e um pretexto para justificar a captação de fundos. Tudo foi subordinado a esses objetivos. Ignoraram-se características dos solos e de clima, qualidade das águas, produtos, a possível reconversão de atividades, em favor de parques industriais sem indústrias, urbanizações intensas sem população, produções financiadas para não serem colhidas. Nada se restaura e tudo se constroi, porque é para isso que há "linhas de financiamento". De acordo com esta maneira de pensar, pouco importa a identidade das regiões, porque elas devem sossobrar à impiedosa uniformização. É este o princípio em que se baseia a proposta do Dr. Ruas, mas é, também, tudo o que devemos recusar.

Claro que nos podem dizer que a designação "Lafões" de pouco serviu, até agora. As direções camarárias pouco ou nada dialogam (apesar de serem do mesmo partido), o património comum é ignorado, o território é entendido como área fechada em fronteiras rígidas, em vez de recurso partilhado. Perderam-se produtos característicos, desapareceram atividades, descaracterizaram-se muitos espaços e, por tudo isto, perdeu-se gente. Mas as especificidades naturais lá se mantêm, como um diamante em bruto à espera de quem o saiba trabalhar.

Aqueles que olham para a região limitados ao que há em vez do que queremos que haja e menospresam a sua afirmação,  devem ser coerentes e alargar os horizontes de análise ao todo nacional. Também ele pouco produz, perde serviços e mostra-se incapaz de manter a sua juventude mais qualificada. Apliquem-lhe, então, os mesmos critérios que levam a desvalorizar Lafões e tentem responder: que sentido faz?
_______________
(1)- Antiguidades Pré- Históricas de Lafões, in Memórias e Notícias, Coimbra, Publicações do Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra, 1921 (respeita-se a ortografia original).

quinta-feira, março 07, 2013

São Pedro do Sul: Quando a rainha D. Amélia ia "fazer uso dos banhos thermais"


"De Vizeu a Vouzella- uma distancia de 18 kilometros (sic)- a paysagem é larga e lavada: montanhas aqui, mais além desenrolando-se já em vastissimas planicies, verdadeiros jardins, a esmo espalhados e que só uma concepção divina poderia crear!... Um encanto! Uma manhã d'abril ou maio (...) tomem o carro da carreira, subam para a imperial, e percorram esse pedaço, esse recanto da Beira Alta que vae de Vizeu a Oliveira de Frades".

Trata-se duma reportagem publicada na revista Branco e Negro de 21 de Junho de 1896, que encontramos no Facebook pela mão de José Daniel Soares Ferreira. Na altura, a rainha D. Amélia passava temporadas na região, o que devia aguçar a curiosidade dos jornalistas da capital e os brios locais. Recorde-se que, de acordo com a investigação de Lopes da Costa, foi a uma dessas visitas que se ficaram a dever algumas das primeiras imagens promocionais de Vouzela. Como eram vistas estas terras e as nossas gentes? Como era entendida a ação social da rainha? Onde ficava hospedada? Aí fica um testemunho documental que vale a pena conhecer.

segunda-feira, março 04, 2013

Tirem as mãos da nossa água!

Para ver as legendas em português, passe com o rato sobre a parte inferior do filme e, quando aparecer a barra com as diversas opções, clique em "cc".

É um bem essencial e escasso, logo, um potencial negócio de lucro certo e nulos riscos. Num momento de crise como o que vivemos, a pressão para se arranjarem uns "cobres" com a sua privatização é grande, a que a péssima gestão pública, como a que tem sido feita em Vouzela, cria condições favoráveis. Os problemas vêm depois: aumento do preço, dúvidas sobre a qualidade e, sobretudo, um bem essencial e escasso que sai do controlo público. Numa região de muitos recursos mal aproveitados e mal tratados, convém estar alerta e conhecer as teias dum negócio que devemos recusar. Também interessa saber o que sobre o assunto têm a dizer os candidatos à direção do município. Porque, se o governo pode ser despedido ao som da "Grândola", convém começar a pensar no "E Depois do Adeus".

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Locomotiva E181

Locomotiva E181 fotografada em Vouzela no dia 16-05-1972. 


sexta-feira, fevereiro 15, 2013

À atenção dos arquitetos locais e a pensar em certas obras que se anunciam

Repetimos um destaque, já aqui feito em 2009:  
"Acho que os meus colegas arquitectos pensam que somos todos parvos. Parece que é coisa da arquitectura contemporânea, aquela com “linhas modernas”, genuína da Bayer. Vocês sabem. As caixas brancas suspensas no ar. Eu cá não sei, mas parece que imaginamos o povo como uma cambada de tolinhos a “extasiar” perante as paredes brancas. Paredes não, paramentos, que é mais poético. Eis, então, tudo a extasiar perante os volumes hirtos no horizonte. Coisa linda"- A barriga de um arquitecto

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Escriptura de sociedade que entre si fazem o Presidente, Directores para a organização de uma Philarmonica d'esta Villa

A Banda em 1908. Ver a legenda da foto  aqui.

O documento que citamos (1), datado de 7 de Abril de 1872, é a escritura de constituição da sociedade que criou a "Philarmonica Vouzellense" que antecedeu a atual Sociedade Musical Vouzelense. Trata-se de um interessante registo não só para a história deste tipo de coletividades concelhias, como também para ilustrar o tecido económico e social da época. Numa altura em que se comemoram os 141 anos da Banda, aqui fica para recordar:

Saibam quantos esta publica Escriptura de contracto de sociedade virem, que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus [2] Jesus Christo de mil oito centos setenta e dois, aos 7 de Abril n'esta Villa de Vouzella, e meu cartorio, foram presentes, de uma parte o Excellentissimo João Telles de Loureiro, solteiro, proprietario de Vilharigues, na qualidade de Presidente, João Antonio de Figueiredo, solteiro, Recebedor d'esta Comarca, e Manoel d'Almeida Casaes, casado, negociante, moradores n'este mesma Villa, estes como directores, e da outra parte os socios Augusto José de Figueiredo, casado, sapateiro, com seu fiador, José manuel Serafim, solteiro, carpinteiro, cunhado do dito socio; Francisco Ferreira Pessoa, solteiro, funileiro, com seu fiador, o Reverendo José de Moraes e Carvalho, José Marques, solteiro, carpinteiro de Sampaio, com seu fiador, seu cunhado Augusto José de Figueiredo, já referido; Manoel Rodrigues Ferreira, casado, alfaiate, com seu fiador Antonio Teixeira de Figueiredo, carcereiro da Cadeia d'esta Villa; Ricardo José da Maia, solteiro, caeador, com o fiador seu pae Antonio d'Almeida Paçarico, pedreiro; Bruno José d'Almeida, solteiro, espingardeiro, com o fiador seu pae José Bernardo d'Almeida, casado, official de diligencias; José Ferreira Sequeira, caeador, com seu fiador o predito socio Augusto José de Figueiredo; José Maria da Silva, solteiro, official de alfaiate, com seu fiador Joaquim d'Almeida, casado, sapateiro; Thomaz da Gama e Mello, solteiro, offucial de sapateiro, com seu fiador José Marques d'Almeida, casado, jornaleiro; e Domingos Simões Marques, solteiro, official de alfaiate com o fiador seu pae Marcellino Simões, casado, jornaleiro, estes dois socios menores de vinte e um annos, mas maiores de quatorse, todos os outros bem como os fiadores de maior edade, e Marcellino Corrêa, solteiro, lavrador, com seu fiador seu pae José Corrêa, casado, lavrador, ambos de maior edade, todos moradores n'esta Villa, meus conhecidos e das testemunhas ao diante nomiadas e assignadas, de que dou fé. Por todos os socios, directores e Presidente foi dito que tinham resolvido criar uma Philarmonica denominada =Philarmonica Vouzellense= não só para se recriarem, mas para tocarem aonde forem convidados, mediante qualquer ajuste: Que esta sociedade é feita pelo tempo de dez annos, podendo, depois d'este tempo, continuar a mesma sociedade com os socios que quizerem continuar, ou outros que de novo entrarem. Pelo Presidente foi dito que tomava sobre si a guarda do regulamento original, dando depois uma copia autentica [2 v.] para a direcção; e quando algum socio der cauza a que seja precizo por o regulamento em juizo serão todas as despesas feitas a custa daquelle que der cauza; que qualquer certidão que seja pedida a requerimento de parte, será paga por quem a pedir; os socios e seus fiadores ficam sugeitos a quaes quer despesas que os directores façam com os instrumentos e outros objectos necessarios. Pelos directores foi dito mais que se obrigavam a tomar sobre si a direcção da presente Philarmonica tomando cada um a seu cargo a direcção seis mezes cada anno, salvo para casos que sejam precisos ambos de dois; quando porvintura não possa cumprir aquelle a quem pertença officiará um ao outro para fazer as suas vezes, e no caso que nem um nem outro possam, de accordo com o Presidente nomiarão interinamente quem suas vezes faça. Que os socios muzicos, por si e na qualidade indicada, se obrigão mais a observar o regulamento que se acha asignado pelo Presidente o Excellentissimo João Telles do Loureiro Cardoso de Figueiredo e Almeida: E pelos directores João Antonio de Figueiredo e Manoel d'Almeida Costa Casaes, que é escripto em oitavo de quinze folhas contendo cincoenta e quatro artigos que n'este acto foram lidos perante todos [sic] e que tambem vão assignados por todos e que hade ser transcripto no traslado d'esta Escriptura, ficando d'elle fazendo parte, pois fica sendo sua lei e como tal o reconhecem para todos os effeitos legaes, independetementemente [sic] d'outra qualquer formalidade; e bem assim pelos ditos socios muzicos e seus fiadores, foi mais dito que não só se sugeitavam ás condições que ficam estipuladas e ao regulamento, mas a qual quer alteração que seja precisa fazer-se sendo approvada pela direcção e maioria dos socios. E pelos mencionados directores foi mais dito que se obrigavam a bonar [sic] toda e qual quer quantia necessaria para a mesma, mas sim qualquer socio que tenha meios terá de pagar o seu instrumento d'entro do pago alias do praso de meio anno, e aquelle que não tiver ser-lhe-ha descontado nas cotas que tiver havendo cofre. E n'este acto foi tambem presente Domingos Rodrigues de Sequeira, solteiro, maior, official, digo maior, Secretario da Administração d'este concelho, e morador n'esta Villa, [3] que disse aceitava de Secretario da presente sociedade, tomando a seu cargo as obrigações que lhe são impostas no regulamento já mencionado. E por todos o Excellentissimo Presidente, directores, socios e fiadores mencionados foi outro sim dito que acceitavam esta Escriptura na sua forma com todas as condições e obrigações n'ella impostas, sugeitando-se todos ao inteiro cumprimento d'ella sob a obrigação de sua pessoa e bens. Assim o disseram, acceitaram e outorgaram e eu acceitei a bem dos auzentes a quem tocar possa, sendo testemunhas presentes a este acto José Agostinho Ferreira, casado, proprietario, e José Augusto Ferreira, casado, alfaiate, ambos maiores e d'esta Villa, e a rogo dos que não sabem escrever assigna Alfredo Augusto Ferreira e Silva, solteiro, professor do insino [sic] primario em Rio Muinhos e actualmente residente n'esta mesma Villa, a quem rogaram para o fazer, que todos assignaram depois de lida por mim Manoel da Silva Tavares Junior, Tabellião publico de Notas, que Escrevi e assignei em publico e raso.
                                              
Em test.º MSTJ de verd.e
O T.am Manoel da Silva Tavares Junior

João Telles de Loureiro Cardozo de Figueiredo e Almeida
João Antonio de Figueiredo
Manoel d'Almd.ª Costa Casaes
Domingos  Rodrigues de Sequeira
Augusto Jose de Figd.º
Jose Marques
Francisco Ferreira Pessoa
Thomaz da Gama e Mello
Joze Marques de Almeida 
Domingos Simões Marques
Marsalino Simois
Ricardo Joze da Maia
João Ferreira Sequeira
Bruno Joze de Almeida
Jose Bd.º de Almd.ª
P. e  Jose de Moraes Carvalho
Jose Maria da Silva
Manoel Roiz Ferr.ª
Antonio Teixr.ª de Figd.º

A rogo,
Alfredo Augusto Ferreira da Silva
Jose Augusto Ferreira

J.e Agostinho Ferr.ª   
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(1)- Os nossos agradecimentos à Dra. Raquel Ferreira que nos cedeu o documento.