quarta-feira, novembro 11, 2009

Uma faceta menos conhecida da Associação de Futebol "Os Vouzelenses"

Primeira e última páginas dos estatutos que legalizaram a Associação de Futebol "Os Vouzelenses". São perceptíveis as assinaturas dos fundadores: Joaquim de Souto e Melo, Vitorino Figueiredo de Almeida Campos, António Francisco de Paiva, Celso Ilídio da Silva Giestas, Guilherme José Joaquim Cosme, Elmano dos Santos Ferreira Dória, Paulo de Figueiredo, Luís de Sousa, João Ferraz de Melo Cardoso, Afonso Augusto de Figueiredo, António Ribeiro Bordonhos, José Cardoso de Barros, Aurélio Henriques Almeida Oliveira, Francisco Pinto Gomes, Bernardo Caixa, António Henriques dos Santos, António Joaquim de Almeida Campos.

Esteve para se chamar "Clube de Futebol Os Vouzelenses", porque um dos sócios fundadores era do Belenenses (1). Devido ao sportinguismo de outro, teve as primeiras camisolas verdes e brancas. Mas outras influências acabaram por marcar os primeiros passos da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", pensada há 80 anos (10 de Novembro) por um grupo de jovens sedentos de actividade, mas estruturada por outros, menos jovens, conscientes de que, na Vouzela de 1929, as poucas oportunidades tinham que ser aproveitadas e que nem só de bola vive o homem.

Década terrível a de 20, iniciada com memória bem viva de uma guerra há pouco terminada, agravada por uma pandemia, a "Pneumónica" (que obrigou a ampliar o cemitério de Vouzela) e concluída com o despoletar da "Grande Depressão". Pelo meio, Portugal viu instaurada a ditadura (1926) e Vouzela ficou sem a Comarca (1927). No entanto, talvez tenha sido a necessidade de contrariar todas estas adversidades que aguçou o engenho e a vontade, fazendo dessa mesma década um marco de realizações no Concelho.

Foi neste contexto que nasceram "Os Vouzelenses" e é ele que reflecte nas preocupações que lhe deram origem. De facto, da leitura dos seus primeiros estatutos (aprovados em 5 de Janeiro de 1930), fica-se com a ideia de que se procurou ir muito mais longe do que simplesmente criar um clube de futebol, que se aproveitou o pretexto para lançar aqueles jovens num trabalho solidário com uma população cheia de carências.

Logo no artigo 1º podia ler-se: "Sob a denominação 'Os Vouzelenses' é formada uma associação de desporto, instrução, educação cívica e auxílio mutuo(...)"(2). Mas no artigo 3º, ia-se mais longe: "Com o objectivo de instruir e educar, (desenvolverá) o maior esforço a fim de chamar à Associação o maior número possível de cidadãos, criando aula noturna, promovendo passeios, conferências (...)". No artigo seguinte, vinha a "jóia da coroa": "Prestará assistencia moral e material a todo o associado (...)", prevendo consultas médicas gratuitas, subsídios para medicamentos e auxílio "em qualquer conjuntura em que o associado peça a assistencia da Associação e esta reconheça em Assembleia Geral dever prestar-lha". Para tal, previa-se a acção solidária dos sócios que se disponibilizariam a pagar uma "quota suplementar".

Convém recordar que se estava no Portugal dos anos 20-30. A taxa de analfabetismo ultrapassava os 60% (bastante mais entre a população agrícola), a média de vida limitava-se aos 45 anos para os homens e 49 para as mulheres e a mortalidade infantil atingia valores de 144/1000(3). Vouzela era um concelho quase exclusivamente rural, com uma população a rondar os 15 mil habitantes, número excessivo para as características económicas dominantes e sem a possibilidade de recorrer à emigração (por causa da guerra, primeiro, e da crise económica, depois). A vila terminava na Escola Conde Ferreira, não havia passeios nas suas principais artérias e o chafariz, actualmente no Largo do Convento, estava localizado bem no centro da Praça da República por motivos que nada tinham que ver com a simples decoração...

Da actividade cultural então prevista conhecem-se algumas acções, tais como conferências, aulas nocturnas (ministradas graciosamente por um famoso professor daquele tempo, José Manuel da Silva) e algumas representações teatrais orientadas por António Joaquim de Almeida Campos (autor dos estatutos). Não sabemos se alguma vez foi posta em prática a vertente de solidariedade social, apesar de haver notícia de um forte esforço financeiro feito nos primeiros anos da Associação por alguns dos seus fundadores. No entanto, fica o exemplo daqueles que souberam interpretar o seu tempo e, com conhecimento e imaginação, usar os (poucos) recursos de que dispunham. Foi há oitenta anos (4).
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(1)- Quem quiser conhecer a história da Associação de Futebol "Os Vouzelenses", tem que consultar duas fontes: o artigo que Afonso Campos escreveu na edição comemorativa publicada pelo "Notícias de Vouzela" em 1979 e o trabalho de Lopes da Costa, arquivado na Biblioteca Municipal. Este último, para além de ser um conhecido estudioso da história de Vouzela, viveu o clube nas diversas dimensões que lhe marcaram os primeiros tempos, tendo sido jogador e membro do seu grupo de teatro.

(2)- Respeitamos a grafia original.


(3)- História de Portugal, José Mattoso

(4)- Os nossos agradecimentos ao actual presidente da Associação, Engº. Aidos, por nos facultar cópia dos Estatutos de 1930.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Vista aérea

Vista aérea do centro da vila, Edição Foto Bela- Colecção de Augusto Matos

Esta fotografia, da autoria do Tenente Morais Carvalho, deve ter sido tirada na mesma altura de uma outra já aqui publicada. Destaque para a Avenida João do Melo, artéria central na imagem. A Igreja da Misericórdia é de fácil identificação, assim como a casa que alguns pretendem "furar". De fácil identificação são, também, os terrenos beneficiados com tal "furo"... Esperamos que o tempo tenha sido bom conselheiro e nos evite este... buraco.

sábado, novembro 07, 2009

A CARRUAGEM

Sempre se disse que pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro. Poderíamos dizer o mesmo em relação à Justiça: pelo andar dos processos se vê quem são os arguidos, ou seja se for gente importante anda devagar, se for arraia miuda é um ver se te avias.

Vem isto ao caso da já tão falada "Operação Face Oculta", que diáriamente nos vai surpreendendo com mais um personagem de um enredo digno de um filme do Coppola, tipo o Padrinho, diferindo apenas no facto de, no filme, se saber quem ele é.

O Dom Corleone português ainda não tem nome que se conheça, ou melhor, que o povo conheça, pois possivelmente a Policia e/ou o Ministério Público sabem bem quem ele é, só que ainda não reuniram provas. Ou o figurão está lá muito em cima, onde dificilmente será atingido, pois se tem poderes para atrasar ou avançar com as investigações, imagine-se o quanto ele pode.

Soube-se agora que as certidões emitidas pelo Tribunal de Aveiro estavam na PGR há quatro meses ou seja, se o que se sabe agora tivesse sido conhecido há quatro meses atrás (Julho), poderia ter tido influencia no resultado eleitoral...

De acordo com o Inspector Carlos Anjos, a policia judiciária não está condicionada a qualquer calendário político. Será? Temos dúvidas.

Quanto ao Don Corleone seria bom sabermos o seu nome, vê-lo acusado e julgado para a tranquilidade de todos e a bem da Nação. É que se este esquema estava montado nas sucatas o que se passará com todas as outras volumosas aquisições de bens e serviços que as empresas públicas fazem?

Espera-se pois que a Justiça desta vez, não tarde nem falhe.

20 de Março é dia de limpeza

"Partindo do relato de um projecto desenvolvido na Estónia em 2008, um grupo de amigos decidiu colocar 'Mãos à Obra' e propor 'Vamos limpar a floresta portuguesa num só dia'. Em poucos dias estava em marcha um movimento cívico que conta já com cerca de 6000 voluntários".

São acções destas que podem mostrar às autoridades nacionais e locais que os cidadãos estão atentos aos espaços naturais. Quando o movimento estiver em marcha, vão aparecer (as autoridades), tirar muitas fotografias e... rezar aos santinhos para que tudo caia no esquecimento no dia seguinte. Compete-nos impedir que o consigam.

O dia 20 de Março de 2010, é dia de limpeza. Em Vouzela já há gente que mexe. Quer ser o próximo?

quinta-feira, novembro 05, 2009

Completamente de borla

Rua de São Frei Gil

Pronto! Temos governo novo, nova equipa camarária, os vencedores lançaram os foguetes da praxe, os vencidos deram as justificações de ocasião. Feitos os habituais balanços, uma conclusão é inevitável: estamos na mesma! Do estado geral da Nação, outros se irão ocupar com maior competência. Ficamo-nos por um olhar por estas margens de um Vouga com água a menos e dúvidas a mais.

No seu discurso de vitória, o Dr. Telmo Antunes realçou mais uma maioria absoluta alcançada pelo seu partido. Convém que tenha consciência de que esse mesmo (legítimo) motivo de orgulho é, também, o que não lhe dá qualquer margem para falhar. O mandato que agora se inicia, vai usufruir de um empréstimo polémico, apresentado como solução para a calamitosa situação financeira da Câmara. Ninguém perdoará que um simples cêntimo seja gasto, sem uma criteriosa definição de prioridades.

Em bom rigor, muito do que Vouzela necessita, tem mais que ver com ideias do que com dinheiro. Trata-se, sobretudo, de manter a casa arrumada, proteger o que a "Mãe Natureza" nos deu... completamente de borla. Às vezes fazemos lembrar uma riquíssima casa senhorial, cheia de tradição e valiosíssimo mobiliário que o desleixo vai abandonando ao caruncho e o mau gosto leva a substituir por cangalhada em contraplacado...

Estimular a recuperação do património edificado, em grande parte nas mãos de privados, pode ser feito através de facilidades fiscais e de licenciamento, melhorando a imagem da região e criando emprego. É verdade que se perdeu uma oportunidade aquando da elaboração do Regulamento de Edificações Urbanas, de modo a criar condições para a preservação de marcas importantes da nossa identidade e, até, para obrigar a construção a preparar-se para os desafios inevitáveis com as alterações climáticas. Mas, são precisamente esses descuidos que dificilmente se podem voltar a admitir a quem tem todas as condições para trilhar um caminho que ele prórpio abriu.

O mesmo se pode dizer da resolução, de uma vez por todas, do tratamento de águas residuais, acabando com a anedótica situação de uma ETAR curta para as necessidades e de que a recuperação das águas do Vouga bem necessita. O final desta história vai exigir muito dinheiro. Só que, até lá chegarmos, apenas necessitamos de habilidade, de capacidade de persuasão, para levar as autoridades de São Pedro do Sul a assumirem as suas responsabilidades.

Por último, ainda no domínio do que não custa um cêntimo, convém não desperdiçar recursos. A Reserva Botânica de Cambarinho tem oito meses para ver definida a sua situação legal; a divulgação da imagem do concelho, tem tudo por fazer. Lemos, há dias, que alguns jornalistas tentaram contactar os responsáveis pela produção tradicional dos nossos pasteis e não conseguiram. Desconhecemos os motivos do fracasso, mas a verdade é que não conseguimos compreender que a história do mais famoso produto regional, não seja "cantada" a cada esquina, que é como quem diz, devidamente publicitada. Sem entrar na divulgação do que apenas deve ser do domínio dos eleitos, quer o Turismo, quer o Museu municipal, podiam organizar uma pequena exposição permanente, ilustrando os diversos passos da produção da iguaria e realçando as suas especificidades- barato e eficaz.

Claro que muito falta fazer e muito dinheiro será necessário- aí, o importante é sentirmos serem justificados os impostos que pagamos. Mas é tempo de assumirmos que a preservação é mais barata do que a construção e que a "Mãe Natureza" é, por si só, o melhor dos executivos camarários. Completamente de borla.

segunda-feira, novembro 02, 2009

São Pedro do Sul- Um dia de mercado

Edição Sebastião & Sobriela, colecção de Marisa Araújo

As reacções que temos recebido dos leitores sempre que publicamos imagens antigas, mostram-nos que, muito mais do que nostalgia, há um enorme descontentamento sobre o modo como se tem erigido a "modernidade" numa das mais belas regiões de Portugal- a nossa. Um dos objectivos que nos levaram a mostrá-las, foi precisamente provocar esse confronto entre o que era e o que é. No entanto, até agora sentíamos a falta da representação de São Pedro do Sul, já que os "nossos" coleccionadores são de Oliveira de Frades e de Vouzela. Felizmente, a leitora Marisa Araújo abriu a porta da resolução do problema, através de um simpático "mail" onde nos enviou sete reproduções de postais antigos. Vão passar a fazer parte do folhado fino deste pastel, como sempre às segundas-feiras. Com os nossos agradecimentos.

domingo, novembro 01, 2009

A GRIPE "A"

Confesso que estou baralhado. Isto da gripe "A" ou é uma história mal contada, ou um enorme "bluff". No principio era o verbo, desculpem, era o vírus; depois a pandemia seguida do "Tamiflu" depois a vacina em duas doses e agora a vacina numa só doze. Tudo isto cheira mal. Por outro lado o que está a acontecer é surrealista e passo a narrar um caso em que fui interveniente.

A. foi alertada pela escola do seu filho que o dito estava com dores de cabeça, febre alta a rondar os 39ºC e tinha vomitado: sintomas de gripe "A". Já em casa ligou para a linha saúde 24 tendo-lhe sido dito que o menino deveria tomar um antipirético e que "caso a febre não baixasse, levado a um centro de acolhimento especialmente criado para esta situação". E foi o que aconteceu, mas contrariamente ao que temos ouvido, não foi receitado nenhum antiviral e nem sequer foi feita qualquer recolha de sangue para análise. Mais antipirético , máscara, isolamento, lavar mãos etc e tal. Convém também dizer que no tal centro de "acolhimento" estavam +/- 100 crianças e apenas três médicos e quatro ou cinco enfermeiros/as. Ah! e tinha hórário: fechava às 20.00hs, mas nesse dia, dada a afluência fechava às 19.00hs para atender os que já lá estavam, devendo os outros dirigirem-se a um hospital pediátrico (averiguei posteriormente que pelas 22.00 hs estavam cerca de 230 crianças para serem atendidas por quatro-médicos-quatro no referido hospital).

Questionei um médico sobre este assunto e para meu espanto (?) fiquei a saber que este está a ser o procedimento adoptado pelos serviços de saúde e que da análise, quando é feita só , se conhecem os resultados sete dias depois, ou seja, fica-se só a saber se se teve ou não porque nesses sete dias, normalmente a gripe desapareceu.

E face ao exposto eu pergunto:

1. Já se esgotou o "Tamiflu" que havia em armazém?
2. Se não era preciso porque é que se utilizou?
3. Se esta gripe é tratada como uma sazonal, porque este alarmismo?
4. Se só temos resultados das análises depois da cura para que servem?

Também a vacina me deixa algumas dúvidas.:

1. É possível em quatro meses descobrir e testar uma vacina?
2. E se foi estudada para ser aplicada em duas doses de um dia para o outro passa a ser só numa?
3. E porque é que muitos profissionais de saúde não a quiseram levar?
4. Os laboratórios já esgotaram os stocks?

De tudo isto apenas registo um caso positivo: os deputados na sua maioria não se consideraram incluidos no grupo dos imprescindíveis. É que de facto não são.