quinta-feira, junho 04, 2009

Indiferença, de quem?

Musa Gumus (Turquia). Primeiro prémio do Concurso Europeu de Cartoon 2008

Tudo se passou como de costume: uma curiosa visão da política limitada a questões tácticas, domínio completo de assuntos internos como o caso BPN, inúmeros lamentos sobre o risco da abstenção. Como de costume, durante a campanha para as Europeias.

Até admito que o Daniel Oliveira tenha razão e estejamos a ser influenciados pelas escolhas dos jornalistas, mas a a verdade é que não me recordo de ouvir ou ler propostas concretas dos principais partidos sobre problemas ambientais e política agrícola. Curiosamente, duas áreas em que (quase) tudo depende das opções de Bruxelas e onde há sérias suspeitas de se estar a perder dinheiro, com fundos desperdiçados e processos perdidos. Valia a pena ficarmos a saber o que cada um pensa a este respeito. Não ficámos.

A coberto das costas largas da crise, Portugal retrocedeu em áreas significativas do ambiente e do ordenamento do território. Depois das enfáticas promessas do primeiro-ministro sobre o cumprimento das metas do Protocolo de Quioto e a "revolução" das energias alternativas, acabámos atolados em confusões, projectos adiados e até na desconfortável sensação de que vale tudo desde que pague impostos (alguns, pelo menos). Pelos vistos, os protagonistas do rotativismo entendem que o país deve sair da crise tal como entrou: desleixado, sujo, desordenado, injusto. A maior exigência nas medidas ambientais, devia ter sido encarada como uma oportunidade para orientar a reestruturação da nossa economia, alcançando patamares mais elevados- apenas foi uma bandeira de conjuntura.

Sobre a agricultura, para além de umas acusações a Jaime Silva a propósito de fundos perdidos, nem uma palavra (falada ou escrita). De uma vez por todas, que pensamos da Política Agrícola Comum? Que futuro perspectivamos para além das mil e uma artimanhas para sacar dinheiro à Europa? Acreditamos ou não, que a agricultura portuguesa tem um espaço (mercado) que pode conquistar, baseada numa oferta de maior qualidade, em vez de fingirmos que tentamos concorrer no domínio da produção intensiva?

De facto, vimos muito pouca Europa nesta campanha europeia. Pelo menos, a Europa que nos interessa, que nos olha, a nós cidadãos europeus que também vivemos no interior, como uma das razões de ser das suas políticas. Se calhar, a indiferença de que nos acusam, é directamente proporcional à que sentimos naqueles que só de quatro em quatro anos se preocupam com a nossa indiferença. Talvez comece a ser altura de deixar claro que somos os melhores representantes dos nossos próprios interesses.

segunda-feira, junho 01, 2009

A Praça de Oliveira de Frades


Quem se lembra da velha Praça de Oliveira de Frades, aqui algures pelos anos 50?
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Nota: A partir de hoje, a publicação de postais antigos vai ser alargada aos restantes concelhos da região.
Posted by Picasa

sexta-feira, maio 29, 2009

Ficam os lamentos


As diversas etapas da realização do anúncio

Quase se pode falar em característica nacional: quando existe um espaço de invulgar beleza, logo surge um qualquer "iluminado" a querer deixar marca. Umas mesinhas para merendas aqui, um parque infantil devidamente delimitado ali, um quiosque para gelados e afins, uma estrada bem alcatroada para facilitar o acesso, parques de estacionamento libertos do empecilho da vegetação e- porque não?- uns lotes para moradias. A beleza do espaço acaba por sucumbir perante tanta "maquilhagem" e... ficam os postais e os lamentos.

Num conhecido anúncio da EDP (muito bem feito, em nossa opinião), usam-se alguns desses espaços para relacionar as barragens com a defesa do ambiente. Mas, como diz o Pedro Almeida Vieira (aqui), quase se pode incluir no lote da publicidade enganosa. De facto, todas as maravilhas naturais que usa para promover as barragens, são precisamente as que elas destroem. Se tivermos em conta que pouco ou nada está a ser feito para reduzir o enorme desperdício de energia que caracteriza o nosso país, mais se justificam os lamentos. Desta vez bem documentados por um belíssimo vídeo.
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PS: A propósito do mesmo tema, vale a pena ler Eduardo Cintra Torres no Jornal de Negócios e reflectir um pouco nesta petição.

quarta-feira, maio 27, 2009

Ver para além do olhar


The arts are the science of enjoying life- John Maeda

Muitos olham, mas nem todos vêem. Menos ainda, são os que permitem que outros vejam pelos seus olhos- exige rigor na escolha, capacidade para entender a universalidade de cada pormenor, identificação com o outro e um imenso domínio técnico. Tudo isso tem a "nossa" Margarida Maia para dar e vender, alicerces de uma obra que vai construindo com a solidez que nos habituámos a sentir na terra que pisamos, mas com olhos treinados a ver outros mundos. Alguns dos seus trabalhos mais recentes foram publicados pelo Açores 2010. A não perder. Aqui.

segunda-feira, maio 25, 2009

As pessoas

Como parte integrante da lindíssima região da Beira Alta, Vouzela sempre foi um concelho dominado pela ruralidade.


Colecção "Trabalhos no Campo"
Cristina Duarte - Sintra


1960´s

Colecção Passaporte - LOTY

Depois de longos dias de trabalho, a alegria do nosso povo está sempre presente nas festas em todos as nossas aldeias.

Colecção "Trajo de Festa" nº 54
Edição A.V.L. - Lisboa

Alguém se atreve a dizer o contrário?
Nada como um sorriso absolutamente genuíno.

"PORTUGAL" - Beira Alta
Ed. 19 de Abril - Helena Henriques

sexta-feira, maio 22, 2009

Os leitores lançam as mãos à massa-VI

Mais de vinte anos após a sua última passagem por estas terras, o comboio continua presente. São as obras de arte que se transformaram em marcos da nossa identidade, é a paisagem que o engenho dos homens adaptou à sua passagem. É, sobretudo, o enorme desejo de o ver regressar, certos que estamos de ser o meio de transporte que melhor se adapta aos tempos que correm. Tal como nós, assim pensam muitos leitores que não perdem oportunidade para nos chamar a atenção para uma imagem, uma opinião que reforce a ideia que há muito nos alimenta a revolta: foi um fantástico recurso que se desperdiçou. Foi o que fez o Augusto Rodrigues que nos enviou cópia de um apanhado das impressões publicadas por Brito Camacho (em Jornadas) , a propósito da Linha do Vale do Vouga. Publicado na página da CP

A Linha do Vouga vista por Brito Camacho



Por montes e vales

Nascido em Aljustrel, em 1862, e falecido em 1934, Brito Camacho foi figura importante do campo republicano. Médico, militar e alto-comissário em Moçambique (1921/23), publicou numerosos artigos e diversos livros, dos quais o relacionado com as viagens de comboio é «Jornadas». Aí se encontra um interessante retrato do Portugal nas primeiras décadas do séc. XX.

Painel de azulejo sobre a Ponte de Santiago (Sever do Vouga)- retirado daqui

O traçado da Linha do Vale do Vouga, embora sinuoso, tinha uma amplitude de vistas sem igual na rede ferroviária portuguesa. Um dos muitos que se encantaram com esta viagem entre Viseu e Sernada do Vouga foi Brito Camacho que, nas «Jornadas», deixou colorida e interessante descrição.

Tudo começa em Viseu, por volta do meio-dia. Logo à saída da cidade o escritor mal reconhece Abravezes, «na garridice dos seus prédios novos, com telha de Marselha, tão diferente do que era há vinte anos». É claro que naquele tempo, e a vapor, a viagem não era rápida. Nada que incomode pois, «assim pode ver-se tudo muito à vontade, à direita e à esquerda, o que fica longe e o que fica perto, com detalhes de observação que as grandes velocidades não permitem».

Como naquele tempo as carruagens tinham plataformas abertas nos dois topos, esse era o ponto de observação ideal: «a navette de janela para janela, além de ser muito incómoda, não deixa que a paisagem se fixe bem na retina». Será que tanta curva fazia enjoar? «Se disserem ao leitor que a paisagem incomoda, que nele se enjoa como a bordo de uma barcaça desmastreada, com que as ondas brincam, se lhe disserem isto, não acredite».

Em contrapartida, «o desnível, considerando os pontos términos da linha é de, proximadamente, seiscentos metros, e basta lançar os olhos para um mapa da região para se ver que o comboio não poderia ir de Viseu a Sarnadas, na margem do Vouga, sem dar muitas voltas e reviravoltas, aqui e além tão apertadas, que milagre parece vencê-las sem descarrilar a traquitana».

Por isso, «os que desejam fazer este passeio, devem preferir o comboio ao automóvel, porquanto a linha, ficando num plano muito superior à estrada deixa ver mais largos horizontes». Passam-se os panoramas grandiosos da serra da Gralheira, as águas de São Pedro do Sul, os encantos de Vouzela até que «por volta das quatro horas saímos da Sarnada para Espinho, de tal modo encantados com o Vale do Vouga, que muito solicitamente recomendamos ao leitor que faça o passeio como nós o fizemos...»