Casa das Ameias, na Praça da República. Há quem defenda que o edifício original remonta ao século XV. O complexo testamento deixado pelo seu último proprietário, Dr. Gil Cabral, tem dificultado a definição da propriedade do imóvel.
“O que gostaríamos era que um particular pegasse e construísse uma unidade hoteleira”- Presidente da Câmara de Vouzela, interrogado sobre a possibilidade da Autarquia avançar para a expropriação da Casa das Ameias, Notícias de Vouzela, 12/02/2009.
Nós também “gostaríamos” de tanta coisa. Por exemplo, que se tivesse percebido que uma zona nobre da vila, como é a Praça da República, nunca devia ter chegado ao nível de desleixo a que chegou, graças ao arrastar do processo em torno da Casa das Ameias. Isto, para já não falar de como “gostaríamos” que se tivesse controlado melhor o fracassado projecto de construção da estalagem que, por um qualquer estranho desígnio, começou por destelhar o edifício, retirando-lhe a sua maior protecção. Tanta coisa de que “gostaríamos”.
Mas, por muito crentes que sejamos, sabemos que ficar a olhar para o céu à espera do milagre, a única coisa que nos garante é... uma dor de pescoço. Neste caso, uma dor de cabeça, enorme, se a casa vem abaixo (hipótese bem provável pelo que nos diz quem destas coisas sabe). Ou será isso mesmo que se pretende, para depois ali se espetar um paralelepípedo de tijolo e cimento, rés-do-chão e 1º andar, direito e esquerdo, com o "douto" argumento de que havia que marcar a fronteira entre a ruína e a “modernidade”?
O complexo testamento do Dr. Gil Cabral (último residente e proprietário da casa) explica alguma coisa sobre a situação a que se chegou, mas não explica tudo. Para além da imagem de um espaço central e da importância histórica do edifício, estão em causa questões de segurança que há muito justificavam intervenção. Ora, é nisto que nós, modestos cidadãos, compreendemos que se gaste dinheiro. E até apoiamos, ao contrário do que sucede com inúteis ampliações de ruas. Se é verdade, como foi noticiado, que os herdeiros estão dispostos a ajudar na resolução do problema, menos se compreende que se continue a adiar .
O título deste texto é pouco original, mas corresponde à mais crua verdade. Vem mesmo abaixo, se continuarmos à espera de um D. Sebastião cheio de notas que ali construa “uma unidade hoteleira” (projecto que nos parece pouco provável, mas disso daremos conta noutra oportunidade). Para já, exige-se a intervenção necessária para que a casa se mantenha de pé e, com ela, a esperança de que conseguiremos fazer mais do que discursos no condicional e esperar por milagres saídos de radiosas manhãs de nevoeiro.