quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Quando o Zé do Telhado subiu ao Monte Castelo- histórias de uma casa


Quem chega ao largo do chafariz do Monte Castelo e olha em frente, vê uma casa de pedra, meio encoberta pela mata de um verde tão intenso que ali se julga ser a porta que dá acesso ao mundo da lenda. Há quem jure ser aí que, nas manhãs frias de Inverno, quando os escassos raios de sol filtrados pela neblina, reflectem nas gotas de orvalho depositadas na folhagem, se juntam faunos e moiras encantadas, chorando amores perdidos e escarnecendo da cobiça dos homens.

(...) a porta que dá acesso ao mundo da lenda.

Rezam as crónicas que essa casa foi mandada construir por um tal D. Vasco de Almeida que, após se ter refugiado em França na sequência da contenda de Alfarrobeira, decidiu vir para estas paragens a convite de seu primo, D. Duarte de Almeida. Diz-se que durante a viagem viu morrer sua mulher, D. Isabel de Castro, acontecimento que o terá decidido a privar-se do convívio dos homens, refugiando-se no nosso Monte do Castelo onde edificou a capela e, um pouco mais abaixo, a tal residência. Tudo se terá passado entre meados do século XV e princípios do século XVI.

Entrando no terreno mais firme da história recente, sabe-se que o edifício nem sempre teve o tratamento que merecia e o espaço envolvente aconselhava. No entanto, de acordo com aquela espécie de fatalidade que permite aos de fora verem melhor o que está à frente dos nossos olhos, viveu um momento de glória ao ser escolhido para habitação do famoso Zé do Telhado, no filme realizado por Armando do Carmo Miranda. Estava-se nos anos 40 (o filme estreou-se no Coliseu do Porto a 15 de Dezembro de 1945) e o papel principal foi entregue a Virgílio Teixeira.

Por entre quadrilheiros e outros figurantes, vários vouzelenses participaram nas filmagens que aqui recordamos a partir do blogue do cinéfilo Paulo Borges. Esta ligação (clicar aqui) orienta para a cena onde melhor se vê a casa do Castelo, mas muito mais pode ser apreciado a partir da coluna da esquerda e do motor de busca de “Os anos de ouro do cinema Português”.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Capela de S. Frei Gil (D.João V)

Posted by Picasa


Tenho visto muitos postais tirados de ângulos diferentes ou a apanharem toda a rua, a subir...
Este acho-o muito original! É uma edição J.C.A.L.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Enquanto os motores aquecem para as Autárquicas

Começou a dança para as Autárquicas. Surgem nomes, uns mais surpreendentes do que outros, mas surgem. Já o mesmo não se passa com ideias. Infelizmente. Imagem de marca da democracia que vamos tendo, este hábito de falar nas pessoas antes dos projectos, é mau para ambos. Para as pessoas, porque ficam diminuídas pela imagem de privilegiarem o cargo ao acto. Para os projectos, porque em vez de visarem o necessário, podem ser limitados ao que os previamente escolhidos permitem.

Pela nossa parte, apesar do respeito que temos pelas pessoas (todas), o que nos interessa são as ideias. Bem precisamos delas. Já basta de fingir que vamos ser o que nada tem que ver connosco e ignorar o que nos é próprio e nos diferencia. Já basta de fingir que se espera por uma "classe empresarial" cheia de iniciativa e de cabedais, que um dia há-de sair da tradicional "manhã de nevoeiro". Por aqui, só mesmo o nevoeiro e nele nos havemos de perder se os poderes locais não decidirem arregaçar as mangas e assumir o papel que lhes compete na actividade económica.

A este respeito, não podemos desperdiçar a oportunidade para citar parte de uma reportagem do Público (04/02/2009) sobre uma estratégia que está a ser seguida na vila de Óbidos. O concelho tem cerca de 11 mil habitantes e é dirigido pelo PSD- onde é que já vimos isto? De há uns tempos a esta parte, decidiram aderir à rede das "cidades e vilas criativas".

(...)
"O nosso modelo de desenvolvimento assenta na ideia da preservação da qualidade de vida", explica
(o Presidente da Câmara, Telmo Faria) ". As terras muito bonitas têm tendência para carregarem muito nesse aspecto, mostrando as paisagens, o castelo, a lagoa." O problema, diz, é que, "se insistirmos muito nisso, o que pode vir aí é uma avalanche de pressão urbanística".
O cenário (de pesadelo) poderia ser milhares de pessoas vindas de Lisboa, que fica a menos de uma hora de distância, a comprarem casas de fim-de-semana na zona de Óbidos. Construção, construção, construção. Ou seja, a morte da "galinha dos ovos de ouro".
A câmara quis evitar isso. "No nosso modelo, tudo o que acontece tem que preservar a baixa densidade, a qualidade de vida, a imagem de prestígio. A criatividade e inovação passaram a ser as únicas ferramentas possíveis para crescer em qualidade e não em quantidade." Começaram com uma medida muito concreta: "O Plano Director Municipal previa a criação de 39 mil camas em dois mil hectares. Suspendemo-lo e passámos para 20 mil camas em quatro mil hectares. Estamos a falar de cinco/seis habitantes por hectare, e isso não existe na Europa", frisa Telmo Faria.
E também não estamos a falar de muitos hotéis novos. Estas camas são sobretudo em casas de muito alta qualidade. "Para que este turismo residencial vingue é preciso garantir essa baixa densidade." É a fórmula "menos pessoas, mais valor". E, segundo o autarca, virado não apenas para os portugueses, mas para ingleses, alemães, holandeses, "que estão a três horas de distância de avião".
O segundo passo da estratégia da vila é ser uma "economia criativa" - numa rede nacional que inclui também Montemor-o-Novo, Montemor-o-Velho, Portalegre e Guimarães -, atraindo indústrias criativas e os chamados "talentos".
Telmo Faria aponta à sua volta para as casinhas baixas e brancas. "Regressamos à Idade Média, quando muitas destas casas eram casas-ateliers." A ideia é que voltem a ser, só que hoje sustentáveis do ponto de vista ambiental, com baixas emissões de carbono, redes wireless que permitam às pessoas, a partir de Óbidos, trabalhar com outras em qualquer ponto do mundo.
(...)

Para ler o texto integral pode carregar aqui e escrever "Óbidos" na "Pesquisa nos últimos sete dias". Vale a pena.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Os filhos, esse problema...

Doisneau

Albino Almeida é presidente de uma confederação de associações de pais (Confap). É, até, a personagem a que a comunicação social costuma recorrer, sempre que precisa da opinião “dos pais”. E como suposto “presidente dos pais”, Albino Almeida opina a propósito de tudo que envolva “filhos”. É um susto ouvi-lo.

Agora divulgou que tem negociado, com o Ministério da Educação, a brilhante ideia de enfiar na escola as crianças do 1º ciclo, entre as 7h30 e as 19h (Público). O secretário de Estado, Valter Lemos, ainda tentou dizer que não é bem assim, mas o presidente Albino, orgulhoso da sua obra, esclareceu que o assunto já anda há um ano a ser negociado e que o Ministério da Educação deu “luz verde” para avançar com o alargamento de horário. Ora, um pai nunca mente.

O raciocínio de Albino Almeida, está de acordo com uma tendência que tem feito escola entre nós: sempre que há um problema, mais fácil do que resolvê-lo é forçar as pessoas a adaptarem-se a ele. Neste caso há vários problemas, desde a violência de alguns horários de trabalho, até a formas de negligência grave de alguns progenitores. Pelo meio, podemos incluir o preço da vida em subúrbios que afecta grande número das famílias portuguesas. O senhor Albino está-se nas tintas. Em vez de usar a força dos associados que dirige para pressionar mudanças e conseguir melhor qualidade de vida para pais e filhos, trata de ajudar a que tudo fique na mesma. Mas sem filhos.

Pelos vistos, não passa pela cabeça do senhor Albino que um dos problemas das nossas crianças seja viverem excessivamente fechadas, “orientadas”, sem espaços que possam recriar. Não passa pela cabeça da ilustre personagem as consequências que daí podem resultar na sua formação- provavelmente, não é psicólogo, nem pedagogo. Como também não deve ser historiador, não está muito disponível para usar a memória e recordar o bem que fez à sua geração ter espaço livre para usufruir. Não. Ele é presidente “dos pais” e, como tal, só lhe compete afastar os seus problemas. Ou seja, os filhos.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Igreja Matriz

Na sequência do postal anteriormente apresentado pelo Luís Filipe, fica aqui um raro postal da Igreja Matriz, onde são bem visíveis as palmeiras que já ornamentaram o seu jardim.

1920's

Edição de Dias & Irmão
(Made in France)

2007


sexta-feira, janeiro 30, 2009

"Forças ocultas"

(...) Pedro Serra, na já longínqua campanha interna para eleição do Secretário Geral do PS em 2004, podia escrever um artigo de opinião no diário económico que era um panegírico de apoio a um dos candidatos, onde constava este parágrafo que no contexto do artigo não era uma crítica mas um fortíssimo elogio, sem que aparentemente alguém ficasse sobressaltado com o seu conteúdo:
"Os dois anos em que foi Ministro do Ambiente e em que teve na sua mão a distribuição dos fundos comunitários utilizou-os ele a tecer a trama de influências regionais e nacionais,partidárias e não só, que o fazem imbatível em qualquer contenda no seio do PS (...)"- Henrique Pereira dos Santos, a propósito do caso Freeport. Do mesmo autor e sobre o mesmo tema, ler também aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A maior trapalhada da Europa

Trompe l'oeil

Sobre esta trapalhada do Freeport de Alcochete, há algumas conclusões que já podem ser tiradas:

1º) Em todas as situações suspeitas que por cá temos vivido, há sempre um ataque ambiental. De facto, o território é a nossa grande riqueza, e a especulação imobiliária a coisa mais parecida com "crescimento económico" que os nossos dirigentes conseguem desencantar- por detrás de uma grande trapalhada, está sempre um grande terreno. Ou uma área protegida.

2º) Quando se fala de uma suspeita de irregularidade ambiental, começamos logo à procura do autarca envolvido. Até pode ser aquela história do ser e do parecer, mas o seu estatuto de guardião do tesouro (território) coloca sempre o autarca no papel de parecer, independentemente de ser. Muitas vezes, é. E queriam dar-lhe mais poder...

3º) As voltas e reviravoltas dadas pela legislação que regulamentou e regulamenta a Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo (ver aqui, tendo em atenção que o texto é de 2005), mostram como é possível usar a lei para defender uma coisa e o seu contrário. O que está em causa, não é tanto a história da lei dever ser igual para todos ou de não haver dois pesos e duas medidas. É antes o da lei ir mudando, de acordo com o "peso" de cada um.

4º) Se admitirmos, como princípio, que não basta alterar um regulamento para que uma irregularidade deixe de o ser, os famigerados "PINs" (Projectos de Interesse Nacional) devem merecer a mesma reprovação das trapalhadas que envolveram o Freeport de Alcochete. Em ambos os casos estamos perante situações de excepção que delapidam o património público.

"Freeport de Alcochete, o maior outlet da Europa"- dizia a publicidade. E uma trapalhada a condizer, acrescentamos nós.