segunda-feira, janeiro 05, 2009

Vouzela de branco

"Boa amiguinha: Para fazeres uma pequena ideia do que tem sido o frio em Vouzela, envio-te êsse postal tirado no passado dia 12, em que houve aqui um grande nevão." ...

1941

(sem referência ao editor)

Acreditando no que dizia a Celeste Mª, terá caído um nevão no dia 12-01-1941. Se assim foi, despacharam-se a fazer os postais já que este está datado de 25-01-1941.
Quando se falava em neve, sempre me lembro da minha avó dizer: "no ano em que o teu pai nasceu é que foi..."
Como o meu pai nasceu em 1941, até pode ser que estas datas coincidam.

Por outro lado, esta imagem mostra que nesta data a Igreja Matriz já tinha sido restaurada.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

O "fado" de Vouzela

Edição de 1925. Colecção particular- CM

Talvez seja a história do "escrever direito por linhas tortas", mas a verdade é que o ano em que vamos levar forte e feio com as consequências da crise, também é de ajuste de contas. Nas próximas eleições contamos acertá-las, quer a nível nacional, quer local, e não vale a pena vir com a conversa de que não interessa apontar culpados. Claro que interessa. Eles existem, independentemente do que se passou nos Estados Unidos. Muito antes dos bancos americanos começarem com o "ai, Jesus", já nós sentíamos que nos remetiam ao papel de pagadores de impostos e de mão-de-obra barata. E precária. Sem direito a apoios do Estado.

Aliás, esta parece ser a única vantagem dos momentos de crise: serem postas em causa todas as verdades absolutas que a precederam. A infalibilidade da livre concorrência, a dispensa da actividade reguladora do Estado, o dogma da globalização sem limites, tudo está a ser posto em causa, com o prémio Nobel da Economia, Paul Krugman (a partir daqui), a defender um maior protagonismo dos governos, "algo mais parecido com uma nacionalização temporária de uma parte significativa do sistema financeiro". Ao fim e ao cabo, bastava ter recuado 70 anos e aprender com a experiência então vivida. Mas há quem nunca aprenda. E quem esqueça depressa…

O papel da Autarquia

A nível local, sempre defendemos uma maior intervenção da Autarquia na área económica. Os recursos de que dispõe, permitem-lhe desempenhar um importante papel enquanto elemento dinamizador do diálogo, mobilizando vontades, desbravando caminhos. Num meio com as limitações do nosso e em tempo de "vacas magras", é isso que esperamos dela. Obras, só nos interessam as "pequenas".

Como todos os estudos mostram, qualquer estratégia local tem que privilegiar os recursos endógenos. Património natural e edificado, floresta, agricultura, criação de gado, gastronomia, artesanato e até a construção civil, têm que saber trabalhar em equipa, unindo esforços, integrando as diversas ofertas num único produto final: Vouzela/ Lafões. É o único suficientemente resguardado da concorrência para conseguir sobreviver. É o único que tem procura suficiente para ultrapassar os limites do acanhado mercado regional. Mais do que competição, precisamos de cooperação.

O sucesso dos percursos pedestres, hoje organizados por todas as autarquias, parece-nos ser um bom exemplo para se reflectir sobre este assunto. O seu ponto forte tem estado associado à paisagem, ao património edificado e à competência dos guias, áreas que interessa acarinhar. No entanto, o conceito pode ser alargado, quer no que diz respeito aos temas, quer no que diz respeito à oferta de serviços, quer, ainda, no que diz respeito ao público destinatário. É possível divulgar Lafões a partir de pólos de atracção variados e integrados, espalhados ao longo de todo o ano. Temas históricos, festividades religiosas, actividades sazonais (vindimas, por exemplo), feiras, produtos regionais (como o cabrito, a vitela, a doçaria, a tecelagem) são áreas que podem ser exploradas, juntando múltiplas ofertas, orientadas para diversos públicos. Salvaguardadas as devidas proporções, é isso que se tem feito (e bem) nas jornadas micológicas. São iniciativas que, depois de lançadas e convenientemente divulgadas, só precisam de calendário.

No entanto, há dificuldades burocráticas e exigências organizativas que dificilmente estão ao alcance da iniciativa privada que temos. Há uma "matéria-prima" (o território) que necessita ser protegida. É aí que, em nossa opinião, a Autarquia pode e deve intervir. Regulamentação, certificação de produtos e serviços, formação, organização de redes distribuidoras, parcerias, divulgação, discriminação positiva- tudo isso exige um diálogo entre sectores (uns mais organizados do que outros), um planeamento e um nível de conhecimento e de risco que ela tem condições únicas para conseguir.

Silêncio, vai-se cantar... o fado

Basta passar os olhos pela nossa História, para percebermos que a queixa contra a inoperância da iniciativa privada local, sempre foi uma espécie de "fado de Vouzela", usado para explicar todos os fracassos. Insistir na receita, é aceitar a condenação a nada fazer ou a respostas avulsas, desordenadas, que podem ser as delícias de meia-dúzia de poderosos, mas que não têm capacidade para construírem alternativas consistentes, com futuro. Optar por esse caminho, é deitar dinheiro fora. É gastar em "apoios sociais" de reduzida eficácia e nenhuma capacidade de transformação. É arriscarmos a destruição do que resta.

O perigo existe. Aí está o "plano anti-crise" apresentado pelo governo para o provar: uma economia frágil e dependente como a portuguesa, dificilmente resistiria ao canto de sereia da "política do betão"- a história pode repetir-se como farsa. Se, a nível local, voltarmos a cair nessa armadilha, por muito tentadora que seja a curto prazo, as consequências podem ser desastrosas e irreversíveis. Têm a palavra as forças concorrentes à Câmara. Veremos como cantam… o fado.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Fantástica! a velha ESTAÇÃO...



Esta é uma das mais fantásticas relíquias que guardo na colecção!

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Que seja de vez

(Folheto turístico, colecção particular CM)

Os dois últimos anos foram particularmente difíceis para Vouzela. Em 2007 começou a ameaça da saída de serviços o que, para uma região com reduzida capacidade de oferta de emprego e em acelerado processo de envelhecimento, é assim uma espécie de “toque de finados”. 2008 foi dominado pela concretização da reforma dos serviços de Saúde, dando origem a uma das maiores mobilizações de que há memória. Ficou a consolação de termos contribuído para a saída de um ministro que nunca soube dialogar com as populações, mas a verdade é que estamos mais pobres no que diz respeito à prestação de cuidados médicos. Sobretudo, estamos mais desconfiados.

Costuma dizer-se que “não há duas sem três e à terceira é de vez”. Pois aí está 2009 cheio de ameaças, a que nem as lentes cor-de-rosa do nosso Primeiro-ministro conseguiram resistir. Para nós, a dúvida não está em saber se conseguimos fugir à crise porque ela há muito que nos apanhou. A dúvida é sobre o final da história, que tanto pode ser uma oportunidade, como uma condenação.

Nada foi feito, até agora, que nos proteja da crise social que aí vem. Com um “tecido económico” desorganizado, a sofrer as consequências de se ter deixado embalar pelo canto da sereia do imobiliário, Vouzela não tem agricultura, não tem pecuária e não tem turismo. Quanto à indústria, insiste num mais que discutível projecto de abertura de “parques industriais” cuja avaliação está por fazer mas que, à primeira vista, anda mais pelo domínio dos desejos do que da realidade. Curiosamente, se olharmos para a nossa História dos últimos 50 anos, vemos que o erro já foi cometido no passado. Em 1958 discutiu-se um arrojado “plano de urbanização” da vila que, para além de não sei quantas variantes, previa a construção de um hotel em frente de outro então existente (Mira-Vouga) e um “bairro operário”, apesar de- como dizia com alguma graça o Notícias de Vouzela (1)- não existirem fábricas. Sabe-se como tudo acabou. Em vez de dois hotéis, ficámos sem nenhum, como ficámos sem indústria, sem operários e sem “bairro”. E fomos ficando sem tudo o resto que então tínhamos, mas para que se não soube ou quis olhar.

Este exemplo ilustra um dos erros que, em nossa opinião (e com raras e honrosas excepções), foi sucessivamente repetido pelos responsáveis locais: recusa em enfrentar o que na verdade somos e temos. Normalmente, projecta-se para uma população ideal, com uma economia ideal, acreditando em fluxos migratórios que nos encham as ruas, as lojas, a terra. Na realidade, nem os de cá conseguimos segurar.

Mais grave ainda, é esse “tique” da governação local manifestar uma espécie de vergonha pelo nosso passado rural. Azar o deles, já que é isso mesmo que os forasteiros procuram, sendo afirmado em todos os estudos que essa característica (a paisagem que moldou) é o nosso grande trunfo estratégico.

2009 vem aí. Cheio de ameaças ou de desafios? Há que escolher. Porque se não há duas sem três, convém, mesmo, que à terceira seja de vez.
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(1)- Notícias de Vouzela de 16 de Novembro de 1958.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Sim, nós sabemos: pastéis de Vouzela são Património Cultural. Da Humanidade-dizemos nós.

Foto: Margarida Maia

Claro que sabemos. Só os eleitos o sabem fazer, poucos o sabem comer- mas vale a pena tentar. O pastel de Vouzela vai integrar uma lista de produtos "que não se podem perder". Claro. Nem sempre um acto de cultura se desfaz na boca.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Avenida João de Melo


1920's



Edição da Casa AUGUSTO ROCHA


Edição de Dias & Rocha - Vouzela

sexta-feira, dezembro 19, 2008

"5,7 milhões de imóveis edificados para uma população de 3,7 milhões de famílias”

(...) não há dúvida que poucos são os países que não embarcaram de alguma forma no regime anglo-saxónico de acumulação dominado pela finança. Portugal não foge à regra.
(...)
O sector mais significativo é, sem dúvida o da habitação. Animado pela descida da taxa de juro dos anos noventa, possibilitada pelo processo europeu de integração monetária, o Estado português (no seu sentido lato, envolvendo as autarquias) promoveu todo um modelo de desenvolvimento assente na construção civil. A ausência e desinteresse na provisão pública de habitação – confinada aos bairros sociais –, aliada a um conjunto de incentivos fiscais (bonificação de taxas de juro, deduções fiscais nas contas de poupança habitação) e à quase ausência de planeamento urbano, incentivaram à construção e à compra a crédito de habitações novas. O resultado, além da total irracionalidade de existirem 5,7 milhões de imóveis edificados para uma população de 3,7 milhões de famílias, foi o endividamento galopante das famílias: de 50 por cento do produto interno bruto (PIB) em meados dos anos noventa, para 130 por cento do PIB actualmente. Os portugueses vivem hoje endividados durante metade das suas vidas, gerindo o seu dia-a-dia em função das variações da taxa de juro e da prestação a pagar ao banco.
- Nuno Teles, Le Monde diplomatique (ler o artigo aqui)