sexta-feira, agosto 01, 2008

Quintas verticais


Parece que a ideia surgiu em 1999, na Universidade de Columbia, a partir de um projecto que procurava compreender a relação entre ambiente e saúde (ver aqui). Rapidamente obteve seguidores, quer nos Estados Unidos, quer na Europa, que avançaram mil e uma hipóteses para aumentar a produção local de alimentos frescos. Chamam-lhes “vertical farms”ou “living towers” e integram-se no movimento (já lhe podemos chamar assim) da agricultura urbana.

Não será, pois, por falta de criatividade que sucumbiremos aos problemas e seremos condenados a negociar no mercado negro um qualquer molho de grelos. Mesmo que as ideias nos pareçam mais próximas das nuvens do que bem assentes na terra, como as torres que se apresentam.

Mas, ao passarmos os olhos por estes projectos, ao lermos as preocupações dos seus autores, é impossível não recordar o “nosso” Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles e os seus alertas contra o desenvolvimento suicida das cidades que vamos tendo. Reconheça-se, aliás, a maior consistência das suas propostas, baseadas na relação dinâmica entre rural e urbano, apostando numa ruptura com os modelos dominantes de gestão do território. Talvez por isso, seja mais apelativo imaginar as floreiras cheias de brócolos, ou vaquinhas a pastar na cobertura.

quarta-feira, julho 30, 2008

Todos somos cidadãos da Moita

Fotos retiradas de A defesa de Faro, onde chegámos a partir do Zero de conduta

Cá vamos nós, outra vez. Imagine 529 hectares de um Parque Natural, onde nem um tijolo se pode colocar. Imagine que apareciam investidores interessados em pagar 50 milhões de euros por tal coisa, envolvendo três empresas off-shore. Agora, imagine que o presidente da Câmara que superintende ao tal sítio, justificava os 50 milhões investidos, com a hipótese de poder “vir a surgir naquela zona um projecto PIN, que permita ultrapassar as actuais restrições à construção” (Público, 28 de Julho de 2008). Não precisa imaginar mais, porque a história é real, passa-se em pleno parque Natural da Ria Formosa e o presidente é o socialista José Apolinário.

Há pouco mais de um ano, começámos a acompanhar o processo de luta dos cidadãos da Várzea da Moita. Também aí, estavam em causa terrenos da Reserva Ecológica Nacional que, depois de adquiridos por uns tantos “beneméritos”, se tentou alterar de estatuto, passando a urbanos. Nada de novo, a não ser o modo como a população reagiu, encravando a engrenagem e obrigando a que o processo de revisão do seu PDM volte à "estaca zero" (ver actualizações a partir daqui).

Num país onde a fronteira que separa bens públicos de interesses privados, é da grossura do aparo da caneta que passa o cheque, o alerta das populações é a única medida eficaz . É a única forma de deixar claro, para qualquer “investidor”, que há limites para os que vêem o território como uma simples mercadoria.

Por isso, sentimo-nos cidadãos da Moita... ou de Faro, ou de qualquer outro lugar onde se defenda o nosso património colectivo.

segunda-feira, julho 28, 2008

Sinais de crise

(La Boucherie- Eduardo Luiz)


A propósito da Quinta da Fonte e das ideias da Câmara do Porto para o bairro do Aleixo, tem sido interessante acompanhar as reflexões divulgadas pela comunicação social que, salvos raras excepções, revelam a falta de hábito em pensar o espaço em que vivemos.

O fenómeno dos bairros sociais que hoje andam nas bocas do mundo, foi uma consequência do êxodo rural e da excessiva concentração de pessoas nas grandes cidades. Não o êxodo rural dos primórdios da Revolução Industrial, que deu origem a cinturas onde se concentrou a mão-de-obra das fábricas que iam nascendo. Nessa altura, havia uma identificação de classe, geradora de dinâmicas com capacidade para resolver, melhor ou pior, problemas de integração. Exemplos desse fenómeno, podemos encontrá-los na génese do Bairro do Grandela em Lisboa e, também, na expansão entre Benfica e a Amadora.

Os bairros sociais de que hoje falamos (sobretudo, os problemas de que falamos), têm origem mais recente. Entre nós, mesmo muito recente. São de um tempo em que o sector secundário já não tinha capacidade para absorver as levas de imigrantes, provocadas pela total ausência de perspectivas para o mundo rural. São de um tempo em que a especulação imobiliária começou a ditar as suas leis, desertificando o interior das cidades, empurrando grande parte da população para periferias sem identidade, e circunscrevendo a miséria a áreas de menor interesse. O “assistencialismo”, foi o substituto institucional da velha caridade e a resposta possível de um sistema sem capacidade para integrar as suas “franjas sociais”.

A maior parte dos comentários que têm sido feitos a partir dos acontecimentos da Quinta da Fonte, ou da proposta de destruição do Bairro do Aleixo, limita-se a ideias para arrumar os excluídos ou para os manter na linha. Poucos arriscam uma ideia para acabar com eles. Poucos reconhecem que são a expressão visível de um paradigma de crescimento e de um modelo de gestão do território que lhe está associado- ambos a darem sinais claros de terem esgotado o prazo de validade.

sábado, julho 26, 2008

Para guardar em local seco-V

Registam-se declarações de Gil Ferraz, presidente da Associação Empresarial de Lafões (AEL), à Gazeta da Beira de 17 de Julho de 2008. Para consumir mais tarde ou para reproduzir em futuras sementeiras:

Falta (...) uma estratégia para a Região; falta (...) articulação entre os agentes locais; falta (...) ligação aos Centros de Saber; falta (...) articulação entre os agentes económicos.

(...)

A ligação das nossas empresas às Universidades, Politécnicos e Centros Tecnológicos é precisamente um dos vectores fundamentais para a actividade empresarial que são prioritários para a AEL. Este vai ser um dos temas fundamentais que vamos desenvolver neste próximo QREN.

(...)

“em termos empresariais e sociais, os três concelhos funcionam muitas vezes como se fossem um só concelho. (...) No entanto se continuarmos com divisões, com a estratégia da “festa da aldeia” (sem desprestígio para nenhuma festa de aldeia), não vamos a lado nenhum. (...) Do meu ponto de vista, era possível ter, a nível da região, um calendário de eventos de qualidade nacional durante o ano.

(...)

A nossa Região, pela sua beleza natural, localização estratégica e capacidade humana, tem enormes potencialidades. É pena que, por falta de articulação entre os agentes de desenvolvimento local, não se consiga fazer muito mais. Acho que aqueles que na Região assumem lugares de destaque, deveriam trabalhar mais em parceria. (...) Do meu ponto de vista, deveríamos deixar de pensar só concelho a concelho e passarmos a pensar na Região de Lafões.

quarta-feira, julho 23, 2008

O preço das coisas

Linha do Tua. Foto retirada daqui

Nesta avalancha de coisas ditas para consumo rápido, uma das teorias mais irritantes é a que defende a avaliação de todos os fenómenos da vida pela sua rentabilidade económica. É como se de tudo tivesse que pingar dinheiro e este fosse o único valor a servir de padrão. Para esses teóricos, o aumento da esperança média de vida, longe de ser motivo de orgulho, é um problema; a preocupação com a saúde dos cidadãos, tem apenas que ver com o que se gasta no Serviço Nacional de Saúde; as riquezas naturais, por não estarem cotadas na bolsa, não têm valor.

A aplicação prática destes princípios à gestão do território, tem levado ao uso abusivo de tudo, sem noção aparente do seu carácter finito e dos estragos permanentes que podem ser causados por necessidades de conjuntura. Basta que haja uma área de interesse, uma zona favorecida pela “Mãe Natureza” ou pelos ditames da História e zás! Vai de fazer obra e cobrar bilhete para explorar o filão. Na maior parte dos casos, passada a curiosidade inicial, nem zona de interesse, nem receitas. Apenas custos de manutenção ou o abandono.

Só que as contas destes contabilistas de meia tigela, estão viciadas, a partir do momento em que, nas colunas do “deve” e do “haver”, não incluem o valor cultural e/ou ambiental dos espaços. Foz Côa obedeceu a este raciocínio. Não bastou a importância do achado arqueológico, considerado património da humanidade, que podia ter sido o ponto de partida para uma progressiva rentabilização do espaço. Avançou-se logo para um projecto pouco sustentado, mas que contrapunha uma miragem de “pogresso” a outra idêntica que tinha sido vendida pelos defensores da barragem. Hoje, restam despesas e desânimo.

Pelo mesmo caminho querem empurrar, com dimensões diferentes, Paiva, Tua e Sabor. Desta vez ficam-se pelas barragens, mas a fundamentação dos projectos é a mesma. Mais uma vez, ninguém contabilizou os estragos que irão ser provocados, com a agravante de serem irreversíveis. Mais uma vez, agita-se uma ideia de “pogresso” com milhares de empregos e muito negócio, calando o facto de muito poucas barragens terem dado um tostão a ganhar às populações locais após a fase de construção. Mas fica o estrago, nunca contabilizado nesta fórmula para encontrar o preço das coisas.

"Novas barragens rendem ao Estado mais de 600 milhões de euros". Quanto vamos perder?

segunda-feira, julho 21, 2008

Ponte Morais Carvalho

Agora que o calor aperta cada vez mais, basta olhar para esta frescura para nos dar logo vontade de mergulhar naquelas águas. Como vemos, já na década de 20 do séc. XX, os nossos avós por lá se refrescavam. Provavelmente não tinham que se desviar das silvas para chegarem à água...


Junho 2008

Foto: Carlos Pereira


1985

Edição da Câmara Municipal de Vouzela
Postal nº. 4
Gráfica Ideal - Águeda



1960's

Colecção Passaporte "LOTY"


1920's

Edição de Dias & Rocha - Vouzela


Edição de Dias & Irmão
(Com carimbo sobreposto "Edição da casa AUGUSTO ROCHA")


1910's

UNION POSTALE UNIVERSELLE
Edição da Casa da Montanha - "Castela"

sexta-feira, julho 18, 2008

População da Moita venceu a especulação imobiliária

Na sequência do processo de luta contra a revisão do PDM de que temos dado conta, a população da Moita viu recompensados os seus esforços. De acordo com o “um por todos, todos por um”, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) emitiu parecer desfavorável à proposta em análise, que favorecia a especulação imobiliária.

Este processo da Moita tem provado que a mobilização das populações é o melhor antídoto contra os jogos de interesses. Todos ganhámos com o seu exemplo.