quarta-feira, julho 02, 2008

As emendas do feitiço e o feiticeiro dos sonetos

Grzegorz Szumowsky- Polónia

A propósito da suspensão, por ordem judicial, do blogue povoaonline, Vital Moreira chama a atenção para o facto da blogosfera não gozar de “imunidade penal, nem a integridade moral das pessoas sofrer aí de qualquer ‘capitis deminutio’” (a partir daqui). Não podíamos estar mais de acordo. Só que há emendas piores do que o soneto e feitiços que se viram contra o feiticeiro.

Impedir o acesso a um blogue, equivale a proibir a publicação de um jornal, pelo facto de alguns dos seus artigos serem considerados insultuosos- se assim fosse, já nenhum jornal era publicado... Depois, como se pode ler no relatório que integra a decisão judicial, as supostas ofensas são, na realidade, denúncias que, salvo melhor opinião, justificavam investigações cuidadas aos 15 anos que o presidente da Câmara da Póvoa do Varzim já leva à frente do município. Ora, o que estava diluído nos diversos “posts” e limitado aos leitores do povoaonline, tem agora um resumo de luxo na decisão do tribunal, bem divulgado por essa blogosfera. Além do mais, como Vital Moreira bem sabe do tempo em que distribuía propaganda clandestina, quando uma é destruída, logo outra aparece.

segunda-feira, junho 30, 2008

A propósito da discriminação positiva dos habitantes da REN

Roque Gameiro, Moinho- São Pedro do Sul

A decisão anunciada de discriminar positivamente os habitantes da Reserva Ecológica Nacional, vem relançar um debate de grande importância para um país que, até agora, abusou do seu território, encarando-o como a principal “matéria-prima” do crescimento económico. Assunto melindroso que pode chocar com questões culturais, com crenças centenárias, o uso do solo vai acabar por impor uma reflexão sobre os limites do direito de propriedade. Para já, não vamos por aí. Vejamos, apenas, o que deve justificar a existência de compensações para os proprietários de terrenos abrangidos por regimes de excepção.

Sabe-se como tudo se passou: a urbanização de espaços representou, no nosso país, a actividade económica mais dinâmica durante mais de vinte anos, alimentando uma especulação imobiliária que assumiu foros de escândalo e uma actividade financeira cujos resultados estão agora a ser sentidos no brutal endividamento da população. Portugal tornou-se no país da União Europeia com maior consumo de cimento, aquele que mais construiu e menos recuperou e, ainda, o que urbanizou maior percentagem da sua faixa costeira.

Esta perversão foi alimentada pela relativa facilidade na concessão de crédito, pelo desespero dos agricultores (à falta de melhor, aproveitaram a oportunidade para venderem as terras) e pela valorização constante de terrenos e edifícios que, durante anos, foi a imagem de marca do negócio. A limitada exigência na formação da mão-de-obra permitiu, ainda, concentrar na construção muita da oferta de emprego, usando-a como “almofada” para amortecer a crise já então sentida noutros sectores de trabalho pouco qualificado e mal pago.

Claro que os poderes públicos ajudaram (e ajudam) à festa. Governos e autarquias viram na actividade uma forma de esconderem a ausência de alternativas e de criarem uma ilusão de crescimento. Uma lei das finanças locais que estimulava a urbanização do território, foi o suporte legal para a catástrofe.

A sua intervenção fez-se, sobretudo, na alteração do estatuto dos terrenos (passando da REN ou da RAN para urbanos) e na construção de infra-estruturas. Criava-se, assim, uma valorização à custa de dinheiros públicos que apenas beneficiava privados (o proprietário do terreno). Actualmente, este processo verifica-se, também, com a classificação de “interesse estratégico”, dada a empreendimentos em áreas protegidas (os famosos PIN).

Fora de tudo isto, ficaram os terrenos da Reserva Ecológica e da Reserva Agrícola Nacional (REN e RAN). Criadas nos anos 80, aquando da passagem do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles pelo governo, foram os únicos instrumentos que permitiram limitar os estragos. No entanto, nos tempos dourados da especulação imobiliária, não era fácil explicar aos proprietários desses terrenos, por que carga de água lhes era vedado o caminho do dinheiro fácil.

Mas, analisando o problema numa perspectiva de ordenamento do território, existe, de facto, uma grande injustiça e um enorme perigo. Um terreno da REN presta um serviço público e o seu proprietário, em vez de ser compensado, é prejudicado. Se conhecer os “atalhos” certos para lhe mudar o estatuto para urbano, aumenta imediatamente o seu valor, apesar do seu interesse passar a ser exclusivamente privado. Não faz sentido. Grande parte dos Planos Directores Municipais, mostram o resultado final de tudo isto: de modo mais ou menos transparente, as pressões para retirar terrenos da REN e da RAN, são enormes.

O governo de José Sócrates já prometeu, mais do que uma vez, alterar a chamada Lei dos Solos, revendo, nomeadamente, o previsto sobre apropriação de mais-valias (a este respeito, vale a pena ler este texto do Engenheiro José Carlos Guinote). Agora, fala em “discriminação positiva” dos habitantes da REN, no âmbito do processo de redefinição das suas áreas (a cargo das autarquias- ai, ai!- e que tem a sua conclusão prevista para 2013). Veremos o que dali vai sair, numa altura em que estão perdidas todas as ilusões sobre o “arranque da economia”, os “150 mil novos empregos”, etc. Mas que é um debate necessário, lá isso é.

sexta-feira, junho 27, 2008

O calor aperta

Rio Vouga

O calor aperta e lá em baixo o Vouga. E também o Zela, o Alfusqueiro, o Sul... Espaços paradisíacos para conhecer e desfrutar, sem bilheteira à porta. É só descobrir e usar- não há piscina que se lhes compare.

Esperamos que, este ano, alguém se lembre de dar uma informação clara sobre a qualidade da água. Dispensam-se espaços para merendas, plataformas para estender toalha, estradas até à margem ou quiosques de gelados. Apenas uma informação clara sobre a qualidade da água. Coisinha simples e barata. Em local bem visível, de preferência. Os nossos agradecimentos.

quarta-feira, junho 25, 2008

Guardadores de vacas sem direito a sonhos

"É preciso acarinhar quem aposta nesta actividade e mostrar aos jovens que até pode valer a pena. Quanto mais não seja como complemento"- César Ribeiro, presidente da Junta de Freguesia de Queirã, JN, a partir daqui.

A afirmação foi proferida durante a 10ª Feira e Concurso Pecuário da Vitela de Lafões que, durante dez dias, se realizou na Giesteira. O objectivo era dar algum ânimo aos criadores, cada vez mais enredados no aumento dos preços de tudo e sem conseguirem encontrar meios para aumentarem o rendimento da actividade. A vitela, apesar de ser um dos nossos produtos de referência, teve uma quebra de produção de cerca de 50%.

O problema não é diferente de muitos outros que afectam o nosso mundo rural. Mas é nosso. A única "reforma agrária" que vingou em Portugal, foi a que resultou dos fundos europeus. Uns conseguiram-nos, outros não. Tudo ficou dependente do "engenho e da arte" de cada um, do seu dinamismo, organização e conhecimento dos "atalhos". Ter os amigos certos, também ajudou. Logo, foram beneficiados os que menos necessitavam de ajuda. Os outros, foram abandonados à sorte e à capacidade de resistência.

Com um conjunto de actividades de reduzida dimensão, muito viradas para a auto- subsistência, Portugal viu grande parte dos seus agricultores e criadores serem condenados ao abandono, muito mais do que à reformulação de procedimentos. Em grande parte do território (quase todo onde predomina o minifúndio), a única "reforma" foi a que resultou do êxodo. Os custos ambientais e sociais de tudo isto, nunca foram contabilizados, por isso, o resultado final tem sido apresentado como positivo.

Hoje, o ministro da Agricultura diz que não faltaram apoios. Só não diz quem os recebeu. Sobretudo, não diz- porque é um homem crente nas razões de Bruxelas e na infalibilidade do mercado- como teria sido importante que as autoridades nacionais e locais tivessem ajudado a um maior equilíbrio na sua distribuição, procurando alterar práticas e privilegiando objectivos de ordenamento do território.

Mas, é muito mais fácil carpir mágoas pelos diplomas universitários que não temos, por um povo que não somos e relegar para um futuro incerto a avaliação dos resultados. Só que o desespero das nossas gentes é sentido hoje, assim como as consequências do desordenamento e dos desequilíbrios na produção alimentar.

Por tudo isto, estamos com o presidente da Junta de Queirã no seu apelo à juventude. Resta saber se ela ainda por aqui anda, de modo a ouvi-lo...

segunda-feira, junho 23, 2008

Ponte Romana - Parte II

2007

Foto: Carlos Pereira


1960's

Colecção Passaporte LOTY


2007

Foto: Carlos Pereira


1950's

Edições SANTOS - Vistas
Portugal Turístico


1920's

Edição de Dias & Rocha


Todos os posts publicados neste blog que se referem à história de Vouzela, imagens antigas de Vouzela, memórias passadas de gentes e lugares estão arquivados em "Tempos" na coluna da direita. Pode-se aceder directamente através da imagem dos azulejos e relógio da Igreja da Misericórdia.




O próximo post dia 07-07-2008 leva-nos ao século XIX. Haverá imagens de João António Figueiredo e da D. Vitória Adelaide de Seixas Loureiro e Barros. Conhece?
Não perca...


sexta-feira, junho 20, 2008

A malta dá uns toques

Não, não vamos falar da selecção. Mas, tal como no futebol custa ver desaproveitar oportunidades, impedindo a afirmação de talentos indiscutíveis, também nas restantes áreas isso acontece. A malta até dá uns toques, mas...

O vídeo que aqui mostramos, não é novo, mas é nosso. Melhor, é sobre uma criação da Escola Superior de Tecnologia de Viseu, que adaptou um motor eléctrico a um automóvel de série. Numa altura em que o nosso primeiro-ministro discursou para os parceiros europeus sobre as vantagens dessa opção, talvez fosse de explicar porque não arranja maneira de dar força a projectos como este (sim, há mais).

Já agora, que tal adaptar um motor eléctrico àquele comboio de faz de conta que passeia pelo concelho, transformando-o num verdadeiro transporte público que compense as futuras limitações de estacionamento no centro da vila? Enfim, não será um lance de génio, mas sempre são... uns toques.

terça-feira, junho 17, 2008

Anúncios de 1936



"Clique" nas imagens para ampliar

Estava-se em tempo de Festas do Castelo, corria o ano de 1936. Como ainda hoje acontece, o espaço publicitário do Notícias de Vouzela era reforçado, ocupando uma página inteira- coisa rara naqueles tempos de pouca fartura. Os anúncios que publicamos, integravam essa página. Não estão aqui representadas todas as actividades de porta aberta da Vouzela daqueles tempos, nem essa foi a nossa preocupação. Mas está uma amostra curiosa quanto à diversidade da oferta e às preocupações do tempo.



Dos anúncios publicados, sobressaem duas características do comércio da altura: uma concentração total na vila (só aparece um anúncio das restantes freguesias- Alcofra) e o predomínio de lojas a venderem desde as fazendas às mercearias- talvez tenham sido as percursoras dos actuais supermercados. Num país predominantemente rural, percebe-se que o comércio fosse dominado pelo ramo alimentar (mercearias), abastecido pela produção dos arredores, com uma ou outra extravagância de origem mais longínqua.


Nas aldeias, existiam as “vendas”, lojas de tudo um pouco, raramente com grande variedade de oferta. Isto tornava o comércio da vila dono e senhor do mercado local. Mesmo assim, exceptuando cafés, “casas de pasto”, pensões, poucos eram os que se podiam dar ao luxo da especialização numa só área, privilégio de quem detinha o saber de um ofício: alfaiates, ourives, etc. Ou os sapateiros, que não se limitavam a vender sapatos- fabricavam-nos a gosto e por medida. Guardavam moldes dos clientes mais fieis e faziam-lhos chegar à medida das encomendas. Para qualquer morada, ou latitude- devia ser essa a explicação, para o dinamismo exportador anunciado.


Depois, algumas curiosidades de época, como a importância dada pela hotelaria à afirmação das suas preocupações com o asseio escrito com “c”. Isto, quando ainda era frequente apresentar-se, como diferença no serviço prestado, a disponibilidade de “águas correntes, quentes e frias”. Daí, não se estranhar o palavroso anúncio do “Spumol”, o mais eficaz para “tornar pretos os cabelos brancos”, mas que para além disso, garantia não sei quantas curas certas para as maleitas da derme- não era de produção vouzelense, mas não resistimos a publicá-lo. Intemporal era a segurança da farmácia. Bastava existir. Sem mais palavras.