sexta-feira, maio 16, 2008

Esta realidade que nos amarra

Robert & Shana ParkeHarrison

Não estivessem os bancos cheios de crédito mal parado e os portugueses endividados até à ponta dos cabelos e, muito provavelmente, continuávamos indiferentes à importância em dinamizar o restauro e o arrendamento, olhando para o território como um bem ilimitado, pronto a levar com cimento em cima em cada metro quadrado disponível.

Já há muito que vinha sendo denunciado o facto de Portugal ser o país da União Europeia que mais construía e menos recuperava. A constante oferta de habitação nova, muito superior às necessidades, deixava para trás um parque habitacional ao abandono, provocando uma alarmante ocupação do solo. Autoridades nacionais e locais ajudaram à festa, permitindo a apropriação privada de mais-valias conseguidas com investimento público e fazendo depender o financiamento das autarquias da área urbanizada dos respectivos concelhos. Ainda hoje existem presidentes de câmara que defendem, sem rir, que a “política do betão” é factor de modernidade. Paz à sua alma.

Com alguma boa vontade, admitamos que foram duas décadas (foram mais) de assalto descarado ao território, fazendo da construção e da especulação imobiliária as actividades económicas de referência, chegando a controlar, directa e indirectamente, cerca de 30% da população activa. Foi quanto bastou para se criarem perversões que vão muito para além da vandalização do território. Alimentou-se a ideia de enriquecimento fácil, em que a compra e venda de terrenos e o amontoar de tijolos, sem grande exigência técnica, era quanto bastava para ter o BMW à porta.

Foram vinte anos a transmitir estes sinais, a educar neste “capitalismo popular” (expressão do primeiro-ministro Cavaco Silva) as gerações mais novas. Agora falem-lhes em “paradigmas finlandeses” e tentem explicar que a “monocultura do tijolo” não é para todos- só para os PIN... Sobretudo, façam desenhos para que se entenda que a terra serve para bem mais do que para meter casas em cima e que as actividades económicas têm que se basear numa sólida formação que lhes acrescente valor.

Ou não façam nada disto. Finjam que dizem alguma coisa, não dizendo coisa alguma; finjam que dão formação, finjam que basta meter a miudagem nas escolas para que, de repente, consigamos saltar para o “pelotão da frente”. Depois, com meia-dúzia de artimanhas, garantam o lugarzinho e brinquem com os números. Se calhar é por causa do aquecimento global, mas a verdade é que a nossa “jangada de pedra” parece aproximar-se, cada vez mais, do Norte de África.

quarta-feira, maio 14, 2008

Capela de S. Frei Gil

1960's


Colecção Passaporte (LOTY)



J.C.A.L.


1985

Edição: Câmara Municipal de Vouzela
6 - Capela de S. Frei Gil - Passadeira de Flores
Gráfica Ideal - Águeda

segunda-feira, maio 12, 2008

Regulamento de Edificações Urbanas: proteger as marcas da nossa identidade

O Regulamento de Edificações Urbanas está em período de discussão pública. Convém dizer que o fundamental da questão não depende das opções locais e quem quiser encontrar o fio da meada legislativa, tem que se fazer acompanhar de guia e de uma boa dose de paciência. Partindo de um Decreto-Lei de 1951, a coisa desenrola-se por uma série de regulamentações parcelares, de alterações e de alterações às alterações, naquele jeito de complicar as coisas simples que deixa ao cidadão a ideia de que o querem afastar da compreensão do assunto.

No entanto, devemos tentar. Sobretudo, devemos fazer sentir aos responsáveis locais que há uma opinião pública atenta, sensível à necessidade de preservarmos o equilíbrio da nossa paisagem e a defesa do nosso património.

Com esse objectivo, parece-nos importante que se preveja a defesa das edificações em pedra. Já aqui falámos na preservação dos muros, “causa” que contou com uma feliz iniciativa do “Burro quando foge” e que urge apoiar para travar os erros que estão a ser cometidos. Propomos agora que se alargue a todas as edificações em pedra, elemento determinante nas características da nossa paisagem e marcas da nossa História. Reflectem técnicas de construção, organização económica, conceitos de habitar.

A legislação permite-o, dando, no entanto, ampla liberdade às autarquias. Na interpretação e na estratégia. Depende, pois, da sua sensibilidade e vontade. Que tal darmos uma ajuda?

sábado, maio 10, 2008

O FMI e a fome

A não perder o editorial do número de Maio do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa). É sobre o disparo do preço dos alimentos e- por incrível que pareça- quem com ele beneficia. De passagem, fala-se no abandono da produção local e da autonomia alimentar. Para os que estão fartos de dar voltas à cabeça, tentando perceber porque comem feijão-verde de Marrocos e batata de França, a não perder (aqui e muito mais na coluna da direita- Masseira- do Pastel de Vouzela)

Para guardar em local seco-III

(Foto: Pastel de Vouzela)

Ideias de outros que interessa guardar. Para consumir mais tarde ou para reproduzir em futuras sementeiras.

Só foi pena não se terem lembrado disto antes de venderem património ao desbarato

É o fim dos bairros sociais. E da solução dos problemas habitacionais através da entrega de uma casa. Em vez de mandar construir mais fogos para as 40 mil famílias que têm necessidade imediata de habitação, o Estado deverá dinamizar o mercado de arrendamento e ser ele próprio a adquirir ou arrendar imóveis, para constituir uma bolsa de fogos com que possa resolver algumas das carências habitacionais detectadas- Público.

Construtores e banca, uma aliança explosiva

Importa referir que no final dos anos 80 a diminuição das taxas de juro e a folga no rendimento disponível das famílias foi completamente absorvida pelo aumento especulativo do preço das casas que beneficiaram apenas duas entidades: os construtores e a banca. Os Governos foram cúmplices desta situação quando dispunham de mecanismos de regulação que não quiseram usar- pedra do homem

PINtem-nos de verde

A miopia dos PIN’s só tem equivalente na miopia de muitos dos nossos empresários. Juntos vão destruir de forma irreversível um património único que deveria e poderia ser preservado. O bem comum também passa por aqui e não é incompatível com o mercado regulado e bem encaminhado- Ladrões de Bicicletas.

Um debate decisivo para o Mundo Rural

Nadir Bensmail mostra como a produção 'moderna' para os mercados internacionais mantém no essencial as estruturas sociais existentes (o recurso ao trabalho assalariado desqualificado, a concentração da propriedade, etc.); inversamente, discute como a associação entre produtores e uma postura mais consciente dos consumidores pode conduzir não apenas à preservação da diversidade cultural, mas também a modelos de desenvolvimento do sector agrícola mais sustentáveis, em termos ambientais, sociais e económicos. Ou seja, paradoxalmente, a produção 'tradicional' pode revelar-se mais progressista do que a produção 'moderna', desde que enquadrada por uma atitude crítica por parte de produtores e consumidores. O mesmo tipo de lógica é facilmente extensível à generalidade dos produtos tradicionais- Ladrões de Bicicletas.

quarta-feira, maio 07, 2008

Bastava uma simples comunicação

“Estou saturada da desculpa de que Bruxelas é que tem a culpa”- Ana Soeiro, antiga funcionária do Ministério da Agricultura

A falta de protecção aos produtos tradicionais é da exclusiva responsabilidade das autoridades portuguesas. Bastava uma simples comunicação a Bruxelas para que fosse possível continuar a usar materiais e métodos de fabrico tradicionais. Só que ninguém a fez e o assunto só começou a dar nas vistas quando a opinião pública se virou contra o que considerou ser um abuso da actuação da ASAE.

Quem já teve oportunidade de comparar o que por cá é exigido, com o que se passa noutros países da União Europeia, não pôde deixar de estranhar o contraste. Pão caseiro, licores, aguardentes, queijos, tudo nos é oferecido lá fora e proibido cá dentro. As costas largas de Bruxelas serviram de desculpa. Injustamente.

Não é difícil imaginar a importância de muitas dessas actividades, para regiões altamente deprimidas como as do Interior. Ao fim e ao cabo, elas podiam ter sido as dinamizadoras de pequenos focos de economia familiar, ao mesmo tempo que garantiam uma oferta diferenciada, a partir da cultura local. Nada disso foi tido em conta pelos sucessivos governos, com a cumplicidade de muitos autarcas que mantiveram um silêncio indiferente. Preferiu-se empurrar as pessoas para os subsídios da Segurança Social, pelos vistos mais fácil do que preencherem um simples formulário.

Mas a gravidade da situação é tal que, de acordo com Ana Soeiro, nem os produtos qualificados “como denominação de origem (carne do porco alentejano ou pêra-rocha do Oeste, por exemplo) e como indicação geográfica (ovos-moles de Aveiro, presunto de Vinhais)” estão protegidos perante a legislação comunitária. Porquê? Porque “o Governo aprovou o caderno de especificações (que descreve a forma como são fabricados/manuseados), mas não fez as obrigatórias comunicações à Comissão Europeia nem informou à Autoridade de segurança Alimentar e Económica (ASAE)”.

Alto aí! Então e a vitela de Lafões, o cabrito da Gralheira... os pastéis de Vouzela? Impõe-se exigir das autoridades locais e das associações o completo esclarecimento da situação, porque manter a opinião pública informada é a nossa única defesa. Depois, aprender com esta experiência, também ajudava...

Quem é amigo?

Raphael Bordallo Pinheiro- Zé Povinho amarrado à coluna dos impostos

Nos tempos que correm, temos que ser uns para os outros. Apresentamos uma página onde pode encontrar os postos com o combustível mais barato, seleccionar por regiões e comparar (chegámos lá a partir do Blasfémias). Além do mais, destaca a área de serviço de Vouzela.

Já devem ter reparado que não morremos de amores pelo transporte rodoviário. Mas também não somos masoquistas. Nem parvos. Ora, quando falamos num produto em que o preço final é maioritariamente constituído por impostos, sem que nos sejam oferecidas alternativas válidas, faz todo o sentido divulgar os que nos permitam poupar uns trocos. Não têm de quê.