quinta-feira, abril 17, 2008

Pormenores-II

Pormenor da "Zona Industrial"

A "Zona Industrial" vista do Bairro da Senra

Monte Cavalo. Era uma daquelas manchas verdes que envolviam a vila e que contribuíam para o equilíbrio entre o natural e o edificado. Hoje, é porta de entrada para quem vem da A25 e mostra uma série de pavilhões, uns mais cuidados do que outros. É a “Zona Industrial” de Vouzela que, por um qualquer insondável motivo, se teima em manter bem à vista, em vez de a disfarçar com uma cintura de arvoredo. E a vista é a que se apresenta, bem visível de vários pontos da vila. Um daqueles pormenores que destrói qualquer imagem.

terça-feira, abril 15, 2008

Os supranumerários da Educação

Escola Conde de Ferreira- 1910. Imagem gentilmente cedida pelo Postal de Vouzela

“Não se trata de um erro. Talvez fosse um excesso de optimismo relativamente ao grau de preparação que as escolas têm”- Jorge Pedreira, secretário de Estado (12/04/2008), comentando o acordo entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical.

“Tudo isto reforça a convicção de o único caminho a seguir é o da maioria dos países nórdicos, que só recomeçaram a ver os seus jovens a progredir quando, na prática, acabaram com o Ministério da Educação e entregaram o poder às escolas e à comunidade”- José Manuel Fernandes (Público, 9 de Abril)

Há coisas que se passam nos grandes centros que só conhecemos pelos noticiários- eis a nossa vingança. Do mesmo modo que, para muitos, não passamos de um pontinho nos mapas, uma colecção de imagens pitorescas, ver um acto de má educação de um qualquer jovem passar a confronto directo com alguém mais velho é, para nós, curiosidade de telejornal (ou YouTube). Aqui, a pressão do meio ainda se faz sentir (para o bem e para o mal) e se já temos telemóveis (para que conste), ainda não temos a indiferença que gera sentimentos de impunidade.

No que diz respeito ao ordenamento do nosso território ou, mais precisamente, à falta dele, todos os governos têm usado a táctica de varrer o lixo para debaixo da carpete. Entala-se a maioria da população na faixa litoral, ignora-se a existência do Interior, teorizam-se os benefícios da deslocalização, como se nada disto interferisse com a vida das pessoas, a sua estabilidade, as suas redes de suporte. Depois encenam-se indignações quando alguma informação sai do controlo e o país é confrontado com as consequências da obra. “Chamem a polícia”! Vá lá, vá lá, que ainda nenhum “estatístico” apareceu a descansar-nos por ainda não ter havido mortes nas escolas, como já aconteceu nalguns dos mais desenvolvidos países do mundo- ainda vão chegar à conclusão de que é um indicador de desenvolvimento...

Vouzela deve muito a excelentes professores que, em épocas várias, aqui deixaram marca. Mulheres e homens que perceberam (e percebem) a dimensão social da sua profissão, colocando os seus conhecimentos ao serviço da comunidade e tentando compensar as suas muitas carências. Nós sabemos quem são os professores excelentes e não precisamos que um qualquer burocrata da 5 de Outubro nos venha mostrar a “bitola certa” para os avaliar. Só precisamos que não atrapalhem.

No entanto, o Ministério da Educação insiste em considerar-se dono da verdade absoluta e impor regras ao país inteiro, como se todas as escolas tivessem que enfrentar os mesmos problemas, como se a reposta às necessidades de cada comunidade, pudesse estar dependente da sensibilidade e inspiração de cada grupo que vai ocupando os gabinetes ministeriais. O resultado de tudo isto tem sido um conjunto de reformas falhadas de que já se perdeu a conta. Tem sido, também, uma espécie de esquizofrenia que domina os actos dos responsáveis pela Educação, como se esse sector fosse o fim último de todas as coisas, em vez de uma parte (e só isso) do todo social.

O novo modelo de gestão das escolas, o Estatuto do Aluno, o modelo de avaliação dos professores e as novas regras para organização dos apoios aos alunos com dificuldades são mais alguns tristes exemplos desta veia regulamentadora, com objectivos orçamentais de conjuntura. A previsível transferência da gestão de alguns sectores da Educação para as autarquias, deve ir na mesma linha.

Depois vem um secretário de Estado reconhecer que, afinal, nem as escolas conhecem bem, pecado inevitável para quem também não conhece o país e dele desconfia. O problema é que os governantes passam e as escolas e as comunidades permanecem, fartas de compensar os “excessos de optimismo” destes “líderes” em trânsito. Talvez seja altura de os enviar para os supranumerários e dar-lhes a provar o seu próprio remédio. Porque se há estrutura no Estado que tem provado a sua inutilidade é, precisamente, o Ministério da Educação.

domingo, abril 13, 2008

World Press Cartoon

"Aquecimento Global, o Derreter do Árctico"

Da autoria do cartonista norueguês Orkan, o trabalho ficou em 3ºlugar na categoria “Cartoon Editorial” da 4ª edição do World Press Cartoon. Quando a caricatura é a própria realidade.

quinta-feira, abril 10, 2008

O mau ambiente da economia

Um belo dia, os mercados foram abertos à China. Sem exigências, sem contrapartidas- para quê? O mercado encarregar-se-ia de pôr as coisas nos eixos, diziam. Assim foi. Com custos de produção muito inferiores aos europeus (devido aos custos associados ao trabalho serem muito menores), os produtos asiáticos sufocaram a concorrência. Muitas empresas europeias fecharam, o desemprego disparou, teorizou-se a vantagem da “deslocalização”, ameaçou-se a mais simples reivindicação com o papão dos olhos em bico- e a "crise americana" ainda só estava no início. Na prática, criaram-se condições para o maior ataque aos direitos sociais desde a Segunda Guerra Mundial, acelerando o desmantelamento do “Estado Social”. Quanto aos trabalhadores chineses, lá continuaram na "cepa torta".

Recentemente, em Bruxelas, os líderes europeus entraram em conflito por causa dos custos da meta definida para a redução das emissões de dióxido de carbono. Receiam-se as consequências da “deslocalização”, já que algumas indústrias podem abandonar território europeu. A este respeito, o presidente da Business Europe (federação europeia de empresários), foi claro: entre 50 e 80 milhões de euros anuais é o que se calcula que venha a ser o agravamento dos custos de produção na Europa, com a aplicação do sistema de comércio de emissões de CO2. Os sectores mais afectados vão ser o cimento, aço, alumínio e o papel. Lembram-se do lançamento da primeira pedra daquela fábrica de papel que José Sócrates definiu como o modelo a seguir?

Deste modo chegámos aos domínios do paradoxo. A União Europeia vê a sua política ambiental refém da sua política económica. Na verdade, sempre se percebeu que os limites da primeira seriam determinados pelos resultados da segunda, mas havia uma margem para o faz de conta. Agora nem isso.

terça-feira, abril 08, 2008

A propósito do Hospital de Vouzela

O Hospital em Fevereiro de 1959.
Curioso o letreiro em ferro trabalhado, dizendo: "Asilo-Hospital"

Os impulsionadores da obra, membros da direcção
da Misericórdia local- "clique" na imagem para ampliar

No dia em que reabre o Hospital de Vouzela (Unidade de Cuidados Continuados), propriedade da Santa Casa da Misericórdia, recordam-se pormenores da sua história e os tempos de uma outra inauguração: a de 1959, após alargamento e remodelação da chamada Casa de Cavalaria (núcleo central da actual unidade) que edificou a unidade de saúde que durante anos serviu a região.

Foi no ano em que Vasco da Gama chegou à Índia que se criou a Misericórdia de Vouzela: Agosto de 1498, na Sé Catedral de Lisboa, por premissão, consentimento e favor da Ilustríssima e mui Católica Senhora, a Senhora Rainha D. Leonôr e mulher do sereníssimo Rei D. João, o segundo (...)” (1).

O primeiro hospital veio mais tarde: em 29 de Junho de 1848. Chamava-se Hospital de São Sebastião, ou do Cimo de Vila, e localizava-se junto à Capela com o mesmo nome. Pelo que se lê no Notícias de Vouzela (1 de Fevereiro de 1959), o Provedor dessa altura era o “Senhor da Casa da Sernada”. Em 1873 tinha a Misericórdia ao seu serviço “dois médicos, um enfermeiro, um barbeiro fornecedor de sanguessugas e um sangrador”.

Em 17 de janeiro de 1894 é legada à Misericórdia a Casa de Cavalaria, sendo para lá transferido o Hospital, inaugurado em 24 de Junho desse ano pela rainha D. Amélia que, dois anos mais tarde, aceitou ser nomeada provedora honorária.

A 1 de Fevereiro de 1959, após grandes obras, foi inaugurada a unidade hospitalar que durante anos foi o principal serviço de saúde do concelho e, no dizer do provedor da altura (Dr. Guilherme Coutinho), “um dos melhores hospitais de província” do país. Tinha gabinete de radiologia, sala de operações (em 1958 tinham-se realizado 33 operações de grande cirurgia e 81 de pequena cirurgia) , enfermaria de adultos e de crianças, gabinetes de consultas.

Como não podia deixar de ser, o Notícias de Vouzela, com edição saída no dia da inauguração, dava grande destaque ao acontecimento. Nada menos do que quatro páginas numa edição de oito, com a última totalmente ocupada por fotografias dos melhoramentos. Para além dessas (e daquelas que aqui se publicam), as do Dr. Guilherme Coutinho e do Dr. Agostinho Fontes Pereira de Melo, “director clínico do Hospital durante cerca de meio século”.

No mesmo número registava-se o sucesso da "edição aérea" do jornal (em papel próprio, o que permitia ser distribuído por avião) e falava-se do avanço da electrificação de Ventosa, onde as primeiras casas se preparavam para o melhoramento. Foi há 49 anos, dois meses e sete dias.
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(1)- Todas as citações e fotos foram retiradas da edição de 1 de Fevereiro de 1959 do Notícias de Vouzela que, a partir do arquivo da Santa Casa publicou o trabalho “A Santa Casa da Misericórdia de Vouzela- Apontamentos para a sua história”.

sábado, abril 05, 2008

Boletim Polínico

Estamos na Primavera. Tradicionalmente motivo de festa, a ela estavam associados vários ritos de fertilidade. Era o fim das privações do Inverno e o acordar da Natureza. Hoje, é tempo de “Boletim Polínico”. Isso mesmo. Uma informação sobre pólenes para prevenir alergias, divulgada pelos mais variados órgãos de comunicação. Nada escapa nesta história: carvalhos, oliveiras, urtigas, alfavaca-de-cobra. Eu que até sou dos que espirram incessantemente, com um recorde de 158 seguidos sem parar, digo que é estranho. Muito estranho. Num tempo em que o pessoal passa a vida a “snifar” tubos de escape, é preciso que a Mãe Natureza se disponha aos actos da procriação para ouvir bradar “aqui d’El Rei que anda pólen no ar”. Então e os exofres, chumbos e outras porcarias que nos entram nariz dentro, sem cerimónia para com as estações do ano? Será que ninguém é alérgico à poluição atmosférica? Será que não se justifica um “boletim”, um alerta a isso associado? Ou será que nos sentimos tão impotentes que a única luta que acreditamos poder vencer é contra... o voo das abelhas?

quinta-feira, abril 03, 2008

Comboios

Foto: José Campos

Mal publicámos os primeiros textos defendendo a criação de uma opinião pública forte, favorável ao regresso do comboio, recebemos mensagens de apoio de algumas pessoas, realçando a importância dessa “ligação da região à Europa”. Para nós pode ser muito mais do que isso. Pode ser um elemento estruturante fundamental que acabe com a dependência em relação ao transporte rodoviário. Assim a saibamos aproveitar.

A partir do “Viseu, Senhora da Beira” tomámos conhecimento de um estudo datado de 2003, realçando a importância da ligação Aveiro-Salamanca, através de Viseu. Mais um documento para consulta e reflexão. De acordo com informações que nos chegaram, a obra vai avançar, devagarinho, com a ligação do Porto de Aveiro à linha do Norte. É pouco, mas não elimina o fundamental: ele vai voltar (já agora: vão tentar introduzir portagens na A25...)

Em defesa da Linha do Tua- petição



Conhecemos o estilo: deixa-se de investir, permite-se que alastre o desconforto e a insegurança e depois... acaba-se com a linha por tudo isso. Já vimos este filme. Neste caso, também está em causa a construção de uma barragem de necessidade duvidosa que vai acabar com uma das mais deslumbrantes paisagens do nosso país. Para além do comboio. Muito há a fazer para racionalizar, entre nós, o consumo de energia- nada conseguirá reproduzir o património paisagístico que se irá perder. Por isso mesmo, importa apoiar o Movimento Cívico pela Linha do Tua que tem a circular esta petição.