domingo, março 30, 2008

Lá estivemos, à espera

Resta a consolação de sabermos que isto ninguém nos tira (para já)

Pois lá estivemos nós, à espera do Sócrates de visita a uma empresa da região. E não lhe oferecemos pasteis. Ia para as energias alternativas e o que nós queríamos era uma política do mesmo tipo: alternativa. Não é que tenhamos grande esperança, diga-se, mas assim como assim, no meio de tanta trapalhada, tanta medida mal pensada, resta-nos tudo tentar para ver se nem tudo se perde.

Como já era de prever, mas nunca foi assumido, a central do INEM não consegue localizar as chamadas. Ou seja: se aquele que liga a pedir socorro não conseguir dar as coordenadas certas (por nervosismo, por não saber, por isto ou por aquilo), bem podemos encomendar a alma ao Criador. Era fácil de prever, toda a gente alertou para o facto, mas, pelos vistos, não constava do manual de instruções dos técnicos do Ministério da Saúde que estruturaram nessas milagrosas ambulâncias o sistema de auxílio a toda uma população.

Enfim, como por aí se diz, se nem uma porcaria de uma “Lei do cigarro” conseguiram fazer sem duplos sentidos, se o aviso de cem mil professores não bastou para que as iluminadas mentes governativas pensassem melhor no que estão a fazer, como é que queríamos que corresse bem a complexa reorganização dos serviços de saúde? Ainda por cima, visando umas modestas dezenas de milhares de cidadãos. Por isso resta-nos esperar. Pelo primeiro-ministro, entenda-se. Fazer-lhe uma marcação cerrada ao melhor estilo do defesa-central dos tempos em que, nas Chãs, as canelas faziam faísca.

E se disserem que somos um bando de comunistas instrumentalizados, ou um bando instrumentalizado pelos comunistas, não acreditem. Apenas também não o somos por quaisquer outros.

quinta-feira, março 27, 2008

É o “pogresso”, senhores

Qual gralha, qual erro ortográfico. É um elaborado conceito com escola feita em muitas autarquias e projectos governamentais. O “pogresso”, desta vez pela boca do Dr. Ruas, líder da Associação Nacional de Municípios e presidente da Câmara Municipal de Viseu. Ou, se quiserem, o betão como condição para o “desenvolvimento imaterial” (a partir daqui)

“Eu acho piada porque o betão tem servido para crítica, mas quando a gente vê reclamar grandes investimentos, toda a gente cai no betão. O betão é a condição indispensável para haver desenvolvimento imaterial. Só há desenvolvimento cultural se se fizer previamente betão, só há desenvolvimento intelectual se houver inicialmente betão”.

terça-feira, março 25, 2008

Em defesa da Reserva Ecológica Nacional-Petição

Já por diversas vezes reflectimos sobre o perigo que representa aumentar o peso das autarquias na gestão da Reserva Ecológica Nacional. Com um financiamento muito dependente da área urbanizada, as autarquias dificilmente resistem à tentação de promover uma maior privatização do território, destruindo este importante instrumento de planeamento. É verdade que a REN deve ser repensada e actualizada, mas é fundamental que continue a ser protegida. Com esse objectivo, está a circular uma petição: “Em defesa da Resrva Ecológica Nacional-REN” (onde chegámos a partir daqui). Vale a pena ler e reflectir. Vale a pena combater a indiferença.

segunda-feira, março 24, 2008

Tempo de folar

Como “em casa de ferreiro espeto de pau”, tivemos que pedir esta foto emprestada

Já o devíamos ter feito há mais tempo. Mas, a verdade é que, para nós, todos os dias são dias de folar. É daquelas coisas que estão sempre acessíveis. Mais do que um símbolo de passagem, entre nós está sempre disponível para os que passam.

O nosso é doce. Ligeiramente, ao princípio. Mais, à medida que entramos na massa e nos aproximamos do centro. Faz sentido dizer que é "o centro da questão", como uma nova vida a gerar-se no interior do ventre materno.

Pois aqui fica o convite para conhecerem o nosso folar. Para o efeito, uma pequena ajuda: é só “clicar” aí em baixo (página em fase experimental).

Onde ficar, o que comer

domingo, março 23, 2008

DIA MUNDIAL DA POESIA


Entre os muitos dias disto e daquilo passou-se o da poesia.
Convenhamos que, como os restantes dias disto e daquilo, todos os dias o deveriam ser.
Mas não quero deixar de aproveitar o ensejo para transcrever três poetas que me são caros:

ALBERTO CAEIRO
(O guardador de rebanhos – XLII)

Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
O sol é sempre pontual todos os dias.

ALEXANDRE O’NEILL
(Portugal - excerto)

Ó Portugal, se fosses só três silabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol o sul,
o ladino pardal
o manso boi coloquial
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

ANTÓNIO ALEIXO
(Quadras soltas)

Condecoro o Presidente...
E sabem porque razões?...
- Por ter posto a tanta gente
Tantas condecorações!


Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!

Prometem ao Zé Povinho
Liberdade, Lar e Pão...
Como se o mundo inteirinho
Não soubesse o que eles são!

E por aqui me fico. Leiam poesia e os dias serão mais doces.

sábado, março 22, 2008

PECADOS MORTAIS

Dos sete pecados antigos, acredito que os que em Vouzela eram mais praticados seriam a inveja (se a loja do António está a dar, vai de abrir outra ao lado e depois outra ainda; ou se o vizinho comprou um tractor de 50 cavalos há que comprar um de 80 , ou se a amiga tem uma "volta" de ouro a outra vai querer duas), a gula (quem é que resiste a uma boa vitelinha grelhada, a um cabritinho da serra assado no forno, a um bacalhau à lagareiro já para não falar do folar, do leite creme e dos inconfundíveis pasteis) e a avareza (que só conheço em elevado grau em meia dúzia de pessoas, mas que se confunde com precaução ou medo de arriscar, na grande maioria).

Na verdade os restantes quatro nunca tiveram grande expressão, possivelmente por questões genéticas (ira e preguiça) , económicas (vaidade) e populacionais (a luxuria em terras pequenas é sempre um risco).

Mas de repente as iluminadas cabeças do Vaticano lembraram-se que Vouzela existe e vai de arranjar alguns novos pecados que podem perfeitamente adaptar-se

Ora vejamos:

Poluição ambiental: será agora que irão deixar de ser lançados ao Vouga e ao Zela os restos dos abates de alguns agricultores, ou os entulhos deixados na bermas das estradas, e o excesso de adubos que atingem os lençois freáticos, ou que finalmente a ETAR conjunta da CMV e da CMSPS irá funcionar em condições?

Manipulação genética: não acredito que venha a constituir perigo a curto prazo, mas com o aumento do preço dos cereais devido ao biodiesel, não se pode garantir que a médio prazo não venha a acontecer, isto se ainda houver agricultores. Mas que era bem feito manipular um dos muitos cães vadios que por aí há e transformá-lo numa vitela de Lafões lá isso era.

Acumulação excessiva de riqueza: sobre este só podíamos falar da pessoa que todos sabem quem é pelo que não o farei.

Infringir pobreza: aqui está um problema que não é só de Vouzela, é nacional e cada vez tem mais peso na nossa sociedade. Talvez não fosse má ideia encomendar um estudo sobre a pobreza no nosso concelho e por certo que os resultados iriam deixar muita gente preocupada. Talvez ajudasse a reformular a política local com vista a melhorar as condições de vida dessa franja da população.

Tráfico e consumo de droga: embora sem as proporções dos grandes centros, já é preocupante o que se passa em Vouzela, até porque são conhecidos os consumidores (e nada é feito para a sua recuperação) e os vendedores (e nada é feito para a sua detenção).

Experiências moralmente debatíveis: este é dos tais que dá para tudo. Será que se estão a referir a certas posições do Kamasutra que deveriam ser debatidas pelos intervenientes antes de, ou se deverá ser previamente debatido com o parceiro do lado o arremesso de uma garrafa ao guarda-redes da equipa adversária. Experiências moralmente debatíveis são a avaliação dos professores, e outras medidas que a titulo “experimental” os governos fazem sem debater, ou que as Câmaras implementam sem ouvir previamente as populações. Dizem-me que tem a ver com a pedofilia. Mas então não seria mais lógico pura e simplesmente dizer que a pedofilia é pecado, ou o texto foi redigido por alguém da diocese de Boston?

Violação dos direitos humanos: este também terá mais importância nacional do que regional embora se possa considerar uma violação dos direitos humanos, por exemplo, trazer os carrinhos para o centro da vila quando podiam muito bem andar a pé, e a GNR andar a passar multas por estacionamento indevido; mas se não houvesse carros no centro da vila a quem é que a GNR passava multas, violando os seus direitos? Graves violações sem dúvida.

Por tudo o que foi dito os vouzelenses deverão estar atentes, porque Ele só está à espera que feche o Centro de Saúde para acertar as contas convosco, a menos que, como a religião prevê, antes de se finarem confessem os vossos pecados.

Só uma dica:

Ouvi na SIC -Noticias que nesta altura da Páscoa a tradição de Viseu é o Pão de Azeite. Acontece que, por imposição da ASAE, não pode ser utilizada aguardente caseira, mas apenas daquelas que ninguém sabe como são feitas mas têm rótulo. Às vezes bem parece que algumas das intervenções da ASAE têm a ver, exactamente, com excesso de consumo dessas bebidas rotuladas...

quinta-feira, março 20, 2008

Algumas reflexões a ver passar os comboios

Foto tirada daqui

(...) pagava para ver as pontes de pedra renovadas, as linhas de aço reconstruídas cheirando a madeira tratada, as estações com jardins floridos e os seus depósitos de água elevados brilhando num cinzento prata; pagava para ver a floresta em volta, a água correndo nos rios e ribeiros, homens cortando lenha para a lareira de casa, pessoas à espera do comboio e putos correndo em alegre gritaria no cais da espera; pagava, para pôr a cabeça ao vento, fechar os olhos e fazer " a viagem"- caiu-nos na caixa do correio, assinado por Lizardo, logo que anunciámos: Ele aí vem!

A ligação entre Aveiro e Salamanca através de comboio foi a melhor notícia que recebemos desde há muito. Apesar de estar longe do cenário desenhado no “mail” que transcrevemos, pode representar um importante elemento estruturante do ordenamento desta região e um estímulo. Ou não. Tudo depende do modo como decidirmos participar neste debate e de como projectarmos o futuro.

Não sabemos qual o trajecto previsto. No entanto, as características do terreno não devem deixar grandes alternativas ao máximo aproveitamento do vale, evitando os custos da construção nas serras circundantes. Também não é aceitável que um comboio que terá como principal objectivo o transporte de mercadorias e que se prevê circular a velocidades superiores a duzentos quilómetros por hora, reedite as velhas paragens em cada sede de concelho. Ora, tudo isto constitui um enorme desafio para a região que só pode ser vencido. Caso contrário, arriscamo-nos a ficar com os prejuízos da obra (impacto ambiental), sem nada beneficiar com ela.

Lafões está, neste momento, totalmente dependente do transporte rodoviário. Mais precisamente, do transporte rodoviário individual, já que o colectivo está longe de oferecer qualidade e quantidade que nos faça pensar duas vezes antes de decidirmos usar o automóvel. O problema é que a evolução do preço do petróleo e o agravamento da situação ambiental, vão penalizar, a curto prazo, esse meio de transporte, o que se irá reflectir quer nos bolsos dos locais, quer nos daqueles que nos visitam.

Para que o comboio seja uma alternativa a tudo isto, é necessário que os preços praticados no transporte de passageiros sejam convidativos. É também necessário que sejam organizadas ligações de qualidade, entre a paragem mais próxima (provavelmente Viseu) e a região. Para isso, é preciso entrar desde já no debate e fazê-lo com espírito de equipa: os três concelhos de Lafões representam mais de quarenta mil cidadãos interessados no aproveitamento possível do comboio; representam, ainda, uma imensa região, riquíssima quanto a património natural e edificado, que muito pode beneficiar com o melhoramento. É essa a sua força, é essa a sua responsabilidade.

Não sabemos se a partir da nova linha será possível recuperar e aproveitar alguns troços da antiga para fins turísticos (bem gostaríamos que assim fosse). Mas temos a certeza de que um correcto aproveitamento do comboio será um enorme contributo para a defesa da “floresta, da água e dos homens” desta região e de todo o País, pondo a nu a irresponsabilidade dos que até agora o combateram ou ignoraram. Tal como os “putos correndo em alegre gritaria”, ele é o futuro. E nós queremos embarcar nessa "viagem".