quinta-feira, janeiro 17, 2008

Iniciativa

(Capa da publicação de promoção turística da Comissão de Iniciativa)

Como os habitantes da famosa aldeia gaulesa, só tememos que o céu nos caia em cima. Mas, a verdade é que ele parece que vai mesmo cair. As alterações que estão a sofrer os diversos serviços, a que receamos se vá juntar o encerramento do Tribunal, não podem deixar de ter consequências no já limitado movimento da vila e na facturação do seu comércio.

No entanto, estes momentos, quando bem aproveitados, podem ser o toque a reunir que consegue juntar esforços e estimular a criatividade. As lições do passado podem ser uma ajuda.

Há oitenta anos atrás, Vouzela viveu momentos muito parecidos com os de hoje. Na altura, o choque foi provocado pela extinção da Comarca (1927). Todavia, os registos mostram que se viveram, a partir daí, momentos fervilhantes de iniciativa que acabaram por edificar muitos dos pilares dos nossos melhores momentos.

Em Novembro de 1928, “uma representação da grande maioria dos habitantes” da vila, pediram à Câmara que se avançasse para a “iluminação pública (...) por electricidade” e para “o fornecimento de energia aos particulares para o mesmo fim”. A concessão do serviço acabou por ser entregue à Sociedade Luzitana de Electricidade AEG-Lisboa, que também ficou com a responsabilidade de construir a rede.

Na mesma altura, foi decidido pedir a classificação da vila como “estância de turismo”, o que levou à criação da Comissão de Iniciativa. Ora, foi esta Comissão que idealizou e promoveu vários dos melhoramentos, como a florestação e organização do Monte Castelo, um esboço de Plano de Urbanização- “elaborado pelo distinto estudante de engenharia Exmo. Snr. João Corrêa de Magalhães Figueiredo (...)”- e a publicação de um dos mais bem feitos folhetos de promoção turística que por estas bandas se fizeram. Intitulava-se “Vouzela- Antiga Capital de Lafões e seus Arredores” e contou com a colaboração do poeta António Correia de Oliveira.

Consta que as iniciativas dessa Comissão conseguiram juntar esforços de homens de áreas políticas opostas. A ditadura tinha sido instaurada em 28 de Maio de 1926 e as feridas estavam bem abertas. No entanto, nomes da vereação dos últimos anos da República aparecem ligados à Comissão de Iniciativa.

Talvez o exemplo seja de aproveitar. Numa altura em que o céu parece ir cair sobre as nossas cabeças e as ideias não abundam, conseguir a colaboração de quem tem a memória mais larga e os horizontes mais amplos, pode ser a ajuda necessária para mudar de rumo. Essas pessoas existem. Haja a humildade e a inteligência de as mobilizar. Haja iniciativa.
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Nota: Todas as citações foram retiradas da obra Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

A regionalização, de novo

Lemos no “Blasfémias” o texto de Carlos Alberto Amorim, também publicado no "Correio da Manhã":

Urgência de memória

Em 1998 a intenção de regionalizar Portugal perdeu por margem elevada. Curiosamente, os resultados mais desnivelados deram-se no Interior – na Guarda, Viseu, Bragança e em Vila Real, a regionalização foi rejeitada por margens bastante superiores às que se verificaram em Lisboa, Porto ou Algarve.Nestes dez anos não se propôs qualquer alternativa viável à descentralização regional. Insistimos no Estado mais centralizado e macrocéfalo do Mundo com o qual gostamos de nos comparar. Muito por causa disso, somos um País desequilibrado, sem coesão social e económica, com um Interior pobre e desertificado.Num caldo de cultura que vive do Estado e para o Estado, a descentralização é um imperativo racional – trata-se de retirar importantes parcelas do poder de decidir ao Estado Central para o entregar a entidades regionais.Se os portugueses não se esquecessem tão facilmente das ofensas a que são sujeitos, sobretudo os do Fundão, Régua, Alijó, Murça, Chaves, Anadia, Vouzela e de todos os outros lugares de onde um burocrata sem sair da capital retira, como quer e lhe apetece, os poucos benefícios públicos que lhes deram em troca dos muitos impostos que lhes cobram, a partir de agora não hesitariam em votar 'sim' à regionalização para impedir que decisões com um impacto local tão intenso fossem tomadas ao nível central.Só os povos com memória são capazes de merecer os direitos que julgam seus. Mas essa não é a nossa tradição, infelizmente.


Há dez anos atrás, o tema dividiu a sociedade portuguesa. Não propriamente uma divisão esquerda/direita, mas antes entre os que acreditavam nas vantagens do aumento dos poderes regionais e os que desconfiavam das clientelas que, por esse país fora, aspiravam a ascender à condição do tal “burocrata” que “retira, como quer e lhe apetece, os poucos benefícios públicos” que vamos tendo. Um conjunto de regiões mal amanhado, sem fundamentação histórica e/ou geográfica, também não ajudou.

A actualidade do tema mantém-se, as dúvidas também: basta a proximidade relativa para garantir maior democraticidade? Não será que o “Poder Local” que temos prova precisamente o contrário? Assunto a merecer mais aprofundada reflexão. Comece o aquecimento.

domingo, janeiro 13, 2008

Acontece no Castelo

Ao fundo o Monte Castelo: uma mancha florestal que importa proteger, um espaço único que exige cuidados

Não sei o que possa justificar, nem quem é o responsável. Sei que não se faz. Na subida para o Castelo, logo após o cruzamento para o Caritel, toda a encosta do lado direito foi arrasada- é o termo. Todas as árvores cortadas, os restos da lenha deixados ao abandono, a terra solta. Alguém devia estar à espera de um Inverno sem vento e sem chuva. Ou de um milagre.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A invasão dos urbanóides-3: a perspectiva das coisas

Magritte, Perspective

Confesso que resisti ao leitor de “cê-dês” no automóvel. Nada contra, mas o incómodo do armazenamento, as previsíveis consequências da trepidação, levaram-me a adiar a novidade. Só que não imaginam o gozo que dá sair de manhã para o trabalho, atravessar as estradas geladas e desertas das nossas serras, a ouvir os dramas engarrafados do pessoal que desespera, parado, no IC19, ou na Ponte do Freixo. Pois- a realidade nacional formatada pela dimensão dos horizontes urbanóides.

Por isso, limitei-me a sorrir quando ouvi o ministro da Saúde dizer que, na tal rede-de- serviços- que- os- técnicos- disseram- dever- ser- de- uma- maneira- mas- que- as- “opções políticas”- têm- montado- de- outra, nenhuma localidade ficava a mais de 30 minutos de um centro de assistência. Ocorreu-me logo que a Aldeia da Pena não tivesse dimensão para se fazer notar nos mapas do ministério. Ou Sul, Coelheira, Covas do Monte, Fujaco... eu sei lá.

Correia de Campos é de Viseu, mas há muito que se deve dirigir ao trabalho a ouvir as informações de trânsito das rádios nacionais. A coisa mexe connosco, acreditem. A páginas tantas já nos põe a ver grandiosas operações “stop” da brigada de trânsito, coletes reflectores e “pirilampos” a brilhar, arranjando espaço para que um helicóptero aterre numas quaisquer quatro faixas dum caminho nos confins de um vale de São Macário ou da Arada. A miudagem a acorrer, galhofeira, presidente de junta e filarmónica à espera, aprumados, e a senhora professora, rendida, a passar para trabalho de casa: “redacção sobre o dia em que o helicóptero veio buscar o tio Malaquias”. Em trinta minutos, registe-se.

Os efeitos são terríveis, não duvidem. Acabei por me render. Hoje já me fiz à estrada com “lobos, raposas, coiotes”, disco já antigo da Maria João e do Mário Laginha, mais de acordo com a minha realidade. No “cê-dê” do carro.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Foto-tour-Abrigo Fevereiro 2008

Pisco-de-peito-ruivo (Foto: João Cosme)

É nos momentos em que nos apetece afastar de tudo, entrar na simplicidade das coisas e deixarmo-nos dominar pelo som do silêncio que mais agrada cruzarmo-nos com o João Cosme. Fotógrafo de Natureza e Vida Selvagem, trabalhos na National Geographic e em mais não sei quantas publicações da especialidade, vários livros no activo e aquela calma de quem sabe que um pisco-de-peito-ruivo vale todo o tempo do mundo. E o João age como se tivesse todo o tempo do mundo, preparando a espera, cativando a presa, aguardando pelo momento certo para o disparo. É um “descaçador”, na medida em que pretende prolongar o alvo para além dos limites da vida. E é de Vouzela.

Pois o João Cosme está a organizar um circuito para fotografia de abrigo, a realizar no próximo mês de Fevereiro. Já há uns dias que divulgamos a iniciativa, lá bem ao alto da coluna do lado direito deste blogue. Tem inscrições limitadas e será realizado nos fins- de- semana de 2 e 3 e de 9 e 10 de Fevereiro. Veja aqui. Já agora, conheça o blogue do João (aqui e na “masseira” desta casa).

Procura-se...

... cidadão informado que, depois de assistir ao programa Prós e Contras da RTP1, tenha compreendido os motivos que levaram o ministro da Saúde a não abrir um Serviço de Urgência Básica em São Pedro do Sul. O espaço do Pastel de Vouzela fica à sua disposição.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Haja saúde

Robert e Shana ParkeHarrison-Reclamation-2003

Apesar de recente, a “carreira política” já revela tiques corporativos. Ataque-se o seu espaço e a sua liberdade de manobra e imediatamente se verifica um amplo consenso na defesa dos princípios da “arte de bem governar” que tem no “Bloco Central” o seu guardião. A recente onda de contestação às “reformas” dos serviços de Saúde proporcionou-lhe mais um esclarecedor momento de exibição.

Comentando as declarações do Presidente da República que deu a entender não se perceberem os objectivos das mexidas na Saúde, Pacheco Pereira, numa intervenção na SIC-Notícias, “despachou” o assunto dizendo que há reformas que não se conseguem explicar. Correia de Campos, numa longa estadia nos estúdios da RTP, tentou puxar dos galões, dando como argumento o facto de saber de Saúde mais do que a média. José Junqueiro, deputado e líder do PS de Viseu, lamentou a “desinformação” de que todos nós, simples e humildes cidadãos, estamos a ser vítimas e que nos impedem de compreender o verdadeiro alcance das reformas em curso, rematando com a garantia de que "o PS, através dos seus deputados, será sempre o primeiro a exigir a rectificação deste novo modelo se, eventualmente, se constatar que, na prática, pode prejudicar a assistência e cuidado que são devidos a todas as pessoas".

Acrescente-se o facto do PSD ter sido o único partido que evitou comentar a mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva (onde, para além dos problemas com a Saúde, abordou o tema da desertificação do Interior e dos vencimentos de alguns gestores que considerou excessivos), e facilmente concluímos que basta tentar controlar um pouco mais a sua acção, obrigá-los a fundamentar melhor as suas posições, para que a reduzida diferença existente entre os dois partidos se esbata de vez. De facto, o que os preocupa não é tanto o sucesso desta ou daquela medida em concreto, mas antes que se questionem formas de exercício e facilidades de acesso do e ao poder. Não é difícil prever que novos e esclarecedores momentos de unidade irão surgir quando (ou se) forem obrigados a justificar a não realização do referendo ao Tratado Europeu ou a defenderem as alterações à legislação eleitoral.

De acordo com os especialistas na área da Saúde, justificam-se muitas das medidas tomadas por Correia de Campos. Algumas delas são, até, orientações internacionais da responsabilidade da Organização Mundial de Saúde. Isso não invalida a crítica que lhe fazemos de ter sido completamente incompetente no modo como as explicou e aplicou, erro grave para quem se reconhece com conhecimentos na área superiores aos da média.

Esta faixa do território conhece, como nenhuma outra, o significado de envelhecimento, de isolamento, de abandono. A segurança real da proximidade de um médico durante 24 horas, com reduzidas capacidades de actuação, podia não ser mais do que uma questão de “fé”, mas era sinceramente sentida como um factor de segurança. António Arnaut, “pai” do Serviço Nacional de Saúde e fundador do Partido Socialista, chamou a atenção para isso, quando se percebeu que os conhecimentos técnicos do actual ministro, não eram acompanhados por idênticos conhecimentos na área social. Correia de Campos mostrou-se completamente indiferente ao pormenor.

Tivesse havido o cuidado de ouvir as pessoas, de compreender as suas preocupações e anseios e facilmente se teria montado uma estratégia que, em primeiro lugar, ganhasse a sua confiança. Por exemplo, criando apoios próximos, domiciliários, adequados à idade avançada que têm muitos dos utentes dos serviços de Saúde. Sim, porque acreditar que basta haver estradas novas para que os problemas de comunicação estejam resolvidos; usar distâncias entre sedes de concelho e hospitais centrais, ignorando a existência de localidades espalhadas pela serra; não atender à capacidade real de muitas pessoas em estabelecerem um contacto correcto com os serviços do INEM, “cheira” logo a “urbanóide” a olhar para o país a partir de um gabinete e levanta as maiores suspeitas.

Aliás, não deixa de ser curioso confrontar os argumentos dos que vieram a terreiro na defesa da sua “dama política”, com os dos que há muitos anos andam nestas coisas e conhecem os seus pontos fracos. Compare-se o que foi dito pelo deputado José Junqueiro sobre a abundância de oferta de serviços de ambulâncias (aqui), com as opiniões dos comandantes dos bombeiros de Vouzela e de São Pedro do Sul (aqui).

Contrariamente ao que afirmou Pacheco Pereira, só não sabe explicar quem não domina um assunto. O conhecimento é a chave que permite descodificar a complexidade das coisas, mesmo que daí surjam novas “complexidades”. Isto é verdade para todas as áreas, estejamos a falar de Saúde, ou do Tratado Europeu. Por isso, quando um “especialista” não explica e se refugia na abrangência de um tema, ou não sabe, ou esconde. Esconde, por exemplo, o facto de medidas como as que se estão a aplicar na Saúde, serem estruturantes do ponto de vista do ordenamento do território, empurrando a população daqui para fora ou para os “braços protectores” do “comércio da terceira-idade”. Esconde que a haver um incorrecto dimensionamento dos serviços, isso deve-se aos responsáveis do PS e do PSD. Esconde, ainda, que se a região de Lafões nunca foi usada como uma área de organização de serviços mais racional, isso deve-se às absurdas propostas de reorganização administrativa do PS e do PSD e às opções dos seus eleitos locais.

Assim, a promessa do deputado José Junqueiro não deve ser suficiente para descansar quem quer que seja. Não somos cobaias nem admitimos que nos tratem como tal. Mais do que termos garantias de “rectificação deste novo modelo se, eventualmente, se constatar que, na prática, pode prejudicar a assistência e cuidado que são devidos a todas as pessoas", queríamos estar seguros de que o possível tinha sido feito, antes da aplicação do “novo modelo”, para reduzir o risco dele vir a “prejudicar a assistência e cuidado que são devidos a todas as pessoas".

Foi por isso que nos mobilizámos à porta do Centro de Saúde (onde estavam vários eleitos do Partido Socialista, registe-se, provando haver laços bem mais fortes) e esperamos que nos voltemos a mobilizar contra as alterações à Lei Eleitoral combinadas entre o PS e o PSD. Já que é tão difícil governarem-nos, explicarem-nos o elementar, é preferível assumirmos, de uma vez por todas, que nós somos os melhores representantes da nossa própria vontade. Haja saúde.