sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Mostrar Portugal aos portugueses”




"Clicar" nas imagens para ampliar. Estas e muitas mais, aqui

Estava-se em 1930. António Ferro dirigia a revista “Ilustração Portuguesa”, perseguindo o objectivo de “mostrar Portugal aos portugueses”(1). Ensaiava, então, a estratégia que, mais tarde, a partir de 1933, iria aplicar à frente do Secretariado de Propaganda Nacional e que ficaria ligada a iniciativas como a participação nas exposições internacionais de Paris (1937), Nova Iorque e São Francisco (1939), o concurso “A Aldeia mais Portuguesa de Portugal” (realizado em 1939 e onde o concelho de Vouzela marcou presença), a Exposição do Mundo Português (1940).

De acordo com a orientação nacionalista então dominante, procurava-se transmitir uma imagem idealizada de Portugal que sustentasse o pretendido “orgulho português” e adoçasse os olhos com que nos viam do estrangeiro- ao fim e ao cabo, três décadas de democracia não foram suficientes para alterar este fascínio pelo mito.

Foi precisamente António Ferro o autor da ideia. Uma mão- cheia de notáveis, homens da comunicação social, foram metidos num comboio e levados a conhecer o Portugal profundo. Curia, Luso, Bussaco, Aveiro, Vale do Vouga, São Pedro do Sul, Vouzela: “Três dias no Paraíso”. Da viagem, saíram reportagens no Diário de Notícias, Notícias Ilustrado, Eva e Ilustração. São desta última as imagens e as citações que se publicam.

Depois de percorrerem o Vale do Vouga- “três horas de encantamento”- dirigiram-se a São Pedro do Sul. Encontraram o balneário das Termas aberto, mas o hotel fechado. Parece que hoteleiro e câmara andavam de “candeias às avessas”. Manifestaram o seu desagrado, os excursionistas, porque se tratava de “um rincão magnífico do paraíso que o esquecimento turístico aniquilará”. A pressão parece ter resultado, tal como era prometido nos acalorados e obrigatórios discursos que remataram o almoço. E o jornalista adornava: “Em redor, a natureza impressionável e magnânima, desentranha-se em maravilhas alheia às maldades dos homens que a matam com o seu veneno”.

Ainda junto ao balneário, registaram o fascínio pelo Dr. Trinta, director das termas: “Um médico à antiga, bela figura de apóstolo, alegre, bem humorado, enamorado da sua terra e da sua obra. Trinta como este e estava São Pedro na primeira fila das termas peninsulares, que bem o merece!”

Já de regresso a Aveiro, uma paragem em Vouzela onde foram recebidos por uma comitiva dirigida por João António Gonçalves de Figueiredo que teve direito a caricatura. Dirigiram-se ao Castelo- “que não inveja o Bussaco”- e mais uma vez a paisagem a impor-se aos sentidos do articulista: “(...) o mais belo panorama que os meus olhos ainda viram, o rio Vouga no fundo da taça, preguiçoso, o marau, às voltas de capricho. Serrazes a um lado, São Pedro a outro, a cadeia de montanhas, em toda a volta, a recortar o céu magnífico”.

Na despedida, umas taças de Lafões, “vinho fresco, alado, surpreendente (...), um vinho que deve ser, se a minha guela ressequida me não engana, o melhor de Portugal todo (...)”. Parece que estavam trinta e muitos à sombra.

_____________

(1)- in, Dicionário de História do Estado Novo, direcção de Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, vol. I, 1996, pág. 356

terça-feira, janeiro 01, 2008

Tempo de acordar


O ano que agora começa, vai ser o primeiro em que as preocupações ambientais vão ter lugar cativo na agenda da gestão autárquica. Pelos piores motivos. As primeiras angústias vão surgir com a falta de água e o desleixo com que foram tratados os nossos recursos hídricos. Ninguém vai assumir responsabilidades, todos vão exigir sacrifícios… ao cidadão comum. Há freguesias do concelho de Vouzela com dificuldade no abastecimento de água. Inadmissível!

Que 2008 seja, então, o ano da participação directa de todos nós, na gestão do que, afinal de contas, é de todos nós. Que nem um cêntimo seja gasto, enquanto a rede de saneamento básico não se estender a todas as freguesias. Que se defina como prioritário a elaboração do mapa dos recursos hídricos e o plano da sua recuperação. Para ver se outro galo canta.

Dívida do Estado às autarquias

A confirmarem-se os números divulgados pelo Diário de Notícias (30 de Dezembro), o montante da dívida de vários ministérios às autarquias locais ultrapassa os 150 milhões de euros. Só no distrito de Viseu, as doze câmaras que aceitaram divulgar valores (num total de 24 municípios), apontam uma dívida de 5736546 euros. Na região de Lafões, Oliveira de Frades não refere qualquer dívida, São Pedro do Sul não respondeu ao inquérito e Vouzela reclama qualquer coisa como 541577 euros.

Os valores impressionam. Mas parece-nos que o mais impressionante é o que revelam sobre o modo como o aparelho de Estado tem sido gerido, a facilidade com que se falta à palavra dada e a enorme lata com que, depois, se exige que o cidadão pague o “Carnaval”. Os maus da fita? Não tem nada que saber: governos do PS e do PSD (com ou sem CDS).

Adeus, senhor ministro

Hoje mesmo está marcada uma vigília à porta do Centro de Saúde, como forma de protesto contra as reformulações impostas pelo ministério de Correia de Campos. Os serviços de saúde de Vouzela foram recentemente remodelados, sendo uma das obras que contribui para os valores que a Câmara reclama do aparelho central do Estado. Com as alterações previstas, o ministro da Saúde não só ignora a obra, como a esvazia de sentido. A verdade é que tem que ser paga. Como querem que nos impressionemos com os custos da manutenção dos serviços abertos 24 horas?

Já uma vez dissemos que este governo se arrisca a ser o primeiro a cair por… dificuldades de expressão. Essa característica que afecta grande parte dos seus membros, tem no ministro da Saúde um exemplo extremo. Poucas das medidas que tomou foram convenientemente explicadas, permitindo a confusão entre aquelas que são de reconhecida utilidade e propostas, até, pela Organização Mundial de Saúde (o encerramento das maternidades com menos de 1500 partos por ano, por exemplo), com outras que não passam de meros truques de contabilidade.

Mais do que um problema de vocabulário, Correia de Campos parece sofrer de falta de humildade. Não era preciso ter um doutoramento em Antropologia para antecipar a reacção que as suas medidas iam provocar numa população cada vez mais idosa, isolada, desprotegida. Também não é difícil compreender que o “extremismo” da sua “reforma”, deve muito à incapacidade em montar um verdadeiro serviço de medicina familiar (neste caso, para além das políticas de Saúde, há que exigir responsabilidades aos gerentes da Educação, com os famosos numerus clausus no acesso aos cursos de Medicina).

O que se exigia do responsável máximo pelo sector, era que soubesse dialogar, que manifestasse preocupação por aqueles que mais vão sentir as consequências da sua política e que, legitimamente, afirmam não a compreender. Para usar uma expressão muito de acordo com os tempos que correm, “é para isso que lhe pagamos”. Não o fez. Que as manifestações com que iniciamos 2008, dêem o mote para o resto do ano. Adeus, senhor ministro.

Falhou, senhor presidente

Numa entrevista recente, o presidente da Câmara de Vouzela chamou a atenção para as limitações da colecta conseguida no Concelho. Tem toda a razão. Para haver colecta, é preciso haver riqueza e, já agora, haver gente- ambas escasseiam por estas bandas. Mas não nos recordamos de ter ouvido o senhor Presidente reconhecer que, afinal de contas, o "modelo de desenvolvimento" que defendeu para o Concelho, falhou. E falhou.

De uma vez por todas, Vouzela precisa “arrumar a casa”. Decidir em que actividades vai sustentar o seu equilíbrio e que não podem limitar-se a “parques industriais” de reduzido potencial. Por sua vez, repetir até à exaustão que Vouzela tem que ser um destino turístico, não chega. Não é possível atrair visitantes e permitir o desleixo com que estão a ser tratadas áreas de reconhecido interesse, como o Monte Castelo. Não é possível chamar pessoas, não tendo instalações mínimas para as alojar. Não é possível usar o chamariz da nossa rica paisagem e nada fazer para salvaguardar as actividades de que depende. É tempo de acordar.

domingo, dezembro 30, 2007

Finalmente...


Agora, VAI MESMO

Em jeito, ainda, natalício esta entrada será, penso eu, uma boa e aguardada prenda para o meu amigo Zé Bonito. Em final de ano e não de balanço, pois esse é nulo, inicio a minha intervenção neste blog.
A diversidade é o que nos identifica na aproximação ou no afastamento. A conjugaçãos de todos completa-nos.

Por muito que a VIDA (esta, a nossa) seja uma selva e madrasta, que nos avassala; temos que procurar o equilibrio interior que nos permita poder ir vivendo.

Temos que procurar não ser como os outros.
Temos que procurar quem sabemos que nos quer bem e quem gostamos.
Temos que procurar ser nós mesmos, sem entrar (só no que é mesmo necessário) no jogo a que a VIDA nos obriga.
Temos que seguir os caminhos que traçamos, sabendo ultrapassar os obstáculos que nos vão surgindo e que nos vão colocando.
Senão, perdemos o nosso próprio equílibrio e a nossa força interior; que é o que nos move.

Estou certa de que, assim, conseguiremos permanecer por aqui e VIVER.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Em 2007, a olhar para 2008

As cores próprias da época

Talvez seja preciso recuar oitenta anos, para encontrarmos um período tão negro para a História de Vouzela. Nessa altura, perdeu-se a comarca. Durante o ano de 2007, encerraram-se escolas, limitaram-se os serviços de saúde, sentimos a ameaça do encerramento do Tribunal. Para além disso, vimos a nossa Câmara na lista das mais endividadas, sem que tenham sido resolvidos alguns dos principais problemas do Concelho. Iniciou-se a absurda ampliação da Avenida João de Melo, e a variante de Cambarinho (que alguns classificam como a "obra do mandato") está pronta para arrancar, ignorando os argumentos dos que reclamavam a defesa dos melhores solos agrícolas- coisa pouca, comparativamente com o preço do alcatrão.

De facto, Vouzela não tem motivos para sentir saudades de 2007- “annus horribilis”. Temos consciência de que a perda de serviços, está directamente relacionada com a perda do nosso poder reivindicativo. A população diminui, ignora-se a necessidade de reconverter actividades económicas, não há oferta de emprego, vive-se mal, envelhecemos. A gestão do Concelho é feita com a mesma estreiteza de vistas com que se encurtam os passeios públicos e tapam monumentos com as decorações de Natal. Para além do "paradigma" do betão, não há ideias para Vouzela. Nem para Lafões!

No entanto, temos tudo para dar certo. Recursos paisagísticos e humanos, localização privilegiada, proximidade de um dos mais dinâmicos centros universitários do país. Como já alguém disse, só precisamos gostar um pouco mais de nós próprios, do que somos e temos e deixar de tentar construir uma realidade copiada. Vouzela é paisagem, é floresta é uma imensa riqueza cultural. É a partir daí que terá de conseguir melhorar as condições dos que nela vivem e de atrair os outros. Isso não chega para promover carreiras políticas? Problema das carreiras políticas.

Porque estamos em época de desejos, aí vão os nossos: que 2008 veja nascer uma maior vontade de participação dos vouzelenses na "coisa pública", para que, de uma vez por todas, seja a nossa vontade a impor os caminhos rumo ao futuro. É urgente dar voz a Vouzela.

sábado, dezembro 22, 2007

Morcelas doces

Anúncio publicado em 1949

Eram vendidas no Café Gato Preto, logo no início da Rua Morais Carvalho, à esquerda de quem desce. Depois de muito perguntar, concluímos que eram as famosas “Morcelas de Arouca”. Apesar de não ser a nossa especialidade, pode ser uma curiosa experiência, bem de acordo com a época. Para os(as) corajosos(as) que se queiram aventurar, aqui ficam duas receitas: a que constava do “Livro do Padre Brito”, copiado em 1886 e publicado em 1995 pela Fora do Texto (Doces e Manjares do Séc. XIX- O Livro do Padre Brito) e uma outra do século XV, tirada daqui. Boa sorte, bom apetite e... feliz Natal.

Murcellas d’Arouca

A 8 arrateis
(1) d’assucar, 3 ½ de amendo-a, e 4 ½ de pão relado; deita-se no pão uma porção de canella, e 3 ou 4 cravos da India pª. lhe dar aroma; deita-se-lhe 3 ou 3 ½ arrateis de manteiga; depois de bem misturada toda a massa enchem-se as chouriças, depois passão-se por agua a ferver, e enxugão-se.

Morcela de Arouca (receita do século XV)

Com farinha de rosca, pinhões, amêndoas em pedaços, gema de ovo, banha de porco derretida, calda de açúcar, sal, cravo-da-índia, canela em pó e algumas gotas de água-de-flor façam uma massa e encham com ela as tripas. Em seguida lancem estas na água fervente, até ficarem duras. Ao cozerem-nas, dêem-lhes uns piques com um garfo, para não estourarem.
____________
(1)- Arrátel: peso que, nas receitas editadas, oscila entre 459 e 463 gramas.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Quando o fiscal se sente fiscalizado

Na sequência da petição “Não às novas medidas de higiene alimentar da ASAE”, o organismo responsável pela segurança alimentar e económica decidiu emitir um esclarecimento que pode ser consultado aqui. Saúda-se a iniciativa e lamenta-se que não tenha sido tomada mais cedo. Sobretudo, lamenta-se que não tenha sido tomada antes de terem iniciado uma actuação ferozmente repressiva, a propósito da qual a comunicação social divulgou atitudes que o esclarecimento, agora, nega. Nessa altura, o responsável máximo da ASAE chegou a afirmar que a acção pedagógica não faz parte das competências da organização. Se calhar não faz, mas devia fazer das de alguém.

O facto de, finalmente, a ASAE ter compreendido que deve explicar a sua acção (como, aliás, qualquer outro serviço) leva-nos a concluir que a tomada de posição de milhares de cidadãos, valeu a pena. E para que não nos acomodemos, aconselhamos a leitura deste texto publicado no “Arrastão”. São muito sinuosos os caminhos da aplicação da Lei...

terça-feira, dezembro 18, 2007

Portugal, Europe’s West Coast

As imagens da campanha (procurar aqui)

Eis a campanha com que se pretende “vender” a imagem do país. É da responsabilidade do Ministério da Economia e da Inovação, a partir de imagens do fotógrafo inglês Nick Knight. Os objectivos, de acordo com os seus mentores, são associar-nos “ao Oeste da Europa (Europe’s Weast Coast) e a conceitos de modernidade, inovação, tecnologia, empreendorismo e qualidade de vida, promovendo Portugal como um todo, desde o turismo, economia, comércio e cultura, e qualificando a oferta dos recursos, pessoas e produtos nacionais”.

Nos anos 30, preparando um conjunto de iniciativas que visavam promover o país no estrangeiro (Exposição Internacional de Paris em 1937 e a Exposição de Nova Iorque e de São Francisco em 1939), António Ferro, responsável pelo Secretariado da Propaganda Nacional, meteu uma série de notáveis num comboio e levou-os a conhecer o “Portugal profundo”. Setenta anos depois, apetece dizer que faltou idêntica viagem aos autores da actual campanha. O problema é que o comboio já não passa por aí...

Limitando-nos às imagens divulgadas (desconhecemos se há outras), do país há muito pouco e o que há limita-se a sol, areia, mar e vento. Pelos vistos, Portugal não só é a “Europ’s West Coast” , como nada existe para além do litoral. Afinal de contas, talvez os nossos governantes tenham consciência de que abandonaram o resto às silvas, o que não fica bem na fotografia.

Mas as personalidades escolhidas (que quase recuperaram a trilogia fado-futebol-Fátima) permitem um duplo sentido, o que, nestas coisas da propaganda, é extremamente perverso. Em grande parte dos casos, são pessoas que ou trabalham no estrangeiro por opção (e não vale a pena vir procurá-las aqui), ou têm actividades de altíssimo risco em Portugal. De facto, ser investigador entre nós, sobrevivendo à custa das incertezas das “bolsas”, muito mais do que uma profissão é um acto de coragem.

Aguardamos com curiosidade a mensagem que vai ser usada para mostrar que temos “qualidade de vida”. Porque, numa primeira observação, a ideia que fica é que se esconde tudo quanto, entre nós, tem vida. Quanto mais qualidade. Fica o sol, o vento, a areia e o mar, apresentados sem relação com qualquer vida e que tanto podem ser nossos como de outro qualquer lugar. Ficam pessoas- umas conhecidas, outras nem por isso- que simbolizam o sucesso conseguido... fora de portas.

Mas, bem vistas as coisas, talvez seja isto mesmo que melhor representa aquilo em que nos tornamos: um deserto que só reconhece os seus quando lhe viram as costas.